OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
Que
ao longo deste texto são relembrados.
Faltava um ano para Grande Festa.





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