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sexta-feira, 23 de maio de 2025

À LUPA

Tarde de domingo, quase noite, o imenso vazio que nos ficou nas mãos.

Data de 1974 o primeiro livro que Manuel António Pina publicou. 

Só um tipo grande,  muito grande mesmo, poderia fazer desse título um poema:

AINDA NÃO È O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE.

Entretanto a Lupa viajou por um artigo de opinião de Maria Castello Branco publicado no Expresso:

«O problema não é apenas o grito. É tudo o que o antecedeu. O silêncio. A ausência. A ideia perigosa de que bastava estar certo para continuar a ser ouvido.

Gente que já não vê futuro. Que não sente que a política fale a partir do mesmo lugar. Que não acredita em quem, nos debates, promete mundos sem nunca descer ao deles.»

domingo, 13 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


Memórias de Um Craque

Fernando Assis Pacheco

Organização: Abel Barros Baptista

Posfácio: Manuel António Pina

Capa: V. Tavares

Tinta-da-China, Agosto de 2021

Sabendo que meu pai, aliás com inteira razão, suspirava por ver-me episodicamente alheado dos desportos de ar livre, acedo certo sábado ao amável convite de um amigo e escrevi no caderninho de capa cinzenta: «Sete de Maio, campeonato de botões em casa do Figueiredo.»

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

DAS COMISÕES DE INQUÈRITO GOVERNAMENTAIS...

É de muito mau gosto e revela um espírito mal formado procurar explicitar certas expressões consagradas. Os leitores sabem o que elas significam e o jornalista não deve passar um atestado de menoridade à inteligência dos leitores. Só jornalistas associais, inadaptados, anarquistas, bolchevistas e congéneres não respeitam as convenções linguísticas estabelecidas. Toda a gente sabe que quando um político diz que «vai ser nomeada uma Comissão de Inquérito»  isso significa «O assunto vai ser abafado». É inoportuno e manifesta enorme falta de experiência e de educação perguntar-lhe: «Isso significa que o assunto vai ser abafado?». Se tal sucedesse o político deveria responder-lhe: Não faço comentários, que significa, como toda a gente sabe, «acertou em cheio!». Não deveria todavia o jornalista, sob pena de ficar o resto da vida a redigir a Necrologia, insistir: «Isso significa que acertei em cheio?». Do mesmo modo, quando um político diz que «quenão está agarrado ao lugar», apesar de toda a gente saber que isso quer dizer «daqui não saio, daqui ninguém me tira!», não é conveniente o jornalista perguntar-lhe mais nada sobre o assunto que eventualmente possa forçar o homem a expressar melhor o seu pensamento.

Manuel António Pina de uma crónica no Jornal de Notícias de 12 de Dezembro de 1987 em OAnacronista

sábado, 20 de janeiro de 2024

DEU-ME UM BAQUE!

Manuel António Pina foi colega de Sérgio Godinho no 6º e 7º Anos do liceu. 

Estavam em áreas diferentes, mas tínham cadeiras comuns. 

Foi o Pina que lhe mostrou Pela Estrada Fora do Kerouac. Foi também ele que lhe mostrou as Odes Elementares de Pablo Neruda - «Deu-me um baque!»

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

CONVERSANDO

Andei em tempo de Natal, percorrendo as poucas livrarias que vamos tendo, procurando livros  para oferecer aos netos e sobrinhos, sabendo que não lêem  e me mostram um sorriso amarelo cada vez que desmancham o papel bonito de embrulho e encontram um livro.

Não comprei nenhum livro até porque os livros que fui encontrando eram completamente descabelados, um desastre.

Manuel António Pina tem muito bons, alguns excelentes, livros para crianças.

Foi ele que um dia disse:

«A literatura para crianças está cheia de pessoas que não percebem nada de literatura e não percebem nada de crianças».

sábado, 23 de dezembro de 2023

O NATAL COMO TEMPO DE SOLIDÃO



Em tempo  de Natal volto à Biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães: Para Quê Tudo Isto?

 Manuel António Pina nasceu a 18 de Novembro de 1943.

Tempos difíceis. Como escreve Álvaro Maglhães:

«Estávamos então em plena Segunda Guerra Mundial e o governo acabar de instituir o racionamento de produtos essenciais e de lançar um despacho que obrigava à diminuição de salários. As condições de vida dos mais pobres, que já eram deploráveis, degradaram-se bastante, o que geraria marchas de fome e greves de trabalhadores. As próprias filas do racionamento eram focos latentes de revolta.»

 Por isto ou por o que tenha sido, o Natal sempre entristeceu Manuel António Pina. Apenas a construção do presépio o animava. Mas com alguns problemas porque os pais não lhe compravam outros bonecos:  «O Menino jazia deitado num ninho de pintarroxo; a vaca e o burro eram desproporcionados em relação ao tamanho do menino e o Rei Mago preto tinha-se partido noutro Natal e, no seu lugar, estava agora um jogador do Sporting, com bola e tudo!»

Numa crónica datada de 2005 escreveu:

Como a infância o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como construímos um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial, que o Menino na manjedoura éramos nós.»

 Mas numa crónica, publicada na Visão de 26 de Novembro de 2002, o Pina deixa escorrer a tal solidão natalícia que lhe acompanhou a vida. Intitula-se a crónica «Provavelmente Natal»: 

  «Há algo de cerimonioso no Natal que irrita e seduz: a iconografia kitsch, a simbologia (no entanto vasta: um deus nascendo, menino, entre os homens e, ao mesmo tempo, um homem nascendo humanamente entre os deuses, um vértice vertiginoso em que, por um momento, divindade e humanidade se tocam) reduzida à extrema literal idade por séculos de púlpito, o comércio dos presentes.

E o melancólico ritual das crónicas natalícias. Em mais de trinta anos de jornais, devo ter escrito, pelo menos, duas dúzias delas. E de todas as vezes me sentei diante da máquina de escrever (agora diante do insondável écran do computador) com a inquieta sensação de ter sido, também eu, apanhado (e como poderia não o ser?) numa amável armadilha.

Rubem Braga repetiu uma vez no Cruzeiro uma crónica que já publicara antes, justificando-se com a desconcertada circunstância de Van Gogh não ter pintado os Girassóis (cito de cor, os exemplos podem ter sido outros) para serem olhados apenas uma vez, nem Beethoven composto a Pastoral para uma única audição. Fosse eu Rubem Braga e, provavelmente, escreveria hoje, de novo, uma crónica já longínqua intitulada «Os dois natais». Assim resta-me a memória.

Porque tudo é memória. Alguém – talvez eu, mas quem? – lembrando-se de mim. A mãe, na cozinha, fazia os fritos e eu punha a mesa. Do candeeiro da sala pendiam fitas douradas e estrelas de papel de lustro e tínhamos colocado raminhos de azevinho nos espelhos do louceiro. No presépio, minuciosamente construído com musgo, serradura, algodão em rama, palhinhas, faltava o rei mago preto, que caíra e se quebrara no ano anterior, e, no seu lugar, avultava insolentemente, por birra do meu irmão mais novo, um jogador do Sporting, com bola e tudo!

Em que lugar o passado permanece imovelmente passado, passando para sempre? Quem, como num sonho, se lembra agora de tudo isto?

O Natal era então tempo de solidão. Uma brevíssima eternidade parava, sem eu saber, a meu lado, muito perto de mim, tão perto que quase podia tocá-la. E, contudo, ocultamente e culpadamente, como se pecasse, eu sentia-me infeliz sem motivo. Às vezes fechava-me no quarto a chorar em silêncio, até que a mãe vinha bater à porta chamando para o jantar. Depois, à meia-noite, abria um a um os coloridos embrulhos dos presentes, pressentindo confusamente que, ao recebê-los, os perdia para sempre. Da mesma forma inconcreta como o Natal e eu próprio nos perdíamos também.

Por alguma grande razão me recordo destas coisas. Ou se recordam elas de mim: a mãe, a sala, a toalha bordada sobre a mesa, o cão ladrando lá fora no quintal. Talvez, quem sabe?, seja preciso arrancar as raízes, «cortar a árvore, fazer uma cruz e levá-la às costas». Talvez seja preciso criar raízes na ausência de tudo. Mas para que?, para que?

Hoje sinto-me como um intruso nesse secreto Natal infantil passado. As minhas palavras perturbam o seu silêncio, o meu olhar cega-o, a minha memória afasta-o irremediavelmente de mim. Dele apenas imagens dispersas ficaram: fitas, estrelas, figurinhas de barro. O resto já não me pertence. Ou (como posso sabê-le?) pertence-me num sítio que já não me pertence. E onde não me é dado, nem às minhas palavras, alcançar.»

domingo, 29 de outubro de 2023

UM SÍTIO ONDE POUSAR A CABEÇA

Voltar a Manuel António Pina. Sempre.

«Uma das ideias centrais da minha poesia é a morte, o sítio onde pousar a cabeça. O regresso a casa é a melancolia da infância e é também a morte. Do mesmo modo que nascemos do ventre da mãe, há um regresso, uma espécie de percurso circular, ao ventre da terra. Por algum motivo dizemos "a terra natal". E muita gente quer ser enterrada na terra onde nasceu, por mais voltas que tenha dado.»

sábado, 23 de setembro de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O caderninho de capa vermelha, Isto Anda Tudo Ligado continua a alimentar  estes percursos, estes itinerários.

«Antes de tudo, no meio de tudo, para além de tudo, o som de um long-play dos Beatles ouvido religiosa e solitariamente na rua Dona Luísa de Gusmão, à noite.»

Por este texto ficam perguntas: dos seus itinerários em que vila ou cidade fica a Rua Dona Luísa de Gusmão, que disco dos Beatles ouvia o Eduardo?

Quanto ao disco arrisca-se  o Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um dos grandes discos  dos rapazes de Liverpool.

Quando eu tiver sessenta e quatro anos e de repente uma sombra pairando sobre nós.

E por esse disco um pedacinho de uma crónica do Manuel António Pina que falhou o dia em que Paul McCartey fez 64 anos, um domingo, andou pelos armários e não encontrou o vinilzinho, «talvez se tenha desvanecido para sempre num fundo e longínquo lugar, de mim ou da casa, onde não me é dado alcançar.»:

«No entanto, na minha cabeça (e, principalmente, no meu coração) ouço ainda, talvez mais nitidamente que nunca, agora que eu próprio sou (quase…) «sixty four» e que também eu fui «envelhecendo» e «perdendo cabelo»): Will you still need me, /Will you setill feed me, /When I’m Sixty-four?» Como o Sergeant Peppers todos de algum modo somos «corações solitários» e todos temos algures, dentro de nós, uma banda melancólica tocando velhas canções. Cantarolamos de novo «When I’m ixty-four» e «suddendly/there’s a shadow hanging over us», e descobrimos que o que estamos a cantar é de facto «Yesterday».

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

OS GATOS DO MANUEL ANTÓNIO PINA


Nos terríveis dias de calor infernal deste Verão, Ana Cristina Leonardo chegou, numa crónica no Público, a desabafar: «Em suma, como dizia, e sem querer enganar ninguém, escrever está a ser muito difícil.»

Também senti as terríveis dificuldades e reparo, agora, que nem sequer referi  a homenagem que a Feira do Livro do Porto dedicou ao Manuel António Pina, uma homenagem justa e como por lá foi dito, a lembrança dos muitos Pinas que há em Pina.

Nos 10 anos após a sua morte Manuel António Pina juntou-se a um leque de autores já anteriormente homenageados como, entre outros, Ana Luísa Amaral, Vasco Graça Moura, Agustina Bessa-Luís, Mário Cláudio, Sophia de Mello Breyner Andresen,  José Mário Branco, com a atribuição de uma tília nos Jardins do Palácio de Cristal.

Manuel António Pina viveu sempre entre livros, papéis e gatos.

Leio agora que Ana Pina, uma das suas filhas vendeu o certificado do Prémio Camões conquistado pelo pai para ajudar a pagar as despesas dos gatos, empréstimos e a renda de casa.

A família de Manuel António Pina pretendia dar os gatos para adoção, mas Ana Pina, que é também escritora e activista dos direitos dos animais não aceitou esta decisão e já lançou um apelo e uma angariação de fundos.

«Já tive de vender a minha casa e o meu carro e o próprio certificado do prémio do meu pai para garantir o bem-estar dos animais», afirma Ana Pina, acrescentando que sabe que tomou a decisão certa, uma vez que o pai também era um amante de gatos.

Uma história triste a que me faltam outros pormenores, principalmente da restante família de António Manuel Pina, e nestes tempos conturbados de «fakes news», todos os cuidados são necessários.

Mas não resisto em copiar a crónica «Onde se Fala de Gatos e de Homens», publicada no Jornal de Notícias de 9 de Novembro de 2005, que reproduzo da página 253 de Crónica Saudade da Literatura:

«Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.»

terça-feira, 25 de abril de 2023

EM ABRIL, COM O SR. ALVES E O SR. PINA



 


Todos os anos por Abril, Luís Alves, o dono da Livraria Ler, junto ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, expunha, nas suas montras, livros que foram proibidos pela PIDE, bem como os respectivos autos de apreensão.

Luís Alves tinha 83 anos quando morreu a 23 de Janeiro de 2015.

Durante os consulados ditatoriais de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano terão siso proibidos cerca de 4.000 livros de autores portugueses e estrangeiros.

 «Aos serviços de Censura pertence o encargo de corrigir o ambiente político», escrevia em 1932, o Director Geral  da Censura, Major de Artilharia Álvaro Salvação Barreto.

Manuel António Pina:

«Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez de ter lido os livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente cruzar-me-ia comigo na rua e não me reconheceria.

Quando lhe perguntaram um dia quem era, Borges respondeu que era todos os livros que lera. Todas as pessoas que amara, todos os lugares que conhecera.»

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

VOCÊS NÃO IMAGINAM O QUE ME ACONTECEU!...


 Não consigo arrumar o livro do Álvaro Magalhães sobre o Manuel António Pina.

Anda sempre fora dos restantes livros daquele seu lugar na estante da Biblioteca da Casa.

Manuel António Pina gostava de palavras, de poesia, de livros, de contar histórias, da família, dos amigos, de chegar atrasado, de cigarrilhas, de gatos, uns em pensão completa outros em meia pensão, de não viajar, de não ter partido, do Sporting.

Manuel António Pina Viveu intensamente o 25 de Abril porque sempre se confessou um homem fundamentalmente de esquerda mas, nunce se mostrou entusiasmado por partidos, lembrando uma frase de José Saramago «o heróico num ser humano é não pertencer a um rebanho», para, acima de tudo declarar ser um militante de coisa nenhuma.

Álvaro Magalhães, lembra, antes do 25 de Abril, a preferência do Pina  em correr à frente da polícia de choque em vez de ficar numa mesa de poetas a falar de versos, manifestava tendências trotskistas, mas, depois de Abril, («Valeu a pena viver só para viver aquele dia», disse um dia, Pina, a uma plateia de jovens leitores),  ainda o vemos candidato a deputado pelo MES para a Assembleia Consituinte em 1975 e pela UEDS às eleições para a primeira Assembleia da República, em 1976.

Dessas circunstâncias dirá mais tarde:

«Fiz sempre questão de não ser militante de coisa nenhuma; como se costuma dizer em linguagem popular, eu mijo fora do penico» (pág. 210).

Hoje, ficamos pela política, na próxima ficamo-nos nas futeboladas.

 Não é um partido, mas poderemos falar de «O Clube dos Amigos à Espera do Pina».

Considerava a amizade como a mais alta forma de amor.

Amiúde Pina chegava atrasado a quase tudo.

Sirvo-me da narração, página 243, de Álvaro Magalhães:

«Ele fazia do atraso um modo de vida. Para ele a pontualidade, considerando todo o esforço que o cumprimento dessa pontualidade implicava, era uma perda de tempo. O amigo João Botelho contou que, já nos anos 70, havia um grupo que estava sempre no café Piolho «à espera do Pina». E os amigos com quem privava mais nos últimos anos de vida, esses esperaram tanto que depois da morte dele, fundaram uma associação cultural com a única função de o recordar e à sua obra. Foram mesmo ao notário fazer a escritura e elegeram corpos sociais. Uma coisa a sério. E deram-lhe o único nome possível: «O Clube dos Amigos à Espera do Pina». Continuaram a encontrar-se e a fazer o que faziam antes, ou seja, a conviver enquanto esperavam por ele. Faziam de conta que ele não tinha morrido, estava apenas atrasado, como sempre. Nesses encontros havia – ainda há – sempre alguém que é apanhado a olhar para a porta, à espera de que ele apareça, com aquele ara de culpado, a dizer. «Vocês não imaginam o que me aconteceu!»

