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domingo, 3 de março de 2024

OS FANTASMAS DO NATAL PASSADO

«A maior parte das pessoas que vive e trabalha em Portugal não está contente com a situação económica, social e política do país. Mas não estar contente não significa querer uma situação ainda pior da que existe hoje. Muito menos continuar o processo de empobrecimento da grande maioria da população que persiste há décadas, independentemente de estar o PS ou PSD no comando.

Grande parte da campanha de Luís Montenegro consiste em garantir que não vai fazer o que sempre a direita tem feito no governo. Ao mesmo tempo que inscreve cortes fiscais para as maiores empresas e os contribuintes mais ricos, garante que não vai cortar nas pensões, salários e muito menos manter a situação de catástrofe que existe a nível da habitação, por total falta de ação dos governos para ir além do mercado. Estaríamos perante um grande milagre. Baixam-se os impostos aos muito ricos e os pobres sobem ao reino dos céus do rendimento. 

É uma operação difícil. Até porque vários expoentes da direita insistem em revelar ideias revanchistas no campo da imigração, interrupção voluntária da gravidez, falta de combate às alterações climáticas e mesmo advogar o não aumento de salários. 

Vários apoiantes da direita, nos estúdios de televisão e em comícios, têm feito uma tentativa de branqueamento da gestão do governo de Passos Coelho durante a Troika. Essa operação ideológica começa por falsificar as razões que levaram à crise de 2011, passa por ignorar que se comprometeram com o PS no plano de ajustamento da Troika e, sobretudo, pretende esconder que foram convictamente muito para além da Troika.

A chamada crise da dívida soberana precipitou-se depois da crise financeira mundial, devido ao rebentar da bolha especulativa financeira originada nas hipotecas subprime, que obrigou os estados a pagarem grande parte do buraco financeiro deixado pelos bancos privados.

No início da crise, um dos grandes cronistas do Financial Times comparava as políticas da Troika à decisão de um condenado à morte, a quem é dada a possibilidade de viver caso ensine inglês ao cavalo do rei. O homem aceita o desafio pensando: “Este ano, o rei pode morrer, eu posso fugir e até o cavalo pode aprender inglês”.

Não consta que a Troika e Passos Coelho tenham resolvido a crise, e nem que o cavalo tenha aprendido a falar inglês.

No dia 6 de julho de 2011, Passos Coelho garantia à Reuters que o governo queria ir para além das medidas da Troika, afirmando que não desejava ser um peso para os seus parceiros europeus, e garantindo a intenção de “surpreender e ir além do acordo”. Coisa que fez nos cortes de salários e pensões e nas privatizações de empresas estratégicas, altamente lucrativas, entregues a grupos privados estrangeiros a preço de saldos.

A crença ideológica de que havia uma “austeridade expansionista” e que quanto mais cortes de salários e pensões se fizesse melhor ficava a economia era sobretudo uma máquina de guerra para roubar salários e dar uma parte maior do rendimento ao capital.

A maior parte dos países que foi “ajudado” pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia não tinha dívidas públicas superiores à média europeia. E a chamada crise da dívida soberana não foi resolvida por estas medidas de austeridade, mas apenas pela declaração de Mario Dragui, governador do Banco Central Europeu, que devido ao falhanço dos programas de ajustamento, garantiu que faria tudo o que fosse necessário para salvar o euro, inclusive comprar dívida pública dos estados endividados. “Dentro do seu mandato, o BCE está pronto para, custe o que custar, preservar o euro”, disse Dragui, em Londres, na Global Investment Conference, a 26 de julho de 2012. Depois de uma pausa muito curta, acrescentou: “E acreditem, será suficiente.”

O falhanço do programa passista-troikista é evidente: foram retirados mais de 27 mil milhões de euros da economia, pela via do corte dos salários, das pensões e do aumento de impostos. Esta brutal sangria só reduziu o défice público em 9 mil milhões de euros, como faz notar Rui Peres Jorge no seu livro Os 10 Erros da Troika em Portugal.

Como escreve o economista João Rodrigues, no Público, a solução da crise estava nas mãos dos Banco Central Europeu e podia ter sido acionada há muito, não fosse a cegueira ideológica e a vontade de baixar estruturalmente os ordenados de quem trabalha.

“Na altura, a política de inação do Banco Central Europeu (BCE) permitiu que a taxa de juro das obrigações do tesouro nacional a dez anos chegasse aos 16%, com a dívida pública a ultrapassar os 120% do PIB. Tal não permitia continuar a fazer face ao serviço da dívida. Havia a alternativa da reestruturação por iniciativa do devedor. As elites do poder optaram por aceitar uma reestruturação liderada pelo credor, com austeridade destrutiva associada.”

“Quase dez anos depois, em plena crise pandémica, a dívida ultrapassou de novo os 120% do PIB, mas a taxa de juro das obrigações do tesouro nacional a dez anos ficou-se por uns residuais 0,25% e assim permaneceu enquanto o BCE quis, pois é este que pode controlar indefinidamente a taxa de juro de toda a dívida denominada na moeda por si emitida. É tão simples que a mente quase que bloqueia. Retrospetivamente, a austeridade imposta a partir de 2010-2011, com centenas de milhares de postos de trabalho destruídos e com centenas de milhares de portugueses compelidos a emigrar, a par do aumento da pobreza, foi um evitável desperdício, feito em nome da consolidação de um modelo neoliberal”, escreve João Rodrigues.

Na altura, o governo de Passos Coelho só não conseguiu ir mais longe, porque parte das medidas, como o corte de 10% das pensões superiores a 600 euros brutos, foram condenadas pelo Tribunal Constitucional, e o pagamento da TSU dos trabalhadores foi barrado por centenas de milhares de manifestantes em 15 de setembro de 2012, que precederam os mais de um milhão de pessoas que saíram às ruas a 2 de março de 2013, a dizer “Que se Lixe a Troika!”.»

Nuno Ramos de Almeida no Diário de Notícias de hoje

domingo, 18 de fevereiro de 2024

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


A voz é fraca. É uma criança palestiniana de 6 anos a sussurrar ao telemóvel. “O tanque está perto de mim. Aproxima-se.”

Sentada no centro de atendimento do Crescente Vermelho Palestiniano, o equivalente à Cruz Vermelha, a operadora Rana Faqih tentou manter a voz calma.

“Está muito perto?”

“Muito, muito”, respondeu a criança. “Estou com muito medo. Vem-me buscar?”

Assim começa o relato da BBC da gravação da comunicação entre uma criança de 6 anos e os Serviços de Emergência médica palestinianos.

Hoje, já sabemos que a criança, Hind Rajab, está morta. O seu corpo só apareceu 12 dias depois. O carro em que seguia com a sua família foi atacado por tropas israelitas e todos os ocupantes foram mortos.

Eram civis, como a maioria dos mais de 29 mil palestinianos mortos depois da invasão de Gaza.

Tudo se passou no dia 29 de janeiro. Eram 14.30 na Palestina. Uma família fugia de carro de uma zona que estava a ser atacada pelas IDF (Forças de Defesa Israelitas). Começaram a ser metralhados. Um dos adultos no carro fez uma chamada de socorro que caiu depois de se ouvir o som da metralha.

Os operadores do call center do Crescente Vermelho em Ramallah ligaram para o número do telemóvel  do tio de Hind, mas foi a filha dele de 15 anos, Layan, que atendeu.

Na gravação, Layan diz à equipa do Crescente Vermelho que os pais e irmãos estão mortos e que há um tanque ao lado do carro. “Estão a disparar contra nós”, afirma, antes de a conversa terminar com novo som de tiros e gritos.

Quando a equipa do Crescente Vermelho liga de volta, é Hind quem atende, com a voz quase inaudível, tomada pelo medo.

Fica claro que ela é a única sobrevivente no carro e que este ainda está sob fogo.

 “Esconda-se debaixo dos assentos”, orienta a equipa do Crescente Vermelho. “Não deixe ninguém vê-la.”

A operadora Rana Faqih permaneceu na linha com Hind cerca de três horas, enquanto o Crescente Vermelho pedia ao Exército israelita que permitisse que uma ambulância tivesse acesso ao local para socorrer a criança.

“Estava a tremer, triste, a pedir ajuda”, lembrou Rana. “Disse-nos que (os familiares dela) estavam mortos. Mas depois descreveu-os como ‘dormindo’. Então dissemos, ‘deixe-os dormir, não os queremos incomodar’.”

Hind continuou a pedir, repetidamente, que alguém fosse buscá-la.

“A certa altura, disse que estava a escurecer”, contou Rana à BBC. “Estava com medo. Perguntou-me a que distância ficava a minha casa. Senti-me paralisada e inútil.”

Depois de obter uma autorização das tropas israelitas, uma ambulância com dois socorristas dirigiu-se para o local para resgatar Hind. Tinham-se passado três horas.

Já anoitecia quando a equipa da ambulância informou que estava a chegar ao local e prestes a ser revistada pelas forças israelitas.

Esta foi a última vez que os dois paramédicos, que faziam o resgate, falaram para o Crescente Vermelho, segundo relata a notícia da emissora pública francesa RFI.

Hind Rajab, a menina palestina de 6 anos que ficou presa num carro, em Gaza, foi encontrada morta, a 10 de fevereiro, ao lado de cinco familiares mortos.

Os corpos dos dois paramédicos que tinham ido resgatá-la também foram descobertos perto, ao lado dos destroços da ambulância em que trabalhavam.

O porta-voz do departamento de Estado dos EUA, Matthew Miller, garantiu à comunicação social que o Governo norte-americano pediu, ao Governo israelita, que fosse esclarecido este “incidente”.

Este “incidente” faz parte de um genocídio que se passa com o nosso silêncio demasiado ruidoso. A nossa indignação é seletiva. Há gente que nós achamos que é normal ser morta, a quem não lhes atribuímos a categoria de humanos. Inventamos justificações criativas para varrer os corpos e o sangue para debaixo do tapete. Façam o favor de não incomodar os assassinos.

Nuno Ramos de Almeida, hoje, no Diário de Notícias

sábado, 24 de agosto de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO



O PAÍS arde.

Todos os anos o mesmo desespero: milhares e milhares de hectares de floresta ardida, vilas e aldeias cercadas pelas labaredas, habitações destruídas, perda de vidas.

Pelo meio as promessas governamentais de sempre.

Que será preciso para que os responsáveis governamentais e autárquicos, de uma vez por todas, se deixem de palavreado balofo para os directos das televisões, e criem condições precisas e concretas para que, todos os anos, os fogos não sejam uma fatalidade com que temos de nos conformar.

Um fogo florestal, como um dia escreveu Ruben de Carvalho, tem sempre um de três beneficiários: madeireiros, loteadores de construção civil e a rede de interesses ligada à eucaliptização.

Até quando?

Em Setembro esquecemos o fogo e o cheiro da terra queimada.
Em Outubro a chuva já levou a cinza.
Em Novembro apercebemo-nos de que já não encontramos a árvore onde escrevemos a canivete o nome do nosso primeiro amor.
Em Dezembro decoramos a sala com um pequeno pinheiro de plástico.
E então em Junho do ano seguinte os dias voltam a ser mais curtos e o fumo cobre-nos o corpo, entranha-se na roupa, tolha-nos a visão.
Foi isto que Solvstag me disse e é isto que vos digo.

A NAÇÃO BENFIQUISTA está em polvorosa.

O querido líder apareceu nas televisões tentando colocar água na fervura.

Mas não disse o que os benfiquistas queriam ouvir:

- por que Jorge Jesus se perpetua no lugar de treinador e não foi embora após o descalabro da última época.

- por que não são transparentes as contratações, os empréstimos, as vendas dos jogadores.

- por que se continua a apostar em obscuros jogadores estrangeiros colocando  de lado jogadores portugueses que, raras vezes, têm uma oportunidade na primeira equipa.

A isto, a muito mais, Luís Filipe Vieira nada disse.

No que ao país concerne, faz lembrar o Pedro: o rumo que o Benfica tem seguido nos últimos anos é para manter.

A família benfiquista reage muito por impulso. Vale a pena as pessoas não terem a memória curta. Não vale a pena entrar por um caminho que põe em causa o que fazemos. Nós crescemos bastante com Jorge Jesus, ele evoluiu bastante connosco. Não podemos, de um momento para o outro, cortar este ciclo. Seria terrível para o Benfica começar outro ciclo.

COMPLETAM-SE AMANHÃ 25 anos sobre o incêndio que destruiu o Chiado.

Um das iniciativas agendadas pela Câmara Municipal de Lisboa, para evocar a efeméride, inclui um simulacro do incêndio.

Pergunto-me como é possível que a estupidez, a falta de bom senso, a ausência de sensibilidade ,chegue a estádios de indigência deste tipo.

Esfregar os olhos muitas vezes, e com força, para se ficar a saber que é mesmo possível que isto vá acontecer.

O SINDICATO DA CONSTRUÇÃO CIVIL denunciou a escalada de situações de escravatura de trabalhadores portugueses do sector, quer em Portugal, onde recebem 300 euros mensais, quer no estrangeiro, para onde são levados por angariadores e redes mafiosas.

DE UM ARTIGO de Nuno Ramos de Almeida no jornal I:

Se lermos a "História de Portugal" organizada por José Mattoso, verificamos que no início do século xx, com uma população escassamente alfabetizada, "O Século" e o "Diário de Notícias" vendiam, cada um, cerca de 100 mil exemplares por dia. Em pleno século xxi, os nossos jornais têm muito menos leitores. Não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.

Legenda: imagem do Diário Digital.