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terça-feira, 30 de junho de 2020

IRISH LIVES MATTER... TOO!


Quando existe alguma contestação em relação àquilo que escrevemos, estas coisas tornam-se mais engraçadas…

Vem isto a propósito de, na sequência de alguns textos mais recentes onde abordei, de forma muito ligeira, alguns aspetos relacionados com a escravidão nos Estados Unidos, um Amigo meu de longa data me ter enviado um extenso texto recordando a escravidão de que foram vitimas os irlandeses, sobretudo durante os séculos XVII e XVIII.

A encabeçar o dito texto, a única frase que terá saído da pena do meu Amigo foi: “A escravidão não tem cor… O racismo é apenas um álibi para abusar, degradar, explorar e roubar o nosso semelhante”.

E a mensagem termina com a informação de que, em pleno séc. XXI,  400 dólares é o preço que custará um escravo na Líbia...

Como não gosto que coisas destas fiquem sem resposta, enviei-lhe, de imediato, uma curta mensagem, lembrando-lhe que os meus textos se referiam a factos concretos e inquestionáveis que ocorreram nos Estados Unidos no Séc. XIX, e que não pretendiam ser (nem eu teria, sequer, conhecimentos para  tal…) uma História, por ligeira que fosse, da Escravatura no Mundo,  ou  até no mais restrito Mundo anglo-saxónico.

E acrescentei que sabia muito bem que os irlandeses tiveram muitos problemas de integração nos Estados Unidos, sofreram humilhações e discriminações  de diversa natureza e que foram sujeitos a trabalho quase forçado em condições, muitas vezes, degradantes (dei-lhe o exemplo da construção do Caminho de Ferro…), mas que nunca tinha ouvido falar da existência de mercados de vendas de escravos irlandeses nos Estados Unidos, ou de Leis que impusessem a segregação entre os irlandeses e a restante população branca...

Se não conhecesse tão bem o meu Amigo, poderia ter pensado que esta seria, no fundo, uma falsa controvérsia, porque ambos estávamos a falar de  situações completamente distintas, em termos de épocas e de lugares. 

Mas como o conheço de ginjeira há mais de 50 anos,  sei muito bem ao que ele vinha...   

O que ele pretendia era juntar a sua voz àquelas que hoje se indignam com  uma alegada excessiva atenção que é dada ao fenómeno do racismo negro e nos querem fazer recordar, a todos nós, que o racismo branco também existe e existiu durante toda a História da Humanidade.

No limite, é óbvio que “all lives matter” e, assim sendo, “white lives matter, too”, sendo elas irlandesas, ou não...

Mas, por ser tão óbvio e todo o Mundo o saber  tão bem, não é sequer necessário estarmos sempre a recordá-lo a todo o momento.

Em relação aos negros, infelizmente, já o Mundo parece dar sinais de algum esquecimento…

Mas isto foi, apenas, um introito, uma “private joke”,  e vamos então ao que me trás aqui hoje, que acaba por estar, propositadamente, relacionado.

Quando disse que podia fazer toda a História dos Estados Unidos através de “folk songs”, não estava a brincar…

E para mostrar a este meu Amigo que a “Folk Song” não se esqueceu dos seus queridos irlandeses, aqui vos trago, hoje, duas canções, de entre muitas outras que poderia ter escolhido.

Curiosamente, ambas nasceram em Inglaterra em meados do Séc. XIX, foram trazidas para os Estados Unidos e adaptadas às realidades locais, integrando, rapidamente, o  património musical do país.

NO IRISH NEED APPLY

Esta frase surgia, com muita frequência,  nos locais onde se faziam anúncios de ofertas de emprego (jornais, lojas, restaurantes, entradas de estaleiros de obras, etc) e o que significava é que os irlandeses nem sequer se deveriam dar ao trabalho de responder, porque a sua candidatura jamais seria aceite.


Esta discriminação começou por ter lugar na própria Inglaterra, para onde os pobres irlandeses fugiram aos milhares na sequência do “potato blight” ou “peste da batata”, um fungo que lhes dizimou, durante anos, a cultura da batata, que era o principal meio  de subsistência da população e de rendimento no mundo rural.

Estima-se que, por força deste fenómeno, entre meio e um milhão de irlandeses terão morrido de fome e até existe uma outra “folk song” muito conhecida que retrata este acontecimento e que se chama “Irish Famine Song”. Mas não quero lançar aqui a confusão e deixarei isso para outra oportunidade...

Quem tinha possibilidade emigrava para os Estados Unidos, mas quem não a tinha fugia para Inglaterra, a cujas grandes cidades afluíam estes pobres irlandeses com um ar triste, faminto e desmazelado, aí sofrendo humilhações e discriminações de toda a espécie, nomeadamente na busca de habitação e na procura de emprego.

