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domingo, 22 de fevereiro de 2026

TEMPOS INTERESSANTES

«Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: 'Desejo-te que vivas numa era interessante'. Nós estamos a viver numa era interessante.»

Umberto Eco em entrevista ao Expresso, 07.09.2015

terça-feira, 13 de agosto de 2024

POSTAIS SEM SELO


O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Umberto Eco

sexta-feira, 5 de abril de 2024

POSTAIS SEM SELO


As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a colectividade.

Umberto Eco

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


Acredito que aquilo em que nos tornamos depende do que os nossos pais nos ensinam naqueles momentos bizarros, quando não nos estão a tentar ensinar. Somos formados por pequenos fragmentos de sabedoria.

Umberto Eco

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO


 A minha infância foi o meu avô, mais do que o meu pai. Odiei a minha mãe, que tinha partido sem me avisar, o meu pai, que não tinha sido capaz de fazer nada para o impedir, Deus porque tinha querido aquilo, e o avô porque lhe parecia normal que Deus quisesse coisas assim.

 Umberto Eco em OCemitério de Praga

 Legenda: fotografia Shorpy

sábado, 9 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


O Cemitério de Praga

Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Capa: Pierluigi Buttò
Gradiva, Lisboa, Março de 2011

É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora o sentido da identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É necessário cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos justificados na própria miséria. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto. Falava contra natura. Não se ama alguém para toda a vida; dessa esperança impossível nascem o adultério, o matricídio, a traição do amigo… Pelo contrário, pode-se odiar alguém durante toda a vida. Desde que esteja sempre lá, para reacender o nosso ódio. O ódio aquece o coração.

domingo, 11 de setembro de 2016

SIM, CULPAR OS OUTROS...


No caso das Torres Gémeas sabe-se que a Al-Qaeda se organizou para as destruir, mas na conspiração paranoica não foi a Al-Qaeda mas sim os judeus e o presidente Bush.
Quando não se quer reconhecer que se é um imbecil, culpam-se os outros. Aliás, basta ver que todas as religiões do mundo resultaram de conspirações: há sempre um deus que fez isto ou aquilo. Mesmo que tenha sido eu a matar semelhantes numa guerra, logo se aponta para uma maquinação da divindade e que é responsável pelo acto.

Umberto Eco

domingo, 28 de fevereiro de 2016

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Acredita que há futuro para a imprensa tradicional?

Respondeu:

Não sei, porque também houve um tempo em que se dizia que a bicicleta iria desaparecer e tal não aconteceu, pois agora vejo toda a gente a pedalar. Há uma redescoberta contínua de certas práticas consideradas em perigo, tanto assim que me dizem que o único sector editorial que está em crescimento é o da literatura infantojuvenil. O que vejo é que as crianças ainda gostam de folhear os livros e reparo que cá em casa a primeira coisa que o neto faz é ir ver os livros. Não liga aos jogos ou à televisão, portanto as novas gerações poderão continuar a ler e a querer tocar nas páginas de papel, bem como deixar os restos de bolos colados às páginas e reencontrar essas marcas na velhice, coisa que não se encontra numa pen ou num disco rígido.

Umberto Eco

Legenda: pintura de Toulouse Lautrec

domingo, 21 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Estive num alfarrabista na zona do Chiado e encontrei seis volumes que me interessavam muito e que não eram demasiado caros. Comprei-os, paguei e pedi para mos enviaram para casa. Dias depois houve o grande incêndio e achei que nunca mais os veria, felizmente o livreiro tinha-os expedido na véspera da tragédia.

Umberto Eco numa entrevista ao Diário de Notícias

sábado, 20 de fevereiro de 2016

UMBERTO ECO (1932-2016)


Morreu Umberto Eco.
Há dias em que o blogue mais parece um cemitério!

domingo, 23 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


No início doas anos 90, apenas algumas pessoas possuíam telemóveis. Mas mesmo esses eram já suficientes para transformar uma viagem de comboio num tormento.

Umberto Eco

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Bandolino

Umberto Eco
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Clementina Cabral
Difel, Lisboa, Setembro 2005

-  Era uma bela história. É uma pena que não venha ninguém a conhecê-la.
-  Não te julgues o único autor de histórias neste mundo. Mais tarde ou mais cedo há de haver alguém, mais mentirosos que Bandolino, que a contará.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Ao mostrar as suas virtudes sabia que uma metade ostentada e outra deixada entrever valem mais que um todo abertamente declarado.


Legenda: fotografia de Edouard Boubat

domingo, 25 de julho de 2010

O CADERNO


Este é o primeiro livro de José Saramago que a Editorial Caminho publica, fazendo parte, juntamente com outras editoras, dessa coisa que dá pelo nome de Leya.

Por um tempo, que não posso precisar, li uma entrevista do escritor chileno Luís Sepulveda em que dizia: 

«Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros como se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.»

Bom, mas isto é uma outra história…


Com O Caderno”José Saramago entra no reino da blogosfera, «a págima infinita da blogosfera», como afirmou.

«O blog vai iluminando o caminho do seu autor, é essa a sua virtude», lê-se na contra capa.

«Comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim o que vier a talhe de foice.»

Assim é: este 1º volume, publicado em Março de 2009, reúne textos escritos entre Setembro de 2008 e Março de 2009.


 O 2º volume , publicado em Janeiro de 2010, reúne textos escritos entre Março de 2009 e Novembro do mesmo ano.

O 2º volume contém o prefácio que Umberto Eco, escreveu para a edição italiana destes cadernos.

Umberto Eco lembra que Saramago mantém um blog «onde se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muitos lados – mas frequentemente não por dizer coisas que não deve dizer, mas porque não perde a medir as palavras – e talvez o faça mesmo de propósito.” (…) e afinal Saramago não faz cerimónias, ou seja, não o manda dizer por outro e, na sua actividade de comentador da realidade que o rodeia, tira a desforra sobre toda a imprecisão sinistra das sua fábulas.»

A seguir, fica o primeiro “post” de “ O Caderno”, escrito em 17 de Setembro de 2008:

«Mexendo nuns quantos papéis que já perderam a frescura da novidade, encontrei um artigo sobre Lisboa escrito há uns quantos anos, e, não me envergonho de confessá-lo, emocionei-me. Talvez porque não se trate realmente de um artigo, mas de uma carta de amor, de amor a Lisboa. Decidi então partilhá-la com os meus leitores e amigos tornando-a outra vez pública, agora na página infinita de internet e com ela inaugurar o meu espaço pessoal neste blog.
Palavras para uma cidade
Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…
Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.
O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.
Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.
Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.
Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.»