A morte essa é um maravilhoso número indivisível.
Alexandre
Pinheiro Torres
Hoje
trataremos de Melo Neto, amanhã de Drummond.
É o nº 9 da Colecção Poetas de Hoje e para
apresentação do poeta («apenas alguma indicações ao leitor comum»), a
editora escolheu Alexandre Pinheiro Torres.
Quando
Chico Buarque de Holanda, mais um grupo de universitários brasileiros,
representaram em Lisboa Vida e Morte de Severina que vi no Teatro
Avenida, já conhecia a peça de Melo Neto, pois faz parte desta antologia.
Diga-se
que João Cabral de Melo Neto é um dos maiores poetas brasileiros, nascido em
1920 no Recife, estado de Pernambuco, que faz parte do nordeste brasileiro, e
Alexandre Pinheiro Torres não hesita em dizer que Melo Neto é poeta de «génio
autêntico».
Absinto-me cansado
na outonalma.
De absinto, no outono,
encharco a alma...
Muito deve a literatura
ao absinto.
Em qualidade, muito
mais
que ao tinto...
Ó Alexandre, manda-me
absinto
na volta do correio,
que eu já sinto, com
tanto tinto,
estancar-se-me o
veio...
Alexandre O’ Neill em PoemasCom Endereço
Começo de Vida e Obra de José Gomes Ferreira de Alexandre Pinheiro Torres.
Um dos mais bonitos e desconcertantes começos de livro:
«No ano em que o Zeppelin se arriscava
triunfante ao primeiro voo experimental, imagem Stanley-kubrikiana do início
matemático do século XX, mas sem valsas de Strauss na banda sonora, já que
imperava o «rei» Mahler de quem, por essa altura se estreava a 4ª sinfonia; no
mesmo ano em que, no élan dos
empreendimentos científicos e tecnológicos, Max Plank tornava pública a sua
novinha-em-folha teoria dos quanta (aurora
das leis da incerteza, da imprevisibilidade,
do aparentemente contraditório no domínio da Natureza reduzida ao átomo), e a
um auditório decerto mais vasto, o dos sobreviventes do mal du siècle, chegava a notícia consoladora de ter sido
inventado, para auto-exterminação mais rápida (aina a técnica!) o utilíssimo e
wertheriano revólver Browning; nesse mesmo ano – 1900 – nascia no porto, e
muito a propósito na Rua das Musas, José Gomes Ferreira.
Legenda: retrato de José Gomes Ferreira por Ofélia Marques
Parece que Appolinaire tinha razão quando afirmou, em linguagem metafórica, que a memória é uma trombeta de caça cujo eco morre com o vento.
Alexandre
Pinheiro Torres em Tubarões e Peixe Miúdo
Legenda:
fotografia Shorpy
José
Gomes Ferreira, constantes da Colecção Poetas de Hoje, tem 3 volumes
publicados.
Ficamos
com o autógrafo da sua Poesia I.
É
o nº 5 da colecção e o o prefácio é da autoria de Alexandre Pinheiro Torres:
«José
Gomes Ferreira, um dos mais notáveis poetas da língua portuguesa deste século,
nasceu no Porto, em 1900.»
O poema pertence a Heróicas, penúltimo capítulo da Poesia I:
Que me importa cantar!
Eu não sou poeta de
canções
para embalar
ninhos nos corações.
Sou este ímpeto de gelo
de lâmina
que se levanta mudo
diante de tudo.
(E quem me impede
de ter alma e sede?)
Mas quando canto
- as minhas canções
ásperas
de vagabundo
sabem ao espanto
dum rio sem foz…
E na minha voz
sangra o desespero do
mundo.
«A Mitchell bebendo devagar o seu sherry disse com um sorriso bondosamente cínico na dentadura vacilante:
«Aguenta aí Catalunha! Você já pensou que se casasse
com aquela mulher não só levaria um corpo como principalmente um harém
espiritual?»
Desde aí Sacatrapo passou a ter no quarto um enorme
papelucho branco com letras vermelhas onde se lia a seguinte frase da ideóloga
russa: «O casamento, mesmo quando efectuado na base do amor, torna-se em breve num
jugo insuportável do qual ambos os cônjuges se pretendem libertar procurando o
esquecimento no vodca.»
Alexandre Pinheiro Torres
em Tubarões e Peixe Miúdo
Este
é um recorte de uma das crónicas que Manuel Alberto Valente publicou no Expresso.
Há
a oportunidade para lembrarmos o poeta, romancista e crítico Alexandre Pinheiro
que praticamente caiu no esquecimento.
Uma
excelente frase de Alexandre Pinheiro Torres citada no recorte:
«O privilégio da
crítica é ser injusta.»
Depois o confirmarmos que as gentes das letras, volta e meia, se tratavam com termos tirados da última gaveta.
O Raposo
D. H. Lawrence
Tradução: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Infante do Carmo
Colecção Miniatura nº 143
Livros do Brasil, Lisboa s/d
Por outro lado, as
circunstâncias do estado de guerra eram muito desfavoráveis para a criação de
aves. A comida rareava e era má. E quando se passou ao sistema da hora de
Verão, as galinhas recusavam-se obstinadamente a recolher ao galinheiro, como
de costume, às nove horas no novo horário. Hora realmente muito tardia, pois
não havia descanso possível enquanto elas não estivessem bem fechadas e a
dormir.
Foram os autores do
neo-realismo português e italiano que me abriram os caminhos dos dias no mundo
atribulado em que os li. Não foi o pouco que li de Karl Marx que me levaram a
esses caminhos. Junto-lhes Albert Camus, Roger Vailland, Roger Marin do Gard, autores
americanos, foram eles que me deram, sela lá o que isso for, a visão marxista
do mundo.
Num livrinho de Mário
Sacramento, Há Uma Estética Neo-Realismo?,
lido pr’aí em 1968, o autor coloca uma
epígrafe de Almeida Garrett: «A história
do mundo não é senão uma série de reacções e contra-reacções. A da literatura é
o mesmo. O que unicamente fica imutável são os eternos princípios da verdade,
do gosto e da razão em tudo.»
Mário Dionísio, dos
mais inteligentes e claros intérpretes do neo-realismo, mas não se pode
esquecer Alexandre Pinheiro Torres, lembrou Fernando Namora que já escrevera que
não se pode escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do
comboio.
O Neo-Realismo teve
entre nós imensos detractores, provavelmente o mais incompreendido dos
movimentos literários do século passado. Tão adulterado, tão vilipendiado pelos
que nunca puderam sentir-lhe as raízes e o significado. Ainda por aí andam uns jovens que, sem terem lido nada de nada,
bolsam disparates aterradores.
Claro que a expressão
neo-realismo tem hoje uma expressão nitidamente datada. Mas foi ali que aprendi
parte importante dos parcos conhecimentos que tenho. Foram aqueles autores que
intentaram a literatura como instrumento de luta política e ideológica, num
tempo de trevas colocado em cena por um botas vindo de Santa Comba, e acolitado
por uma série de gente sem escrúpulos, profundamente analfabetos, de baixíssima
moral e maus. Talvez, escreveu Alves Redol, «o embalar da esperança valha mais
do que o desespero da realidade desesperada»
E não esqueço uma
frase do poeta Joaquim Namorado: «Nós
dizíamos que éramos neo-realistas porque não podíamos dizer que éramos
comunistas.»