Entre 1845, ano do início da “potato blight”, e 1854, terão entrado nos Estados Unidos mais de 2 milhões de emigrantes irlandeses, e se o período for mais alargado, entre 1820 e 1930 terão sido mais de 4,5 milhões. Ou seja, o curto período do fungo da batata foi responsável por quase metade da volume total da emigração irlandesa na, América...   

E, durante esse mesmo período, a população irlandesa terá regredido entre 20 a 25%.  

Embora haja quem queira branquear a História e afirmar que a discriminação dos irlandeses na América não foi tão acentuada como a pintam, a realidade parece desmenti-lo.

Às irlandesas e aos irlandeses estavam reservados os piores e os mais perigosos trabalhos.

Elas especializaram-se em trabalhos de mulheres-a-dias, empregadas de limpeza e outras atividades menos qualificadas.

Eles, que também viam ser-lhes vedado o acesso às profissões mais qualificadas e de melhores níveis de remuneração, trabalharam duro na abertura de canais, na construção do caminho de ferro e na construção civil, com salários de miséria. 


Já em pleno séc. XX, naquela celebérrima fotografia de Charles C Ebbets tirada em 1932, que nos mostra onze trabalhadores sentados numa barra de ferro a tomar o seu almoço  a uma altura de 69 andares, a maioria deles são irlandeses...

A canção, que alude a esta discriminação, parece ter sido escrita em Inglaterra em 1862, mas as fontes divergem quanto ao seu autor. 

Pete Seeger diz que foi John F. Poole, mas outras fontes afirmam que foi uma jovem rapariga irlandesa, Kathleen O’ Neil de seu nome.

Deixo-vos duas interpretações.

A mais antiga, de Joe Glazier,  segue de perto a adaptação feita por Pete Seeger, que conta ter ido buscar o refrão a uma outra canção irlandesa da mesma época e com o mesmo sentido, “No Irish Wanted Here”.

A mais recente é de Charles Szabo, e escolhia-a pela sobriedade da interpretação e por conter a letra, que é muito semelhante à anterior.  

E passemos à segunda canção…


PADDY WORKS ON THE RAILWAY

Esta canção, cuja autoria parece ser difícil de atribuir com exatidão, surgiu em Inglaterra em meados do Séc. XIX e terá começado por ser uma “sea shanty”, isto é, uma canção marítima.

Ainda em Inglaterra, a canção foi adaptada ao contexto da construção do Caminho de Ferro local e foi sob essa forma que chegaria, mais tarde, aos Estados Unidos, embora com profundas alterações na sua letra. 

O primeiro exemplo de um Caminho de Ferro surge nos Estados Unidos em 1827, através da Baltimore & Ohio Railroad, embora ainda com tração animal.


Dois anos depois, na Delaware & Hudson Railroad, circulava já a primeira locomotiva a vapor, importada da Inglaterra.

A primeira locomotiva concebida nos Estados Unidos, a Tom Thum, seria lançada em 1830, mas começou por perder uma corrida disputada com um cavalo (quantas vezes vimos isto no Cinema…?)! Mas essa resistência não iria durar muito e o Caminho de Ferro haveria, naturalmente, de se impor como um meio de transporte mais barato, mais rápido e mais seguro, não obstante as suas viagens serem interrompidas, de vez em quando, por uns cavaleiros mascarados, tipo Jesse James e tantos outros. Mas as diligências também o eram, e ainda mais…

Lincoln apercebeu-se da importância estratégica do Caminho de Ferro para o povoamento e desenvolvimento dos Estados Unidos e determinou, em 1862, a ligação ferroviária de costa a costa, que se haveria de concretizar no dia 10 de Maio de 1869, em Promontory, no estado de Utah, quando as linhas da Central Pacific Railroad e da Union Pacific Railroad se juntaram, criando a primeira grande linha ferroviária transcontinental.

A mão-de-obra para a construção de todas estas grandes realizações foi constituída, maioritariamente, por emigrantes irlandeses e chineses, que trabalhavam até à exaustão em condições infra-humanas de risco,  sofrimento, alojamento e remuneração.
O Caminho de Ferro tornar-se-ia, de imediato, um terreno fértil para a música tradicional americana.


Desde as dificuldades da construção das próprias linhas, com a necessidade de abertura de túneis e edificação de viadutos,  aos “heróis do povo”, como John Henry, que lá trabalhavam e  aos bandidos que rondavam as imediações, como Sam Bass, passando pela evocação dos grandes desastres ferroviários  e pela glorificação das principais locomotivas, tudo serviu para ser transformado em canção.

“Paddy Works on the Railway” é um bom exemplo da história de um operário anónimo que trabalhou no Caminho de Ferro até cair para o lado, embora haja, igualmente, versões desta canção adaptadas à construção do Erie Canal.

Também vos deixo duas interpretações:

Uma, mais antiga, pelos “Weavers”, que segue a adaptação feita por Pete Seeger.

Para interpretação mais recente, não resisti à exuberância dos “Pogues”, que parece seguir mais à risca a versão original irlandesa.

Notarão que, ao contrário do que sucedeu na canção anterior, aqui as letras são substancialmente distintas, mas que a crítica social e o  lamento pela penosidade do trabalho se mantêm, embora esta última versão faça mais apelo ao orgulho de ser irlandês.

E com todo este esforço em prol dos bons irlandeses terei sido, certamente, perdoado pelo meu Querido Amigo por ter tido a ousadia de falar dos negros…!

Texto de Luís Miguel Mira








quarta-feira, 25 de março de 2020

RELACIONADOS


Muito naturalmente, as excelentes crónicas do Luís Miguel Mira, têm um outro enquadramento se forem acompanhadas por  algumas das músicas que ele vai abordando.

É o caso, em relação à crónica de hoje, de duas canções: Billy Boy e Round and Round Hitler’s Grave.

Devido à quarentena, juntos, deixámos de petiscar, beber umas garrafas de Muralhas, de Murganheira…

Resta a conversa por e-mail mas, como se pode calcular, não é bem a mesma coisa.

Havemos de nos vingar, extraordinariamente, deste sacana do Corvy-19.

Mas sempre dá para um «Relacionado-Desabafo»:

«Conto-te rapidamente uma história muito recente, do passado fim-de-semana.

Como tenho estado o tempo todo em casa comecei a tentar arrumar melhor alguns dos espaços das minhas estantes e peguei numa série de LP’s que aqui tenho, sobretudo de música Folk muito antiga, que foram aqueles que comprei com um certo espírito de coleccionador depois de ter saído de Benfica. Ainda são aí uns 50...

Olhando para eles disse para comigo: já que agora no YouTube há de tudo, vamos lá ver se encontro estes. Seria uma maneira de os ouvir porque o gira-discos cá de casa está com graves problemas de calibragem.

Não encontrei todos mas encontrei muitos, mais do que esperava.

Mas o que mais me doeu foi ver que alguns desses discos estão na net há muitos anos e praticamente não têm visualizações.

Un deles, então, chocou-me mesmo... É um disco de “Gene & Francesca”, que era um duo que se dedicou à divulgação da música Folk internacional nos anos 50/60 antes de, muitas décadas depois, a expressão Word Music ter sido inventada

Pois bem: esse disco está disponível na net há cerca de 2 anos em muitíssimo bom estado, e as suas músicas têm entre 3 e 5 acessos, e algumas zero acessos...! Eu fui o primeiro a lá ir em todo o Mundo! Imagino a desilusão com que não terá ficado quem, com carinho, se deu ao trabalho de fazer a publicação deste disco e gostaria muito de o/a contactar para lhe agradecer e enviar um abraço de “saudações Folk”...!

A conclusão é óbvia. Ninguém se interessa por este tipo de música e, muito menos, pela História desta música.»




A GRANDE PIRUETA


Quando aqui vos lembrei que Woody Guthrie tinha escrito na sua guitarra “This Machine Kills Fascists”, veio-me de imediato à memória uma outra história, que também será interessante contar. Mas serão duas as histórias, embora intimamente ligadas entre si, como perceberão.

Há muitos, muitos anos atrás, por ocasião do nascimento das minhas duas filhas mais velhas, costumava ir passar largas temporadas a casa dos meus sogros de então. Tanto eu como a minha mulher trabalhávamos relativamente perto e evitávamos, dessa forma, ter de atravessar duas vezes Lisboa de uma ponta a outra no período terminal da gravidez e no pós-parto.
Embora na altura tivesse uma vida sobrecarregada, porque trabalhava de dia e estudava de noite, nunca deixava de, à chegada a casa, dar dois dedos de conversa com o meu sogro, Francisco de Freitas Santos. Da sua vastíssima cultura e experiência de vida, aprendia sempre qualquer coisa.

Um dia, no meio de uma dessas conversas,  desafiei o Freitas Santos a ir comigo ver o “Ninotchka”, do Ernst Lubitsch, não me lembro se à Cinemateca, à Gulbenkian ou a qualquer sessão tardia de fim-de-semana mas, para o caso, também não importa...

Ao contrário do que era habitual nele, o Freitas, comunista de longa data,  reagiu mal ao convite  e disse-me que não tinha grande pachorra para ir ver filmes reacionários.

Um pequeno parêntesis para recordar, a quem não viu o filme ou já não se recorda, que, a traços muito largos, a história gira à volta de um grupo de adoráveis Camaradas soviéticos  que, primeiro sozinhos e depois  chefiados pela boa da Greta Garbo, vêm a Paris, em missão oficial da URSS,  para tentar vender uma coleção de joias “nacionalizadas” durante o período da Revolução. É escusado dizer que a Chefe se apaixonou perdidamente pelo galã  do filme, Melvin Douglas, e que todos os Camaradas se renderam, incondicionalmente, aos prazeres do “capitalistic  way of live”…

Voltando ao meu sogro, continuei a conversa e, puxando um cordelinho ali e outro acolá, rapidamente me apercebi que o bom do Freitas Santos nunca tinha visto o “Ninotchka” na vida e que a sua reação era consequência de um preconceito que lhe ficara da época da sua exibição em Portugal.

Em boa verdade, tal como o “Casablanca” foi durante muitos meses, no Politeama, pretexto para manifestações anti-fascistas de uma parte da assistência, que se levantava e cantava a “Marselhesa” em coro com o filme, é bem provável que parte da Imprensa portuguesa da época se tenha servido do “Ninotchka” para atacar o regime soviético, provocando aquela reação de repulsa por parte dos comunistas que o Freitas, quarenta anos depois, ainda tinha bem guardada dentro de si.

Para o convencer, lembro-me de lhe ter tentado explicar duas coisas: quem eram os autores do filme e o contexto muito particular em que este tinha sido escrito e realizado.


Em relação a Lubitch, o realizador,  ter-lhe-ei explicado que foi um dos primeiros a emigrar para os EUA, ainda antes da ascensão do Nazismo, tendo obtido enorme êxito e tendo-se distinguido por ter sido, em Hollywood,  um dos que mais se esforçaram por apoiar, na sua integração e obtenção de trabalho nos Estados Unidos,  os refugiados que fugiam do regime Nazi, sem qualquer distinção de nacionalidade, credo político ou religioso. E que era, também (mas isso o Freitas sabia...), o realizador de “To Be Or Not To Be” (1942) de que ele tanto dizia gostar, juntamente com “O Grande Ditador”, de Chaplin, as maiores sátiras ao Nazismo alguma vez saídas dos estúdios americanos...  

De Billy Wilder, responsável pelo cenário do filme em colaboração com Charles Brackett, ter-lhe-ei talvez dito que tinha fugido ao nazismo em 1933, imediatamente após o incêndio do Reishtag, e que , juntamente com Frank Tashlin e Jerry Lewis, terá sido um dos cineastas que, de forma mais caustica e contundente, criticaram o “american way of live” entre os anos 40 e os anos 70. 

Quanto a Charles Brackett, se tivesse nesta matéria uma posição muito distinta da de Wlder, dificilmente teria sido o seu fiel companheiro na escrita dos seus filmes, como o foi até 1950.  Só não lhe disse, porque então ainda não sabia, que Bracket era, na altura da conceção de “Ninotchka”, o Presidente da “Screen Writers Guild”, uma associação que à época era considerada um perigoso ninho de  esquerdistas... 

Esses três homens (para só falar neles…) eram o que na altura se chamava liberais anti-fascistas, e nenhum deles poderia ser considerado um “perigoso reacionário”. E se visto o filme com atenção, o modo de vida “capitalista” também não fica muito bem tratado em “Ninotchka”...

A realidade é muito diferente, e aqui terá de entrar o tal contexto...

Estes homens (e tantos outros como eles, na América daqueles tempos…) estavam muito bem informados acerca do que se passava na Alemanha. Viam familiares, amigos ou simples conhecidos ser humilhados, desprovidos dos seus bens, deportados e tantas vezes assassinados nos campos de concentração e assistiam, com alguma incredulidade e repulsa, à forma passiva e, segundo eles, conivente como os Estados Unidos e a União Soviética toleravam esse estado de coisas.

E, na lógica da então chamada “politica de apaziguamento”, foram dois os acontecimentos históricos que iriam transformar essa animosidade em ódio, sobretudo em relação à União Soviética: o Tratado de Munique, de Setembro de 1938, que traçou o destino da Checoslováquia, que seria invadida seis meses depois, e o Pacto Germano-Soviético, de Agosto de 1939, que estabeleceu o princípio da “não agressão” entre as duas potências e legitimou a invasão, por ambas as partes, da Finlândia e da Polónia.

Ora, gritavam eles então, não só a União Soviética - a grande defensora da Liberdade - não os ajudava, como se aliava ao próprio inimigo, com o beneplácito das restantes grandes potências europeias. E enquanto tudo isto se passava, os Estados Unidos assobiavam para o lado…
“Ninotchka” estreou-se nos Estados Unidos em Novembro de 1939, tinha a Guerra começado há pouco mais de dois meses. Foi um filme pensado,  escrito e realizado neste contexto e só dentro dele conseguirá ser devidamente compreendido.

Não se tratou de um ataque deliberado aos fundamentos do Estado Soviético nem à ideologia Comunista, mas sim de um grito de revolta de alguns homens angustiados e impotentes face à situação que viviam, que não tiveram outra solução senão expressar-se através da sua Arte.
Recordo-me de ter gasto todo o meu “latim” em vão e que esta minha tentativa de explicação não comoveu, na altura, o meu sogro, e muito menos o demoveu da sua ideia de não me acompanhar ao cinema.

Mas também me recordo muito bem, com saudade,  de, uns anos depois, o ter obrigado a ver, finalmente, “Ninotchka” na televisão, comigo ao lado. E parece que ainda o estou a ver, sentado no grande cadeirão ao fundo da pequena sala com o seu roupão azul escuro, a fazer um enorme esforço para conter, a custo,  as suas sonoras gargalhadas.

É que “Ninotchka” é uma melhores comédias de sempre do cinema americano.


E assim se conclui a primeira história.

Passemos à segunda...

Já vimos como estava a situação nos Estados Unidos nas vésperas da eclosão da II Grande Guerra Mundial e quando esta foi, formalmente,  desencadeada  (1 de Setembro de 1939, na sequência da invasão da Polónia).

Embora algumas vozes, sobretudo judeus e uma certa  Esquerda não alinhada com o Partido Comunista Americano, defendessem ser imperativa a participação dos Estados Unidos no conflito, o Congresso e a maioria da população eram contra esta intervenção. O Presidente Roosevelt era a favor, mas tinha de se submeter...

Em coerência com a orientação seguida por todos os Partidos Comunistas na sequência do Pacto Germano-Soviético, a posição assumida pela União Soviética era apoiada e o Partido Comunista Americano era um dos principais defensores da não intervenção.

Como vimos nos dois textos anteriores, a canção era, nesses tempos, um excelente veiculo de propaganda das ideias, e não é de estranhar que um agrupamento Folk fortemente ligado ao Partido Comunista, chamado “The Almanac Singers”, de geometria variável mas constituído, em inícios de 1941, em torno dos suspeitos do costume (Woody Guthrie, Pete Seeger, Josh White, ...), tivesse aproveitado a oportunidade do lançamento do seu primeiros disco (“Songs for John Doe”, Maio de 1941) para fazer passar essa mensagem de pacifismo e de isolacionismo face ao conflito.

Em particular uma das músicas desse disco, “Billy Boy”, iria tornar-se  o verdadeiro manifesto do “não-intervencionismo”. Vale a pena dar a conhecer a sua letra:

“Will you go to the war, Billy boy, Billy boy?
Will you go to the war, charmin’ Billy?
It’s a long ways away, they are dying every day
He’s a young boy and can not leave his mother

Can you use a bayonet, Billy boy, Billy boy?
Can you use a bayonet, charming Billy?
No I haven’t got the skill to murder and to kill...
He’s a young boy …………………………………………..

Don’t you want a silver medal, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want a silver medal, charmin’ Billy?
No desire to I feel to defent Republic Steel...
He’s a young boy……………………………………………….

Don’t you want to see the world, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want to see the world, chamin’ Billy?
No it wouldn’t  be much thrill to die for Dupont in Brazi...l
He’s a young boy………………………………………………….

Girls would like your uniform, Billy boy, Billy boy
Girls would like your uniform, charlin’ Billy
They wouldn’t have much chance to love me with six feet of earth above me...
He’s a young boy………………………………………………………

Are you afraid to fight, Billy boy, Billy boy”?
Are you afraid to fight, charlin’ Billy?
You can come around me when England’s a democracy...
He’s a young boy………………………………………………………

Will they take you from my side, Billy boy, Billy boy?
Will they take you from my side, charming Billy?
Don’t you worry Mother dear, I’m a-satyin’over here...
He’s a young boy.………………………………………………………

Nem é preciso comentar. A letra é bem explícita.

Mas o manifesto não iria resistir muito mais tempo...

Em 22 de Junho de 1941, fazendo tábua rasa do Pacto de Não Agressão, a Alemanha invadiu a União Soviética  e a situação alterou-se radicalmente. Da noite para o dia o Partido Comunista Americano abandonou o isolacionismo e passou a defender, abertamente, a intervenção no conflito.

E poucos meses depois, a 7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbour e os Estados Unidos entraram oficialmente na Guerra.

 Os Almanac Singers, claro está, viram-se em muito maus lençóis. Alguns dos possuidores de “Songs For John Doe” destruíram propositadamente as suas cópias e os membros do grupo esforçaram-se por encontrar e destruir também todos os exemplares que ainda se encontravam em vias de distribuição, o que fez com que este disco se tornasse  uma das peças mais raras e mais procuradas pelos colecionadores de Folk Music.  Embora todas as suas sete canções façam parte da maioria das coletâneas dos Almanac que têm sido editadas ao longo dos tempos (deixo-vos um exemplo), o disco em si tornou-se muito difícil de obter.  

Mas os Almanac Singers, embora envergonhados,  não pararam e, num ápice, estavam a lançar um novo disco (“Dear Mr. President”, de Fevereiro de 1942)  e a cantar novas canções anti-Hitler e a favor do esforço de guerra, numa das piruetas mais famosas da história da Música Folk.  A mais célebre dessas músicas, “Round and Round Hitler’s Grave”, com base na música de “Old Joe Clark”, de Woody Guthrie, reza assim (vou abreviar, que o texto já vai longo):

“Now I wished I had a bushel
Wished I had a peck   
Wished I had old Hitler
With a rope around his neck

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
Gonna lay that poor boy down
He won’t get up no more

Mussolini won’t last long
Tell you the reason why
We’re a-gonna salt his beef
And hang it up to dry

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
…………………………………
………………………………….

Ou seja, em poucos meses o nosso “charming Billy”,  que não sabia usar uma baioneta, não ambicionava medalhas, não desejava ver o mundo e apenas queria ficar em casa a tomar conta da mãezinha já se via na Alemanha a enforcar Hitler e  a festejar aos saltos à volta do seu túmulo…!  

Mas não foi apenas esta música. Todo o “Mr. President” surge quase como um pedido de desculpas em relação a “Songs For John Doe”...


Só outro exemplo rápido, para não vos incomodar mais: em “Ballad of October 16th”, de 1941,  Roosevelt era massacrado por ter assinado o “Conscription Bill”, isto é, a Lei que impôs o serviço militar obrigatório aos jovens com idades compreendidas entre os 21 e os 30 anos, a primeira vez que tal acontecera nos Estados Unidos em tempos de paz; em “Dear. Mr. President”,  a “talk-song” lançada alguns meses depois, alguém escreve ao Presidente elogiando e incentivando o seu esforço de guerra  e a confessar que até já parou de discutir com a sogra, porque a ajuda dela também é necessária para se ganhar a guerra…!:

“………………………………………………
………………………………………………..
Now Mr. President, we haven’t always agree in the past, I know
But that ain’t important now
What is important is what we got to do
We got to lick Mr. Hitler, and untill we do
Other things can wait
War means overtime and higher prices
But we’re all willing to make sacrifices
Hell, I’d even stop fithing with my mother-in-aw
‘Cause we need her too to win the war
……………………………………………………………
……………………………………………………………
So Mr. President, we’ve got this one big job to do
That’s lick Mr. Hitler and when we’re through
Let no one else take his place
To trample down the human race
So what I want is you to give a a gun
So we can hurry and get the job done”

Teria esta gente de pedir desculpa por todos estes equívocos e por todas estas “piruetas”...?
Eu julgo que não…. Erros seus, má fortuna, Amor ardente…

Mas Pete Seeger entendeu que sim… Na página 22 de  “Where Have All the Flowers Gone – A Singer’s Stories, Songs, Seeds, Robberies”, uma quase autobiografia através das suas principais canções publicada em 1993, ele confessa-nos o seguinte:  

“At any rate, today I’ll apologize for a number of things, such as thinking  that Staline was simply a “hard driver” and not a supremely cruel misleader”

Moral da(s) história(s), porque há sempre uma em todas as histórias:  nunca vejas uma obra de Arte, seja de que natureza for, com os “óculos” de hoje. Para a compreenderes, terás de a situar no seu espaço, no seu tempo e no seu modo... 

PS: 
Existem muitas coletâneas de música Folk relacionadas com a II Grande Guerra. Deixo-vos aqui uma das melhores, de fácil acesso

Texto de Luís Miguel Mira

Legenda: fotograma de Ninotchka

segunda-feira, 18 de julho de 2016

VIVA LA QUINCE BRIGADA


Canções da Guerra Civil Espanhola/Pete Seeger.

Jarama Valley - Cookhouse/Young Man From Alcala - Quartermaster's Store - Viva La Quince Brigada - El Quinto Regimento - Si Me Queres Escribir - Los Quatro Generales - Die Thaelmann-Kolonne - Hans Beimler - Das Lied Von Der Einheitsfront - Lied Der Internationalen Brigaden - Moorsoldaten 


quarta-feira, 30 de março de 2016

NÃO TE METAS NUM COMBOIO DE MERCADORIAS


Conta-se que EmmylouHarris, enquanto adolescente, passando os dias fechada em casa a ouvir música folk na rádio, decide escrever uma carta a Pete Seeger confessando-se aflita por não ter sofrido o suficiente na vida para poder cantar.
Teve como resposta:
Não te preocupes. A vida vai-te apanhar. Vais sofrer. Não te metas num comboio de mercadorias.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CANÇÕES PARA O MEU PAI


Tendo começado com El Condor Pasa, faço hoje alinhamento para Where Have All The Flowers Gone?

Os créditos desta lindíssima canção são concedidos a Pete Seeger.

A luta contra a Guerra do Vietname, levada a cabo pelos americanos, também por outros os povos do mundo – estamos todos em guerra contra os Estados Unidos da América do Norte! - fez desta canção como de  We Shall Overcome, tantas mais, hinos de mote obrigatório em manifestações e concertos., contrariando os que diziam que cantar não era suficiente. Provavelmente, mas o silêncio é que nunca.


A música a corporizar o protesto, a ajudar à luta.

Nunca se pensou que a música podia não só parar uma guerra como começar a mudar o mundo. 

Cantar  nunca foi suficiente, mas ajuda mais do que todos os silêncios.

Ronald Reagan sobre o Vietnam: não foi uma má experiência, o que foi mau foi termos perdido a guerra.

Números do horror de uma guerra em nome da liberdade versão United States:  3 milhões de vietnamitas morreram, 2 milhões eram civis, 60 mil americanos perderam a vida, uma guerra que terá custado 220 mil milhões de dólares em que os dos Unidos gastaram 675 mil dólares para exterminarem um só guerrilheiro vietcong e continuam, por explodir milhares de toneladas de minas, bombas e obuses lançadas pelos americanos continuam por explodir.

Lyndon Johson, sentado na sala Oval da Casa Branca completamente perplexo por um bando de pigmeus armados de canivetes tivessem conseguido derrotar os Estados Unidos.

Nomes como o Kingston Trio, Joan Baez, Peter Paul and Mary, muitos mais, interpretaram. Where Have All The Flowers Gone?

A versão escolhida para a cassette do meu pai foi a de Peter Paul and Mary, LP da colecção de vinis  do Luís Miguel Mira.
 
Anos mais tarde conheci, numa das muitas antologias que vão sendo gravadas com as canções de Marlene Dietrich, a estupenda versão  que a Diva fez desta canção.

No tempo dessa descoberta, o meu pai já cá não estava para a conhecer, mas teria adorado, ele que tinha um especialíssimo béguin por Marlene Dietrich, pelo seu inenarrável fascínio.

Melhor dito: o fascínio pelas pernas de Marlene Dietrich.

Estas e outras pernas com que sempre sonhou, pernas que ele não tinha qualquer dúvida do que Marlene conseguia fazer com elas.

Marlene também não tinha.

Basta ver o Anjo Azul.

Foram estas as razões por agora, na cassette do meu pai, substituir a versão de Peter Paul & Mary então utilizada.

Para onde foram as flores, sim para onde foram.

Também os sonhos.


Legenda. f otografia de  Huynh Cong Ut da agência Associated Press que recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973, correu mundo  e que retrata crianças – Crianças? Sim também os mortos são crianças - fugindo do rebentamento de bombas napalm sobre a aldeia.onde viviam.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


Uma das minhas canções favoritas é o hino “Amazing Grace”. É uma bonita canção. Foi escrita por John Newton, que era comandante de um navio de escravos. E um dia, no meio do mar, decidiu voltar para trás e levar aqueles homens para as suas casas. A partir daí, tornou-se pastor de uma igreja cristã e escreveu este hino, o “Amazing Grace” que, hoje, muitos milhões de pessoas cantam e amam. Eu também.

Pete Seeger entrevista a Viriato Teles em Bocas de Cena, Campo das Letras, Porto, Janeiro de 2003.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PETE SEEGER (1919-2014)


Aos 94 anos, num hospital de Nova Iorque morreu Pete Seeger.

Uma tristeza sem fim enrola-se por aqui e as palavras não saem, talvez por inúteis serem.

Partiu Pete Seeger mas fica a fortíssima marca da sua presença neste mundo, em que trabalhou imenso para manter viva a memória da riquíssima tradição da música popular  norte-americana, bravamente lutou por um mundo melhor esteve em todas as lutas de esquerda, fosse a luta pelos direitos civis dos negros, fosse pela denúncia da poluição do Rio Hudson.

Woodie Guthrie tinha escrito no seu banjo que «esta máquina mata fascistas», no seu banjo Pete Seeger escreveu «esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se».

Considero-me um contador de histórias, por vezes um organizador. Não sou um bom
cantor. Não sou particularmente bom a tocar banjo. Mas sou especialista em conseguir que uma multidão cante comigo, e quando esta canta bem sinto-me feliz."

No dia dos seus 90 anos, a data foi celebrada com um grande no Madison Square Garden de Nova Iorque. Entre as dezenas de músicos que estiveram presentes contaram-se Bruce Springsteen, Joan Baez, Eddie Vedder, Arlo Guthrie, Ben Harper, Billy Bragg, Emmylou Harris, Ramblin' Jack Elliott, Richie Havens, Roger McGuinn,

O cubano Sílvio Rodrigues foi impedido de entrar nos Estados Unidos  mas enviou a Seeger uma carta de saudação:

La Habana, 3 de mayo de 2009.
Admirado y querido Maestro Pete Seeger:

En estos momentos se está celebrando el concierto de homenaje que decenas de cantores justamente te ofrecen. Pasan por mi mente algunas de las veces que tuve el privilegio de disfrutar de tu talento seductor de multitudes. Así te recuerdo en La Habana, cantando solidario junto al Grupo de Experimentación Sonora; así te recuerdo en aquella gira dedicada a Víctor Jara, por varias ciudades de Italia; y así también revivo aquella helada noche de febrero de 1980 en que respondiendo a tu llamado viajamos desde Nueva York hasta Poughkeepsie y te escuchamos “Snow, Snow”, obra maestra de quien se hizo preguntas ante un paisaje invernal.
Traté de volver a estar contigo hoy, pero, como bien sabes, no me dejaron llegar los que no quieren que los Estados Unidos y Cuba se junten, se canten, se hablen, se entiendan. Son los que piensan que el mundo se divide en poderosos y en débiles; los que sólo aprecian a los que son ricos y fuertes. Son los que no nos perdonan que aún siendo pequeños hayamos decidido vivir de pie. La realidad grita que cada vez deben ser menos estos brutos, pero de alguna forma esa minoría todavía impera y manda. Algunos de ellos vieron un peligro en que nos encontráramos y que un simple acto de fraternidad simbolizara a dos pueblos vecinos que pueden coincidir en canciones y afectos.
Pero no solo yo, querido Pete: todo mi digno y sin dudas mejorable país te admira, te respeta y celebra tus honorables nueve décadas defensoras de la justicia social, la paz y la cultura.
Aquí nadie te ve como un peligro sino como un extraordinario amigo que no nos dejan abrazar con la libertad que quisiéramos. Por eso, más que yo, toda esta Cuba que te quiere, bloqueada todavía por los abusadores, está a tu lado ahora cantando tu profética We Shall Overcome y nuestra martiana Guantanamera.
Un beso para Toshi y un fuerte abrazo para ti de
Silvio Rodriguez

Escreve Ramón Padilla em Canciones de Protesto del Pueblo Norte Americano:

Muito alto, magro, e com o cabelo começando a embranquecer, um homem sai do teatro, de banjo ao ombro e viola na mão. Durante duas horas, com as mãos meio ligadas porque se feriu a rachar lenha, tocou aqueles instrumentos e cantou em inglês, yiddish e castelhano. Cantou canções da guerra civil espanhola, canções de amor, canções para crianças - e canções contra a guerra do Vietname. É ainda meio aloirado, tem olhos azuis e, embora mantenha um aspecto juvenil, descobrem-se-lhe na face marcas de dificuldades e canseiras. Em Pete Seeger conjuga-se o tradicional e o actual, as canções de há séculos e as dos cantores urbanos de hoje. Cantará, umas atrás das outras, uma balada escocesa, uma canção de trabalho judaica, uma melodia negra nascida nas prisões do Sul, uma canção de mineiros, outra contra a Guerra do Vietname. O fio condutor desta enorme variedade é a luta contra a injustiça, a fome e a miséria, a sua indestrutível fé no homem, a luta contra toda a opressão.

Por diversas vezes, Pete Seeger foi sondado para vir cantar a Portugal, mais concretamente à Festa do Avante. Indisponibilidade de datas não o permitiu.Mas em 2 de Dezembro de 1983 foi mesmo possível trazer Pete Seeger a Lisboa.

Desse memorável concerto foi feito registo sonoro que mais tarde seria publicado em disco. Uma edição limitada de 3.000 exemplares numerados numa caixa que contém 1 LP, o livro-programa do espectáculo, folheto com textos da gravação com tradução para português das canções, as fotos do espectáculo.

Em Lisboa, ao jornalista Viriato Teles disse espero que vocês pensem que sou comunista.

 A sua vida de luta está também registada nos testemunhos que prestou na Comissão de Actividades Anti-Americanas, o mccarthysmo, uma das muitas páginas negras da história da America:

Não responderei a nenhuma pergunta sobra as minhas actividades associativas, sobre os meus credos filosóficos ou religiosos, sobre as minhas convicções políticas ou, ainda, sobre como votei em qualquer das eleições.

Considero tais questões impróprias para serem postas a qualquer americano, particularmente sobre coerção, como acontece aqui. (…) Sei que, em toda a minha vida, jamais fiz o que quer que fosse de natureza conspiratória e sinto profundamente que, na intimidação para comparecer perante esta comissão esteja implícita a diferença existente entre as minhas opiniões e as vossas e que por isso me considerem menos americano que qualquer outro.

"Mas amo muito o meu país (...) Há vinte anos que, por toda a parte, canto canções populares da América e doutros países. A canção, cujo título foi especificamente citada neste julgamento, “Wasn’t That a Time”, é uma das que prefiro. Gostaria de ter a vossa autorização para a cantar aqui antes de terminar".

- Não pode, retorquiu seco o juiz Murphy.