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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A morte essa é um maravilhoso número indivisível.

Alexandre Pinheiro Torres

sábado, 20 de junho de 2026

POEMAS AUTOGRAFDOS


 Quando por aqui fizemos o registo dos poemas autografados da Colecção Poetas de Hoje, publicados pela Portugália Editora, por motivos que não consigo encontrar (?), faltaram dois volumes: um de João Cabral de Melo Neto, outro de Carlos Drummond de Andrade.

Hoje trataremos de Melo Neto, amanhã de Drummond.

É o nº 9 da Colecção Poetas de Hoje e para apresentação do poeta («apenas alguma indicações ao leitor comum»), a editora escolheu Alexandre Pinheiro Torres.

Quando Chico Buarque de Holanda, mais um grupo de universitários brasileiros, representaram em Lisboa Vida e Morte de Severina que vi no Teatro Avenida, já conhecia a peça de Melo Neto, pois faz parte desta antologia.

Diga-se que João Cabral de Melo Neto é um dos maiores poetas brasileiros, nascido em 1920 no Recife, estado de Pernambuco, que faz parte do nordeste brasileiro, e Alexandre Pinheiro Torres não hesita em dizer que Melo Neto é poeta de «génio autêntico».

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

BILHETE-POSTAL A ALEXANDRE PINHEIRO TORRES

Absinto-me cansado

na outonalma.

De absinto, no outono,

encharco a alma...

Muito deve a literatura

ao absinto.

Em qualidade, muito mais

que ao tinto...

Ó Alexandre, manda-me absinto

na volta do correio,

que eu já sinto, com tanto tinto,

estancar-se-me o veio...

 

Alexandre O’ Neill em PoemasCom Endereço

domingo, 27 de julho de 2025

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de Vida e Obra de José Gomes Ferreira de Alexandre Pinheiro Torres.

Um dos mais bonitos e desconcertantes começos de livro:

«No ano em que o Zeppelin se arriscava triunfante ao primeiro voo experimental, imagem Stanley-kubrikiana do início matemático do século XX, mas sem valsas de Strauss na banda sonora, já que imperava o «rei» Mahler de quem, por essa altura se estreava a 4ª sinfonia; no mesmo ano em que, no élan dos empreendimentos científicos e tecnológicos, Max Plank tornava pública a sua novinha-em-folha teoria dos quanta (aurora das leis da incerteza, da imprevisibilidade, do aparentemente contraditório no domínio da Natureza reduzida ao átomo), e a um auditório decerto mais vasto, o dos sobreviventes do mal du siècle, chegava a notícia consoladora de ter sido inventado, para auto-exterminação mais rápida (aina a técnica!) o utilíssimo e wertheriano revólver Browning; nesse mesmo ano – 1900 – nascia no porto, e muito a propósito na Rua das Musas, José Gomes Ferreira.

Legenda: retrato de José Gomes Ferreira por Ofélia Marques 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

POSTAIS SEM SELO


Parece que Appolinaire tinha razão quando afirmou, em linguagem metafórica, que a memória é uma trombeta de caça cujo eco morre com o vento.

Alexandre Pinheiro Torres em Tubarões e Peixe Miúdo

Legenda: fotografia Shorpy

quinta-feira, 20 de março de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


 Regressamos aos Poemas Autografados.

José Gomes Ferreira, constantes da Colecção Poetas de Hoje, tem 3 volumes publicados.

Ficamos com o autógrafo da sua Poesia I.

É o nº 5 da colecção e o o prefácio é da autoria de Alexandre Pinheiro Torres:

«José Gomes Ferreira, um dos mais notáveis poetas da língua portuguesa deste século, nasceu no Porto, em 1900.»

O poema pertence a Heróicas, penúltimo capítulo da Poesia I:

 

Que me importa cantar!

Eu não sou poeta de canções

para embalar

ninhos nos corações.

 

Sou este ímpeto de gelo de lâmina

que se levanta mudo

diante de tudo.

 

(E quem me impede

de ter alma e sede?)


Mas quando canto

- as minhas canções ásperas

de vagabundo

sabem ao espanto

dum rio sem foz…

 

E na minha voz

sangra o desespero do mundo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

JUGOS INSUPORTÁVEIS

«A Mitchell bebendo devagar o seu sherry disse com um sorriso bondosamente cínico na dentadura vacilante:

«Aguenta aí Catalunha! Você já pensou que se casasse com aquela mulher não só levaria um corpo como principalmente um harém espiritual?»

Desde aí Sacatrapo passou a ter no quarto um enorme papelucho branco com letras vermelhas onde se lia a seguinte frase da ideóloga russa: «O casamento, mesmo quando efectuado na base do amor, torna-se em breve num jugo insuportável do qual ambos os cônjuges se pretendem libertar procurando o esquecimento no vodca.»

Alexandre Pinheiro Torres em Tubarões e Peixe Miúdo

sábado, 13 de julho de 2024

CONVERSANDO


Este é um recorte de uma das crónicas que Manuel Alberto Valente publicou no Expresso.

Há a oportunidade para lembrarmos o poeta, romancista e crítico Alexandre Pinheiro que praticamente caiu no esquecimento.

Uma excelente frase de Alexandre Pinheiro Torres citada no recorte:

«O privilégio da crítica é ser injusta.»

Depois o confirmarmos que as gentes das letras, volta e meia, se tratavam com termos tirados da última gaveta.

quinta-feira, 14 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS


 O Raposo

D. H. Lawrence

Tradução: Alexandre Pinheiro Torres

Capa: Infante do Carmo

Colecção Miniatura nº 143

Livros do Brasil, Lisboa  s/d

Por outro lado, as circunstâncias do estado de guerra eram muito desfavoráveis para a criação de aves. A comida rareava e era má. E quando se passou ao sistema da hora de Verão, as galinhas recusavam-se obstinadamente a recolher ao galinheiro, como de costume, às nove horas no novo horário. Hora realmente muito tardia, pois não havia descanso possível enquanto elas não estivessem bem fechadas e a dormir.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 
É bom voltar a Mário Scaramento.

Foram os autores do neo-realismo português e italiano que me abriram os caminhos dos dias no mundo atribulado em que os li. Não foi o pouco que li de Karl Marx que me levaram a esses caminhos. Junto-lhes Albert Camus, Roger Vailland, Roger Marin do Gard, autores americanos, foram eles que me deram, sela lá o que isso for, a visão marxista do mundo.

Num livrinho de Mário Sacramento, Há Uma Estética Neo-Realismo?, lido  pr’aí em 1968, o autor coloca uma epígrafe de Almeida Garrett: «A história do mundo não é senão uma série de reacções e contra-reacções. A da literatura é o mesmo. O que unicamente fica imutável são os eternos princípios da verdade, do gosto e da razão em tudo.»

Mário Dionísio, dos mais inteligentes e claros intérpretes do neo-realismo, mas não se pode esquecer Alexandre Pinheiro Torres, lembrou Fernando Namora que já escrevera que não se pode escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio.

O Neo-Realismo teve entre nós imensos detractores, provavelmente o mais incompreendido dos movimentos literários do século passado. Tão adulterado, tão vilipendiado pelos que nunca puderam sentir-lhe as raízes e o significado. Ainda por aí andam uns jovens que, sem terem lido nada de nada, bolsam disparates aterradores.

Claro que a expressão neo-realismo tem hoje uma expressão nitidamente datada. Mas foi ali que aprendi parte importante dos parcos conhecimentos que tenho. Foram aqueles autores que intentaram a literatura como instrumento de luta política e ideológica, num tempo de trevas colocado em cena por um botas vindo de Santa Comba, e acolitado por uma série de gente sem escrúpulos, profundamente analfabetos, de baixíssima moral e maus. Talvez, escreveu Alves Redol, «o embalar da esperança valha mais do que o desespero da realidade desesperada»

E não esqueço uma frase do poeta Joaquim Namorado: «Nós dizíamos que éramos neo-realistas porque não podíamos dizer que éramos comunistas.»

quinta-feira, 23 de julho de 2020

CONVERSANDO


De muito novo comecei a ler Alves Redol e sempre gostei do que li. 

Como hábito antigo, para além de ler as obras dos autores de que gosto, sempre me habituei a ler o que sobre esses autores está escrito.

No caso de Redol, li o que Alexandre Pinheiro escreveu em Os Romances de Alves Redol, e no caso de A Barca dos Sete Lemes, que é o livro de hoje, recordo:

«A Barca dos Sete Lemes é um belo título para um livro, mas aquele que mais estaria de acordo com o seu conteúdo seria então: «A Arte de Transformar Um Homem do Povo num Carrasco.»

Do que li, há a conclusão de que Alves Redol era um homem de carácter, um homem ávido de gente.

Ou como escreveu José Gomes Ferreira::

«Senhores e senhoras: o segredo da Arte de Redol resume-se nesta frase: amou verdadeiramente o povo.»

Carlos de Oliveira deixou escrito em O Aprendiz de Feiticeiro:

«Quem fala do povo com a paixão obsidiante de redol, a sua teimosia, os seus momentos de grandeza, incomoda e vive na incomodidade. Isto explica, julgo eu, certos preconceitos políticos e literários, certo musgo que a humidade circunstancial (às vezes sem querer, mas outras de propósito) tentou gerar em torno de uma obra notável sob vários aspectos: autenticidade, fôlego, importância histórico-literária.

José Cardoso Pires estava em Londres quando Redol morreu:

«Esta manhã chegou-me o telegrama da Edite. Morreu o Redol. Fiquei diante da janela do quarto, a olhar, ou a não olhar, sei lá, o pátio coberto de neve - e tudo branco, tudo puro, o nada, e a notícia ali na minha mão a dizer-me que tínhamos' perdido o nosso velho António, o nosso querido e paciente amigo.
Não adianta, bem sei, desabafar-se assim. Mas na morte de qualquer escritor português digno há sempre um remorso do tempo, sempre. Há um outro cancro que vem detrás e que é a injustiça e o suportar em silêncio. E esse mal, quando não vence uma verdade interior, mata primeiro do que o vírus decretado pelas certidões de óbito.
As vezes que falámos nisto, eu e o Redol. Ainda há pouco, numa carta em que se despedia de mim para sempre, lá vinha esta verificação magoada e terrivelmente simples: «Sou um dos que vai morrer na incomunicabilidade com o seu tempo».

Grande parte da sua obra, redol escreveu-a durante as horas dos seus frugais almoços ou durante as viagens de comboio entre Vila Franca de Xira e Lisboa.

Mário Dionísio chamou-lhe um operário das letras e José Carlos Ary dos Santos deixou este magnífico retrato:

Porém    se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve.    A si e mais a quem
floriu cresceu    cantou lutou consigo.

Homem que vive só    não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo    com todos    ficar vivo.

Nado-vivo da morte.    É isso.    É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer.    E dar por isso.

sábado, 18 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


O Alentejo é o único sítio de Portugal onde se sabe tudo o que importa saber.

Alexandre Pinheiro Torres em A Quarta Invasão Francesa

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM


Carta de Óscar Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:

Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
                                 

Legenda: Ferreira de Castro

domingo, 27 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Todas as ilhas são sementes de agonia.

Alexandre Pinheiro Torres em A Flor Evaporada

terça-feira, 17 de abril de 2018

NÃO TEM QUEM LHE BATA À PORTA


Menti. Porque o meu pai sempre me ensinou que mentir era bom. Quem não mente não tem quem lhe bata à porta. Ninguém está interessado em ouvir verdades. O homem que só disser verdades é um homem só.

Alexandre Pinheiro Torres em O Meu Anjo Catarina

Legenda: imagem Llaria Cardani

quinta-feira, 15 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


Por que assomamos à janela todas as manhãs?
Por que espreitamos o céu?
Porque ele é, todos os dias, o risco que devemos enfrentar.

Alexandre Pinheiro Torres em Espingardas e Música Clássica

quinta-feira, 1 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Poemas Escolhidos

João Cabral de Melo Neto
Selecção: Alexandre O’Neill
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 9
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A NATUREZA NÃO PERDOA ERROS


O homem como a natureza detestam ser aniquilados. Só que a natureza nos revela os seus segredos apenas uma vez. Revelado cada um deles nada mais há a acrescentar.
Além disso, a natureza não perdoa erros. Para o mar ou para o rio, sim é sim e não é não. A natureza nunca diz uma coisa que possa ser desdita pela sabedoria dos homens.

Alexandre Pinheiro Torres em Espingardas e Música Clássica

Legenda: fotografia de Jack Zavala

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


A vida insiste em excesso para que sobrevivamos.

Alexandre Pinheiro Torres em A Flor Evaporada

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO



Que raio há dentro de um livro, isso gostava que me dissessem.

Alexandre Pinheiro Torres em Sou Toda Sua Meu Guapo Cavaleiro.

Legenda: pintura de Vieira da Silva