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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

ANDO CANSADO

Ando cansado, amargurado, sem um sorriso, e os olhos

doem-me ao cair da tarde. Como um anjo aborrecido,

lento, aproximo-me dos livros, dos papéis e tento acender

um fósforo inutilmente. Já não conheço a literatura, meu amor.

 

A literatura não vem nos jornais, embora tropece nos silêncios,

nos degraus, nos bancos do jardim, embora tenha nascido

nocturna. Ando perdido, e nas pedras negras da costa

vejo o último atalho, a garrafa dos apelos finais abandonada.

 

José Viale Moutinho, tirado daqui

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

RETRATOS


«Eu não fazia parte do elenco da peça, estava sentado na coxia da terceira fila, talvez perdido entre dois blues, mas ergui-me da poltrona e galguei os degraus para o proscénio. Chabela Vargas cantava nas minhas veias? O Manuel Freire era a voz da razão, soava Paul Robson no Old Man River. A sala ainda estava iluminada e situei-me logo ali. Mostrei à vontade ao erguer uma perna e pousar a alpargata sobre a caixa do ponto, impedindo que ele iniciasse a leitura murmurada da comédia, a comédia que se encontrava em cartaz. E declarei aos que procuravam sentar-se nas poltronas correspondentes aos seus bilhetes, o meu nome e acrescentei que chegara, havia muito, de uma ilha perdida no Atlântico, e que eu nascera quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo. Falei que estava agora a lançar raízes na ilha, a Ilha do Ogre, mas arrepiei caminho. Um gracioso, num dos camarotes, perguntou em falsete se eu queria dizer que nascera na Madeira em meados de 1945. Aplaudiram-no, mas a mim apetecia-me, como sempre, dizer as coisas de modo mais sinuoso, acrescentando ser filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe.

Assim, entre a realidade quotidiana e as memórias ficcionadas, ou apenas inacreditáveis, montes de livros, férias no Douro, onde os personagens eram escritos por mim sobre as histórias de meu pai, e a figura mítica de um avô, que andava pelos campos em misteriosos trabalhos que eu não entendia muito bem. Ah, e as pessoas, já sentadas nas suas poltronas, impacientavam-se porque, segundo diziam, eu estava a impedir o início da representação. Teria sido muito simples se se erguesse o pano, surgisse o primeiro cenário e os actores começassem a função, naqueles jogos de deixas garantidos pelo homenzinho da caixa sobre a qual eu tinha pousado a alpargata.

Na verdade, eu nem precisava de cenários nem de mais actores ou de que quem quer me sussurrasse os passos da minha vida, que eu me dispusera a contar naqueles momentos. Havia um foco que percorria a sala e, de quando em quando, mas cada vez mais insistentemente, se fixava em mim. Eu calculava que uma certa percentagem do sucesso que ali pudesse ter assentaria no facto dos gordos serem considerados pessoas bem dispostas. A plateia, mulheres e homens de rostos atónitos, era constituída por gente que me parecia demasiado magra. Nas histórias de meu pai havia sempre um frade imponente e eu imaginava-o sentado a uma grande mesa, e eles, bocas abertas, olhos bugalhudos, vendo as suas poderosas mãos agitando talhadas de presunto, coxas de capões assados, côdeas de broa, pernis de porco negro, grandes malgas de vinho tinto, um bródio à antiga! E aquele frade era eu, possivelmente o meu fantasma. Essa era a maneira que tinha de lhes mostrar bem saber como entrar na dimensão por onde andaria, com as mesmas glórias, vícios, vaidades e saberes de sempre. E se um lugar há dentro da minha cabeça, que, cuido como poiso da memória de toda a família, esse é o Quarto dos Santos da casa dos meus avós. Havia aí um oratório, com a Senhora do Campo, milhares de velas de cera, cujo arder empestava até ao corredor, uns diplomas que davam alguns dos avós como terceiros de ordens e de confrarias, centenas de figuras de santos, anjos e arcanjos, suponho quase todos apócrifos, uma espécie de santíssimo exército a vigiar a fé da minha avó e de todas as velhas murmuradeiras nas rezas e jaculatórias ao quotidiano toque das Trindades.

Eu tinha um fascínio por aquilo tudo e, de noite, vinha do meu quarto, espreitar aquela população prodigiosa, que parecia adquirir vida com o tremular das lamparinas eternamente acesas. Havia ainda o gavetão de uma cómoda onde eram guardadas umas esporas douradas, cuja origem ninguém condescendia em contar-me. Numa caixa de velas, era guardado um enorme revólver de espigão, hoje aqui a defender alguma papelada dos ventos do Porto que me devassam o lugar de trabalho.

Vivi em Espinho, onde se passeavam vários fantasmas, o de Amadeo e o de Laranjeira, de um pintor espanhol que tinha uma orelha de cera e uma escritora de romances cor-de-rosa. Como professor, no Colégio de S. Luís, tive o novelista José Marmelo e Silva, uma lição de intelectual que encolhia os ombros à glória efémera. Em segredo, falava-se muito do assassínio de um médico comunista, Ferreira Soares. E ali havia uma feira enorme e cheia de sugestões, que era a minha perdição às segundas, quando escutava romances de cego, a conversa fiada dos vendedores de banha de cobra com a jibóia ao pescoço, transportada numa mala de cartão, cobra que comia coelhos vivos à nossa vista. Um corcunda vestindo de branco, com um tabuleiro ao pescoço, rondava o colégio, expressão sardónica, a guinchar: «Chupa-chupa, caramelo, estica!» Um perfeito do colégio pedia-nos calendários para os trocar por copos de vinho numa taberna ao fundo da rua. E as incursões ao estranho universo do mosteiro de Grijó, em cuja quinta, parte do cenário de um romance de Júlio Dinis, dizia-se, passei a odiar leite quente quando o parvo do moço da vacaria ordenhou umas sujas tetas lançando-me jactos de leite branco, espesso, gorduroso, directamente para a boca escancarada.

De Espinho, de Almendra, mudei-me para o Porto, o que eu aprendia parecia-me que era o arrastar de uma espada do tamanho da que é atribuída a Afonso Henriques e está no Museu de Soares dos Reis. Ganhei mais o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia. Entrei para o Jornal de Noticias, em cujo suplemento literário já colaborava. Fiz a via-sacra dos hospitais, da morgue, dos acidentes, das lixeiras. A primeira grande entrevista foi com o Eugénio de Andrade. Eu já sabia que não levava a melhor com a puta da Censura, mas procurava iludi-la. Comecei a ir a Lisboa, onde conheci alguém que foi decisivo na minha vida de escritor, o Urbano Tavares Rodrigues. Colaborava no República. Em 1966, mando imprimir um livro de prosa poética, O Corredor, capa do Zé Rodrigues. A exemplo não sei de que poeta francês, ainda não sabia do gesto semelhante do Trindade Coelho, queimei a edição toda! Nem um exemplar tenho, só se salvaram quatro páginas de provas. Dois anos depois saiu Natureza Morta Iluminada, uma narrativa, 32 páginas, ilustrada pelo pintor Fernando de Oliveira, meu compadre. Irritei-me muito com um idiota a quem ofereci o livro e, dez dias depois, me disse que andava a lê-lo! Depois, de 1975 a 2003, estive no Diário de Notícias.

Fraternalmente, conto com o António Rebordão Navarro, o Marco, o Méndez Ferrín, o Manuel Maria, a Fedra Santos, o Fernando Lanhas e alguns outros mais. Em relevo tenho dívidas antigas com a Ana Hatherly, mesmo com o Michel Butor, e modernas com o José da Cruz Santos, mais recentes ainda com o Edgar Silva. Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?

Bem, na verdade, há um estranho silêncio no teatro, afinal um dos muitos teatros que arderam sem eu ter dado por ela. Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos tzompantlis e bailei o danzón em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los. Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. E fui vidente em Seide, vi Camilo à janela de sua casa quando lá fui receber o Grande Prémio do Conto por aquele livro Cenas da Vida de um Minotauro. Acenou-me, daí eu ter começado a falar logo com ele, o que levou os presentes – o Zé Manel Mendes, o Navarro, a Cristina Robalo Cordeiro e Aníbal Pinto de Castro – julgaram ser boutade e não era senão uma aparição pagã privada. Por isso, na pedra de Seide apareceu o meu nome.

Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me. Porém, estou encantado noutro nível, pois aos 60 anos, ainda agora cumpridos, continuo apaixonado e não só pela vida. E cá ando, atraído pelos muitos rostos de um universo plural. A História parece que, cada vez me absorve mais, em termos de testemunho e de base para ficção, da Guerra Civil de Espanha aos campos de concentração. Depois, por um bando de pardais que se renova, escrevo para a miudagem. E quando julgava que não tinha mais nada a fazer nessa área, a minha afilhada Francisca, sem se aperceber, contratou-me para eu reaprender a encarar a vida, e a missão está atribuída e não posso esmorecer.

Ah, mas afinal isto não é teatro coisa nenhuma, estou é encafuado no velho  Quarto dos Santos. As lamparinas é que provocam estas visões e a herança das fábulas potencia a memória. E quanto não disse, sem o esconder! De quando em longe, sento-me à mesa com um bom amigo de infância, o Jorge Carvalho, da Quinta do Mocho. Ou com o Zé Ilídio. Ou com os meus primos das duas partes paternas, por um lado a Uli e o Tony, e por outro a tribu dos Trabulos, com as Márcias, o Toneca, a Mariazinha, o Zé Luís, por aí fora. Mas, nestas ladeiras que calcorreio por receita médica, penso muito nos que vão ficando pelo caminho – o Adriano, a Fernanda e o Fernando, a Maria Virgínia, o António Sampaio, o Egito, o Veiga Leitão, o Eugénio, o Companheiro Vasco, o Manuel Maria, o Uxio, tantos outros. Mas também penso na bela maneira de encarar a vida de uns amigos especiais – o patriarca Francisco Mangas, que me ensinou a pescar, o Tony, um primo do fundo dos séculos, e o grande João Cid, pintor, poeta, neto do Manuel, íntimo do António Nobre.

Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o bonhomme que me parece sempre fui.»

José Viale Moutinho

Poderei não ter sido assim, é um arremedo autobiográfico do jornalista e escritor José Viale Moutinho, que nos deixou no dia 22 de Setembro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem

«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono (estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações musicais.


Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar “à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.

No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a fazer” (Plantas na Lua)..

Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed. Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril, editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal (Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos censores.


Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill, Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.

Entrevistado por Desi Lydic no The Daily Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor, justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa música má, só teremos bandas espectaculares.”


Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”, disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo Nocturno».

Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro

Legenda: Imagem do Público

terça-feira, 11 de agosto de 2026

VISITAS À LOJA FRENESI


José Afonso

org. e pref. José Viale Moutinho
capa de Sousa Pereira s/ fotog. de Viseu Caldeira

 

Porto, 1972

Livraria Paisagem

1.ª edição

200 mm x 125 mm

128 págs.

exemplar em muito bom estado de conservação; miolo irrepreensível

35,00 eur (IVA e portes incluídos)

 

Reunião de notas críticas e de textos de apoio à edição dalguns discos de Zeca Afonso, em que avultam os nomes de Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Assis Pacheco, Bernardo Santareno, António Cabral, etc. O compilador, José Viale Moutinho, completa o volume acrescentando-lhe uma longa antologia de poemas para as canções e uma dezena de inéditos. Daqui, o poema «Fui à Beira do Mar» (que veio, posteriormente, a surgir cantado no disco Eu Vou Ser Como a Toupeira, tendo sido substituído o termo «arfar» por «lavrar»)

 

«Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alegre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Sentei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo»

 

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]

Este livro de José Afonso encontra-se na Biblioteca da Casa desde Setembro de 1972 e foi comprado na Livraria Opinião de saudosa memória, agora num tempo em que as livrarias já quase desapareceram da cidade.

sábado, 26 de julho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


O vinho e o seu prazer.

Está vazia a garrafa do Manuel Maria.

Lembrança de José Afonso no Venham Mais Cinco, rio largo de profundis, uma neta para nascer, outras vontades, saber dizer amor, avenidas novas, praça de londres a arder.

Não sei da história, sei da lenda, então, à John Ford, publique-se a lenda:

Em Monforte, visita, dia frio, à casa do escritor galego Manuel Maria, como agasalho, deram uma garrafa de aguardente ao jornalista José Viale Moutinho. De regresso a Portugal, o jornalista bebeu-a com José Afonso.

Agora olho outra garrafa vazia, «Diálogo», um tinto do Douro, 12,5 graus, produzido e engarrafado por «Nieport», Vila Nova de Gaia, que acompanhou uns ovos com ervilhas, entrecosto, toucinho, chouriça.

O rótulo é uma banda desenhada contada em 20 dialogados episódios da autoria de Luís Afonso.

-Está a olhar atentamente para o vinho porquê?

-Conhece a expressão “in vino veritas”?

- Sim e então?

- Então estou a tentar encontrar a vvrdade do vinho.

- Para isso terá de o beber.

- E agora?

- A verdade estava no vinho. Bebeu o vinho. Logo, é em si que está a verdade.

O bebedor caiu? Adormeceu?

O outro acrescentou:

-Não é para levar o latim tão à letra.

Rio Largo de Profundis é a 1ª Canção do Lado A do álbum Venham Mais Cinco, gravado em Paris no estúdio «Aquarium» de 10 a 20 de Outubro de 1973.

A canção começa com um diálogo de ajuste de som entre José Afonso e os técnicos de gravação. e as palavras «A garrafa vazia do Manuel Maria», repetidas 4 vezes, com o som do fole do João dedilhado pelo José Mário Branco, e depois disto é que arranca a letra:

Rio largo de profundis
Uma neta pra nascer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder
Não quero martelo e rima
Aqui no Largo da Graça
Quero ficar onde estou
Para salvar a quem passa
João, Francisco, Maria,
Cada qual um nome tem
Quando vos deu os bons dias
Ninguém responde a ninguém
Venha duma outra vontade
Lá eu soubera dizer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder

quinta-feira, 13 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Um Olhar Português

Textos de:

Regina Louro, Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Fernando DaCosta, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Hélia Correia, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Al Berto, Lídia Jorge, Viale Moutinho, João de Melo

Capa: João Machado

Círculo de Lisboa, Dezembro de 1991.

A vila de Peniche estava toda retalhada por água. Uma pequena casa envelhecera mesmo dentro do mar, sobre um montículo de pedra e sedimento. Os pássaros soltavam os seus gritos, feitos para superar o estrondo das tormentas. Os barcos acolhiam-se ao redor do grande lombo de cimento e rocha que com eles dormitava, num embalo.

- Foi uma ilha, sabe?

- O quê?

- Peniche.

Mas sob as rodas sentia-se a firmeza do alcatrão.

Mário parou o carro junto ao forte que era agora um museu da Resistência.

-Quer entrar? – perguntou.

- Não – disse a mãe. Parecia muito desinteressada. Talvez sentisse fome ou não quisesse, não suportasse recordar-se mais. Dava aquela viagem por cumprida.

A prisão, pensou ele, tinha a matéria e a alma de um rochedo. Estava misturada com as ondas. Talvez o seu avô se confortasse com aquela presença familiar, talvez se distraísse com as fúrias e os arrulhos da rebentação. Alguns homens haviam-se atirado, nadado para longe, confiando no mar e não na terra para fugir. Isso fora ainda antes de ele nascer, supunha; fora há muito tempo já. As coisas que os moveram, que os trouxeram para aqui, também se consumiram e passaram. «Nunca conhecerei as suas vidas.»

Arrancou devagar, contra o sol baixo.

- No Verão, é tudo bem diferente – disse a mãe. – Há muita gente, os dias são compridos. Espero que fosse Verão quando ele vinha. Hás-de pintar um qiadro do Verão.

 Mário riu-se:

- Para quê? A mão não gosta.

- Gosto – respondeu ela. – Não entendo, mas nós nunca entendemos muita coisa.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

SOBRE DESENHOS DE KUBIN

dos que se enforcam que dizer

sobretudo dos que se enforcam

nos candeeiros e nas árvores

e dos caminhantes solitários

e dos velhos na agonia    então

e dos padres bebendo bebendo

dos espíritos que deambulam

ou dos cadáveres ressequidos

dos desenhos de alfred kubin

 

suas casas de terríveis ratos

a cólera      a anarquia dos corvos

o próprio crucificado de 1903

os nus de gólgota do ano de 1920

e o pescador dos monstros do lago

os decapitados e os serrados

o horroroso quarto crescente

agripina e as adorações finais

cavalgando a morte chicoteando

 

toda esta escrita sangue a sangue

folha a folha o álbum de alfred

kubin como a flauta de um morto

a mão final sobre os rostos de

quem já nada tem para arrastar

até as neves se avermelham já

e depois resta-nos ir à Áustria

é lá que estão os meus desenhos

 

José Viale Moutinho em Piano Bar

domingo, 28 de janeiro de 2024

CONVERSANDO

Entre 1933 e 1974 os serviços de censura das ditaduras de Salazar e Marcelo Caetano censuraram mais de 3300 livros, proibiram milhões de palavras nos artigos e notícias de jornais e revistas.

O jornalista e poeta José Viale Moutinho disse um dia:

«Recordo-me ter lido umas instruções aos inquisidores que diziam, mais ou menos, isto acerca dos livros em exame: se houver algo a cortar, é cortar essas partes insidiosas, porém, se a obra não apresentar, a uma primeira leitura, nada de censurável, então deve ser totalmente proibida a sua edição, pois isso apenas pode significar que a insídia se encontra completamente disfarçada.»

O Diário de Notícias continua a publicar uma série de depoimentos de gente diversa que lembra, onde estava e o que fazia, há 50 anos.

Hoje, foi a vez de Alice Vieira que lembrou parte do que a censura lhe cortou nos jornais em que trabalhou. Reparem neste perfeito disparate censório:

«Quando Grace Kelly veio a Portugal, escrevi que era filha de um pedreiro. A censura cortou porque, evidentemente, uma princesa não podia ser filha de um pedreiro.»

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Cabeça de Porco

José Viale Moutinho

Capa: Fernando Oliveira

Forja Editora, Lisboa, Abril de 1976

Era pouco antes do nascer do dia e quando os outros chegaram mostravam-se alvoroçados.

«Amigo, há qualquer coisa, há qualquer coisa!»

E lembrei-me que às nove horas, quando entrasse na Redacção o telex voltaria a contar o golpe e que no prontuário encontraria o título: O GOLPE ESTÁ COMPLETAMENTE DOMINADO.

Mas tudo se desvaneceu quando Bosco, rodando os botões da telefonia conseguiu sintonizar:

«… conforme tem estado a ser transmitido, as forças armadas puseram em marcha. Esta madrugada, uma série de acções com vista à libertação do país do regime que desde há muito o oprimia…»

Abraçámo-nos em silêncio, reconhecíamos que a tarefa continuava a ser dura e preparámo-nos para participar porque subitamente acreditávamos numa notícia.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar. Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar. E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Se viram um amável filme da norte-americana Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, When Harry Meet Sally, quase no final, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los, mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: seja o que for é uma canção sobre velhas amizades.
Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, e os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, e o desejo que a viagem, pelos dias do novo ano, seja uma viagem tranquila.

1.

De trás para a frente, da frente para atrás para que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado dificuldades várias. Marcelo Rebelo de Sousa decidiu enviar para o Tribunal Constitucional o diploma relativo à Eutanásia para confirmar se as exigências formuladas em 2021 estão devidamente rectificadas no novo diploma.

De trás para a frente, da frente para até que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado obstáculos.

Um antiga afirmação de Teresa Beleza, que não tem nada a ver com esta lei, com o que quer que seja:

«Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.»

 2.

Anemoia: nostalgia de um tempo no qual tu nunca viveste.

3.

Dizem que a televisão fez diminuir a convivência. Não será a dificuldade na convivência que introduz o poder da televisão.

4.

Ando sempre em demanda de livros que gostava de ter, que gostava de recuperar e percorro alfarrabistas, pergunto a amigos, frequento a Loja Frenesi. Há dias estava por lá O Nosso Amargo Cancioneiro, organização e prefácio de José Viale Moutuinho, Edições Latitude, exemplar estimado, capa suja, miolo limpo, 1ª edição, 50,00 euros e IVA e portes incluídos.

Paulo da Costa Domingos, dono da loja, cita o prefácio:

«Acertadamente refere Viale Moutinho, no seu prefácio, «um caminho – o da amargura», ao caracterizar o «momento fecundo da primeira metade de 1972» na intervenção continuada dos cantores sociais, em que um Zeca Afonso, ou um Adriano Correia de Oliveira, ou um Luís Cília, ou um José Mário Branco, ou um Sérgio Godinho foram pontos de referência à navegação de assalto às mentiras do Estado Novo. Num substancial resumo da enorme diversidade de poemas cantados nessa época, vamos encontrar a escrita directa de poetas como Afonso Duarte, Alexandre O’Neill, António Borges Coelho, António Cabral, António Gedeão, António Rebordão Navarro, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, Eduardo Valente da Fonseca, Fernando Assis Pacheco, Fiama Hasse Pais Brandão, João Apolinário, Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, Saramago, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Natália Correia, Orlando da Costa, Raul de Carvalho, Reinaldo Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Urbano Tavares Rodrigues, etc.

Outros tempos, estes em que cantores cantavam poetas de referência, em vez de gargarejarem umas coisas que lhes ocorrem no banheiro.»


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


 As Chegas de Bois

Antologia

Âncora Editora, Lisboa, Outubro de 2005

 

Se os deuses assim fossem poderosos

Rompiam o nevoeiro com os seus cornos

E os apóstolos de armas em punho assistiriam

Às batalhas de todos os tempo.

 

Se todas as gentes das aldeias tivessem

Em vez de arados e enxadas a raiva plena

Aos medos no Outono e no Inverno anjos

De lama guardariam as feiras e as chegas.


Os bois em suas torres de sinos de ouro

Seriam as aves últimas de Barrosos

Por aqui bestas e homens aguilhoam

O instante supremo para que um tombe.


Encontram-se nas sombras remexem-se

Rompem as queixas mostram-se os dentes

Os de cada povo gritam pelos campos

Abrem-se no rosto os próprios aguilhões.


Se os deuses quisessem fazer espantos

Asas teriam os bois coiro resplandecente

E decerto connosco estariam aqueles

Que negam o próprio coração e as vozes.


José Viale Moutinho    

segunda-feira, 27 de junho de 2022

OLHARES

Café Império.

O seu desaparecimento esteve anunciado, os trabalhadores, os velhos clientes, juntaram-se, a Câmara ajudou, e o que era uma ameaça do fim de mais um café da cidade, não se concretizou.

O piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Os pianos tocam sozinhos?

Não, não senhor, o piano é que está bêbado tal como no cantar calmo de voz de alcatrão do Tom Waits, a quem o madeirense-tripeiro JoséViale Moutinho dedicou um poema.

Sim, o piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Mais que uma vez, entro café dentro e olho o glamour daquele piano.

«Toda a gente gosta de música; o que tu realmente queres é que a música goste de ti.», uma grande verdade expressa pelo senhor Tom Waits.

PIANO BAR

                             a Tom Waits

 é dos bares com piano      estamos mo porto

deuses depois das duas horas      com vinho

sangue e versos e sinos e um videotape

em vez de teatro com cerveja e programas

o músico com asas quer fá bulas e cigarros

erguem-se aos beijos e aos abraços      por baixo

ah os pássaros apenas estes somos nós

 

um blue de brancos      uns trocos de sangria

um cubo de pedra com gaivotas de metal

sobre a fonte romana na praça do século XVIII

aprende-se música comenta de longe o pianista

as palavras entrecortadas à faca nas suas teclas

o amigo fabulosos e cheio de virtudes exige

mais ruas estreitas e mais longas noites

cruel…… faz os seus cigarros      fuma-os      ó fogo

de isqueiros e morte com tédio e gelos

 

bebem assim tantos os homens de tanta sede

a actriz despede-se      todos se encontram

sobre as mesas entre os corpos copos e garrafas

amadeo de souza cardoso ou modigliani

reservo o álcool para os olhos mortos comigo

 

cravo de horto      a frente tão maciça      força

quantas bandeiras se enovelam por aqui

sangrenta a mão abre      quatro uísques para

esta mesa      a salvação é o menos rápido

eis o pintor da mesa do canto      as chamas

a açucena das pequenas leituras e dos cinemas

havia de morrer logo após a meia-noite

 

arde a carne      a gordura acesa      a pele estala

e estes sapatos de cinza pelo chão correm

reconheço que nunca nos vimos no porto

desaperta a gravata     enforca-se com a gravata


José Viale Moutinho em Piano Bar

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Piano Bar

José Viale Moutinho

Capa: Henrique Cayatte

Colecção Caminho da Poesia

Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1988


Fragmentos para Motim

acima do silêncio nascia março

e os dentes dispersos pelos medos

eram outras tantas voltas em vão

 

sempre os rostos trocados      os rostos

sem mais nada     à cidade deixada de lado

somava-se a cárie     às ruas as gangrenas

 

as suas mãos cerravam-se com força

 

em que romances de caranguejos se vivia

 

sempre os rostos voltados     os rostos

sem mais nada     o país ainda próximo

as suas mãos agarravam-se aos medos

dessa primavera de sonos ásperos

sábado, 5 de dezembro de 2020

PARA DEZEMBRO


mas quantos dedos para dezembro

lha de quando teatro nos mares

que notícias me deixarás ainda

no sapato apodrecido deste natal

 

conheces-me já e saberás quem sou

o nome dessas árvores estranhas

o cantos dos pássaros domesticados

ou das sombras de câmara de lobos

 

numa noite por um saber de portos

a vista das escamas dos cardumes

regressar não é só pelas cinzas

esta ilha pertence ao fim de um ano

 

eis o dizer do rosto de dezembro

aparte os romances eu conheço-te

no inadiável talhar das pedras

mas onde estão as tuas asas ilha

 

em que mistério da rua dos ilhéus

nas linhas leves de isabella de frança

ou na tempestade da rua da carreira

é possível que haja natal este dezembro

 

José Viale Moutinho  poema retirado da antologia Natal… Natais

quarta-feira, 29 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO



Recordo-me ter lido umas instruções aos inquisidores que diziam, mais ou menos, isto acerca dos livros em exame: se houver algo a cortar, é cortar essas partes insidiosas, porém, se a obra não apresentar, a uma primeira leitura, nada de censurável, então deve ser totalmente proibida a sua edição, pois isso apenas pode significar que a insídia se encontra completamente disfarçada.

José Viale Moutinho

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

QUOTIDIANOS



José Viale Moutinho em Jornal de Letras, s/d.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010