Chegar atrasado, porém era um mal menor. Como também marcava, por vezes, mais do que um encontro para o mesmo dia e a mesma hora, e se esquecia de que os tinha marcado, faltava a muitos deles. E fazia isso a todos, fosse quem fosse. Quando lhe telefonavam a perguntar o que se passava, muito tempo depois da hora marcada, ele perguntava, muito espantado: «Era hoje?» Faltava a encontros, diligências para que era convocado, reuniões, faltava a julgamentos, quando exerceu advocacia. Faltava até às homenagens que lhe prestavam.  Germano Silva conta que estava com ele no café Orfeuzinho, a conversar, quando entrou alguém e disse: «Ó Pina (toda a gente que tinha alguma intimidade o tratava assim), parece impossível! Está ali o teatro cheio de gente à tua espera…» «Era hoje?», perguntou ele, com ar de surpresa total.»

Legenda: Café Piolho no Porto.

domingo, 8 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 

A RTP 1 transmite amanhã, pelas 22,30 horas, um documentário da autoria de Jacinto Godinho e Carlos Oliveira, Os Caminhos da Liberdade, em que são abordados os acontecimentos ocorridos no dia 30 de dezembro de 1972, em que um grupo de cristãos ocupou o interior da capela do Rato, em Lisboa, como forma de protesto e apelo contra o fim da guerra colonial.

O documentário está inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.


No dia 30 de dezembro de 1972, um grupo de católicos, a que se associariam não católicos, organiza uma vigília de 48 horas, na Capela do Rato, em Lisboa, para meditar sobre a paz e sobre a situação vivida nas guerras coloniais.

No dia seguinte, os participantes aprovam uma moção repudiando a política do Governo de “prosseguir uma guerra criminosa com a qual tenta aniquilar movimentos de libertação das colónias” e denunciando a “cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica face a esta guerra”.

Ao final do dia, a vigília é interrompida pelas forças policiais e os participantes são conduzidos à esquadra local, sendo que 14 permaneceriam detidos durante duas semanas na prisão de Caxias. Os funcionários públicos presentes seriam alvo de processos de demissão, conforme decidido em Conselho de Ministros.

Os acontecimentos da Capela do Rato marcam um dos mais significativos episódios da luta contra a ditadura. O regime via-se confrontado com mais uma frente de protesto e luta, vinda donde menos esperaria: do seio da Igreja Católica, um pecado organizado, tal como diz Sophia.

Nunca a voz da Igreja se fizera ouvir para condenar a guerra colónia, as perseguições da PIDE, a tortura e a morte. Os acontecimentos da Capela do Rato determinaram que nada seria como antes: estes católicos e não católicos, acusados pelo governo, como traidores à Pátria, diziam ao país que viam ouviam e liam e não mais poderiam continuar a ignorar.

Entre as cerca de setenta de pessoas detidas pela PIDE na Capela do Rato, encontravam-se doze funcionários públicos que, por decisão do Conselho de Ministros, publicada no Diário do Governo de 13 de Janeiro, foram demitidos das suas funções.

Em 20 de Janeiro os funcionários demitidos recorreram da decisão governamental.

Em 23 de Fevereiro de 1973, por resolução do Conselho de Ministros, negou provimento ao recurso apresentado pelos funcionários públicos.

No dia 11 de Janeiro de 1973, o Diário de Lisboa, publica uma Nota do Patriarcado acerca dos protestos de católicos, e não católicos:

Uma carta do Padre Sampaio para o Padre Bertulli:

«Sinto-me reduzido a uma igreja de silêncio, em que a verdade é escondida e o Evangelho traído descaradamente».

Algures no tempo, Manuel António Pina escreveu:

 «Porque houve um tempo em que tivemos esperança. E, provavelmente, fé. Um tempo em que acreditámos em coisas maiores, em palavras e ideias por que valia a pena morrer. Também, no entanto, as nossas palavras, mesmo as mais desmesuradas, sucumbiram à trivialidade e à pequenez. E hoje olhamos em volta e vemos muitos dos que connosco partilharam a confiança e a esperança entre as piores dos porcos, dos feios e dos maus.»

No LP Canções da Cidade Nova de Francisco Fanhais encontra-se Cantata da Paz, poema de Sophia Mello Breyner Andresen e música de Rui Paz, cantada na vigília da Capela do Rato.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O NATAL COMO TEMPO DE SOLIDÃO


 

Em tempo  de Natal volto  à Biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães: Para QuêTudo Isto?

 Manuel António Pina nasceu a 18 de Novembro de 1943.

Tempos difíceis. Como escreve Álvaro Maglhães:

«Estávamos então em plena Segunda Guerra Mundial e o governo acabar de instituir o racionamento de produtos essenciais e de lançar um despacho que obrigava à diminuição ds salários. As condições de vida dos mais pobres, que já eram deploráveis, degradaram-se bastante, o que geraria marchas de fome e greves de trabalhadores. As próprias filas do racionamento eram focos latentes de revolta.»

 Por isto ou por o que tenha sido, o Natal sempre entristeceu Manuel António Pina. Apenas a construção do presépio o animava. Mas com alguns problemas porque os pais não lhe compravam outros bonecos:  «O Menino jazia deitado num ninho de pintarroxo; a vaca e o burro eram desproporcionados em relação ao tamanho do menino e o Rei Mago preto tinha-se partido noutro Natal e, no seu lugar, estava agora um jogador do Sporting, com bola e tudo!»

Numa crónica datada de 2005 escreveu:

Como a infância o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como construímos um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial, que o Menino na manjedoura éramos nós.»

 Mas numa crónica, publicada na Visão de 26 de Novembro de 2002, o Pina deixa escorrer a tal solidão natalícia que lhe acompanhou a vida. Intitula-se a crónica «Provavelmente Natal»:   

 «Há algo de cerimonioso no Natal que irrita e seduz: a iconografia kitsch, a simbologia (no entanto vasta: um deus nascendo, menino, entre os homens e, ao mesmo tempo, um homem nascendo humanamente entre os deuses, um vértice vertiginoso em que, por um momento, divindade e humanidade se tocam) reduzida à extrema literal idade por séculos de púlpito, o comércio dos presentes.

E o melancólico ritual das crónicas natalícias. Em mais de trinta anos de jornais, devo ter escrito, pelo menos, duas dúzias delas. E de todas as vezes me sentei diante da máquina de escrever (agora diante do insondável écran do computador) com a inquieta sensação de ter sido, também eu, apanhado (e como poderia não o ser?) numa amável armadilha.

Rubem Braga repetiu uma vez no Cruzeiro uma crónica que já publicara antes, justificando-se com a desconcertada circunstância de Van Gogh não ter pintado os Girassóis (cito de cor, os exemplos podem ter sido outros) para serem olhados apenas uma vez, nem Beethoven composto a Pastoral para uma única audição. Fosse eu Rubem Braga e, provavelmente, escreveria hoje, de novo, uma crónica já longínqua intitulada «Os dois natais». Assim resta-me a memória.

Porque tudo é memória. Alguém – talvez eu, mas quem? – lembrando-se de mim. A mãe, na cozinha, fazia os fritos e eu punha a mesa. Do candeeiro da sala pendiam fitas douradas e estrelas de papel de lustro e tínhamos colocado raminhos de azevinho nos espelhos do louceiro. No presépio, minuciosamente construído com musgo, serradura, algodão em rama, palhinhas, faltava o rei mago preto, que caíra e se quebrara no ano anterior, e, no seu lugar, avultava insolentemente, por birra do meu irmão mais novo, um jogador do Sporting, com bola e tudo!

Em que lugar o passado permanece imovelmente passado, passando para sempre? Quem, como num sonho, se lembra agora de tudo isto?

O Natal era então tempo de solidão. Uma brevíssima eternidade parava, sem eu saber, a meu lado, muito perto de mim, tão perto que quase podia tocá-la. E, contudo, ocultamente e culpadamente, como se pecasse, eu sentia-me infeliz sem motivo. Às vezes fechava-me no quarto a chorar em silêncio, até que a mãe vinha bater à porta chamando para o jantar. Depois, à meia-noite, abria um a um os coloridos embrulhos dos presentes, pressentindo confusamente que, ao recebê-los, os perdia para sempre. Da mesma forma inconcreta como o Natal e eu próprio nos perdíamos também.

Por alguma grande razão me recordo destas coisas. Ou se recordam elas de mim: a mãe, a sala, a toalha bordada sobre a mesa, o cão ladrando lá fora no quintal. Talvez, quem sabe?, seja preciso arrancar as raízes, «cortar a árvore, fazer uma cruz e levá-la às costas». Talvez seja preciso criar raízes na ausência de tudo. Mas para que?, para que?

Hoje sinto-me como um intruso nesse secreto Natal infantil passado. As minhas palavras perturbam o seu silêncio, o meu olhar cega-o, a minha memória afasta-o irremediavelmente de mim. Dele apenas imagens dispersas ficaram: fitas, estrelas, figurinhas de barro. O resto já não me pertence. Ou (como posso sabê-le?) pertence-me num sítio que já não me pertence. E onde não me é dado, nem às minhas palavras, alcançar.»

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMGUIANOS


 Creio já ter escrito por aqui, que comecei por ter uma ideia base, não muito concretizada, para estes Sublinhados Saramaguianos e, que dia a dia, foram sofrendo variações várias. No avançar desses dias dei-me, de repente, como diz a professora do meu neto mais novo «a navegar na Mayonesse».

Por causa dos Sublinhados, dos Poemas, dos Postais, neste mês de Centenário de José Saramago, não voltei a autores, a capas que normalmente por aqui habitualmente surjem. Um desses autores é o Manuel António Pina.

Mas hoje, mato dois coelhos com uma cajadada:

«Um dia destes hei-de escrever das invejas e das calúnias de que este homem cordial, generoso, corajoso e bom era objecto. Agora, é só para dizer que o dia de que falo era nítido, claro, e resguardado para mim e para a minha amizade para com o Zé. E acrescentar que, entre nós, nunca houve um adeus.

Provavelmente, apenas provavelmente Saramago não veria ser-lhe atribuído o nobel da Liertuta se um tal de Sousa Lar, subsecretário da cultura sendo secretario Santana Lopes e primeiro-ministro Cavaco Silva.»

Tenho uma ideia, baseada em mero pensamento pessoal,  porque nunca vi escrito, de que Saramago já teria pensado em mudar-se para Lanzarote, uma paisagem, que terá entendido, lhe faria muito bem às suas ideias e à sua escrita, assim como Hélia Correia, como ajuda extra, só gostar de escrever em dias de chuva, mas aproveitou o episódio do anedótico Sousa Lara & Cª, para deixar expresso, bem expresso, que foi por causa disso que passou a viver em Lanzarote. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO

A minha biografia não tem nada de extraordinário. Ou talvez tenha, sem eu saber. Hei-de perguntar a alguém que me conheça.

Manuel António Pina

Legenda: pormenor da capa da autoria de Ilda David de Poesia Reunida de Manuel António Pina.

UM SÍTIO ONDE POUSAR A CABEÇA


Em Lisboa, desde a madrugada que chove torrencialmente.

Há dez anos ficávamos a saber que Manuel António Pina decidira ir poetizar e fumar cigarrilhas sabe-se lá para onde.

Nem o seu grande amigo e seu excelente biógrafo Álvaro Magalhães sabe onde ele está.

Claro que temos ali os seus poemas, as suas crónicas, todas as suas palavras mas porra!, não é bem a mesma coisa.

A sua presença faz-nos muita falta!

Como um dia disse:

«Os Livros que li foram importantíssimos para minha escrita, as maiores emoções – desastres, mortes, amores fatais, foi em livros que li que vivi.»

Pina gostava de livros, gostava de os escrever, gostava de os ler, gostava que fossem objectos bonitos e pensava em tudo para que isso acontecesse.

Na página 297 de Para Quê Tudo Isto?, Álvaro Magalhães lembra:

«Era um poeta de produção escassa, contava os poemas para saber se chegavam para compor uma lombada de livro que se visse. Também se preocupava com aspetos invulgares, entrando em guerra com as páginas, as pares e as ímpares: «Fiz poemas de propósito para estarem em determinado sítio dos meus livros. Por exemplo, quando um poema é um bocadinho longo, e ocupa mais do que uma página par (plano da esquerda) e acabe numa página ímpar (plano da direita). Há uma respiração que é preciso ter em conta.»

O seu primeiro poema, incluído nesse livro com o título, logo isso um outro poema, «Ainda Não é Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas Tarde» tem como primeiro verso: «Os tempos não vão bons para os mortos».

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Continua a chover torrencialmente em Lisboa.

sábado, 30 de julho de 2022

A COR, AO LONGE, DO TEU TELHADO


Quase a chegar a Agosto.

Diziam os velhos: primeiro de Agosto, primeiro de Inverno.

Sou como o Manuel António Pina: detesto viajar. 

Ainda mal parti e começo logo a pensar no regresso. O Céline dizia que as grandes viagens são aquelas que se fazem através da imaginação.

A melancolia do regresso, diz o Pina.

Também há quem diga que os lugares mais longe são os que ficam dentro de nós. Não os conhecemos nunca.

Conta ÁlvaroMagalhães que em 1996, o jornalista Eugénio Alves, que dirigia uma revista do Inatel chamada Tempos Livres, pediu-lhe para fazer umas crónicas para, supostamente, incitarem as pessoas a viajar. As duas crónicas que ele escreveu tinham a mesma temática – o melhor nas viagens é o regresso. Numa delas dizia mesmo que não nos devíamos  afastar de casa mais do que nos permite a metade das nossas forças, que é para  termos sempre a outra metade para regressar. E sempre com a preocupação de não deixar de ver ao longe a cor no nosso telhado. Eugénio Alves acabou por o dispensar, apesar da qualidade literária das crónicas, dizendo que elas tinham o efeito contrário do desejado:: estavam a desencorajar as pessoas a viajar. 

Legenda: pintura de Jack Vettriano

terça-feira, 24 de maio de 2022

QUOTIDIANOS


Manuel António Pina é um Poeta Extraordinário.

Este título de livro é espantoso: «Um Sítio onde Pousar a Cabeça».

Chegados a uma qualquer altura, não sabemos como nem onde, pensar que seria bom ter um sítio onde pousar a cabeça.

Acabo por ter o livro na sua Poesia Reunida, mas ter mesmo o livro é uma outra história.

Foram sempre esses os meus desígnios: não apenas ler o livro, tê-lo!

Frequentei bibliotecas, principalmente a de Galveias no Campo Pequeno, apenas para consultas, nunca para ler livros.

Por motivos de carências várias, esses foram os propósitos de José Saramago.

E acabaram por dar os frutos que se conhecem.

Também não sei das razões que voltei ao título, aos poemas deste livro do Pina.

Já de há muito sei que não devo começar o dia a ouvir qualquer ópera do Henry Purcell.


Legenda: Henry Purcell

sexta-feira, 29 de abril de 2022

TRATOU AS PALAVRAS COMO OS BRINQUEDOS QUE NÃO TEVE NA INFÂNCIA


Há gente que deveria estar proibida de morrer.

Uma qualquer entidade deveria determinar e mandar publicar.

Em 19 de Outubro de 2012 o Manuel António Pina deixou de ir ao Café Piolho, à Cervejaria Convívio, pela doença que lhe saltou flagrantemente em cima, já o deixara de fazer mas aquele dia marca a impossibilidade física. Tudo o resto estará por aqui junto daqueles para quem uma série de gente nunca morre.

Poderia eu sobreviver se deixasse de ter montanhas de jornais e revistas amontoadas pelos cantos, para ler, para reler para recortar, eventualmente para arquivar? Claro que poderia, mas não era bem a mesma coisa. Como ter cortado no gin-tónico, nas cigarrilhadsa, nas charutadas, por aí fora…

Estes dias, estúpidos desenfreados, sem ponta de norte, têm dado para andar a aliviar as tais montanhas de papelada escrita, acumulada pelos cantos.

Uma parte dessa papelada diz respeito à morte do Manuel António Pina.

A capa do Público de 20 de Outubro de 2012 guarda uma fotografia do Pina quase perfeita: livros, o olhar sereno, uma cigarrilha entre os dedos da mão direita. E não é perfeita porque faltam os gatos que o levavam a escrever as deliciosas crónicas para a última página do Jornal de Notícias para ter possibilidade de os alimentar ou os levar ao veterinário.

Homem recto, competente, solidário lúcido, simples, carregado de humor e ironias, um sábio, um príncipe, «eu posso lá morrer terra florida», gritou um outro poeta.

«Tinha um sorriso que era uma janela aberta sobre o coração», disse o jornalista Germano Silva, seu camarada no Jornal de Notícias, companheiro-mor das noitadas portuenses.

«Se hoje as nossas lágrimas estavam a precisar de uma grande razão, tu acabaste de no-la dar», escreveu José Alberto Lemos, também da redacção do Jornal de Notícias, também camarada de boémias.

A tarde é quase noite.

E das montanhas de papelada ao canto da sala, apenas aliviei dois, três jornais. 

Culpa do Manuel António Pina.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva