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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Poemas Com Cinema

Antologia organizada por

Joana Matos Frias

Luís Miguel Queirós

Rosa Maria Martelo

Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010


Cinemas King (Sessão Da Meia-Noite)


Deixa passar oito minutos

entra já às escuras, segue

o foco da lâmpada na

escuridão. Observa,

se puderes, o travelling

a reflectir-se, trémulo,

em rostos desconhecidos.

Guarda o bilhete rectangular

no bolso do casaco e senta-te

na primeira fila, para que a

vista arda. Depois respira

fundo. Sabes como funciona:

a verdade (e a mentira) em

24 imagens por segundo.

 

José Mário Silva

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

BRANCO

Interessa-me o inconcreto branquejar

da roupa no estendal (o branco, não)

 

mais do que o peso da água, ver

que o nada não se vê na água a evaporar

 

na luz do tecido em contraluz interessa-me

o vazio suspenso do vazio

quando a roupa enforma ao vento e sobe

no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,

os voos desabitados a a pequena hora de ninguém.

 

Maria Rosa Martelo em Resumo: a poesia em 2013

sábado, 30 de julho de 2011

LIRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
– sem frio nem perda nem desastre –
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.

Rosa Maria Martelo no Público