O Sol, no dia
em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.
Legenda: fotografia tirada do sítio do costume.
O Sol, no dia
em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.
Legenda: fotografia tirada do sítio do costume.
Tanta gente para, ao longo do país, olharem a lua
tapar o sol.
A Maria
Judite de Carvalho, num dos seus livros, diz: «Todos estamos sozinhos,
Mariana; Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém
vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma
esperança.».
As
televisões, com a mediocridade, a banalidade habituais, com que abordam tudo o
que tocam, ocuparam todo o tempo, do antes e do depois, do eclipse do sol.
A cmtv colocou
em «alerta»: «o eclipse está a fascinar os portugueses».
Algures, um
português diz ao repórter: «a graça disto, deixa um gajo maravilhado!»
O
primeiro-ministro, ainda antes do eclipse, afirmou, em Cascais, aos
jornalistas:
«O governo trabalha todos os dias,
24 horas por dia, sete dias por semana", deixando ainda um pedido, uma reflexão à
comunicação social sobre as suas prioridades.
E, ternamente, voltei a ouvir falar de Rio de Onor, uma aldeia com 43 habitantes, que recebeu centenas de visitantes, pois era aí que o eclipse se mostraria a 100%.
«Além de ser uma notícia com carga emocional positiva, é um fenómeno irrepetível para muitos de nós, pelo menos em Portugal: o último (total) foi em 1912- e o próximo será em 2144. A excepção são os caçadores de eclipses, que andam pelo mundo à procura de ver a Lua ensombrar o Sol: alguns podem ficar-se apenas pela Península Ibérica (caçadores parciais) e terão a sorte de poder assistir a três entre 2026 e 2028 — e temos alguns desses nesta redacção.
A corrida aos óculos, que a 24 horas do eclipse surgiam à venda com preços que iam dos 10 aos 100 euros em plataformas de revenda online, comprova que há um certo fascínio na escassez e que fenómenos destes são imperdíveis.
Logo à tarde, haverá milhares, quiçá milhões, de telemóveis apontados ao céu.
Teremos apenas 20 segundos, um minuto ou quase dois de eclipse total, consoante
o sítio onde estivermos. Numa altura em que fotografamos tudo aquilo que
receamos esquecer, do mais banal prato de comida ao nascimento de um filho,
deixo-vos um dilema muito contemporâneo: quanto desse (breve) tempo queremos
passar a olhar para um ecrã?»
Do editorial de Sónia Sapage no Público de hoje