Mostrar mensagens com a etiqueta José Rodrigues Miguéis Correspondência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Rodrigues Miguéis Correspondência. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de julho de 2017

NO MEU DESCONSOLO E DESÂNIMO...


Finalizamos hoje o percurso por alguma da correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

A última carta do livro pertence a José Rodrigues Miguéis, datada de 12 de Novembro de 1971, e enviada, depois da sua saída da Estúdios Cor, para a morada particular de Saramago:

Querido Saramago

Recebi a sua carta de 8, e lamento o que se passa consigo. Ofereço-lhe toda a minha simpatia. A sua situação preocupa-me há muito, e como sabe, sempre atribuí a falta de informações e de resposta às minhas perguntas e propostas à confusão reinante na casa. O nosso prometido «diálogo» terá morrido antes de nascer? Ou passa a ser monólogo (meu)? Suponho agora que, até à sua saída, não terá mais nada a dizer-me em nome da firma? Esperarei que ELES (ou ela?) se pronunciem.
Entretanto, ocorreu-me propor-lhe uma coisa que talvez pudesse contribuir modestamente para minorara as suas dificuldades futuras: mas não ouso fazê-lo porque já um dia Você se recusou a ser meu «director espiritual» ou «conselheiro literário»… Lembra-se? Refiro-me à possibilidade de publicar, fora da firma, alguns livros meus, como o Espelho Poliédrico, artigos e ensaios, Capelas Imperfeitas, etc., - de que lhe tenho falado nas últimas cartas. Não creio que a COR se interesse por isso, e eu reservar-lhes-ia a ficção pura e simples. Agradar-lhe-ia a ideia? Que fica, por ora, um segredo entre nós.
Continua n’ A Capital? O Rogério escreveu-me muito simpaticamente, mas nada me diz a seu respeito.
A minha saúde na mesma. A vista melhorou um pouco, depois da hemorragia da retina esquerda há dois meses. Faz amanhã, 13, um ano, que tive o primeiro cardíaco alarmante: em plena rua, acabava de remeter-lhe as prosas do Nikolai – livro aziago!
Diga-me o que puder, quando puder. E perdoe-me o laconismo. No meu desconsolo e desânimo, só a si tenho escrito e a muito poucos. Vou fazer 70 anos dentro de três semanas! Quando lá chegar saberá o que isso é…
Abraça-o o amigo certo e grato


                                                                                                    Miguéis

quarta-feira, 28 de junho de 2017

ESTAS CRÓNICAS SÃO DE UM POETA



Em carta, datada de 3 de Julho de 1968, José Saramago informa José Rodrigues Miguéis que lhe vai enviar as crónicas, publicadas em A Capital, posteriormente inseridas e Deste Mundo e do Outro, e diz:

Segundo o que entendo, estas crónicas são qualquer coisa de novo na nossa terra.
Aguardo com interesse o seu juízo.

Em carta, datada de 24 de Julho de 1968, Miguéis dá o seu instigante e esplendoroso «juízo» sobre as crónicas:

Devolvo-lhe hoje as crónicas (como suponho V. esperava) com muita pena de não me sentir mais eloquente e explícito – arrasado que estou de Verão e apoquentações. Verá em algumas delas as anotações a lápis, que fiz à margem ao lê-las e não apaguei. Desculpe. As suas Crónicas são excelentes, por vezes óptimas, e sempre de leitura absorvente; novas ou pelo menos raras no nosso ambiente de doutrinas e castanhas piladas; sem retórica de jornal nem prosa de encher. Justas. Embora seja difícil manter-se todas as semanas ao nível do ter-carradas-de-talento, então com a vida que Você leva, nunca (até aqui) cai no fácil, no corriqueiro, no sentimental de bairro: e isto em Lisboa-Portugal, onde o Assunto é, como diria a Dona Rosa, «aves-rara»! Você consegue sempre evitá-lo, mesmo nos quadros de rua (Amolador, Cego do harmónio, etc.). Por outro lado, as notas rústicas (Alice, Sapateiro, Cair no céu, etc.) são sempre duma justeza e flagrância (e fragância) de evocação: e sem Rusticidade. (Fala do campo, das águas e das flores como quem os conhece de dentro.) Consegue sempre ser simples (que é o mais difícil) dentro da complexidade do seu estilo de poeta, pela visão e pela linguagem: algo críptica (como é devido!) mas sempre sugestiva e tão visual, e em geral risonha. Estamos desabituados desta feição especulativa e acentuadamente literária… sem «literatura». O curioso é que o seus factos, pessoas e ambiente resultam sempre mais reais (ou realísticos) através da névoa Chagalliana de cores, formas e movimento, e integrados. Porque Você desenha e colora a escrever! (Cito: «… volatilizado no interior do sol atómico». Incisivo, justo e pictural!) Ao invés dos nossos cronistas e comentadores sentenciosos, que tudo vêem (?) através dos vidros defumados de doutrinas mal digeridas, V. tem uma «filosofia» que, sem ser optimista, antes levemente céptica, amarga e protestante, nos leva a crer e a agir: «desanimar e recomeçar até chegar ao ponto onde o arco-íris tem a primeira raiz.» Isto, além de afirmativo, é belo (Desculpe). É claro, há sempre o perigo de nos deixarmos arrastar pela Prosa – mas, como eu disse do Herberto Helder, «os autênticos Poetas são de uma disciplina severa!»

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CRISE CONTINUA,. TALVEZ PIOR



Um desabafo:

A crise continua, talvez pior. Desencanto, desânimo, velhice, contrariedades, e que sei eu. Cheguei à beira de uma decisão – a de não continuar a escrever ou a publicar: escrever para mim é relativamente fácil, mas pôr ordem nas ideias e frases é um calvário. A impaciência dos velhos!...

José Saramago terá sondado Miguéis para que colaborasse em A Capital, vespertino dirigido por Norberto Lopes e Mário Neves depois de terem deixado o Diário de Lisboa.

Assim conta Miguéis:

Não lhe posso dizer em pormenor porque recuso o seu convite a colaborara n’A Capital: é um problema entre mim – a minha ética – e o Mário Neves. Este, logo que leu o meu artigo de Janeiro no Diário de Lisboa, escreveu-me uma longa e lamentosa carta («este seu pobre amigo,» etc.): que eu o tinha abandonado e estava servindo de bandeira aos seus inimigos. Ora nem ele me procurou em Lisboa (eu telefonei-lhe em vão algumas vezes) nem me convidou para o novo jornal. Levei dez dias e 20 folhas a responder-lhe amigavelmente, e no fim mandei-lhe uma curta carta a prometer explicar tudo em Lisboa, e sacrifiquei-lhe a minha colaboração no DL para não o melindrar. A verdade é que o DL me ofereceu, e pagou, 20 dólares pelo artigo, ou seja DOIS dias de vida em N. York, onde há quase 4 anos não ganho um centavo. Se me calei (embora a decisão não seja definitiva) é porque não quero agravar mais o boicote de que estou sendo vítima, o silêncio que as chamadas «esquerdas» fazem à minha volta: despeito, inveja, necessidade de inventar «inimigos», etc. É positivo (isso lhe disse) que, se não colaboro no DL, também não o farei n’A Capital. Ele não respondeu, e não recebi o jornal: só dois expls trazidos por alunos de português da Camila. Achei-os pindéricos, lamentável. Da sua colab, diz-me Você: «Como sabe estou na…» Como havia de saber!? V. só me tinha escrito as suas (más) impressões do jornal. Depois disso Mário Sacramento instou-me (em nome do DL) a escrever para este; pedem-me colaboração para o Comércio do P., e o poeta Eugénio de Andrade, que estimo muito, quer um trecho sobre o Porto para um livro de… Saudades do Porto (suponho). Recuso ou não respondo. Comemorações, Necrológios, Homenagens… O que me apetece é escrever o tal panfleto contra Tudo-e-Todos, a desmascarar as hipocrisias e conformismos dos nossos Inconformistas… E este polemismo que me anda cá por dentro às cambalhotas, paralisa-me e esteriliza-me. Chiça! Antigamente eu trabalhava duro pelo meu pão, pensando no Futuro, e escrevia quando, como e o que me apetecia; agora tornei-me um escravo disso. Quando saio, largando os papéis, sinto-me outro, respiro fundo. Chiça e rechiça, três vezes chiça!
(…)
Das minhas razões morais para não colaborara só lhe direi quando as tiver exposto ao Mário Neves. Estes sujeitos que se dizem «liberais» (e fazem rios de dinheiro à sombra disso) vêm coarctar a minha liberdade de escrever onde me apeteça, e impedir-me de ganhar uns magros centavos indispensáveis, numa crise com a que atravesso… Um dia rebento com eles… ou rebento comigo. Tudo isso lhe rogo fique entre nós. Não gosto de me explicar por interposta pessoa. Vê agora o que me força ao silêncio? Não entro na Academia dos Elogiosos…

Miguéis tinha uma velha amizade com Mário Neves que sempre lhe foi publicando contos e outros textos enquanto dirigiu o Diário de Lisboa.

No livro que escreveu sobre a Vida e Obra de José Rodrigues Miguéis, Mário Neves não refere este desentendimento que, suponho, terá sido resolvido numa posterior conversa havida entre os dois.

Para isso aponta alguma correspondência, publicada em Apêndice do livro, em que ressalta a cordialidade, respeito mútuo e amizade que continuaram a nutrir um pelo outro.

Legenda: reprodução de um exemplar de A Capital tirada do blogue Ainda Sou do Tempo

sexta-feira, 9 de junho de 2017

COMO AVALIAR DO INTERESSE DO PÚBLICO?


Carta de José Rodrigues Miguéis, datada de 16 de Janeiro de 1968, para José Saramago:

Apoquenta-me muito a péssima distribuição dos meus livros, que não encontrei em muitas livrarias, ou de que só havia um ou dois exemplares. O Diário de Notícias do Rossio tinha dois: costumava tê-los todos! Por outro lado, sem os algarismos das vendas, sou como um cego: como avaliar do interesse do público? Quanto aos pagamentos, voltaremos ao acordo de prestações mensais? (Não consegui resolver o problema que aí me levou e estou cada vez mais pobre… ) A Léah, prometida para Out-Nov., ainda não saiu. Como posso eu trabalhar sem apoio nem reconforto? Não percebo o desinteresse (?) da Cor que sempre me obsequiou! Valerá a pena tanto esforço, nas condições angustiosas em que tenho vivido? É como se de Portugal só me viessem contrariedades e desilusões… Antes o silêncio e a paz em que dantes vivia!
Nada desta amargura é obra sua, querido Poeta! Só lastimo ter de me abrir consigo, e amargura-lo também. Tinha muito mais a dizer-lhe, mas já não cabe aqui.

terça-feira, 9 de maio de 2017

TUDO CONSPIRA PARA ME DESANIMAR


De uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de 6 de Fevereiro de 1967, para José Saramago:

Devo ir a Portugal, talvez com demora, lá para o Verão. Do meu trabalho (nas péssimas condições de espírito em que tenho estado, devido à morte da minha irmã, às condições em que ela viveu e morreu) refiz todo o final da Salomé, em que não voltarei a mexer. É o meu «monumento fúnebre»! A impossibilidade de o publicar desanima-me muito. Atirei-me e refundi o Idealista («Baltasar»), também incerto quanto às resoluções e destino do romance. Estou a sofrer de dúvidas penosas,  parece que perdi a «querença» ou «crença» - os eruditos, os críticos, os sabichões, os falsos-problemáticos (a leitura de Uma Canção de Camões de Jorge de sena – misto de erudição assombrosa e de loucura literária – qual é o propósito, qual é a conclusão daquele tumulto de extraordinária prosa, raciocínio e saber?!) tudo conspira para me desanimar. Eu próprio estou a ver a minha prosa com outros olhos: serei realmente, apenas, um escritor «realista» de outras eras, uma espécie de mini-John dos Passos? e onde  quero eu chegar, que quero (se quero) provar?... Tenho vontade de escrever outras coisas, de me libertar de esquemas e doutrinas, e tenho invejas absurdas do J. Luís Borges, de Beckett, de Camus, do Hesse, do Musil, não sei de quem mais. (Mas de nenhum português!) Vou correndo, montado num cavalo – de cara virada para o rabo!... só daqui a 40 ou 50 anos se saberá se vali a pena. Eu nunca o saberei! Sinto-me muito só, muito longe e muito insignificante. Tenho saudades de Portugal, de Lisboa, de uma vadiagem irresponsável, descuidosa… e o horror de ter 65 anos amachucados de não poder recomeçar. – E agora, depois do Delfim Santos, morre (de repente? no Rossio? de congestão?...) o T. Kim (que só vi uma vez na COR, Tr. da Emenda). Todos mais novos do que eu!... – Se me falta a paciência para a minha tarefa, que mais posso fazer, como viver? – Já lhe disse que (como V. na sua carta) sinto muito a sua falta, como da companhia de um irmão mais novo, que se lembrou de ser Poeta para contrastar comigo – prosaico, irónico, realista, merdre!


Legenda: capa da  2ª edição de O Milagre Segundo Salomé publicada pela Editorial Estampa em  Abril de 1982. A 1ª edição é de 1975, publicada pela Estúdios Cor. Tal como Miguéis sabia, só foi possível a publicação da obra depois da queda da ditadura.
Ainda segundo Miguéis, O Milagre Segundo Salomé «devia constituir o terceiro painel do tríptico iniciado coma A Escola do Paraíso, sendo-lhe o do centro o romance Filhos de Lisboa, ainda hoje por concluir devido às dificuldades de ordem afectiva, pessoal, que me suscita».

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DE QUEM LHE ROUBARAM O QUE NÃO TINHA


Nos começos de Maio de 1963, desde Nova York, José Rodrigues Miguèis escreve a José Saramago:

Posso dizer que esta é a 1ª carta que escrevo desde que aqui cheguei (a 5 de Abril): ao devolver provas à Seara, mandei uma curta nota ao Dr. Rogério Fernandes. Nem as condições em que parti, nem aquelas em que me encontro – sem apartamento até Julho,  possivelmente sem perspectiva de trabalho remunerado, e sobretudo num estado de espírito de quem lhe roubaram o que não tinha! – são de molde a consentir que a mão cumpra o dever de escrever – seja o que for! Mas basta de divagações…
«Há sempre outros céus!» - escrevi eu em 1935; e o José Régio diz que «há mais mundos»… (que ele não descobre, mas enfim!)
Das minhas janelas (um 9º andar desafogado, em Brooklyn) vejo todo o perfil da parte baixa e média de Manhattan, com os seus arranha-céus, e as duas pontes inferiores por onde corre dia e noite o rio do tráfego: mas, não sei porquê, N. York perdeu para mim todo o glamour e mistério que tinha. Tem chovido quase sempre. E apesar do cinema, do ballet, dos teatros e concertos (quem tivesse dinheiro para gozar tanta riqueza!...) sinto-me longe de tudo, inútil e estéril. Aos 62 anos não é fácil viver sem perspectiva de vida pessoal.

Saramago responde a 1 de Junho e diz-lhe:

Não me surpreende o seu estado de espírito. Este nosso Portugal é afinal tudo quanto temos. Por mim, sei bem que não poderia viver fora desta «desgraça». Talvez masoquismo (vai com z, como quer o nosso Severiano), gosto de sofrer, o diabo!

José Rodrigues Miguéis/José Saramago em Correspondência

domingo, 9 de abril de 2017

A SUBTILEZA ESCAPA-NOS


Na minha carta de 24 de Janeiro (tenho só rascunho) agradeci-lhe o envio do Boletim, com a sua nota a meu respeito: se não fiz então comentários, ou foi porque estava de corrida, ou porque sempre me é difícil comentar o que me diga respeito: mas gostei a valer dela, e acho excelente a sua maneira de tratar o problema da expatriação – que tem pano para mangas: Aldous Huxley, Christopher Isherwood, S. Maugham, O’ Connor, - dezenas de ingleses e irlandeses (dos Grandes) vivem ou têm vivido expatriados, ou temporariamente exilados: (J.M. Foster, o D.H. Lawrence… etc.) e no entanto são profundamente britânicos! (O T.S. Eliot e o H. James americanos, fizeram-se em Inglaterra…) O J. Joyce, e o O. Wilde, o Shean O’ Casey e outros irlandeses viveram ou vivem fora da Irlanda… Eu vivo em Portugal (por dentro) e a sofrer!... É evidente que a permanência do escritor num ambiente de responsabilidade (perante a consciência, o público, a opinião, os leitores, etc) o purifica e lhe impõe certos padrões. Eu considero-me um bom escritor de… segunda ordem.) A Escola não é um livro de saudade ou nostalgia, como teima o Gasparèsse (João Gaspar Simões), nem o era Dona Genciana: mas a tentativa de reconstituição dum ambiente e personalidades, impregnada do estado de espírito, ou do assombro, do pequeno Gabriel (e outras personagens) independentemente dos sentimentos do autor, sejam estes quais forem. Um friso, um mural, indispensável à execução dos panneaux subseguintes. O papel do escritor é evocar as coisas. pessoas, torna-las «presentes», actuais, embebendo-as de um certo «pathos» ou estado de alma, que é o de dá carácter à obra – Quanto ao Passageiro do Expresso, que continua  «abafado», e a que ninguém ousaria dar o tal prémio, ainda ninguém viu ou tentou penetrar-lhe o sentido: guardo-me para a nota da Terceira Classe. O Óscar Lopes (único que, antes de V. Se lhe referiu) disse que eu ainda não solucionei os conflitos, etc. Quando a gente não entende um problema, chama-lhe «conflito» e di-lo insolúvel!!... Ninguém teve um comentário sobre a cena principal da Cabine: como se em Portugal este género de diálogo existisse, ou abundasse, passou despercebido: Deus, a psicanálise, o Além, a alma, a ideia de rebelião necessária, etc. etc. - Até a crítica a um racionalismo cínico, desumanizado: ninguém o notou. Pérolas a… bois desembolados? Em Portugal falta-nos a sensibilidade não só moral, mas intelectual. A subtileza escapa-nos. Tudo tem de ser rude, talhado a enxó, contundente, óbvio, elementar – Guignol! – pedregulhos atirados às consciências anestesiadas e embrutecidas . E querem uma literatura universal!... querem reconhecimento!... Chego a crer que sou apreciado pelas coisas piores que tenho escrito.

Carta de José Rodrigues Miguéis, datada de 1 de Março de 1962, para José Saramago em Correspondência.

Legenda; José Rodrigues Miguéis a comprar jornais num quiosque em Nova Iorque.

quinta-feira, 30 de março de 2017

QUASE NINGUÉM ME ESCREVE



As amarguras do exilado José Rodrigues Miguéis, percorrem as diversas cartas que escreveu a José Saramago, enquanto editor da Estúdios Cor.

Findar de carta datada de 26 de Abril de 1961:

Só me arrelia saber que vou esperar agora mais UM MÊS pela sua próxima carta! É que quase ninguém me escreve: sinal dos tempos ou temporais.

Esperou mais de um mês.

Saramago escreve-lhe no dia 12 de Maio, outra carta a 26 do mesmo mês, mais uma a 30 de Junho. Miguéis responde a 3 de Julho, curta carta de Saramago a 31 de Julho, dando conta da venda dos livros de Miguéis e o envio de um cheque de 4 contos referente a direitos.

A 15 de Agosto escreve Miguéis:

Enquanto o avião vai e vem, folga o ocioso (EU) – Não lhe escrevo (raio de penas!!) para lhe forçar a mão a escrever-me pois bem imagino o que é a sua vida de trabalho. No entanto, neste violentamento cada vez maior e (pior), e no desgosto dos acontecimentos que me fazem sentir tão profundamente inútil como escritor – quanto como (ex-) homem de acção – sempre que me ocorrem ideias gosto de as lançar ao papel, amigo passivo e silencioso.

Mais um desabafo, no findar da carta:

Ainda haverá esperança para este desgraçado país? Quantos cadáveres passando por vivos! Espectros – nem sequer ibsenianos! – Quase ninguém me escreve, nem eu escrevo: isolado no corpo e no espírito. Mas inda resta em mim um pouco da vocação de Mártir…

Um mês depois desta carta, Miguéis entra sem paninhos quentes:

Como imagino de longe a COR muito corada de vergonha pelo abandono a que me tem votado, resolvi interromper o meu silêncio para os tirar do embaraço! Que se passa? Continuam a reorganizar o escritório? Viajam? Gozam férias? Arrepelam-se de crise? O calor dissolveu-os? – Os últimos cheques, com carta chegaram a 4 de Agosto. Todos os dias abro a caixa do Correio na esperança de notícias, uma palavra animadora, talvez um cheque – embora este último me chegue a parecer menos importante, apesar da situação em que vivo. (Tive de aceitar um trabalho técnico para obviar as despesas correntes, e cobrir o prejuízo do roubo de que fomos vítimas no domingo 30 de Julho: assaltaram a na/ casa, durante a n/ ausência, e roubaram-nos roupas (4 fatos meus), relógios, rádios, as poucas joias de minha mulher, etc. – ao todo algumas centenas de dólares; além dos estragos e despesas que fizemos a pôr fechaduras e trancas – depois da casa roubada…)

A 22 de Setembro, Saramago dá notícias, sinceras:

Oh, quão corado estou, realmente! De todo este mau proceder, bem me parece que sou eu o maior responsável. Da falta do envio das «massas» e do resto. Das «massas» porque tendo o Canhão e o Correia ido para férias, eu não tomei as devidas providências necessárias para que a conseguida regularidade de pagamentos não sofresse interrupção. Do resto, da falta de notícias tout court, devidas por todas as razões, que mais não fosse para o acompanhar nesse tremendo aborrecimento do roubo, ainda mais responsável sou. Mas caí naquela atitude cobarde de quem para não ter que dar uma explicação (aliás inevitável) acaba por agravar a situação. De tudo peço que me desculpe, ainda que reconheça que tem boas razões para estar magoado comigo.


Legenda: José Rodrigues Miguéis, desenho de André Carrilho

quarta-feira, 22 de março de 2017

UMA PERDA IRREPARÁVEL


Em carta, datada de 3 de Julho de 1961, Miguéis diz a Saramago que ainda vive debaixo da impressão – do choque – que nos causou o suicídio do Hemingway (e por muito bestial que o homem fosse, o artista era único, e a sua perda irreparável.

E já em findar de carta escreve:

A quase todos nos falta a longa paciência (a consciência, o métier) que faz os Hemingways… O homem estava a sofrer duma velha cirrose, de hipertensão, talvez de diabetes, e (suspeito) de cancro: é mais fácil enfrentar um toiro Miúra (em imaginação?) do que a morte lenta da desintegração… Ah, se ele tivesse lido Um Homem Sorri à Morte! Trop tard… O Hemingway viveu a afrontar perigos: fractura da espinha, ferimentos graves, alcoolismo, trabalho duro… Respeito-lhe a decisão. Também o Essenin, o Block, o Mayakóvasky se mataram…

domingo, 5 de março de 2017

O DIREITO A TER SONHOS PRÓPRIOS


Raul Brandão é um dos escritores abordados na troca de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

José Rodrigues Miguéis, carta datada de 10 de Abril de 1961, informa que mandou para a Gazeta Musical e de Todas as Artes, um artigo sobre Raul Brandão.

Em carta, datada de 12 de Maio de 1961, Saramago escreve:

Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes de uma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-da-província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! «Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.» Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?...

E em outra carta, datada de 30 de Junho de 1961, Saramago volta a Raul Brandão:

Saiu a Gazeta, dedicada ao Raul Brandão. Esperava outra coisa. Evocações a mais, e não o estudo lúcido que venha pôr Raul Brandão no altíssimo lugar que lhe compete. O Joel Serrão tê-lo-á tentado, mas falta-lhe sensibilidade e também audácia de dar às coisas os seus nomes: Raul Brandão é dos maiores criadores (não digo escritor) da nossa literatura, se não estou enganado, como diria António Sérgio, ou o seu discípulo Rogério Fernandes (no estilo, entenda-se). Por mim, penso que Raul Brandão é um dos nossos pouquíssimos escritores merecedores de exportação.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

JARDIM À BEIRA-MORTE PLANTADO


Que ideia a sua de cuidar que eu andaria aqui embezerrado, a rilhar enfados e malquerenças! Que grande engano o seu, se o pensou. Os nossos arrufos passavam-se num plano a que se pode chamar «técnico», o qual plano nada tem que ver com o calor da boa e funda amizade que lhe consagro. Fica é entendido que quando o autor-Miguéis tiver qualquer motivo de queixa, por mais insignificante que seja ou pareça ser, rapa da portátil e põe ali, preto no branco, enquanto tiver de ser, os seus agravos. Cã estão os amigos-editores para os escutar e atender. E encerrado o incidente, passo ao restante.
Já cá tinha lido a denúncia miserável do miserável Anselmo. (*) Teria ficado edificado, se o não estivesse há muito quanto à função policial por este «escritor» exercida. Bem compreendo a vontade de voltar que essas coisas lhe estarão dando… Isto por cá está tão podre, meu Amigo, tão triste e tão mesquinhamente pobre! Agora já nem da fachada se cuida: como eu dizia há tempos em carta ao Jorge de Sena: «vive-se num jardim à beira-morte plantado…» em constante incerteza e insegurança, num temor que corrói tudo – a começar pelo futuro. Será que conseguiremos sobreviver? Como lugar geográfico, naturalmente, mas como povo? Que lugar ocuparemos no mundo daqui por cinco, dez anos? Põe-se a gente a imaginar, e o que imagina dá vontade de fugir.

Carta de José Saramago para José Rodrigues Miguéis, datada de 12 de Maio de 1961 em Correspondência.

(*) Trata-se de Manuel Anselmo e de um episódio relatado por Miguéis, em carta para Saramago, datada de 10 de Abril de 1961:

A casa onde moramos, aqui, vais ser finalmente demolida dentro não sei de que prazo, e temos agora a apoquentação duma mudança – com rendas ao dobro! (Era uma casa velha, vasta, de renda fixada por lei.) Basta isto para me desorganizar o trabalho. Foi uma das razões que cá me trouxeram, porque minha mulher, cidadã americana, tem de ter domicílio aqui estabelecido, se quiser residir em Portugal sem perder a naturalização USA – Não sei se sabe que o gatuno encartado Manuel Anselmo acaba de me denunciar (mais uma) no último dos seus Cadernos periódicos: reproduz uma notícia do Avante de 1941, extraída dum jornal americano, sobre um discurso que eu fiz aqui, nesse a ano a respeito da invasão da URSS pelos alemães. Falei ao lado de professores da Harvard e de líderes trabalhistas. Já se vê onde ele quer chegar – atingir o escritor através do homem… de há vinte anos. Estão-me a fazer a cama, e isto dá-me imensa vontade de voltar…

Legenda: fotografia tirada do Catálogo da Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Miguéis, 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MAS DESANIMAR, ISSO NÃO!!!


A carta que a seguir se transcreve, de José Saramago para José Rodrigues Miguéis, gira à volta de considerações sobre a publicação, pela Estúdios Cor, de A Escola do Paraíso, no Natal de 1960 - «Estamos a trabalhar em grande estilo para que A Escola do Paraíso seja o seu presente de Natal ao leitor português», prometera Saramago a Miguéis.
Numa nota de rodapé desta carta pode ler-se: Miguéis escreve por cima «é romance». Sabemos, no entanto, que críticos como Óscar Lopes, por exemplo. Disseram não ter lido A Escola do Paraíso como um romance, o que desagradou a Miguéis.

Carta datada de Lisboa 14 de Outubro de 1960:

Acha realmente aconselhável, ou conveniente tirar do livro a designação «romance»? Pois não será ele um «romance» que é, ao mesmo tempo, um «panorama de uma infância lisboeta»? Pelo que vejo, os meus reparos provocaram-lhe um problema de classificação que não me parece justificável nem estava no meu intuito levantar. Romance é – e como tal será publicado e lido. E não queira saber da bitola dos críticos peguilhentos, no número dos quais, neste caso, me incluo…
E então esse ânimo que se diz vacilante e desesperançado? Tirando os casos da sua vida que, como diz, o estão atormentando de indecisões, e digo tirando porque esses são o nosso tributo de homens que mil prisões tolhem e limitam – que outra coisa se pode esperara desta miséria rasteira e indigna que a si mesma vaidosamente se chama «a intelectualidade portuguesa»? Em Portugal, os bons e os puros não podem trabalhar para, mas sim contra. Trabalha-se para num país são, arejado, vivo, num país como está o nosso, só se pode trabalhar contra: contra a hipocrisia, contra a maldade que se oculta e fere sob a capa da mansidão e da amizade. Mas, pensando bem, esta terra sempre assim foi: e esse é que é o verdadeiro «mal português», a formiga branca que nos rói as energias.
Às vezes dá ganas de desanimar, isso dá. Mas faça a sua obra, deixe-os rosnar e morder, ignore-os. Lembre-se de que é só para o leitor que escreve, esse leitor que, no outro dia no comboio, enquanto eu revia as provas da Escola, lia no banco da frente a Léah - «O Natal do Dr. Crosby»… este é que é o sujeito-de-boa-vontade-gosto que deve interessar-lhe acima de tudo. O resto são os oficiais do mesmo ofício, é a inveja, é o prémio Camilo Castelo Branco que ainda não acabou de passar na garganta de certas pessoas, é o escritor «americano» que vem tirara o lugar aos que cá estavam e viviam na suave e inefável contemplação do próprio umbigo, é a safadeza, a pulhice, a velhacaria que dá palmadas no ombro e punhaladas nas costas.
Sus, cavaleiro, ao infiel! E se o não puder derrubar a lançadas, dê-lhe com a lombada da Escola! Mas desanimar, isso não!!!
O Canhão está apurando contas, a ver em que ponto está o «deve e haver» da nossa contabilidade consigo. Breve receberá notícias e dólares.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

UMAS SEIS OU SETE PÁGINAS...


Numa carta datada de 2 de Agosto de 1960, José Rodrigues Miguéis dizia a José Saramago que lhe enviara a tradução de Aladin, a publicar pela Editorial Cor.

E desabafa:

Por sinal o registo aéreo, c/ recibo, custou-me $8,06 – seis dólares e seis cents – o valor de umas seis ou sete páginas de tradução…

Mais à frente:

É para desanimar. E não lhe falo das minhas dificuldades materiais (económicas) que não são pequenas…

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

SARAMAGUEANDO



Carta de Saramago, datada de 22 de Setembro de 1960:

Já temos saudades suas. Quando volta? E a saúde, como vai? As suas cartas dão-me a impressão de um certo desconforto físico e talvez moral. Se assim é, faço votos sinceros por que depressa seja vencida essa crise. Não lhe peço que se confesse, evidentemente, mas conte-me no número de pessoas a quem os seus pesares ou alegrias tocam de muito perto. Ainda dizem que «longe da vista, longe do coração»: pois eu hoje sinto-me mais seu amigo de que no dia da sua partida

Carta de Miguéis para Saramago datada de 12 de Janeiro de 1961

Caí há dias das nuvens (e ainda não parei de cair) ao receber o exemplar encadernado da tiragem especial! Escola do Paraíso», nota do editor). Não fazia ideia nenhuma de que projectavam esta grata surpresa, que o nosso contrato não prevê, e demonstra uma coragem considerável da vossa parte. A capa está interessantíssima, melhor até que a da Léah III, e tecnicamente mais bem acabada. Peço-lhe que me dê esclarecimentos, poi o volume não traz indicação (ao contrário da Léah especial) de tiragem, assinatura de autor, numeração, etc. Bem sabe que eu sou mais partidário da Perfeição que do Luxo!, e desejo estar ao alcance do público menos abastado: é o que me preocupa quanto á farsa, que em comparação com a Escola, custa muito mais cara. E por sinal, ainda não sei por que se vende: o contrato não indica o preço, e este não vem na capa.
(…)
Diga-me, pelas suas alminhas, como vão saindo os livros, a reação dos leitores e jornais, e o mais que se lhe oferecer. Se fazem já a segunda edição da Escola, quantos exemplares vão tirar? Como isto alterou os termos do contrato quero mandar-lhes a carta nele prevista para a reedição. Brevemente voltarei a escrever. As ofertas aos sábios críticos são do vosso cuidado – eu só faço as pessoais: - desculpem! Diz-me o castro Soromenho que a Arcádia vai adoptar a foto-offset ou coisa parecida para as reedições.

domingo, 2 de setembro de 2012

SARAMAGUEANDO



Mais um passar de olhos pela Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

Numa carta datada de 31 de Maio de 1960, Miguéis lamenta-se amargamente:

Não recebo uma palavra dum amigo! – Em Portugal estar ausente é estar esquecido.

Saramago entende a tristeza do amigo, e a 7 de Junho  escreve-lhe:

As paredes da sua casa, aí, devem tê-las ouvido das boas a meu respeito! E com carradas da razão. Que silêncio é este? que se passas nos Estúdios Cor? que é feito do Saramago que perdeu o pio? E vai-se procurar os motivos e que encontra? Nada, ou antes, mil e uma pequenininhas coisas, todas igualmente significantes, mas que juntas fazem uma rede capaz de amansar Hércules – o dos doze trabalhos.

Se realmente vem em meados deste mês (e oxalá venha, que já tarda) esta carta vai encontra-lo em preparativos de partida. Não importa. Não vou deixar escapara esta oportunidade de vestir a pele de crítico, a mais sovada e dura pela da Criação.

Nesta longa carta, Saramago fala da Escola do Paraíso, de que acabara de ler o manuscrito,  e no final da carta, releu o que escrevera e conclui que não disse metade do que teria para dizer.

Que é, cá no meu fraco entender a Escola do Paraíso? Um prodigioso inventário, já o disse. Todos vão procurar «o» romance no seu livro – e não «o» vão encontrar. (Como «o» não encontrar na Recherge du Temps Perdu.) E esse será o seu grande «crime». Porque nada mais atrapalha as pessoas de índole classificador (e sabemos bem quanto os lusos são dessas tais), que não saberem onde meter a ficha a que sempre reduzem as obras de arte. Por mim, confesso que até um terço do livro me senti dérouté: a todo o momento me parecia ter um fio condutor na mão, e logo, ele se partia, substituído imediatamente por outro que também me levava longe. E a minha franca admiração por si perguntava, desolada: «Aonde quer chegar este homem? isto é partida que se faça ao leitor de boa fé (ou má) que compre o ‘romance’?» Até que percebi, ou melhor, até que encontrei a «minha» explicação: a Escola é uma exploração da memória, levada telescopicamente ao infinito, desdobrando-se e repartindo-se em todas as direcções, passando e repassando infatigável, até restituir em cor e sabor, em som, tacto e olfacto (todos os cinco sentidos) uma época, um estilo de vida, um conjunto social que não se extinguiram de todo, apesar dos cinquenta anos decorridos, de duas guerras, vinte revoluções e trinta-anos-de-cultura.

 Quando acertei a minha rota pela sua agulha (ou o que eu suponho ter sido a «sua» agulha), o constrangimento e o embaraço sumiram-se, e eu desci consigo à investigação minuciosa e apaixonada do tempo da «sua» infância. E embora uma adolescência nos separe (eu tenho 37 anos), descobri na minha memória inúmeros ecos da sua. Eu conheci algumas pessoas «assim», houve ruas, jardins e quintais comos os seus na minha infância. Em cada página me acontecia um sobressalto de ressurreição, e momentos houve em que o autor do livro (não sorria, por favor) era eu e ninguém mais… Cheguei ao fim como quem termina uma viagem que não devia acabar, porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário» nunca está terminado.

Já disse: a carta é longa, mas arrisco, ainda, este pedacinho sobre o entusiasmo de Saramago perante o extraordinário livro de Miguéis:

Que se pode dizer do seu estilo que não esteja dito já? Somente que me pareceu mais vivo e mais alerta que nunca, lira de mil cordas, que vai do riso à lágrima, da ternura à ironia, com o ar (aparente) de quem respira sem esforço, de árvore que cresce «ali» porque «ali» está, confiante nas raízes que a sustenta de terra e no sol que a sustenta de luz.

Retenho a frase de Saramago: porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário», porque o «inventário» nunca está terminado.

É assim, que alguns bons anos depois, iremos desaguar em As Pequenas Memórias.

Está lá a epígrafe tirada de O Livro dos Conselhos:

Deixa-te levar pela criança que foste.  


Legenda: José Rodrigues Miguéis a comprar jornais num quiosque em Nova Iorque.

terça-feira, 17 de julho de 2012

SARAMAGUEANDO


Mais uma espreitadela à correspondência de José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

Em carta datada de 22 de Março de 1960, José Saramago acusa a recepção dos primeiros capítulos de A Escola do Paraíso:

Vou ler a Escola desde o princípio, regaladamente, com vagares de sibarita. Sem intenções de crítico, que o não sou, mas com os olhos que puder arranjar, lerei – e direi o que me parecer: tome a minha futura apreciação pelo que vale. Quanto ao Mário Dionísio, nós não temos de estar de acordo, uma vez que o nosso desacordo seria estulto e um pouco impertinente. O meu caro amigo é que dirá se efectivamente deseja que outros leiam o seu trabalho: de antemão concordamos com o seu desejo.

Deliciosa a parte final da carta:

Uma coisa continua a ser verdadeira: para best-seller só lhe falta que Portugal tenha 80 milhões de habitantes, em vez dos escassos 8 milhões, com 50% de analfabetos e 45% de leitores de letras gordas…

Numa carta de Nova Iorque datada de 12 de Maio de 1960, Migueis lamenta-se dos elevados custos das despesas de correio que tem de desembolsar para mandar livros e cópias corrigidas para a Editorial Cor. O lamento mostra, uma vez mais, as muitas e terríveis dificuldades económicas que sempre teve de enfrentar durante o seu exílio americano.

Acabo de botar no Correio, com destino ao reino di-a (sic) COR, as últimas 100 folhas (épico) do Paraíso: boa viagem e good luck, como se diz deste lado do rio. O pacote vai por via marítima, por economia – mesmo assim foram mais de 30 esc. Por avião seria uma barbaridade.

Esta carta tem um outro aspecto curioso: Miguéis conta que o capítulo O Pântano Fermenta da Escola do Paraíso sofreu censura familiar.

O penúltimo episódio (Pântano) acaba com uma cena para-pornográfica (?) que me fez suar: estava uma maravilha, mas a minha mulher protestou e foi um trabalhão para reduzir a isso. Mesmo assim talvez não possa passar. Quero a sua opinião desassombrada, no fim. Isto é um romance panorâmico, epocal, diferente, sem enredo nem intriga, cuja acção está no crescimento do pequeno Gabriel, que é o fulcro de tudo. Não sei se há outro parecido na nossa terra. Estou a terminar a Nota Explicativa («entrevista comigo mesmo») que talvez não junte ao livro, mas reserve para ser distribuída com as ofertas aos Proficientes Zoilos.


Legenda: José Rodrigues Miguéis, com a mulher Camila,, em Central Park no ano de 1939.
               Fotografia tirada do catálogo da exposição comemorativa do centenário do seu nascimento.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CORRESPONDÊNCIA



José Rodrigues Miguéis/José Saramago Correspondência 1959-1971

Organização e notas de José Albino Pereira
Capa de Rui Garrido
Editorial Caminho, Lisboa Abril 2010.

Já, mais de uma vez, por aqui se falou da importância que José Saramago dedicava à correspondência trocada, não só entre os seus pares, mas também com os seus leitores.

Estas cartas que José Saramago trocou com José Rodrigues Miguéis, e vice-versa, reunidas em volume pela Editorial Caminho, dizem respeito ao tempo em que José Saramago esteve à frente da parte editorial e administrativa na Editorial Estúdios Cor.

Volta e meia virei aqui com excertos das cartas que ambos trocaram:

Afinal, a sua ilha «deserta» de não sei quantos milhões de habitantes, para onde algumas vezes lhe ouvi dizer aqui que lhe apetecia fugir, não tem já solidão bastante para o fazer esquecer os 100 terríveis metros da calçada do Chiado, o Chiado-de-Espingarda-ao-ombro, igualzinho e tão provinciano como o Freixo-de-Espada-à-Cinta! O viajante das sete partidas, o homem instável, o calcorreador de horizontes, suspira pelas raízes que começavam a romper-lhe a sola dos sapatos! Era de esperar: também o pintor enamorado da anamita muitas vezes se lembrou da parvónia, do Aterro, da Avenida dos Aliados, destes quatro palmos que medem Portugal… Pois cá o esperamos e que venha em bem como dantes se dizia.

Da carta de Saramago para Miguéis, datada de Lisboa no dia 16 de Setembro de 1959.

Migueis responde de Nova Iorque no dia 27 de Setembro.

As agruras do exílio de Migueis deixavam-no destroçado: dificuldades económicas para sobreviver, o estar longe de amigos e familiares amarguravam-no. 

No final da carta desabava:

Desculpe o tom corrido –o exílio obriga-me a escrever dezenas de cartas, o que me arrasa. Para não se lhe tornar pesado escrever-me (não falo das «cartas oficiais» basta anotar em dois rabiscos o que for tendo a dizer-me, e depois mete tudo num envelope; duas fls leves custam 4$50, creio. Não quero roubar-lhe um tempo preciosos