segunda-feira, 4 de maio de 2026

QUANDO CHEGASTE

Quando chegaste, eu já tinha a morte

dentro do meu sono; e só por isso não

sentia a pedra do coração nem o corpo

quase tão frio. Tu não notaste

 

que os corvos negros carpiam já sobre

o meu telhado – e ninguém te disse que

eu estava a morrer, porque só eu sabia

que desistir é coisa de um momento.

 

Juram, porém, que ouviste o sangue

cansar-se nas minhas veias e as larvas

estrebucharem rente à terra; e que então

afirmaste, sem dominar um grito, que o

quarto te cheirava absurdamente a flores.

 

Não me contaram se chamaste por mim,

Se pela morte. Mas fui eu que acordei.


Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

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