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domingo, 25 de janeiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

As gentes «daquela coisa, perigosamente, entraram num caminho que pretende fazer o regresso do país aos terríveis e negros tempos que vivemos antes do 25 de Abril.

«Na Assembleia Municipal de Lisboa de 13 de Janeiro de 2026, a deputada municipal do Chega, Margarida Bentes Penedo, demonstrou ter muitas, mesmo muitas, dúvidas sobre a linha artística do Teatro do Bairro Alto (TBA). Demonstrou também simpatizar com apenas um artista em Portugal, (o fadista João Braga), que gostaria de ver integrado na agenda cultural da cidade.»

Pedro Adão e Silva, hoje no Público, escreve que estas gentes, para além de outros atropelos, pretendem «Para defender a cultura diabolicamente nova
A premissa de que há uma "cultura de esquerda" que deve ser substituída por uma "cultura de direita" é perigosa. As políticas culturais devem garantir a variedade da oferta, sem interferência política nos conteúdos da programação; assegurar que há espaço para tudo e criar oportunidades para os artistas e as propostas emergentes. A cultura é um espaço de representação, mas também o lugar onde devemos esperar inovação. Sem essa margem para transgredir, as nossas sociedades ficam condenadas ao imobilismo.»

Uma sondagem da Universidade Católica mostra que, no próximo dia 8 e Fevereiro, António José Seguro obtém 70% de votos contra 30% do presidente «daquela coisa».

O perigo destes números é a existência de eleitores que poderão pensar que o vencedor está encontrado e já não será necessário ir votar.

Lembrar que a abstenção é uma atitude que, poderá não lhe dar a vitória, mas favorece os desígnios do presidente «daquela coisa».

Por isso, a música da manhã de hoje, leva-nos para o poema de  António Gedeão que deu uma canção de Manuel Freire.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Foi diversa, difícil, dura, a luta de muitos de nós contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Este recorte é da revista Seara Nova nº 1458 de Abril de 1967.

Sempre a margem esquerda: Almada, Baixa da Banheira, Seixal, Cova da Piedade.

Por ocasião do 74º aniversário da Cooperativa Piedense, diversas iniciativas registavam a efeméride e sempre a cultura. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento», como escreveu o poeta Carlos de Oliveira e que Manuel Freire fez música e deu canção.

Além de um sarau consagrado à música popular portuguesa, apresentava-se o Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes-Graça e também poesia e música com Carlos Paredes, José Carlos de Vasconcelos, Adriano Correia de Oliveira.

terça-feira, 22 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Deve-se a Manuel Freire, em tempos de ditadura, com um poema, uma canção, popularizar um grande poeta português: António Gedeão, o poema é a Pedra Filosofal.

O mesmo Manuel Freire, nos mesmos tempos de ditadura, transformou poemas de poetas portugueses, em gritos claros de luta e de esperança.

Num país cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.

Muitos, durante essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra canção lembra: até mortos vão a nosso lado.

Lidos em 1966, a esmagadora maioria dos Poemas Possíveis estão assinalados a lápis.

Naturalmente, um desses poemas é Ouvindo Beethoven.

Uma boa dezena de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.

Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem:

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora. Escreve a Óscar Lopes. Quase em findar de carta, desabafa sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

E expressa os seus desejos para esse ano:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

 De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.

Por Abril desse ano aconteceu o dia de todas as surpresas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O 25 DE NOVEMBRO EXISTIU?


Durante a ditadura salazarista, o poeta António Gedeão, num poema, a que Manuel Freira colocou música, disse-nos que eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Hoje, imensos jovens não sabem o que foi o 25 de Abril, muitos mais ainda, não sabem o que foi o 25 de Novembro.

A história do que foi o 25 de Novembro de 1975 ainda não está feita. Como se diz no Aqui de Setembro de 1976: «houve um golpe. É o mínimo em que há unanimidade de certezas.»

Diz a historiadora Raquel Varela,  Público 25 de Abril de 2011:

«Embora o encontro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes a 25 de Novembro esteja documentado, acredito que o acordo tenha decorrido alguns dias antes do golpe que pôs fim à crise político-militar e terminou com a duplicidade de poderes nas Forças Armadas. Até porque os Nove poderiam adivinhar que as unidades militares afectas ao PCP não deixariam de responder a uma insurreição militar, como acontecera a 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975».

José Saramago que, muito bem sabia do que estava a falar, disse: «Perdeu-se em Portugal muita coisa desde o 25 de Novembro. Perdeu-se sobre tudo a vergonha».

Adelino Gomes no Público de 26 de Novembro de 2000:

«Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a guerra civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações ao MDLP? Quantos grupos funcionavam dento do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (RMN) ou a Região Militar sw Lisboa (RML)?; o posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML, e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

0 25 de Novembro existiu?

sexta-feira, 29 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


O que acima se vê, é um pormenor da 1ª página do semanário Cinéfilo nº 27, da semana 6-12 de Abril de 1974.

Ainda não se tinham apagado todos os sons, todos os sentimentos do espectáculo de Patxi Andión no Coliseu, e a 29 de Março realizava-se o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, que entendera substituir a habitual “Grande Noite do Fado”,e à reportagem-crítica desse espectáculo, a rapaziada do Cinéfilo, colocava em título: EM BUSCA DA FESTA!

Que festa?

José Saramago já, anos antes, 1966, anunciava que, num qualquer dia  chegaria o DIA DAS SURPRESAS.

Entre outros participaram na festa: Carlos Paredes, José Carlos Ary dos Santos, José BarataMoura, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino.

O crítico e radialista Mário Contumélias estava encarregado de contar aos leitores cinéfilos, o que nessa noite iria acontecer na velha sala das portas de Santo Antão e para ele mesmo dissera que aquilo talvez redundasse numa «pepineira intragável», mas fecha a abertura do texto deste modo:

«E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção, Fosse lá porque fosse, naquela noite no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»

Dois pormenores da reportagem:

«E entrou José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary como poeta ou como declamador, a verdade é que ele tem muita força. Eu venho cá dizer poesia. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.»

«Quando, depois do Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram.

Venho aqui cantar uma canção GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sala, todos os 5 mil, de pé entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

Naquela noite, sob forte vigilância policial e pidesca, mais de cinco mil pessoas, entoaram espontaneamente, Grândola, Vila Morena, ironicamente uma das duas canções que a censura permitiu que, nessa noite, José Afonso cantasse. A outra seria Milho Verde,
mas «Grândola», canção de José Afonso, (incluída em Cantigas do Maio , de 1971, e interpretada pela primeira vez ao vivo em Santiago de Compostela, na Galiza ) posteriormente, escolhida pelos militares do MFA como segunda senha de arranque da Revolução dos Cravos.

 Não há machado que corte a raiz ao pensamento, um entusiasmo delirante e o espectáculo a encerrar com todos os artistas participantes a cantarem, com toda a sala de pé, braços dados, Grândola Vila Morena, ao ponto de Regina Louro escrever na Flama de 12 de Abril: “Até as luzes de gala se acenderam, para esse espectáculo-participação”.

Aquela noite fazia já antever o que, uma vintena de dias depois, veio a acontecer: o consumar do grito do poeta à rapariga, para que ela não esquecesse que um dia iriam soltar a Primavera no País de Abril, o microfone que falaria numa noite às 4 e tal… a madrugada donde um país emergiu da noite e do silêncio.

segunda-feira, 25 de março de 2024


 

Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Os militares do Movimento dos Capitães, agora que sabem que o golpe de estado ocorrerá entre 20 e 27 de Abril, continuam as suas contantes reuniões, Américo Tomás, continua a inaugurar chafarizes e afins, os ministros da ditadura fazem as suas visitas, recebem individualidades diversas, pouco há referir e entende-se que é oportuno voltar à música e a um disco em que Manuel Freire utiliza um poema de António Gedeão. O poeta escreverá nas suas Memórias:

«Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a Pedra Filosofal e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Tenho comigo cinco discos do Manuel Freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece no Zip-Zip, a cantar Pedra Filosofal de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.

Claro que a passagem pelo Zip-Zip projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.

Manuel Freire sobre a poesia de António Gedeão: 

«A poesia dele tem um ritmo próprio. Para já, é extremamente clara. Não é daqueles poetas que a gente tem de ler o poema três vezes para perceber o que eles querem dizer. Isso não os torna nem piores nem melhores, torna-os diferentes. O Gedeão não: lê-se à primeira e percebe-se o que quer dizer. E como tem um ritmo, torna mais fácil musicar as coisas. De maneira que foi isso que eu descobri.»

No topo , está o velhinho single, da Biblioteca da Casa,  do Manuel Freire com a Pedra Filosofal, Edição «ZIP-ZIP», com arranjos e supervisão de Thilo Ktasmann , gravado na Nacional Flmes, em 1970, com som de Heliodoro Pires.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O CANTIGUEIRO DE SONHOS


No dia 25 de Abril, Manuel Freire fez 80 anos.

Não é por ser um número redondo, que nos leva a trazer aqui este rapaz nascido em Vagos, é antes o registo de um tipo discreto, sereno, a viver longe dos holofotes, que merece o lugar de relevo que ocupa, não só na música popular portuguesa, mas no que ele , com a sua viola, «toco pessimamente», as suas canções contribuiu para zarpar os caminhos que levaram ao 25 de Abril.

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece no Zip-Zip, a cantar Pedra Filosofal de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.



Em 1969 publicara o EP Manuel Freire Canta Manuel Freire, que inclui Livre, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.


Depois um outro EP, Trovas,Trovas,Trovas, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, Lutaremos Meu Amor disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.

Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.

Claro que a passagem pelo Zip-Zip projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.

Manuel Freire sobre a poesia de António Gedeão:

«A poesia dele tem um ritmo próprio. Para já, é extremamente clara. Não é daqueles poetas que a gente tem de ler o poema três vezes para perceber o que eles querem dizer. Isso não os torna nem piores nem melhores, torna-os diferentes. O Gedeão não: lê-se à primeira e percebe-se o que quer dizer. E como tem um ritmo, torna mais fácil musicar as coisas. De maneira que foi isso que eu descobri.»

António Gedeão, ou Rómulo de Carvalho, nas suas  Memórias sobre Manuele Freire:

«Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a Pedra Filosofal e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Tenho comigo cinco discos do Manuel Freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

terça-feira, 22 de março de 2022

ESTENDI NA AREIA MULHERES DE TODAS AS CORES

Este livro tem o subtítulo: «Os Filhos Que Os Militares Portugueses Deixaram Na Guerra Colonial». 

A imagem é a reprodução da contra capa do livro.

O livro é da autoria de Catarina Gomes, ex-jornalista do Público.

«Tudo começou com uma viagem à Guiné, em 2013, com o objetivo de revelar, no Público, estas histórias da História que ficam por contar. Seguiram-se quatro anos em que os contactos com estes filhos e filhas, de identidade truncada, se foram multiplicando. A maioria tem como única herança dos pais uma vida inteira de discriminação: eram “filhos de tuga”; eram filhos do “inimigo”. Pelo meio, também há (re)encontros felizes. Catarina Gomes escreve que “todos os dias morrem metades desta história” – os pais portugueses estão na fase final das suas vidas (os filhos têm entre 40 e 50 anos). As relações entre militares portugueses e mulheres africanas são, muitas vezes, romantizadas – todos os filhos gostam de se imaginar fruto de um grande amor. Contudo, estas crianças também foram fruto de casos de prostituição, de agressões sexuais ou de violações. Catarina Gomes chama-lhe um livro de pós-reportagem, no qual conta o que aconteceu, depois da publicação das histórias no jornal, e se assume como participante no enredo, em busca destes pais desaparecidos. Sem alarido, numa comoção sublime.»

Fernando Hedgar da Silva depositava grandes esperanças no encontro com um ex-militar português, que tinha optado por permanecer na Guiné após o fim da Guerra Colonial (1961-1975). Quando o homem lhe perguntou como se chamava o pai, Fernando respondeu o único nome que a mãe, timidamente, lhe havia dito: “Furriel. O meu pai chama-se Furriel.” O ex-militar ficou incrédulo e explicou-lhe que Furriel não era um nome; antes uma patente. Afinal, Fernando sabia menos de nada sobre o seu pai. E era esse vazio que o preenchia quase por inteiro.

António Gedeão é autor de Poema da Malta das Naus, um lindíssimo poema que deu uma muito bonita canção de Manuel Freire:

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi pelouros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


quinta-feira, 22 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


22 de Abril de 1974

Neste dia ainda falamos do almoço íntimo que o chefe de estado ofereceu em Belém a Marcelo Caetano, a alguns ministros, a algumas altas figuras do regime e pelo grande destaque, na sua 1ª página que o jornal Época dá ao repasto.

Para quem não se lembre, ou não saiba, a Época é o resultado de uma fusão entre os jornais A Voz e Diário da Manhã, ambos apregoadores-mor das virtudes da ditadura, ocorrida a 1 de Fevereiro de 1971, tendo como director Barradas de Oliveira e custava 2$50.

 A exemplo de O Século e Diário de Notícias, a Época também não informa o que as excelências comeram e beberam, mas adianta que tudo se passou num ambiente de grande cordialidade…alguns odiavam-se mesmo! A notícia não termina sem que o repórter diga que o Presidente da República e o professor Marcelo Caetano mantiveram troca de impressões.

Que impressões?

1.

O chefe de estado aceita o convite para inaugurara a Feira Nacional de Agricultura e recebeu o arquiduque Otão de Hasburgo que, na véspera, no Grémio Literário proferira uma conferência sobre Política Internacional, presentes, entre outras individualidades, Adriano Moreira, prof. Soares Martinez, Ramiro Valadão, presidente da RTP.

2.

No jornal República, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, que era um elo de ligação entre os militares e a imprensa, sabendo do que daí a dias iria acontecer, escreve no seu habitual Ponto Crítico:

A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.

3.


Neste pequeno apanhado de algumas das canções de antes de 25 de Abril, não poderia deixar de aparecer Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, musicado e cantado por Manuel Freire.

Nas suas Memórias, António Gedeão/Rómulo de Carvalho, reconhece: Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Em Setembro de 1969 Manuel Freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip.

 

sábado, 25 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AMÁLIA CANTA LUÍS DE CAMÕES

Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:
 «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

Texto publicado em 30 de Março de 2019


domingo, 12 de julho de 2020

ETECETERA


A pandemia alastra pelo mundo, ainda há quem efusivamente se divirta, mas a esmagadora maioria tem o seu viver feito em estilhaços, outros enfrentam o frágil jogo de equilíbrio entre não se sabe bem o quê, mas não está longe de se encaminhar para trágicos desfechos.

Em França, um motorista de autocarro morreu na sexta-feira, depois de ter ficado em morte cerebral na sequência de um violento ataque por parte de passageiros, isto depois de lhes ter pedido que utilizassem máscara como medida de prevenção contra o novo coronavírus.

1.

Neste domingo, Lisboa derreteu-se de calor.

Há dias, um tipo, que cheguei a pensar estar a fazer qualquer coisa por aí, chafurdar em dinheiro, por exemplo, menos ter que o ouvir dizer barbaridades, Durão Barroso de seu nome, um tempão decorrido, 100 mil mortos e tudo o resto que é muito, assumiu que a realização da Cimeira das Lages, e o apoio à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, foi um erro, e ainda deu para nos dizer que não foi esse apoio que o levou a ser presidente da Europa.

O Expresso, numa das suas primeiras páginas, informava que a sociedade de advogados SRS, liderada por Pedro Rebelo de Sousa, vai juntar-se à AAA Sociedade, de que Dulce Franco, antiga secretária do governo de Durão Barroso, é socia fundadora. Juntos serão mais fortes, pois então.

O orçamento retificativo, o último documento preparado por Mário Centeno, indica uma previsão de recessão de 6,9% do PIB este ano, com retoma para um crescimento de 4,3% em 2021. Das 263 propostas que a Oposição apresentou só passaram 35.

2.

Continua o calor infernal.

António Costa olha os tempos difíceis: Tap, Efacec, Novo Banco, parte do Partido Socialista, grande parte mesmo, a não compreender porque não apresenta um candidato do partido às presidenciais, o que levou o ministro Pedro Nuno Santos a dizer que se isso não acontecer terá que votar no candidato do BE ou do PCP, enquano os incêndios que começam a rebentar com meio mundo a dizer que nada foi feito para os prevenir e combater.

3.

Sobre o que se passa no Brasil muito pouco se sabe,  mas é certo que o COVID-19 assaltou Bolsonaro e, à data, entrou nos  1.643.539 brasileiros atacado pela tal «gripezinha». O governo investiga agora o jornalista que desejou que Bolsonaro morresse.

4.

José António Saraiva foi condenado por devassa da vida privada.

A jornalista Fernanda Câncio é uma das indemnizadas. Autor do livro "Eu e os políticos", que foi retirado do mercado por ordem judicial, foi condenado a 180 dias de multa à taxa diária de 30 euros: 5400 euros e a pagar indemnizações aos autores da queixa e assistentes no processo, a jornalista Fernanda Câncio e um seu ex-namorado no valor de 15 mil euros cada.

O  ​​​​​​livro "Eu eos Políticos - O que não pude (ou não quis) escrever até hoje", foi publicado pela Gradiva em Setembro de 2016.

José António Saraiva, que não se cansa de dizer que será um dos próximos Prémio Nobel da Literatura, ainda não disse se recorrerá da sentença.

5.

Portugal comprou pelo menos 627 mil máscaras FFP (modelos mais avançados, para uso dos profissionais de saúde em contacto com as pessoas infetadas) sem certificado de qualidade ou com um certificado de qualidade duvidoso, revelou o jornal Público. O fenómeno repetiu-se por toda a Europa, uma vez que durante a pandemia da Covid-19 a União Europeia aliviou os critérios de certificação para permitir a rápida aquisição do material necessário: nesta altura, não é obrigatório que o equipamento tenha a indicação CE (que garante o cumprimento das normas europeias), embora vendedores e compradores tenham de assegurar a qualidade das máscaras, sujeita a fiscalização.

6. 

Títulos ao acaso.

Primeira página do Público de 6 de Julho.

7.


Com 92 anos, morreu Enio Morricone, autor de inúmeras bandas sonoras, tendo trabalhado com grandes realizadores e vendido mais de 70 milões de discos.

Lisboa, Maio de 2019,  fez parte das cidades que assistiram  à digressão mundial da sua despedida dos palcos.

8.


No dia 5 de Julho morreu o realizador Alfredo Tropa. Um dos seus notáveis trabalhos para a televisão  chama-se Povo Que Canta.

Para o cinema realizou, em 1970, Pedro Só, uma adaptação sua da obra de Manuel Mendes Pedro – Romance Dum Vagabundo, em que contou com a colaboração de Fernando Assis Pacheco e Afonso Praça. As canções do filme  têm poemas de Ferando Assis Pacheco, música de Manuel Jorge Velosos e são cantadas por Manuel Freire,

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Estas são as últimas fotografias de murais, pintados, pós 25 de Abril, nas ruas de Lisboa.

Havia mais algumas mas estão em muito pior estado do que aquelas que foram publicadas.

Há 46 anos, sem muitos o saberem, chegávamos à véspera do Dia das Surpresas.

Neste caminhar do 25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se o 25 de Abril cumpriu o que, por aqueles dias, foi prometido ao povo.

Há um poema de José Saramago em que se pode ler:

«O homem diz que sabe o caminho, mas não acrediteis porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»

Não sei das contabilidades do cumpriu ou não cumpriu.

Pelo menos sei de uma, e considero-a de uma importância tal que me faltam palavras:

O FIM DA GUERRA COLONIAL!

Lembram-se das palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba
nos lançou?

«A Pátria não se discute, defende-se!»

Mas qual pátria?

Toda uma juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.

O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

Os cinco dias a que me propus o colocar fotografias dos murais, juntando uma canção daqueles tempos, levou a que muitas dessas canções tivessem ficado de fora.

Mas o Manuel Freire não poderia faltar.

Foi ele que com a «Pedra Filosofal» divulgou o António Gedeão, o próprio poeta o reconheceu, que não teria a projecção que teve, se não fosse essa canção.

Mas irei escolher «Livre», um poema de Carlos de Oliveira que faz parte de um EP editado em 1968.



Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

UM AVENTUREIRO DE GRANDE CALIBRE!


A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora.
Neste dia escreve carta a Óscar Lopes e conta-lhe que arranjou uma guerra com um colega professor que a Editora da Correspondência Saraiva/Lopes, elucida tratar-se de J. Rentes de Carvalho.
Olha que dois!

«Mas quando as relações são a nível propriamente funcional, em que é preciso agir e reagir em função de dados objectivos, falho completamente.
Foi o que agora aconteceu. Tive diante de mim um intriguista e aventureiro de grande calibre, que numa primeira fase procurou captar-me, e numa segunda intimidar-me. Quase desde o princípio percebi a qualidade do sujeito, mas não fui capaz de proceder como era objectivamente necessário. Deixei-me intimidar e ir a coisa longe demais. Faltou-me não só a capacidade de ver friamente os dados da questão, mas a força e a presença para me impor e para reagir a tempo.»

Em final de carta, Saraiva disserta sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

Por fim escreve:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.
Por Abril aconteceu o dia de todas as surpresas.
Tal como José Saramago, num poema-depois-feito-canção por Manuel Freire, previra:


Legenda: J. Rentes de Carvalho

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ELES NÃO SABEM QUE O SONHO É UMA CONSTANTE DA VIDA


Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.
O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.
Em Setembro de 1969 Manuel freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip. Comprei-o alguns dias depois após a sua saída, e treze dias depois de o ter comprado procurou-me, no liceu em que então eu trabalhava, o Liceu pedro Nunes, um locutor da televisão que me foi oferecer um exemplar. Disse-me então que tinha estado em paris, tendo levado o disco á Feira Internacional que aí decorria, onde um canadiano aí lhe disse que pretendia editá-lo, em língua francesa, no Canadá. Não sei qual foi o futuro desse desejo.
(…)
O disco de Manuel freire foi famoso. Em meados de 1971 já se tinham vendido mais de 10.000 exemplares. Em toda a parte foi cantado. Calculem, meus queridos tetranetos, que em 19 de Fevereiro de 1978, o padre da Igreja de S. Domingos disse, não cantou, durante a missa, o poema da Pedra Filosofal. Era domingo, e a missa foi televisionada.
(…)
Tenho comigo cinco discos do Manuel freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

COM A ADMIRAÇÃO DE QUEM ESTAVA PRESENTE


Na primeira leitura que fiz das Poesias Completas de António Gedeão, Pedra Filosofal ficou logo assinalado como um das muitas poesias suas da minha preferência.
Quando naquela segunda-feira de Setembro de 1969, Manuel Freire cantou, no Programa ZIP-ZIP, a Pedra Filosofal, fiquei arrepiado.
António Gedeão, nas suas Memórias, expressa a ideia que foi Manuel Freire, musicando alguns dos seus poemas, permitiu que a sua poesia conseguisse um êxito generalizado e nunca imaginado.
Mas peguemos em algumas das passagens em que Gedeão aborda essa faceta da sua vida de poeta:

No ano de 1969 fui procurado pela Casa Valentim de Carvalho, importante produtor de discos, que me queria convidar para gravar um disco com poemas meus, ditos por mim. Em 28 de Março desse ano fui a Paço de Arcos aos respectivos estúdios, e aí disse sete poemas, à minha escolha. Tem graça que os disse todos de seguida sem ser necessária qualquer repetição. Conforme os disse à primeira, assim ficaram gravados com a admiração de quem estava presente. Não é costume ser assim. Devo dizer, na minha qualidade de ouvinte, que das dúzias de poemas meus que tenho ouvido dizer por outrem, é a minha dicção a que me agrada mais. Não há nisto nenhuma presunção. Isto quer dizer apenas que gosto mais de me ouvir a mim do que aos outros, ne recitação dos meus poemas.
O disco vendeu-se bem e a casa Valentim de Carvalho resolveu efectuar a gravação de um segundo disco, também dito por mim, de outros poemas. Em 21 de Março de 1971 voltei a Paço de Arcos e aí gravei o novo disco. Depois esperei. Esperei e a esperar terminou esse ano de 71. Entrámos em 72 até que no dia 10 de Março desse último ano, indo eu na rua, encontrei uma senhora conhecida que me disse já ter comprado aquele meu novo disco e, é claro, ter gostado muito. Ai, sim? Não sei de nada.
Fui então à Valemtim de carvalho a aí ao balcão disse à empregada que atendia os fregueses que eu era fulano de tal, que tinha gravado, naquela empresa, um disco meu e que não me tinham dado nenhum exemplar. Se ela não se importasse que fosse lá dentro ver se estava lá algum superior da casa, e lhe comunicasse o que se passava. A criatura foi lá dentro e tornou a aparecer com o disco na mão. Entregou-me, e eu, muito boa tarde, saí do estabelecimento.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva