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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

VELHOS RECORTES


 A Gazeta Musical e de Todas as Artes nº 125, Agosto de 1961, registava a morte de Hemingway, ocorrida a 2 de Julho de 1961.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Uma palavra a mais mata qualquer história.

Ernest Hemingway

Legenda: não foi possível identificatro autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

COISAS TRISTES DOS PEIXES

«Recordou-se da vez em que apanhara um espadarte, de um casal de espadartes. O macho deixava sempre a fêmea alimentar-se primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou feroz e desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e durante todo esse tempo o macho estivera junto a ela, cruzando a linha e dando voltas à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma. Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais desfraldadas e todas as listras cor de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.»

Ernest Hemingway em O Velho e o Mar

Legenda: ilustração de Bernardo Marques tirada do livro.

sexta-feira, 17 de março de 2023

DA LITERATURA

Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.

Miguel Martins em Resumo: a poesia em 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

QUOTIDIANOS


 

Títulos recentes de jornais.

Perguntaram um dia ao escritor Ernest Hemingway se acreditava em Deus.

«Às vezes, à noite, no escuro.»

terça-feira, 6 de outubro de 2020

MY MOJITO IN LA BODEGUITA, MY DAIQUIRI IN EL FLORIDITA

Se eu já estou farto de Hemingway, imagino que vocês ainda o devem estar mais…

Mas andar aqui a falar de casas e bares em Key West e em Cuba e não falar destes dois, seria uma falha imperdoável.

Lamentavelmente, numa cidade tão bonita e com tantos pontos de interesse, La Bodeguita del Medio e El Floridita são duas das maiores atrações turísticas de Havana.

A Hemingway isso se fica a dever, é claro...

Dos dois bares/restaurantes, El Floridita, situado na esquina da Calle Obispo com a Avenida Montserrate, é o mais antigo, o mais genuíno e aquele que Hemingway frequentava mais vezes e há mais tempo.

A lenda diz o inverso mas, neste caso, não se vai publicar a lenda…

El Floridita foi aberto em 1817 com o nome de “La Pina de Plata” e cem anos depois foi comprado por um catalão de nome Constantino Ribalaigua, antigo barman, que lhe mudou o nome para o atual.

Hoje, nos seus tons de vermelho, é um bar/restaurante mais bonito, mais seleto e mais caro do que a Bodeguita, com o seu ar mais popularucho.

Desde 2003 que num dos extremos do balcão, na zona onde Hemingway gostava de se sentar, foi instalada uma estátua de bronze com a figura do escritor. Todo o saloio que por lá passa exige uma fotografia para a posteridade ao lado dele e eu, é claro, não fui exceção. Mas poupo-os à fotografia…

Para me poder sentar lá ao lado tive de beneficiar da gentileza de duas senhoras estrangeiras que ocupavam o espaço e se afastaram, as quais se riram e, no final, me perguntaram se podiam também tirar-me uma fotografia ao lado dele porque – disseram – com a minha barba branca de quinze dias e o chapéu de palha, eu parecia um sósia de Hemingway.…

Curiosamente, na manhã desse mesmo dia (ou do dia seguinte, já não me recordo bem…), uma vendedora de rua chamou-me “Papa” e pediu-me un besito…

Surdo como sou, segui em frente e não dei por nada, o que a deixou tristonha… Mas a minha mulher alertou-me, fazendo-me voltar para trás, dar-lhe dois besitos e comprar-lhe o que ela vendia, que julgo que era água fresca…!

Pelos vistos, andei a fazer de Hemingway sem dar por isso…! 

Voltando a El Floridita, em cuja porta de entrada estão, em permanência, músicos a tocar, a sua especialidade é o daiquiri, uma bebida à base de rum, limão e açucar, que Ribalaigua terá inventado, com grande sucesso, no início dos anos trinta.

Quanto à La Bodeguita del Medio, fica a meio da Calle Empedrado e daí vem o seu nome porque, na Habana Vieja, os bares costumavam ficar sempre nas esquinas (é o caso da Floridita…) e não no meio das ruas.

Embora já lá antes houvesse uma loja, a “Bodega La Complaciente”, um tal Angel Martinez comprou-a em 1942 e transformou-a num comércio de produtos variados a que deu o nome de “Casa Martinez”. Também servia, a pedido, comes e bebes, mas só para os clientes habituais, e a verdadeira especialidade da casa era uma bebida feita de à base de rum, hortelã limão e açúcar, a que se deu o nome de mojito.

Com o passar dos tempos, a casa foi ganhando nome e atraindo a boémia local e os intelectuais, incluindo Nicólas Guillén que lhe dedicou um poema que está pendurado numa das paredes da casa.

Em 1950 o nome do bar foi mudado para o atual, La Bodeguita del Medio, e começou a servir comidas e bebidas a toda a clientela. Terá sido durante esses anos 50 que o bar adquiriu a sua fama internacional, chamando gente como Pablo Neruda, Salvador Allende, Errol Flynn ou Nat King Cole, cuja mesa ainda lá está identificada.

E terá começado também aí a moda de se deixar nome e escritos nas paredes, que durou aos dias de hoje, como poderão ver...

Terá sido, também, por essa altura que Hemingway a terá começado a frequentar com maior regularidade, não obstante, como o próprio proprietário, Angel Martinez, parece ter afirmado, ele nunca ter sido um cliente muito frequente.

E, para ofuscar ainda mais a lenda, especialistas na caligrafia de Hemingway dizem que a célebre frase por ele escrita numa parede, que utilizei para título deste texto, pode muito bem nem ter sido escrita por ele, uma vez que a assinatura tem floreados que ele não costumava fazer...

Curiosamente, enquanto a Floridita parece não ter sido tocada, a Bodeguita foi encerrada após a revolução e todas as suas paredes foram pintadas.

Anos mais tarde houve alguma pressão para que ela voltasse a funcionar, e parece que Salvador Allende até terá movido, também, as suas influências junto dos responsáveis de Cuba.

Foram utilizadas fotografias da época e o bar foi de novo decorado na sua forma original, até hoje, com a fauna que aqui veem nas fotografias, na qual, naturalmente, eu me integrei. Tanto que não me limitei ao Mojito da praxe e também por lá jantei…

Escusado será dizer-vos que, nos dias de hoje e com exceção dos empregados, nestes dois bares só se veem turistas estrangeiros.

E agora sim, acabámos, de vez, com Hemingway!

Mas não com Cuba, como perceberão...

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

COJIMAR, CUBA

 

Cojimar é um lugarejo que fica junto ao mar, a cerca de 18 km da Finca Vigia.

Por estes tempos, é mais um local turístico de Cuba, a pretexto da memória de Hemingway.

Era em Cojimar que estava ancorado o barco “Pilar”, aqui neste pequeno ancoradouro que podem ver junto a El Torréon, uma velha fortaleza militar da época colonial.

E era daqui que Hemingway partia para as suas pescarias e para as suas aventuras durante a guerra.

Quando regressava a terra, passava habitualmente por este bar que aqui veem, o La Terraza, e diz-se que se sentava sempre nesta mesa de canto, com janelas abertas para ambos os lados da praia. Hoje a mesa está bloqueada e nela ninguém se senta...

Hemingway dava-se bem com os pescadores locais e deles ouvia histórias da sua vida no mar, desde os grandes peixes que tinham apanhado até aos maiores sustos por que tinham passado, numa zona do golfo onde abundavam os tubarões.

Histórias desse género também Hemingway ouvira muitas vezes de Carlos Gutiérrez, que fora o primeiro “patrão” do seu barco em Cuba e, depois, de Gregório Fuentes, que lhe sucedera nessa função.

E parece ter sido da mistura de todas essas histórias que lhe surgiu a vontade de escrever “O Velho e o Mar”, que publicou em 1952 e lhe valeu um Pulitzer, e que foi a última obra de ficção que viu publicada ainda em vida.

O livro começa, maravilhosamente, assim:

“Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra já por oitenta e quatro noites sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente “salao”, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro”

Santiago, o herói deste livro, imortalizado por Spencer Tracy no filme de John Sturges, é uma personagem à qual se pretende, à viva força, associar um modelo na vida real.

Embora o próprio Hemingway tenha garantido não se ter inspirado em ninguém em especial, esse desejo de ligação não se esfumou.

Para uns a fonte de inspiração era Gregório Fuentes, o último “patrão” do “Pilar”, tanto mais que o Santiago do livro tinha ascendência espanhola e Gregório, oriundo de Lanzarote, também a tinha.

Para outros, a figura que inspirara Santiago não era Gregório, mas sim Gutiérrez, o primeiro “patrão” do “Pilar” em Cuba, e argumentam com o que o próprio Hemingway afirma numa carta escrita ao seu editor Maxwell Perkins e que também consta da coletânea de cartas a que já fiz referência no último texto.

Nessa carta, escrita em Key West em Fevereiro de 1939, 13 anos antes da publicação do livro, Hemingway faz a Perkins um “ponto de situação” das short stories que escreveu recentemente e das outras que gostaria de escrever num futuro próximo, e refere, a dado momento:

 

“And three very long ones I want to write now. One about Teruel callad Fatigue. One about the old commercial fisherman who fought the swordfish all alone in his skiff for 4 days and four nights and the sharks finally eating it after he had it alongside and could not get it into the boat. That’s a wonderful story of the Cuban coast . I’m going out with old Carlos (Gutiérrez) in his skiff so as to get it all right. Everythink he does and everythink he thinks in all that long fight with the boat out of sight of all the other boats all alone in the sea. It’s a great story if I can get it right. One that would make a book.

Then I want to write that one of the storming of the Guadarrama pass by the polish lancers.”

(pág. 479)

Hemingway não afirma que foi Gutiérrez o herói inspirador da história, mas dá a entender que foi dele que proveio a maior parte da informação...

Para lançar ainda mais a confusão, trouxe de Cuba este livro de fotografias que vos mostro, “Hemingway y Cuba”, no qual o fotógrafo Raúl Corrales, que viveu os últimos anos da sua vida em Cojimar e conheceu muita gente, nos garante que a verdadeira fonte de inspiração foi o velho pescador local Anselmo Hernandez, do qual nos oferece sete fotografias.

Em quem acreditar…?

Para o caso não interessa, porque em nada fará alterar a qualidade da “short novel” de Hemingway.

Gregório Fuentes parece ter sido, no entanto, aquele que mais lucrou com essa eventual associação, já que passou os últimos 40 anos da sua vida (morreria em 2002, com 104 anos) a receber dinheiro de turistas estrangeiros para tirarem uma fotografia consigo e ouvirem as suas histórias dos tempos de Hemingway.

Os pescadores locais prezavam a atenção que o escritor lhes concedia e parece ter sido por iniciativa deles que foi construido e inaugurado em 1962 este pequeno monumento com o busto do escritor, mesmo defronte da fortaleza. Reza a lenda que o busto foi feito com base em hélices derretidas oferecidas pelos pescadores de Cojimar.

E todos os anos, em Cojimar, a memória de Hemingway é honrada com - como não podia deixar de ser… - um torneio de pesca.

PS:

A tradução de “O Velho e o Mar” é de Jorge de Sena, nesta bonita edição “Livros do Brasil”, sem data, com ilustrações de Bernardo Marques.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

FINCA VIGIA – SAN FRANCISCO DE PAULA, CUBA

Eu não me importo nada de andar a saltitar de um lado para o outro, mas parece-me ser mais interessante para quem tem a paciência de me ler que os textos tenham alguma sequência lógica entre si…

Voltemos a Hemingway, portanto…

E passemos a Cuba.

Quando vos falei da casa de Key West disse-vos que, após quatro viagens e um total de oito meses passados em Espanha durante o período da Guerra Civil, Hemingway regressara aos Estados Unidos em inícios de 1939, tendo-se instalado, seguidamente, em Cuba, onde prosseguiu a escrita de “Por Quem os Sinos Dobram”.

A jornalista Martha Gellhorn, com quem Hemingway iniciara uma relação afetiva em Espanha, juntar-se-ia a ele uns tempos mais tarde, e casaram-se em Novembro de 1940, no Wyoming, após ter sido decretado o divórcio de Pauline Pfeiffer.

Em Cuba Hemingway viveu no Hotel Ambos Mundos, na Habana vieja , que aqui vos mostro.

Neste hotel aconteceu-me uma coisa perfeitamente inesperada. 

Estava eu no bar do piso térreo, dou uma olhadela para um jogo de futebol que passava na televisão e começo a ver jogadores conhecidos. Era um jogo do Sporting em casa do CSKA para uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, coisa impensável de se ver em Cuba…!

Como não fora ao Ambos Mundos para ver jogos do Sporting, subi para tomar uma cerveja no terraço e ver a bela vista sobre Havana que de lá se vislumbra. Quando subi ganhava o Sporting 1-0; quando voltei a descer perdia 2-1… Parece que foi roubado e, desta vez, a sério…

Mas adiante, que não vim aqui falar em desgraças...

Hemingway gostava de se alojar neste hotel porque estava próximo do porto onde o seu barco, “Pilar”, se encontrava ancorado, e a poucas centenas de metros, também, dos bares que mais frequentava em Havana, sobretudo o Floridita, que ficava no outro extremo da mesma rua, porque o Bodeguita del Medio ainda não existia na altura.

Mas Martha Gellhorn não se sentia bem a viver em quartos de hotel e não descansou enquanto não encontrou uma residência para o casal.

Foi ela quem descobriu a Finca Vigia, num lugarejo chamado San Francisco de Paula, a 24 km de Havana, uma grande casa construída em 1886 num terreno vastíssimo.

A primeira vez que ouvi falar desta Finca foi em 1974 ou 75, num documentário integrado num ciclo de Cinema Cubano que o Lauro António organizou no Apolo 70. O programa do ciclo ainda deve andar por aí, mas vá lá saber-se onde...

Inicialmente alugada, a Finca seria, mais tarde, comprada por Hemingway por 12.500 dólares, após ter sido consumado o seu divórcio.

Mas Gellhorn não iria passar muito tempo em Cuba.

Primeiro porque, depois de uma primeira experiência bem sucedida em Espanha, a sua carreira de correspondente de guerra ganhou asas e as ausências em trabalho eram cada vez mais frequentes, levando Hemingway a queixar-se de que não precisava de uma mulher nas páginas dos jornais de grande tiragem, mas sim na sua cama…

Por vezes Hemingway acompanhava a mulher nas suas viagens de trabalho, como numa célebre viagem à China em 1941, em pleno conflito sino-japonês. Mas na maior parte das vezes ela ia sozinha à sua vida.

Depois porque a Martha não agradava muito o tipo de vida que Hemingway levava em Cuba e não perdia uma boa oportunidade para arejar.

Na primeira das cartas já escritas na Finca que constam desta coletânea de “cartas escolhidas” que vos mostro, datada de 11 de Fevereiro de 1940, Ernest escreve ao seu célebre editor Maxwell Perkins:

“We won again at the pelota last night and stayed up till three a.m. So today will have to take Martha to the movies as a present for being drunk Saturday night, I guess. Started out on absinthe, drank a bottle of good red wine with dinner, shifted to vodka in town before the pelota game and then battened it down with whiskys and soda until 3 a.m.”

E, finalmente, porque, com todos estes problemas, o casal também não iria ficar junto muito tempo

Na verdade, eram duas personalidades muito fortes, que frequentemente batiam de frente.

Às vezes por ninharias, como quando Martha terá mandado castrar todos os gatos selvagens que aparecessem na quinta e Hemingway interpretou isso como uma ofensa simbólica em relação a si...

Martha era segura de si e afirmaria mais tarde, que não queria ficar para a posteridade como uma simples nota de rodapé na biografia de Hemingway…

Este, por seu lado, parecia sentir cada vez mais ciúmes do sucesso jornalístico da sua mulher.

E o copo transbordou quando, alegadamente, Hemingway conseguiu desviar para si uma credencial da “Collier’s” para acompanhar o desenrolar da II Grande Guerra em França, a qual, em princípio, estaria destinada à sua mulher.

Gellhorn não se conformou e conseguiu partir para a Europa, disfarçada no interior de um navio que transportava enfermeiras de guerra e várias toneladas de explosivos.

Finalmente, não deixaram Hemingway desembarcar porque, como escritor, foi considerado um ativo demasiado importante para correr riscos de morte, e Martha pôde orgulhar-se de ter sido a única correspondente a desembarcar na Normandia e a cobrir esse histórico evento.

Hemingway instalou-se em Londres, onde reencontrou Mary Welsh, uma jornalista da revista “Time” que já havia conhecido em Paris e com quem iniciou uma relação.

E foi em Londres que Gellhorn o informou que estaria tudo acabado entre eles. O divórcio foi decretado em finais de 1945 e em Março de 1946 Hamingway casar-se-ia, em Cuba, com Welsh.

Scott Fitzgerald parecia ter razão… Uma mulher para cada livro…

Mas Mary Welsh seria mulher para muitos livros e foi a quarta e última mulher de Ernest.

Gellhorn não mais voltaria à Fica Vigia e iria voar sozinha, prosseguindo uma carreira de jornalista que a iria transformar num dos mais célebres correspondente de guerra de todos os tempos.

Quanto a Hemingway, iria passar uma parte do seu tempo em Cuba até abandonar a ilha, em Julho de 1960.

Mas esta presença estava longe de ser constante porque, para além das permanentes viagens que fazia pelo Mundo, a determinada altura Hemingway criou o hábito de passar o Verão nas montanhas de SunValley, no Idaho, e os meses de Inverno em Cuba.

Literariamente e com exceção de “O Velho e o Mar”, publicado em 1952, Cuba não iria ser muito produtiva para Hemingway. 


Antes havia publicado “Na Outra Margem Entre as Árvores”, obra de que gostava muito mas que fora mal recebida pela crítica e pelo público.

Mas vingara-se, porque “O Velho e o Mar” deu-lhe um Pulitzer e o Nobel chegaria, dois anos depois.

Em contrapartida, aventura não lhe terá faltado.

Por esta altura as grandes companhias de Hemingway, em Cuba, não eram intelectuais, mas boémios, desportistas, sedutores e jogadores. Para além da gente do mar, de cuja presença sempre necessitou.

Com o seu barco, “Pilar”, não se limitava às pescarias e patrulhava, de noite, as águas do Golfo, à procura de submarinos alemães e parece que também chegou a criar uma rede privada de investigação, chamada “Crook Factory”, que espiava simpatizantes nazis.

Tanta generosidade junta alertou Edgar Hoover, que mandou que lhe fosse aberto um “dossier” por suspeita de ligações soviéticas.

Ou seja, enquanto espiava em favor da América, era espiado por ela… Típico de Mr. Hoover!

Mais tarde, já na segunda metade dos anos 50, também foi espiado pelo FBI por suspeita de colaboração com grupos de rebeldes anti-Batista, através do fornecimento de armas e de dinheiro.

Os últimos anos de Hemingway foram penosos, com sequelas de dois graves acidentes de aviação ocorridos em África um após o outro, várias doenças, depressões e sucessivos internamentos hospitalares com terapia de eletrochoques .

Como é sabido, não terá aguentado ver-se muito mais tempo nesse estado e suicidou-se com um tiro na garganta em 2 de Julho de 1961, na sua quinta de Idaho, com apenas 61 anos de idade.

Durante alguns anos a família esconderia o suicídio, afirmando que se tratara de um acidente, mas mais tarde assumiu a verdade.

Martha Gellhorn, que passaria os seus últimos anos de vida praticamente cega e a padecer de um cancro nos ovários, suicidar-se-ia, também, em 15 de Fevereiro de 1998, em Londres, com 89 anos

Mary Welsh não se suicidou e viveu até aos 78 anos.

Hoje a Finca Vigia é um Museu Nacional, propriedade do Estado Cubano.

Mas a história desta passagem de propriedade para o Estado também é interessante.

Cuba diz que se tratou de uma doação de Hemingway, mas parece não ter sido bem assim...

Hemingway nutria simpatia por Fidel Castro e parece que a simpatia era mútua.

Mas, não obstante existirem várias fotografias de Hemingway em companhia de Fidel, parece que só se encontraram uma única vez e por pouco tempo, em Maio de 1960, por ocasião de um torneio de pesca ganho pelo Comandante, que dava provas de ser, também, um excelente pescador. Todas as fotografias existentes terão sido tiradas nessa ocasião.

Apesar dessa aparente boa relação, à cautela e temendo que os bens de cidadãos estrangeiros residentes em Cuba viessem a ser expropriados pelo novo Governo, Hemingway depositou num cofre de um banco os seus bens mais valiosos, que incluíam, para além de alguns objetos e bens pessoais, os manuscritos dos livros em que estava a trabalhar (“Paris é Uma Festa”, “Ilhas na Corrente” e “O Jardim de Éden”, que seriam todos editados postumamente) e os seus quadros de maior valor e/ou estima pessoal.

Na última das cartas escritas em Cuba que constam da coletânea que vos mostrei, Hemingway escreveu a Charles Scribner Jr a 6 de Julho de 1960, menos de três semanas antes de partir de vez:

“We had planned to be leaving here in a couple of weeks. Very hot now and the trades are not blowing and it rains heavely each afternoon. The big fish have not come yet but are over-due and I would like to pull on a couple of big ones before I leave.”

Não sei se os chegou a pescar, ou não, já que deixaria Cuba a 25 de Julho de 1960, para não mais voltar.

Após a falhada invasão da Baía dos Porcos, em Abril de 1961, os receios de Hemingway confirmar- -se-iam e os bens de cidadãos americanos foram de imediato confiscados, incluindo a Finca Vigia, todo o seu recheio e tudo o que se encontrava guardado em bancos.

O que mais tarde se passou terá sido uma mera operação diplomática, parece que sob a égide do próprio Presidente Kennedy, que transformou uma sempre desagradável expropriação em “doação”, mediante troca por tudo aquilo que havia sido depositado por Hemingway no referido banco.

Como poderão ver pelas fotografias que vos mostro, a Finca Vigia tem tudo o que é habitual ver-se nas casas de Hemingway: troféus de caça, posters de corridas de touros, fotografias, centenas de livros…

Os mais importantes quadros e peças de decoração terão saído para os Estados Unidos, como vos referi.

Tal como poderão ver, o “Pilar”, a amada embarcação que Hemingway possuía desde os tempos de Key West também lá foi colocado, no espaço adjacente à piscina.

A torre mais alta é o espaço onde Hemingway se recolhia para escrever e podem ver uma fotografia desse escritório.

E, por hoje, daqui já chega.

No próximo texto daremos um saltinho a Cojimar, que fica aqui tão perto…

PS:

Que saiba ou que me lembre, existem dois filmes relativamente recentes que abordam a vida de Hemingway em Cuba.

Um é “Hemingway & Gellhorn”, que se debruça sobre a vida do casal e cuja referência a Cuba é muito ligeira. Com Nicole Kidman no papel de Martha Gellhorn e Clive Owen no de Hemingway, o filme é uma muita cuidada produção da HBO e foi realizado em 2012 por Philip Kaufman. É uma obra bastante interessante e, tanto quanto consigo perceber, muito fiel aos factos retratados.

O outro, “Papa – Hemingway in Cuba”, que Bob Yari realizou em 2015, com Adrian Sparks no papel de um desgastado e alcoolizado Hemingway, é mais banal e centra-se nos anos de 1957 e 1958, em que ele terá colaborado com a guerrilha e sido espiado pelo FBI. O único verdadeiro interesse que me parece ter é ter sido o primeiro filme de Hollywood autorizado a ser rodado em Cuba desde 1959.

Como não sou historiador de Literatura, para escrever acerca de Hemingway andei à pesca, tal como ele, puxando uma linha aqui e outra acolá.

Para além da “Net”, estes dois filmes proporcionaram-me informação útil, a qual seria confirmada num muito recente documentário transmitido pela SIC e integrado na série “Grandes Romances do Séc. XX”.

Texto e fotografias de Luiís Miguel Mira

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

THE FAMOUS AND INFAMOUS SLOPPY JOE'BAR - KEY WEST


Como vos contei no último texto, Ernest Hemingway transformou em escritório uma velha cocheira existente nas traseiras da sua casa, e era aí que trabalhava quando se encontrava em Key West.

Junto-vos uma fotografia desse escritório, visto do exterior.


O interior é este que aqui vos mostro em três outras fotografias. O acesso é vedado ao visitante, pelo que as fotografias têm de ser feitas da porta de entrada mas, entre outras coisas, dá para ver a sua máquina de escrever “Royal”, da qual nunca se separava.




A mesa deveria ser um mero apoio, porque Hemingway escrevia quase sempre de pé.

Por norma começava a trabalhar às seis da manhã e ia de enfiada até ao meio-dia.

Se a escrita lhe estivesse a sair bem poderia prolongar o trabalho até às duas da tarde, mas não mais do que isso…

Após uma refeição, a parte da tarde era destinada às pescarias, na companhia dos seus amigos locais.

Depois regressava a casa e, se fosse caso disso, gostava de amanhar o peixe e de deitar as sobras aos seus gatos.

A noite era reservada ao Sloppy Joe’s Bar, cujo proprietário era Joe Russel, o piloto preferido de Hemingway para o seu barco e, por isso, um dos que mais o acompanhavam nas pescarias.


Durante os tempos da “Lei Seca” Joe Russel manteve um “Speakeasy” em Front Street, e foi aí que Hemingway o conheceu, quando lá ia comprar as suas garrafas de “whisky” às escondidas. Entre ambos nasceu uma forte amizade, que duraria até à morte de Russel por ataque cardíaco, em 1941, com apenas 53 anos.

No próprio dia em que a “Proibição” terminou, a 5 de Dezembro de 1933, Joe Russel abriu um novo bar, devidamente legalizado, no nº 428 de Greene Street, que começou por se chamar “The Blind Pig”, e mais tarde “Silver Sleeper”, quando foram realizadas obras de ampliação que incluíram a instalação de um palco.

Por insistência de Hemingway o nome do bar acabou por ser mudado para “Sloppy Joe’s”, inspirado num outro bar com o mesmo nome existente em Cuba.


Como o próprio nome indica, o bar era meio abandalhado, com uma fauna característica que misturava escritores como Hemingwau e Dos Passos, pintores como Waldo Pierce e Henry Strater e velhos marinheiros, pescadores e gente humilde, mas muito, muito bem disposta, segundo consta…

Bebia-se, filosofava-se, evocavam-se epopeias gloriosas em mares longínquos, discutia-se quem pescou o maior peixe, jogava-se, cantava-se e não raras vezes lá surgia uma sempre bem recebida pequena zaragata, com alguns copos e cadeiras pelos ares…

Todos os amigos tinham alcunhas, e foi aqui que Hemingway ganhou a sua de “Papa”. A Joe pôs-lhe a alcunha de “Josie Grunts”, talvez por estar sempre a resmungar...


Gente desta não poderia escapar à sensibilidade de um escritor. Se Joe Russel foi, assumidamente, a inspiração para o personagem de Freddy, o proprietário do bar de “Ter e Não Ter”, outros tê-lo-ão sido também, muito provavelmente, como aquele adorável velho marinheiro interpretado por Walter Brennan que no filme do Hawks anda sempre a perguntar às pessoas se nunca foram mordidas por uma abelha morta...

Hemingway também nem sempre saia muito a direito dessas noitadas…

Uma noite levou consigo um urinol do bar e ofereceu-o à sua mulher, Pauline, como prova do seu grande amor por ela. Pauline não terá achado muita graça mas manteve o urinol no jardim, embora tendo-o transformado numa fonte para os seus gatos. Ainda lá está...

O “Sloppy Joe’s Bar” manteve-se apenas quatro anos na Greene Street.

Em 1937 o proprietário do edifício pediu um aumento da renda semanal, passando-a de 3 para 4 dólares.

Joe Russel entendeu que um aumento de 25% era demasiado e mudou o seu bar umas poucas centenas de metros, para a esquina da Duval Street - hoje a principal rua da cidade – com a Green Street. Pagou 2.500 dólares pelas novas instalações, e nunca mais se preocupou com senhorios…


Mas com a passagem dos anos Key West ganhara fama e começava a atrair novos residentes e visitantes. Chegavam escritores como Tennessee Williams e Truman Capote e políticos como Truman e Eisenhower, e a cidade ganhava outra respeitabilidade.

O novo bar do Joe dificilmente poderia manter as características do anterior e ser tão “desleixado” como ele era, tanto mais que o espaço era maior e deixara de ser tudo ao molhe… Havia uma sala própria para jogo e até uma nova sala de bilhar.


Russel morreu em 1941, como vos disse, e a gestão do bar foi inicialmente assumida pelo seu filho, passando, depois, por diversas mãos até ser vendido em 1978 aos atuais proprietários.

Hoje o “Sloppy Joe’s Bar” está completamente descaraterizado e é uma instituição turística de Key West, com a confusão e a algazarra habituais neste tipo de bares essencialmente turísticos, como poderão perceber através da fotografia que vos envio. Mais do que isso, começa a ser uma verdadeira instituição da Florida, já que dois outros bares com o mesmo nome foram abertos em Treasure Island e em Daytona Beach.


Está aberto 365 dias por ano das 9h00 às 04H00, tem três sessões diárias de música ao vivo, vende todo o tipo de “merchandise” acerca de Hemingway que possam imaginar e todos os anos organiza um concurso para eleger o seu sósia mais perfeito. Estão a ver o estilo…

Para mim estava fora de questão homenagear Hemingway num lugar destes...

Dei comigo a pensar que se Russel mudou o seu bar para o 201 da Duval Street em 1937, altura em que Hemingway andaria por terras de Espanha, e se a partir dessa altura este andou sempre a saltar entre Espanha e Key West, certamente que não teve oportunidade de visitar essas novas instalações com a frequência com que frequentara as anteriores.

No lugar onde inicialmente se encontrava o velho “Sloppy Joe’s Bar”, o mais castiço e o mais frequentado por Hemingway, continuou a existir um bar que desde 1958, data em que foi comprado por um capitão de pesqueiro chamado Tony Torracino, se passou a chamar “Captain Tony’s Saloon”.


Para evocar a memória do autor de “Adeus às Armas” faria muito mais sentido ir beber um copo a este bar do que ir ao barulhento e incaracterístico “Sloppy Joe’s”.

Foi o que decidi fazer, tanto mais que se diz ser este o estabelecimento de bebidas mais antigo da Florida, já que terá sido aberto em 1852.

Mas a sala é muito escura e fotografias de jeito só sentado ao balcão, pelo que vos poupo terem de ver a minha cara...

Tal como tantos outros sítios que já vos mostrei, o “Sloppy Joe’s Bar” integra também, desde 2006, o “National Register of Historical Places”.

PS:

As informações acerca da história do “Sloppy Joe’s Bar” foram obtidas no seu próprio “site”, que por sua vez as recolheu do livro “Sloppy Joe’s – The Tradition Continues”, da autoria de Carol Shauhnessy, a quem roubei a expressão “famous and infamous” do título deste texto.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira..