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terça-feira, 17 de março de 2026

RETRATOS


Quando o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que mostrava as horas ao contrário.

As tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.

Mas não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.

A actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como outras de medir o tempo”.

E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra vez. E, como sempre, é ele que está certo. 

domingo, 6 de abril de 2025

CONVERSANDO


 O que ontem se publicou em Sublinhados Saramaguianos serve apenas para registar onde pode chegar a ignorância, a maldade, a inveja, o ódio.

Tentado que estive a colocar uns comentários, acabei por desistir.

Sou um saramaguiano à minha maneira.

Nunca fui coleccionador de primeiras edições, nunca frequentei lançamentos de livros e apenas tive um brevíssimo diálogo com José Saramago na Festa do Avante de 1977, e nesse dia fiquei com o único autógrafo que pedi e se encontra no livro O Ano de 1993.

Contudo, se tenho primeiras edições dos livros de Saramago, é porque me apressei a comprá-los para os poder ler, e apenas por isso.

Não conheço o trabalho da jornalista Christina Martins. Já há um bom tempo deixei, por motivos de higiene, de ler o Expresso. O que António Guerreiro, escreve na sua crónica do Público, serve para memória futura.

Para além dos livros de Saramago, tenho vindo a comprar obras de autores que tratam da obra e do cidadão José Saramago.

É o caso de Um País Levantado em Alegria de Ricardo Viel, publicado por ocasião dos 20 anos sobre a atribuição do Nobel a Saramago.

Para amenizar a azia que me saltou, poderia recorrer a uma Rennie, mas peguei neste livro e copio do prefácio de Eduardo Lourenço:

«O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo à violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José Saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta.»

Onde é que aqui entra o pormenor de Isabel da Nóbrega ensinar José Saramago a comer com faca e garfo?

 Valham-nos os deuses todos, mas todos mesmo, do Olimpo!

domingo, 17 de novembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Cerejas

Poemas de Amor de autores portugueses antologiados por Gonçalo Salvado

Capa: Desenho de José Guimarães

Editorial Tágide, Fundão, Junho de 2004

Quando François Mitterrand instalou pela primeira vez (e última) o socialismo no trono de Deus (o do poder) pediu a Barbara Hendrix para cantar a mítica canção da Comuna, «Le temps des cerises». Quer dizer, o tempo da esperança e da felicidade quem com candura e fervor populares, o primeiro povo de esquerda tirou do seu coração. Mais lírica do que revolucionária, a canção popular instalou na memória o fruto de Maio em vez da rosa de todas as estações. E aí ficou, pois ainda há pouco mais de vinte anos o último «socialista» do Ocidente se lembro dela para símbolo de uma vitória destinada a celebrar uma alegria comum e tão plural como a da pouca aristocrática cerejeira.

Esta metamorfose do trivial em fraternal, do fruto que não extingue a sede nem a fome, mas apenas as decora, como a guirlanda que as raparigas outrora convertiam em brincos, foi sol de pouca dura. Politicamente, o tempo das cerejas parecia fadado para a nostalgia como o da hora que inventou a canção e a sua música. Mas como a da cerejeira é uma nostalgia futurante, casa Primavera no-la traz de volta. Era assim também no tempo de Tchekov e contudo ele converteu o «cerejal» no mais nostálgico dos jardins. O tempo do cerejal não é o das cerejas e da sua gloriosa trivialidade. É o da sua flor tão onírica como a das amendoeiras. A Tchekov não lhe lembrava a neve, que o não precisava, mas só o tempo frágil de um Maio tão magicamente florido como logo sumido no esplendor do tempo e do Verão. O tempo das cerejas é o que fica connosco, o que se guarda nos olhos e na boca e do Verão. O tempo das cerejas é o que fica connosco, o que se guarda nos olhos e na boca e não precisos de ser lembrado. O tempo das flores do cerejal é o que se está esquecendo de nós enquanto contemplamos a sua evanescente realidade cor-de-rosa que é só rosada aurora sem crepúsculo. É essa, afinal, aquela que a canção evocava. Entre a flor e o fruto a vida passa sem se despedir. A nossa, claro.

Texto de Eduardo Lourenço

terça-feira, 25 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 José Rodrigues Miguéis: Uma vida em papéis repartida

Actas do colóquio realizado no Padrão dos Descobrimentos em 8, 9 e 10 De outubro de 2001

Coordenação: Onésimo Teotónio Almeida

e Manuela Rêgo

Intervenções: João Medina, António Reis, Guilherme d’Oliveira Martins, Ernesto Rodrigues, Paula Morão, Eugénio Lisboa, Maria de Sousa, Raúl Hestnes Ferreira, Luísa Ducla Soares, Teresa Martins Marques, Eduardo Lourenço, entre outros.

Capa: Ernesto Matos

Edição: Câmara Municipal de Lisboa, 2001

A edição das obras completas de Miguéis (13 volumes) pelo Círculo de Leitores teve 5000 compradores, pese embora o facto de em não poucos casos se tratar de encadernações que estão simplesmente a adornar estantes em novas-ricas casas.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


Falhada ou triunfante, toda a escrita é um exercício de imortalidade.

Eduardo Lourenço

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Começamos a existir quando se repara na nossa ausência. Em geral tarde. Em Portugal, nunca

Eduardo Lourenço

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Um mês, e mais alguns dias, que vamos percorrendo sem a Eduarda Dionísio.

Se já pouco lhe ligavam em vida, após a partida, apenas sombras e silêncios.

Fui à estante e percorri páginas e mais páginas de Retrato de Um Amigo Enquanto Falo.

 Aqueles extraordinários anos 60. Depois o início dos anos 70.

Os «revisas», os «troskas», os «maos».  No meio de tudo isto um ele que (ainda) conseguia unir – o ódio de morte à ditadura fascista. Depois foi o golpe do Pinochet no Chile. A grande discussão. Uns copos bebidos no tasco do costume Foi quando o Pedro quis escrever um artigo contra Salvador Allende. E alguns de nós a pensar que a censura até o deixaria passar. Sabendo-se que a censura cortaria tudo o que referisse o governo de Unidade popular. A mais leve evocação que fosse. Foi terrível. Foi também a divisão. E ainda não chegara o 25 de Abril. E agora nem sequer nos encontramos no tal tasco para um copo. Os sobressaltos dos  anos 60/70. O desespero. A esperança. O tempo das opções. As hesitações. As grandes e inultrapassáveis hesitações. Os livros do Marx, do Lénine , da Rosa Luxemburgo, do Mao, lidos à sucapa. Passados de mão em mão. Traduções péssimas mas as únicas que tínhamos. E sabemos com que riscos.

Portugal anos 60 e 70: o 25 de Abril. Um itinerário. Ou seja: o livro da Eduarda Dionísio, Retrato de Um Amigo Enquanto Falo. Um livro lindo que apetece ter sempre no bolso do casaco. A tal malta dos anos 60/70 está ali toda, está lá (quase) tudo. Um som e um ambiente ainda a pssar pelas veias. Levámos pontapés. Tivemos alegrias. Resistimos. Optámos. Aprendemos. Aprendemos mesmo? Um tempo vivido em bruto sem tratamentos de ácidos e cloros. Também uma certa ternura. Este livro não é uma romagem de saudade. Saudades só do futuro.

Eduardo Lourenço:

«Desta geração, em sentido literário, mais que vital, poucas expressões me parecem tão significativas como a que ficou consagrada em Retrato de Um Amigo Enquanto Espero, de Eduarda Dionísio.»

 Jorge Listopad:

«Li o livro, nas primeiras páginas, devagar. Como se lê em línguas abstractas, mal aprendidas. À medida que se avança, o discurso – e a leitura – acelera-se, precipita-se, ritmando em filigrana rostos, cenários, brincando por entre as arcadas como Maria Casarés, a bela morte, no «Orfeu» de Cocteau. Histórias da vida encobertas. Um diário que esconde a matéria-prima, mas revelando-a. Itinerário. Eu sou apenas um leitor. As críticas que fiquem para os outros. Há outros? Haverá?»

Para os «encartados» como dizia o Eduardo Guerra Carneiro.

 Fui buscar memórias de antes de Abril, mas este livro da Eduarda é um documento desencantado sobre o tempo que sucedeu ao que foi a Festa do 25 de Abril, que nos estragaram, que estragámos.

Um livro que não poderá deixar de ser lido, um livro que muito releio. Um livro que me sabe às manhãs da amizade, gentes que, por isto e por aquilo, deixei de ver, que gostaria de reencontrar para apanhar pontas de um novelo, um estranho novelo, diga-se.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

O GOSTO DE PALEAR


«Do que eu gosto é de paleio… Passei a primeira parte da minha vida nos cafés a palear, fornecendo matéria para alguns camaradas e ouvintes escreverem o que eu dizia. Se tivesse continuado em Portugal acho que não tinha escrito nada. E se tivesse nascido milionário seria pior que o Mandarim do Eça…»

Eduardo Lourenço 

terça-feira, 15 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 O amanhã de há cem anos, uma aldeia ribatejana verá nascer um português que virá a ser Prémio Nobel da Literatura.

Anabela Mota Ribeiro, aquando da publicação de As Pequenas Memórias, entrevistou José Saramago.

Passemos os olhos por parte dessa conversa:

«Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros (Terra do Pecado e Clarabóia). Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966.

O segundo momento foi em 1975, quando depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. «E agora, o que é que eu faço? Ternho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca.»

Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o Manual de Pintura e Caligrafia, e o Objecto Quase. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever Uma Viagem a Portugal, em 1979-1980. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ou dois anos o trabalho da escrita, sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro – ele já estava ganho.

O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.

Como é que vou ser recordado? Se calhar vou pedir o impossível: eu considero-me boa pessoa. Então, que nem a pessoa que sou apague o escritor que também sou, e que nem o escritor que sou apague a pessoa que sou. Se calhar é muita sorte alguma destas ficar. Que fiquem as duas, é capaz de ser impossível.»

Legenda: Contracapa de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Migueis. É um trecho de uma carta de Saramago para Migueis em que Saramago lhe conta que está para ser substituído, como director editorial, por Natália Correia, uma sacanicezinha levado a cabo pelos proprietários da Estúdios Cor.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Antologia

António Osório

Prefácio, Organização, notas: Eduardo Lourenço

Capa: Rui Ligeiro

Editorial Presença, Lisboa, 1984

 

Querida Tia Egeria

 

Querida Tia Egeria, com sapatos

de há tantos anos, um gato,

fotografias, lençóis da tetravó,

residente na bondade de dar tudo,

casada com vasos de gerânios.

 

Neto teu, debaixo do travesseiro

de minha Mãe escondias

todas as noites amêndoas.

Com quatro anos vi contigo

um comboio infindável,

formigueiro de carruagens, vagons,

barulho rolando

e eu dizia adeus, beijava a gente

que o bafo dentro embaciava.

E foste tu quem me levou

Pela mão à porta do Paraíso. 

domingo, 15 de agosto de 2021

SARAMAGUEANDO

15 de Novembro de 1991

No Público, pode ler-se: «Saramago discute Deus em Almada». Eduardo Lourenço comenta: «Isso não é nada. Ainda havemos de ver: «Deus discute Saramago em Almada.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume I

terça-feira, 9 de março de 2021

NÃO SOU PROSTITUTA NEM PEDERASTA PÚBLICO


 Eu, meu caro, estou farto de ser um grande escritor desconhecido, quando todos os medíocres são louvados e «ensaiados». Não se abre página ou revista portuguesa em que não apareçam largos nacos sobre a poesia do fulano e a do sicrano, entrevistas com o mais recente novelista, etc., a ponto de dar nojo. Vive-se comemorando os 25, os 30, os 40, os 50, os 70, a puta que os pariu, anos da vida literária ou civil de toda a gente. Ainda agora se acocoraram diante do X, que aliás estimo pessoalmente e admiro. Alguém se lembrou dos 30 anos da minha vida literária, dos 25 anos do meu primeiro livro? Não: porque não sou prostituta, nem pederasta público, nem chefe comunista, nem director de editorial, nem seareiro, nem vértice, nem o diabo. Mas sempre se tentou, no meio de tanta admiração, usar o Eugénio, a Sophia, o Ruy, o Kim, o Portugal, os meus amigos, para eu ser diminuído na comparação. Ora bolas para a admiração que têm por mim.

Eu não preciso que ninguém me diga que sou um dos maiores poetas da língua portuguesa, um dos contistas mais originais, um dos críticos mais sérios e importantes, autor de algum do teatro mais significativo do século. Eu sei que sou. Mas o público e o estrangeiro precisa. De modo que os meus admiradores e amigos na sua contemplação devotada irmanam-se aos meus inimigos, ou melhor, àqueles que me detestam pelo simples facto de eu existir. E este é o ponto. No fundo, meu caro, concordo que sou too much, que aquela cultura de borra não precisa de uma pessoa como eu – como nunca precisou de nenhum dos seus grandes enquanto vivos, a não ser que se talhassem em bronze, possidónios e fariseus, como o Antero & Cª.

De uma carta, datada de 8 de Junho de 1967, de Jorge de Sena para Eduardo Lourenço em Correspondência 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Morrem as personalidades e somos invadidos por arremessos de genialidade e outras variantes.

Há semanas, aquando da morte de Eduardo Lourenço e um panegírico traçado por Clara Ferreira Alves no Expresso, António Guerreiro abriu, no Público, o seu Livro de Reclamações e colocou o texto que acima se lê.

Das duas-páginas-duas que Clara colocou semanário, Guerreiro destaca:

«Eis como me lembro dele. Uma casa, a minha. Em Lisboa. Um longo corredor cheio de estantes, e lá andava Eduardo Lourenço a cirandar à cata de livros.»

Um dia, Eduardo Lourenço foi a casa da Clara, que é em Lisboa e tem um longo corredor cheio de estantes, e por lá andou a olhar livros.

Que dizer?

António Guerreiro disse tudo.

Lembro-me, a propósito de quê? Das enormes duas páginas da Clara no Expresso? - de um livro de Baptista-Bastos, O Secreto Adeus, em que Raquel pergunta ao jornalista Álvaro Moreira:

« - É verdade que vocês já têm biografias escritas de celebridades que estão com os pés para acova?

- Sim, temos algumas.

- E se uma celebridade morre de repente, sem ninguém esperar?

- Nesse caso, o chefe encarrega um redactor de escrever a história.

- Um redactor especializado? Por exemplo, morre um escritor; é um jornalista especializado em assuntos literários quem lhe faz a biografia?

Claro que não era. Não havia jornalistas especializados em coisíssima nenhuma. Os que se especializavam faziam-no por conta própria, e depois, nunca os encarregavam daquilo para que estavam mais indicados. A maioria das vezes, até, a informação para o leitor era incorrecta ou filtrada através da simpatia ou antipatia política, pessoal ou artística, ou feita sem perfeito conhecimento de causa.»

 

1.

Voltaram a enfiar-nos num confinamento.

Hoje registaram-se 156 mortes e 10. 556 pessoas infectadas.

Há quatro dias que morrem em média 6 pessoas por hora.

Tempos dementes.

Angústia para aqui, angústia para ali…

Vou voltar a perder o fio à meada

Voltarei a reler A Peste de Camus, voltarei a reler O Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago?

2.

De uma canção do folclore do Alaska:

«Se eu pudesse morrer como quisesse».

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

...E OS DIAS DIMINUEM

Os livros não são lidos, os filmes não são vistos, os quadros não são olhados.

Alguns nem ouvem o que vão dizendo ao longo dos tempos, ah!, mas quando morrem, explode o palavreado, a genialidade que alguns até nunca tiveram. Se é que isso de génios é algo que tenha de se exaltar.

Ainda tenho para aí o esboço de algo que quis fazer sobre os geniais-disparates que se escreveram e disseram na hora da morte de Agustina Bessa-Luís.

Há dias foi a morte de Ribeiro Telles que tanto falou e escreveu  de como é que as coisas deviam ser feitas para que as cidades, onde vivemos, fossem cidades felizes, e ninguém seguiu, ou tentou seguir sequer, o que ele disse.

Agora na morte de Eduardo Lourenço foi o que se viu e ouviu.

Ele que sempre foi um homem amável, de uma simplicidade de enlouquecer.

Num dia longínquo foi a Matosinhos e, como tantos e outros portugueses, pela primeira viu o mar.

«Da minha aldeia não se via o mar», disse numa entrevista ao Diário de Notícias.

1.

 Algumas mortes também são nossas mortes.

 2.

 O meu medíocre português tem piorado com a pandemia.

Nada me sai com tino, não pego nos livros da maneira como passei toda uma vida a pegar.

 3.

 A Organização Mundial da Saúde alertou para a subida da fadiga pandémica que pode atingir até 60% dos membros de certos grupos, traduzida por uma apatia que faz baixar a guarda e desleixar as estratégias preventivas. 

 4

 Nos primeiros oito meses deste ano, venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos.

 5.

Li num jornal atrasado que a Igreja Católica admite suspender a realização da tradicional Missa do Galo, no Natal, devido à pandemia.

«Nós não brincamos com a saúde das pessoas», disseram os eclesiásticos.

 6.

 Um título, também atrasado, do jornal Público dizia: «Precisa-se de quem saiba flaar de Covid-19. Entrada imediata»

 7.

 Dos 2141 presos libertados durante a pandemia, 154 voltaram à cadeia por crime ou violação das regras.

 8.

 Segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector da restauração.

 9.

Numa farmácia perto de si, no centro de saúde da zona onde vive, desde Setembro que Ana Gomes  não conseguia vacinar-se contra a gripe. Uma amiga trouxe-lhe a vacina de Paris. A Infarmed disse que isso é proibido. Ana Gomes desconhecia. Eu também. Mas o pior foi quando a candidata a presidente da República refere haver vacinas reservadas para certas empresas e grupos económicos.

Parece-me ter ouvido bem.

10.

Houve um tempo em que me traziam caramelos de Badajoz.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)

Morte de EduardoLourenço.

«Há muito que conversar, e, ainda que não houvesse, a gente fica a olhar um para o outro, verificando como o tempo e Portugal nos devoram.»

 Carta, 13 de Março de 1976 de Jorge de Sena para Eduardo Lourenço em Correspondência.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

SARAMAGUEANDO

Há um pedacinho nas Férias de Agosto de Cesare Pavese em que se lê: «… e era já manhã, um outro dia tranquilo. Recordo o perfume quente, as vozes nas ruas. Sei onde cai a uma certa hora a quadra do sol na tijoleira da sala.»

 Eu, ainda hoje, recordo a intensidade do sol, as vozes no quiosque, em Manteigas, quando olhei a capa do «24 Horas» e li que José Saramago poderia ganhar o Nobel. Comprei o jornal, não que eu acreditasse que alguma vez a Academia Sueca faria a atribuição do Nobel a um escritor de língua portuguesa e muito menos a um escritor português.

 Mas aconteceu.

 Um escritor português ganhou o Nobel, foi o primeiro.

 Terá sido o último?

 Um país então levantou-se em alegria, escreveu na altura Eduardo Prado Coelho:

 «É possível, como se viu nesta semana, que um país se levante em alegria porque alguém ganhou um prémio de literatura.»

 Muitos já terão esquecido essa alegria.

 Esteve bem a Fundação José Saramago, pelos 20 anos da atribuição do Nobel,  em publicar um livro, Um País Levantado em Alegria, da autoria de Ricardo Viel em que se desenha o caminho do que foi esse acontecimento, algo que se perdeu nas páginas dos jornais da época, acrescentando episódios desconhecidos.

 Em cento e setenta páginas viajamos por esse tempo que eu, mais alguns, direi inesquecível, e disso se dará conta por estes dias de triste e terrível confinamento.

 O livro abre com um texto de Eduardo Lourenço a que chamou «A mão esquerda de Deus…»:

 O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo á violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta. Isso não o coloca fora de uma mais arcaica tradição nacional: a do alegorismo que é sempre espelho de uma verdade já revelada. No horizonte da sua ficção há essa íntima convicção de uma verdade de rosto exclusivamente humano que lhe servirá para invocar, por contraste, a inumanidade ofuscante que caracteriza o tempo da cegueira que nos coube. E lhe coube. Salvou-o da hagiografia e do dogmatismo um miraculoso dom de ironia e uma quase inexplicável candura ou simplicidade diante da vida, que a vontade e poderio e o cego arbítrio tantas vezes desvirtuam.

De hoje em diante haverá um «mito Saramago» como existe em torno de Fernando Pessoa, que, como todos os mitos, não tem tanto a ver com o valor das respectivas obras, mas com o vazio que vêm preencher no nosso imaginário nacional em busca do reconhecimento universal. Toda a nossa cultura beneficiará dessa aura que poderia ter recaído sobre outros, mas lhe coube e assenta como um diadema invisível ao autor de Todos os Nomes, a mais bela e profunda das suas alegorias.»

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

OLHAR AS CAPAS



21 Retratos do Porto Para o Século XXI

Diversos autores
Coordemação de José da Cruz Santos
Apresentação de Eduardo Lourenço
Capa e Direcção Gráfica de Armando Alves
Edições ASA, Porto, Novembro de 2004

Um dia a Ti Mariana do Ambrósio desceu a rua com o cesto à cabeça e chamou à minha porta:
- Ó Maria?
A minha mãe foi à janela:
- Diz Mariana.
- O teu rapaz está aí?
- Está. Entra.
A Ti Mariana subiu as escadas e, no átimo de transpor a soleira da porta, saudou:
- Deus seja aqui.
- E o diabo em casa do padre – respondeu a minha mãe.
A Ti Mariana depôs o cesto no chão e voltou-se para mim que permanecia sentado à mesa às voltas com um naco de presunto, pão e vinho:
- Isto – e indicou uma cestada de alfarrábios – lá em minha casa, onde ninguém sabe ler, servem apenas para entreter os ratos. Agora, como tu andas lá nos estudos, lembrei-me de que talvez lhes possas dar outro destino.
Por isso tos trouxe. Se os queres muito bem. Se não, fogueira com eles.
- Claro que quero, Ti Mariana. Onde é que a enhora foi desenterrar estes veneráveis incunábulos?
- estes quê?
- estas antiguidades?
- Eram dum meu tio-bisavô padre que, segundo dozem, tinha a sala onde dormia forrada de livros. Mas foram desaparecendo. Restam estes. Agora desocupa-me o cesto que precisos deles para ir às couves.

De um texto de Bento da Cruz.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Eternas são as pessoas que ficam na nossa memória, no nosso coração, depois de termos sofrido a prova suprema da sua falta, da sua ausência – e essa incurável.

Eduardo Lourenço

segunda-feira, 19 de março de 2018

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A pide era uma máquina objectiva e formal cujo primeiro dever consistia em dissimular a sua própria actividade e paradoxalmente impô-la como «normal». Quando «Corpo-Delito» a toma como tema, a normalização da sua incurável «anormalidade» é praticamente perfeita. A máquina tortura, a máquina prende, a máquina escuta num anonimato feliz, eficiente. Cardoso Pires apresenta-nos os seus agentes-personagens como siglas, absorvidos na e pela função, tendo perdido há muito qualquer reflexo humano em relação ao que a máquina «faz» ou «executa» e de que ele são, à letra, os executantes.

Eduardo Lourenço no prefácio a Corpo-Delito na Sala de Espelhos

Legenda: fachada da sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso.