Flores e livros, as consolações da tristeza.
Emily Dickinson
Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.
Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.
A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares.
É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo.
1.
«Neste abençoado país,
todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros,
que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de
primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela
constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos
talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta,
portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de
todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu
proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma
vez os imbecis!»
Eça de Queirós em Os Maias.
2.
A
lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que
desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes
do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também
um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional
de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois
candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em
mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby
com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões
condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em
agressões e estão indiciados por crimes
de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.
3.
No
fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.
4.
«No
autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo.
Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira
comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»
Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim
5.
«Não há destinos
adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e
a tragédia está sempre à espreita.»
6.
«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»
7.
Disse
Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes
Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a
poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.
8.
Um
mundo sem música, sem livros e sem memória.
Seria
o maior pesadelo que me poderia acontecer.
Sempre
aqueles versos dum poema de Ruy Belo: «uma casa é a coisa mais séria da vida»
Ou
João Miguel Fernandes Jorge: «a casa é onde temos o coração».
Ou Emily Dickinson, «uma casa mais justa que a prosa».
Também um qualquer vagabundo:
«A rua é a casa de todos».
Por que não Vinicius de Moraes e Toquinho?
«Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero»
Legenda: ilustração de André Bolino
Fôsse fiel o Diabo,
Que belo amigo seria –
Porque tem capacidades –
Ai se emendar-se El’ podia –
A Perfídia é a virtude
Que se a largasse o mifino –
O Diabo – assim corrigido
Fielmente era divino.
Emily
Dickinson em 80 Poemas
As novas só que eu sei,
Os Boletins do Dia
Da Imortalidade.
As Vistas só que eu vejo –
Quer amanhã, quer hoje –
Acaso Eternidade –
O Único que encontro
E Deus – Única rua
A Existência – e mais
Se outras Novas houver –
Ou mais notáveis Vistas
Eu Te direi.
Emily
Dickinson em 80 Poemas
Nem sempre os pensamentos têm Palavras
Que vêm de uma só vez
Com gole esótérico
Do Vinho consagrado,
Que enquanto bebes natural te sabe
Tão abundante e livre,
Que não lhe aprendes a essência digna
Nem sua raridade.
Emily Dickinson
Emily Dickinson
Legenda: fotografia do Arquivo Imagem Global
Duas vezes me findei antes do fim –
Mas ainda estou pra ver
Se lá na Imortalidade
Isto torna a acontecer
Por forma tão medonha e deseperada
Como as duas que sofri.
Partir é tudo o que do céu sabemos,
E do inferno basta aqui.
Emily Dickinson em 80 Poemas
Ao Mundo escrevo esta carta,
A quem nunca me escreveu –
As simples Novas que a Natura conta –
Com suave Majestade.
A Mensagem é confiada
A Mãos que não posso ver –
Só por amor da Natureza – irmãos –
Julgai-me com suavidade.
Emily Dickinson em 80 Poemas de Emily Dickinson
A paixão pelos
livros.
Carlos María
Domínguez, escritor argentino, tem um pequeno livro de 77 páginas a que deu o
título A Casa de Papel.
Lê-se assim num
repente, enquanto o diabo esfrega um olho, como dizia a minha avó.
Os livros mudam o
destino das pessoas.
Na Primavera de 1998,
Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas, de
Emily Dickinson, e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi
atropelada por um automóvel.
Também se poderá dizer
que é perigoso ler no meio do tráfego. É preferível o banco de um jardim.
Foi o carro que a
matou ou o poema?
Seria este o poema
que Bluma Lennon lia pouco antes de morrer?
Nas é ele o segundo poema dos 80 poemas de Emily Dickinson que Jorge de Sena traduziu:
Ter Medo? De Quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro do meu Pai.
Igualmente me atropela.
Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.
De ressuscitar? O Oriente
Tem medo de Madrugar
Com sua fonte subtil?
Mais me valera abdicar!
Larga os livros que eles são perigosos, dizia a avó de Carlos María Domínguez, que a páginas 59 nos diz:
«Ao longo dos anos vi livros destinados a equilibrar a perna coxa de
uma mesa; conheci-os convertidos em mesa de luz, dispostos em forma de torre e
com um pano por cima; muitos dicionários passaram a ferro e prensaram mais
objectos do que as vezes em que foram abertos, e não poucos livros guardam,
dissimulados nas estantes, cartas, dinheiro, segredos. As pessoas também mudam
o destino dos livros.
Parte-se uma jarra, estraga-se uma cafeteira, ou um televisor, muito
antes de um livro. Este não se desfaz a menos que o seu proprietário o queira
fazer, lhe arranque as páginas, lhe pegue fogo. Durante os anos da última
ditadura militar argentina, muita gente queimou os seus livros na retrete, nas
banheiras, enterrou colecções nos fundos das casas. Tinham-se tornado notoriamente
perigosos. Entre eles e a própria vida, as pessoas optavam, convertidas no seu próprio
verdugo.
Livros que tinham sido profundamente estudados, discutidos, livros que
tinham despertado paixões, compromissos irrecusáveis e afastado velhos amigos,
subiam ao céu convertidos em cinzas de carvão que se dissipavam no ar.
Eu não me atrevi. Enrolava revistas e meti-as no tubo da cortina da
casa de banho, escondia os livros mais temíveis no canto mais esconso dos
armários, na fileira posterior da biblioteca, consciente de que uma busca de
surpresa os descobriria.
Nesse tempo os livros acusaram muita gente. Destruíram muitas vidas.