quarta-feira, 30 de setembro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O futebolista Cristiano Ronaldo, em aparente litígio com o treinador Jorge Jesus, abandonou o estágio da selecção, que decorria em Copenhague, com vista ao jogo com a Dinamarca, a contar para a Taça das Nações.

Mandou vir o seu jacto particular e regressou a casa.

A seu tempo, as partes envolvidas revelarão as suas verdades!...

CR7 é um menino-crescido que pensa que é dono de tudo e algo mais.

Há muito deveria ter acabado a carreira em alta, mas agora arrisca-se a sair pela direita baixa.

No país, continua o aumento do custo de vida, a crise da habitação, os problemas do Serviço Nacional de Saúde, os baixos salários, as baixas reformas.

Legenda: fotografia de José Sena Goulão/Lusa.

OLHAR AS CAPAS


O Caminho Imperfeito

José Luís Peixoto

Ilustrações: Hugo Makarov

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017

O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.

Colaboração de Aida Santos

SECRETO APELO

Na floresta silenciosa

Fui encontrar a rosa

Prometida.

 

Na floresta silenciosa

Fui encontrar, generosa,

A minha vida.

Ruy Cinatti

terça-feira, 29 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade.

Ruy Belo

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder

SOLTAS


Ao longo dos tempos a Casa onde viveu António Sérgio sempre viveu momentos difíceis, desde ser vendida, ao abandono a que diversas entidades a submeteram.

Há dias lia-se no Público que a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem futuro incerto.

«Numa cave de uma moradia na Lapa, na freguesia lisboeta da Estrela, guardam-se à volta de 7500 livros que pertenciam ao pensador e ensaísta António Sérgio (1883-1969). “Aqui há de tudo: desde química até filosofia”, nota a técnica documentalista Sónia Queiroga. “Muitos têm dedicatória ou anotações e vários eram oferecidos.” Uma sala ao lado reveste-se de diversas publicações sobre cooperativismo e economia social ou de obras da autoria do próprio António Sérgio. Neste depósito, há ainda espólios de outros autores.

Com um acervo único, a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem um futuro incerto
Neste momento, a Casa António Sérgio tem o seu destino em aberto. Nos últimos anos, este tem sido um espaço gerido pela CASES, cuja dissolução foi recentemente aprovada, após a saída do Estado como seu membro. Funcionários e direcção alertam para um património “único” que se pode perder. Em relação ao seu proprietário, a Câmara de Lisboa, que o tem cedido desde 1982, refere que possíveis mudanças ou desenvolvimentos serão analisados em “momento oportuno”.».

A imagem em cima, mostra um recorte do Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1980 em que se noticiava que um incêndio,dado o abandono que rodeava o edifício, ocorreu na casa onde viveu António Sérgio. 

1.

«A amizade é uma coisa muito complexa… É-se amigo de alguém, na minha opinião, quando se cria uma exigência em relação a essa pessoa extremamente utópica. Isto é: quando se pretende que essa pessoa seja o próprio em melhor. Eu sou amigo de alguém, exigindo dele coisas que não sei que não sei capaz de fazer.»

José Cardoso Pires

2.

Os cortes orçamentais estão a levar as organizações de apoio aos refugiados ao "ponto de rutura" em áreas cruciais, onde cerca de 8,3 milhões de pessoas arriscam ficar sem ajuda este ano, alertou esta terça-feira a ONU.

"A proteção não pode ser reduzida indefinidamente sem provocar o colapso dos sistemas", disse o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Abaixo de um determinado limiar, os serviços não se limitam a atingir menos pessoas, alertou.

"Podem deixar de funcionar por completo, deixando os mais vulneráveis sem a proteção de que necessitam", sublinhou Dominique Hyde, diretora de relações externas do ACNUR, por ocasião da publicação de um relatório da organização, sedeada em Genebra, na Suíça.

3.

Desde que os EUA iniciaram a onda de ataques ao Irão, a 28 de fevereiro deste ano, não foram só o preço dos combustíveis e a conta do supermercado que passaram a pesar mais no orçamento das famílias. O Banco Central Europeu aumentou por duas vezes as taxas de juro, a última das quais a 10 de setembro, em 0,25 pontos percentuais. Quem tem crédito à habitação com taxa variável - quase um milhão de famílias, segundo dados oficiais do Banco Portugal -, viu as prestações escalarem, para lá, em alguns casos, dos 100 euros.

4.

«Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas), passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.»

José Pacheco Pereira no Público

5.

São mais de 32,5 milhões por ano para pagar as 381 novas reformas acima de cinco mil euros da Função Pública até setembro. Médicos, administradores hospitalares e juízes lideram a lista de reformados e aposentados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) este ano, onde estão nomes como Carmona Rodrigues, Maria de Lurdes Rodrigues, Barradas Leitão ou José João Abrantes.

O número de novas reformas acima de cinco mil euros brutos na Função Pública caiu ligeiramente face a 2025, mas os gastos subiram. As reformas de 381 novos pensionistas dariam para pagar aos 3212 recém-reformados com menos de mil euros.

HERBERTIANAS


Na Biografia do Herberto Helder escrita pelo João Pedro George, também há um capítulo que poderia entrar na secção de Livros Autografados.

Paramos na página 630 e cito:

«Outro amigo a quem Herberto ofereceu Flash foi António Barahona. Dias depois. Disse que o tinha perdido e Herberto ofereceu-lhe outro exemplar. Acontece que, mais tarde, os dois apareceram à venda num alfarrabista, o que enfureceu Herberto: julgava que tinha um amigo mas, afinal, o que tinha era um amigo que o estava a usar. Olga Lima recorda a amarga decepção que Herberto sofreu quando se apercebeu disso: »O Herberto zangou-se com o Barahona porque lhe ofereceu dos exemplares do Flash autografados e o Barahona vendeu-os porque precisava de dinheiro. Depois disso o Herberto nunca mais lhe ofereceu livro nenhum.»

No funeral de Herberto Helder, António Barahona resolveu aparecer sem ser convidado. Quando Olga, a viúva do Herberto, o viu, não resistiu e atirou-lhe na cara:

«Tu aqui!!!??? O Herberto dedicava-te livros e depois ias vendê-los aos alfarrabistas.» Gisela Oliveira estava a sair do elevador do piso de casa do pai quando deparou com esta cena, Olga à porta, muito exaltada impedindo Barahona de entrar e dizendo-lhe que estava proibido de ir ao funeral. Porque Olga, diz a filha, associava também «o Barahona ao grupo de críticos que tinham dito muito mal do último livro do meu pai. Lembro-me de ver o Barahona quase em lágrimas, a dizer: “Ola, isso não é verdade, eu amava o Herberto!”».

Legenda: capa de uma 1ª edição de Flash à venda, na internet, por 1200 euros.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Teresa Martins Marques é uma profunda estudiosa da obra de José Rodrigues Miguéis. Entre 1994/96 dirigiu e prefaciou, para o Círculo de Leitores, os 13 volumes da edição das Obras Completas de José Rodrigues Miguéis.

Com essa enorme bagagem da obra de Miguéis, Teresa Martins escreveu uma biografia do autor como se fosse um romance: Nos Passos de José Rodrigues Miguéis.

Concebido através de diálogos do escritor com a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, com quem convive, desde 1975, quando Maria de Sousa foi fazer pesquisa científica em Nova Iorque. Numa carta, datada de 1978, dirigida ao amigo e director do Diário Popular, Jacinto Baptista, confessa que é uma investigadora de categoria, também poeta.

Para este longo trabalho foram compulsados e citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos, bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional.

O importante é conhecer a obra de José Rodrigues Miguéis, extraordinário escritor, um dos grandes prosadores do século XX, mas Nos Passos de José Rodrigues Miguéis torna-se uma aventura deliciosa a leitura deste retrato em livro de 698 páginas. 

OLHAR AS CAPAS


Nos Passos de José Rodrigues Miguéis

Uma Biografia Como um Romance

Teresa Martins Marques

Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida

Capa: Sofia Travassos

Âncora Editora, Lisboa, Junho de 2025

Bem sei que o António Sérgio escreveu no Diário de Lisboa (5/4/1935) sobre mim: «é um espírito rico, variado, insinuante, fino e o mais admirável dos oradores que jamais ouvi na minha língua.» Confesso que nem sempre terei sido justo com este homem, mas o meu coração pende para o lado de Raul Proença. O que fazer? Devo-lhes a todos eles o encorajamento para começar a escrever e até mesmo a bolsa que tive par ir estudar em Bruxelas.

O SILÊNCIO DAS PLANTAS

O relacionamento unilateral entre mim e vocês
não vai mal de todo.

Sei o que são folhinhas, pétalas, espigas, pinhas, caules
e o que se passa convosco em Abril e Dezembro.

E embora a minha curiosidade não seja correspondida,
inclino-me especialmente sobre umas
e ergo a cabeça para outras.

Para mim, vocês têm nomes:
ácer, bardana, amémona,
urze, zimbro, visgo, miosótis,
já eu, para vocês, nenhum.

Viajamos juntas.
E nas viagens conversa-se.
Trocam-se opiniões, nem que seja sobre o tempo
ou sobre as estações velozmente atravessadas.

Temas não faltariam, pois muito temos em comum.
Estamos ao alcance da mesma estrela.
Fazemos sombra, regidas pelas mesmas leis.
Tentamos saber algo, cada uma à sua maneira
e o que não sabemos também nos assemelha.

Perguntem, tentarei esclarecer-vos:
o que é ver com os olhos,
para que me bate o coração
e porque o meu corpo não cria raízes.

Mas como responder às perguntas não colocadas,
ainda por cima, sendo eu para vocês assim,
tão ninguém.

Moitas, pinhas, prados e juncais,
tudo o que vos digo é um monólogo,
mas não são vocês que o ouvem.

Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.
Urgente nesta vida apressada
e adiada para nunca.

Wislawa Szymborska em Instante

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos.

Fernando Pessoa

SOLTAS


O Papa Leão XIV visitou a França e não esqueceu as vitimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero e pediu aos bispos franceses que continuem a trabalhar mantendo “a máxima vigilância” face ao flagelo dos abusos, durante uma reunião em Lourdes.

«Nos últimos anos, vocês enfrentaram com firmeza o doloroso flagelo do abuso de menores cometido por membros do clero ou no seio da Igreja. Tomaram medidas corajosas para a combater, através da escuta ativa, da busca da verdade, da justiça, do perdão, da reparação e de um firme compromisso com uma cultura de prevenção e proteção contra estes crimes.»

Em França, foram identificados aproximadamente 330.000 casos de abusos cometidos por membros do clero entre 1950 e 2020, de acordo com uma investigação de 2021, e pouco menos de 2.000 vítimas receberam uma indemnização por esses crimes.

Assim vai o clero, frouxo quase indiferente, face aos crimes praticados, seja onde for, pelos seus membros.

A atitude do clero português, face a este flagelo, nem é frouxa, nem indiferente:

É MISERÁVEL!

1.

 

Não esquecer nunca que a União Europeia, os Estados Unidos, outros mais, são cúmplices do genocídio que Netanyahu está a realizar em Gaza.

2.

Alguém terá que dizer a Cristiano Ronaldo, e Jorge Jesus não é rapaz indicado para isso, que está a aproximar-se de um fim de carreira sem ponta de glória.

Diz um leitor do Público:

« Ronaldo está a envelhecer muito mal. É preciso saber sair, é preciso saber carregar todos os records.Fazer figura de malcriado, reles, mimado e burgesso não é compatível com a sua ambição.Ronaldo precisa de contratar um gestor de carreira e de liderança para conseguir não estragar tudo o que alcançou. Pode cobrir-se de ouro, diamantes, pedras preciosas, jactos privados,iates, carros desportivos bimbos, tudo o que o dinheiro pode comprar, mas isso não esconde a ignorância, a soberba e falta de visão. Mais dignidade, gravitas e sabedoria, acorda Ronaldo, já bateste contra a parede.»

3.

Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos faz um levantamento  dos 507 ministros da democracia portuguesa, concluindo que quem  tem governado Portugal em democracia são sobretudo homens, com mais de 50 anos, que  pertencem a “elites políticas altamente profissionalizadas, nas quais a experiência partidária e a competência técnica se entrelaçam de forma estrutural; de acordo com o estudo, os governos portugueses estão a ficar mais velhos, mais qualificados e mais partidários e para entrarem no círculo do poder as mulheres precisam de mais estudos; outro dado: ser ministro em Portugal não é um emprego estável já que  a duração média no cargo é de um ano e meio, 19% dos membros do governo  não completam o mandato e quatro em cada dez saem devido a escândalos, pressões dos jornais ou contestação social.

4.

Portugal é o país da União Europeia (UE) onde mais pessoas bebem álcool diariamente. Quase um quinto da população (16%) ingere estas bebidas todos os dias, três vezes mais do que a média europeia. Os homens portugueses consomem o triplo das mulheres e 15,4% desta população está em risco de pobreza ou exclusão social.

À LUPA

Lido no jornal A Bola:

11 filhos, 7 mulheres e 160 milhões perdidos: a vida 'louca' do ex-jogador Roberto Carlos

O antigo internacional brasileiro Roberto Carlos revelou ter perdido a totalidade dos ganhos acumulados ao longo da sua carreira desportiva, uma fortuna estimada em cerca de 160 milhões de euros. Aos 53 anos, o antigo lateral-esquerdo confessou ter ficado sem dinheiro na sequência de manobras de falsos amigos, agentes desonestos e familiares, que lhe esvaziaram por completo as contas bancárias.

Revelação feita durante o Portugal Football Summit.

OLHAR AS CAPAS


 Ensaios

Tomo II

Publicações Europa-América, Lisboa, Maio de 1957

António Sérgio

Considera todavia, que nem neste volume nem nos outros te requero adesão a qualquer teoria, qualquer partido, a qualquer fé. Só busco excitar o teu pensamento: porque pensar, como sabes não é crer; crer na maioria dos casos, é até a melhor maneira de não pensar.

Mas é de honestidade que me entendas primeiro, não me lendo a dormir. Como tantos outros.

ÚLTIMA FLOR

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!"


Olavo Bilac 

domingo, 27 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

António Lobo Antunes

Legenda: imagem de Paul Bçow/The Guardian

NESTE DIA


È um domingo de 1968, mais precisamente, 30 de Setembro.

Para conversas com o grupo que, na Madeira, fazia o Comércio do Funchal, Mário Sacramento viaja até à Madeira.

Regressou a Lisboa e foi até à redacção do Diário de Lisboa.

Para saber do andamento das coisas que envolviam a doença de Salazar e olhou as provas já montadas para saírem quando o ditador bater a bota.

Escreve Mário Sacramento no seu Diário: 

MÚSICA PELA MANHÃ

E continuamos com a minha selecção de canções de domingo.

Estre disco da Elsa Quarta foi comprado e, 23 de Julho de 1966

Por mera curiosidade copio um pormenor da contra capa.


Colaboração de Aida Santos.





sábado, 26 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Bíblia: um livro religioso inventado.

Barbara Reis

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que estava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, apenas folheada, mas a que há que voltar.

Assim irá acontecendo.

OLHAR AS CAPAS


O Tibete

Michael Willis

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Julho de 2005

O Tibete alarga uma cultura riquíssima e ancestral que tem sido objecto de muitas influências formativas. Entre elas, o nosso ambiente natural e acalentou um espírito forte de liberdade e flexibilidade no carácter tibetano.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ


O rapaz extraordinário chamado Jorge Palma deixou-nos.

Não há muitos, quase nenhuns, como ele.

Marcou um tempo, o nosso tempo.

Já não vai andar por aí mas ficam os concertos, os poemas, as músicas e é isso que não podemos esquecer!





sexta-feira, 25 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Porque a morte é uma libertação desta vida.

Maria Filomena Molder

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

81ª Assembleia Geral da ONU.

Antes do discurso de Netanyahu, foram apresentadas na Assembleia Geral as declarações do Presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, que tiveram de ser previamente gravadas, já que os Estados Unidos rejeitaram os pedidos de vistos feitos por si e pela sua delegação, pelo segundo ano consecutivo.

Netanyahu leu o seu discurso perante aquela enorme quase sala completamente vazia e acabou a dizer que Israel tem o exército mais mural do mundo.

Fora do edifício da ONU decorreram largos protestos, convocados por grupos judaicos e israelitas contra a governação de Netanyahu e apelando a que seja responsabilizado pelos crimes cometidos à luz do direito humanitário internacional.

Cerca de uma centena de manifestantes foram detidos pela polícia e nesse grupa estava a actriz Susan Sarandon:

«Netanyahu, não podes esconder-te, acusamos-te de genocídio e nenhum de nós é livre até que todos sejamos livres.»

À LUPA

O líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, protagonizou um dos momentos do debate desta quinta-feira, na Assembleia da República, sobre o aumento do custo de vida, na Assembleia da República. O social-democrata acusou o líder daquela coisa, de ser um “aldrabão”.

Em podcast, jornalistas do Público admitem que, perante um deputado chamar aldrabão a outro, uma linha vermelha foi ultrapassada ou é apenas o 'novo normal' no Parlamento?

SONETO À MANEIRA DE CAMÕES

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Com certeza que já vos aconteceu ouvir uma voz que chama pelo vosso próprio nome. Dizem as pessoas simples que é uma alma que tem saudades vossas e que vos comunica a proximidade da morte.

Gogol

RETRATOS


Nome: Vinicius. Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que nasci.

Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Baía (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.

Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.

Filhos: três e um a caminho

Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.

Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos…)

Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta
(Activo). Sou materialista.

Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.

Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.

Actualmente sou segundo
Secretario de Embaixada.

Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.

Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.

Prefiro vitrola a rádio
Automóvel atrem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).

Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.

Minhas frutas predilectas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.

Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).

Tinha dezanove anos
Quando estreei com meu livro
O Caminho para a Distância
Meu preferido é o último:
Poemas, Sonetos e Baladas.

Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei jiu-jitsu
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabina
Sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.

As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(Com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.

Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz
(E infeliz). Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boémio.

Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.

Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Conde nada mais digo.

Vinicius de Moraes

Nota do Editor:

Em 1956, João Condé, criador dos “Arquivos Implacáveis”, pediu a Vinicius de Moraes que escrevesse algo sobre si.

O poeta atendeu-o com o Auto-Retrato que aqui se publica e encontrado nas badanas O Operário em Construção e Outros Poemas.

Legenda: desenho original de André Carrilho, tirado de “Cinema” de Vinicius de Moraes.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Uma vereadora em Lisboa diz que “dinheiro fácil” do Volta põe em causa trabalho social

O “dinheiro fácil” do sistema de embalagens Volta veio comprometer o trabalho dos técnicos sociais, afirmou  a vereadora com o pelouro das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo na Câmara de Lisboa.

«O Volta o que veio também trazer é que, muitas vezes, o trabalho que é feito pelos técnicos no terreno é posto em causa sempre que existem mecanismos de dinheiro fácil, porque não se trata da inexistência de respostas, trata-se naturalmente de um acompanhamento personalizado que tem que haver de acordo com a vulnerabilidade”, defendeu Maria Luísa Aldim (CDS-PP), na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa».

Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, insurge-se porque os apanhadores de garrafas, quando remexem os caixotes, deixam a rua cheia de lixo. Mesmo antes do Volta, Lisboa sempre foi uma cidade suja e nunca se viram grandes preocupações por parte do autarca, mais interessado em unicórnios e outras variedades.

O governo está intransigente e diz que, com o Volta, estão a cumprir-se medidas/exigências da União Europeia.

FUZILARAM UM HOMEM NUM PAÍS DISTANTE

Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças
proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino que a morte!

Sim, proíbo!
E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!

José Gomes Ferreira em Poesia III

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Estou farto de céu e quero mundo! Quero Morte! Quero dor! Quero tabernas.

José Gomes Ferreira

SOLTAS

O lavagante, dizem, é o Rei dos Crustácaeos, Homarus gammarus é uma espécie de crustáceo decápode marinho da família Nephropidae, vivendo no nordeste do Oceano Atlântico, Mar Mediterrâneo e parte do Mar Negro.

É o título de uma novela do José Cardoso Pires, escrita em 1963 e apenas publicada em Fevereiro de 2008, decorria o 10 aniversário da sua morte.

O dono do Lanterna, o melhor bar de praia, a atirar par o carote, sabia alguma coisa da vida dos lavagantes, mais saboroso que a lagosta e Cardoso Pires, deixou no livro, os conhecimentos que então ouviu sobre lavagantes:

«Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. 'Nesse momento fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.»

1.

«Os jornais noticiaram há dias, que um homem pobre e doente, falecido no hospital d S. José, deixara como última vontade, a de ser enterrado vestindo a camisola do Benfica, e se possível, debaixo da águia que identifica o Estádio da Luz. Apenas a primeira parte do desejo pôde ser satisfeita. As posturas municipais modernas são rigorosas e cada vez se percebe menos de mortos».

José Cutileiro em O Tempo e o Modo nº 25/26, Março/Abril de 1965

2.

Portugueses, calculados em 2,7 milhões, têm gatos como animais de companhia.

Há velhotas, de parcos rendimentos, que no supermercado, gastam mais em comida para animais do que na sua própria alimentação.

Não saberá nunca das razões que levam escritores, cantores, artistas vários, a gostarem de gatos, a deixarem-se fotografar junto a gatos. A Assírio & Alvim tem uma antologia de poesia de felinos a que chamou Assinar a Pele».

3.

«Que Deus dê as nozes a quem não tem dentes, ainda é o menos; o mal é que Ele as dá quase sempre em demasia, a quem os tem.»

José Rodrigues Miguéis

OS PÁSSAROS VOLTARÃO EM MARÇO


Assistir à chegada do Outono e entramos por ele dentro com temperaturas de 30 graus.

Faz calor e se não fossem as noites chegarem cada vez mais cedo,  diríamos que os dias eram outros.

Nos meus tempos, as aulas começavam no dia 1 de Outubro, apresentação no ginásio do Liceu Gil Vicente: alunos, pais, o reitor, os professores, o comissário da Mocidade Portuguesa.

As aulas da Primária começavam a 7 de Outubro.

Já se andava de camisolas de gola alta, gabardines e sobretudo.

Chovia quase todos os dias.

Agora as aulas começam no meio de Setembro e chegamos a Outubro envergando as roupas de Verão.

Quando Outubro começava já a minha avó tinha feito o doce de tomate e tudo aquilo que gira em volta dos marmelos: a marmelada, a geleia, marmelos cosidos aos quartos com açúcar que se guardavam em grandes frascos de vidro.

Outubro quente traz o diabo no ventre.

Em Outubro pega tudo.

Outubro sisudo recolhe tudo.

Quem planta no Outono, leva um ano de abono.

Vindima em Outubro, que S. Martinho to dirá.

E como alguém diria: os pássaros voltarão em Março.


Legenda: fotografia de Lia Faria

HAIKAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana

terça-feira, 22 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que o 25 de Abril não se torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.

Jorge Palma

LIVROS AUTOGRAFADOS


Comprei O Secreto Adeus num qualquer alfarrabista. ou num qualquer vão de escada de bairro que já desapareceram.

Dois escritores que estimo: Baptista-Bastos e Eduardo Valente da Fonseca. 

Amiúde encontrava-os no Bar Expresso no Largo da Trindade.

A estranha sensação de como este exemplar oferecido ao Eduardo, aparece perdido por aí. 

Alguém se desfez da biblioteca do Eduardo?

 O livro foi roubado?

Ou emprestado e nunca devolvido?

Frases sublinhadas:

«A democracia é um mito inventado por políticos falhados».

«Todos sabemos o que se tem praticado em nome da ordem».

«Então, porque bebo? «É o medo de estar lúcido.»

Palavras do poeta José Gomes Ferreira na contra capa do livro:

«Testemunho ardente que veio desvendar-me as razões fundas por que certa juventude – por certo a mais consciente e digna – vive afogada, dir-se-ia que provisoriamente, numa desregra de exageros sexuais. Afinal, segundo revelação perturbadora deste depoimento em forma de romance, essa juventude sofre de «saudade de heroísmo impossível».

JORGE PALMA (1950-2026)


Morte de Jorge Palma aos 76 anos.

Que dizer?

Um tipo sem classificação, mas sujeito às tretas do costume: a música portuguesa, ou Portugal  ficam mais pobres.

Como ele dizia:

«Deixa-me rir!»

Em Setembro de 1973 recusa-se cumprir o serviço militar obrigatório e foge para a Dinamarca:

«Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou!» 

São assim os pássaros rebeldes!

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há de ter mais cartas pra dar

E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem

Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Jorge Palma

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Chove no poema há alguns anos. O poeta abre, finalmente, o chapéu de chuva.

Nuno Júdice

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Ana Sá Lopes, no Público de hoje, escreve que Montenegro será o pai, a mãe e a tia da austeridade.

«O tom soturno de Luís Montenegro na comunicação ao país de quinta-feira, aqui e ali com laivos de desespero não habituais num homem frio, foi uma metáfora acabada do momento que se vive na economia portuguesa (e mundial).
Estamos tramados. Todos os que viveram os choques petrolíferos dos anos 70 – e o racionamento da gasolina –, o programa do FMI de 1983-1985 e, finalmente, a intervenção da troika têm prática de crises. Ter prática não é grande consolo. Tudo o que se passou foi muito mau, houve muito sofrimento que, agora, está prestes a repetir-se.»

Consta por aí que os dias estão muito difíceis. Também se diz que vão piorar.

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um dia de Julho de 1968, José Cardoso Pires numa entrevista, a Mário Ventura, disse:

«Sou um escritor que pensa muito com o aparo.»

Exactamente 18 títulos em 50 anos!

Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo — para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.

Uma pré-publicação começou por ser publicada na revista O Tempo e o Modo, nº 11 do ano de 1963, como excerto de um futuro livro de Cardoso Pires, o que não veio a acontecer.

Mais tarde, Nelson de Matos, em Fevereiro de 2008, nos 10 anos da morte de José Cardoso Pires publicou o livro na sua nova editora - Edições Nelson de Matos, teve sete edições.

Em Setembro de 2025 a Relógio d’Água, que está a publicar a obra completa de José Cardoso Pires, publicou Lavagante

O livro, provavelmente, estará datado, nunca teve revisão de Cardoso Pires, mas está lá  o timbre da prosa que sempre o caracterizou.

Páginas a reter, principalmente no Capítulo XI, uma Lisboa a viver na dita «primavera marcelista», após um 1º de Maio em que a polícia de choque exerceu a costumada violência, perseguindo barbaramente os manifestantes:

«No dia 2 de Maio, quarta-feira, e para ser mais exacto, num fim de tarde, Cecília saiu do metropolitano nos Restauradores e dirigiu-se a certo snack-bar da rua da Prata.

De pois meses e meses de chuva cerrada, a Primavera, com uma persistência vegetal, secreta, conseguia vencer o manto húmido que pesava sobra a cidade. Nas últimas semana, o ar estava ligeiro, aliviado, e era Primavera, finalmente a Primavera, tal como costumava chegar a Lisboa depois de muitas hesitações e de muito trabalho para vencer as nuvens da costa.

As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “ Já sei.”. Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina; descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume – nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.»

OLHAR AS CAPAS


Lavagante

José Cardoso Pires

Fixação de texto: Ana Cardos Pires

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio d’Água, Lisboa, Setembro 2025

Fresco e impecável, o barman, está do outro lado balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça dianta duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.

- Viciámo-nos. Agora temos a censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?