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quarta-feira, 19 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


Terras do Demo

Aquilino Ribeiro

Livrarias Aillaud e Bertrand, Lisboa 1919

Assim corria o oiro para as gavetas do Gaudêncio; e, porque era amigo de bem servir e nada onzeneiro nas contas, quem caísse uma vez na estalagem não demandava outra. Desta guisa enriqueceu, e não como se reza de hospedeiros que, de noite, vão cravar no coração o marchante enliçado do sono e, pela calada, depois do roubo, enterram o cadáver no quintal da locanda, debaixo de duas varas de terra  a que dão ar de não bulida.  José Gaudêncio era a honra em pessoa. Desfeitas nunca as fez e só as recebeu da filha, a Rosalina, se deixar lograr pelas sete falinhas doces dum recoveiro, cantarino e pé leve, que devia na pousada de comes e bebes ao redor de cinco libras. Assim lhe pagou o maninelo, cobrindo-lhe a moça, por amor de quem arrifavam na Serra os morgados de mais teres. Muita gente se benzeu, rapariga tão mimosa e desenxovalhada, de boa família, escorregar com um frangalhoteiro das dúzias. Berimbau, isto de fêmeas, na maré do carvoeiro, nem fechadas numa torre estão seguras. E mais a Rosalina, de olhos pestanudos e tão mexidos, que a cada mirada, pareciam negacear a castidade de um santo!

Foi uma vergonhaça naquela casa; o Gaudêncio perdoou, mas, mais de ano, não lhe conheceu o corpo camisa lavada para festa ou romaria.

sábado, 19 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Aquilino em Paris

Jorge Reis

Capa: José Artur

Colecção Outras Obras nº 8

Editora Veja, Lisboa s/d

Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens e mulheres da minha região que elaborei a minha língua e, com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o meu!

terça-feira, 10 de setembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Estrada de Santiago

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Rompendo pelo milharal fora, destes milharais já adiantados, verde-cloróticos e barbaçudos, de pendão mais soberbo que lanças erguidas, Aurélio foi surpreender o Sr. Abade, ao fundo da fazenda, a refrescar de borrifador em punho os alfobres que tinham sede. Ali perto, a água caía da bica de pau numa doce teima de cantilena, e ele, com mais zelo que de hissope a enxotar os espíritos malignos, ia e vinha, aspergindo à direita e à esquerda sobre as couves tronchas, já orelhudas – o seu consolo dos dias de magro, cozidas com bacalhau, depois de lhes gear dezembro.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Camões, Camilo, Eça, e Alguns Mais

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrans, Lisboa s/d

É louvada a longanimidade e tolerância de Fr. Bartolomeu Ferreira porque estando os Lusíadas à mercê do seu lápis de revedor não suprimiu a jóia erótica sem para da ilha voluptuosa e outras belezas desenvoltas do poema.

sábado, 18 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


Romance Sem Fim

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Entardecia. Os galgos levantaram uma lebre e, com a golpada, os gritos, a febre do lance, aquelas vagas ideias negras caíram como tudo, amor ciência, bem e mal, homens e nações, na universal voragem.

CONVERSANDO


Longe do mundo, que é também o título de um livro do seu amigo Jorge Fallorca, Ana Cristina Leonardo, nas excelentes crónicas – é a minha opinião – que semanalmente publica no Público e depois coloca na Pastelaria, pode não ter assunto, como por aqui diz, o Eça lembrava que quando não se tem assunto para a crónica, há sempre um Bey que se pode matar em Tunes, manda-nos para outras paragens,  que olhemos as papoilas nos campos, mas depois, de sopetão, revela que a ex-múmia de Belém prefacia um livro de Aquilino, que não pero acaso está hoje no Olhar aa Capas.

«Quem – obrigado (mesmo se voluntariamente) a dizer coisas inteligíveis e de preferência inteligentes todas as semanas – nunca se debateu com a “falta de assunto” que atire a primeira pedra.

Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

Tomando-o por mestre – e mestre moderníssimo: que se lixem tanto os achaques românticos como os rigores do realismo! –, poderia agora, parodiando Eusébio Macário, um Macário agrário e não boticário, está bem de ver, reproduzir com minúcia a lista das distintas variedades de figueiras do Algarve – perfazem, segundo leio, oitenta e cinco –, o que decerto serviria para despachar pelo menos meia crónica, e isto no caso de poupar o leitor à caracterização morfológica das suas variedades, inventariando-lhes apenas os nomes próprios, alguns de sonoridades manifestamente pitorescas, como bilharda, colhão do mundo, sacristão da luz, cu de burro, bacorinha ou orelha de mula.

Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que “cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos gigantes, quando me falta assunto?

As Humanidades não humanizam, é sabido. Ainda assim, terem deslembrado os 500 anos de Luís de Camões é obra! E obra que explicará muita coisa. Por exemplo, as quinas que passaram a sete do jovem ufanista Bugalho (tratar-se-á de aritmética marciana?), ou o Atlético Norte por Atlântico Norte de Melo. Melo, o nosso mais original (até agora) ministro da Defesa Nacional que, adaptando medidas castigadoras de antanho aos novos tempos, propõe punir os jovens com a tropa no caso de assaltarem velhinhas.

Penso tudo isto, embora não necessariamente por esta ordem, enquanto me desvio, no regresso a casa, da folhagem do tronco rastejante da figueira que sombreia o alcatrão do caminho estreito que leva ao largo maior e mais adiante ao rio.

Escapando-me, porém, a coragem e a genialidade de Camilo para “desabar a pontapés de estilo” a sociedade, acobardo-me, omito a lista das oitenta e cinco espécies diferentes de figueiras algarvias e dou antes a palavra ao próprio: “… é necessário a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ela quer ser desabada a pontapés de estilo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e advérbios rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes actas das chagas encontradas, esvurmar as bostelas que cicatrizaram em falso, escoriá-las, muito cautério de frases em brasa. É o que se faz nesta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sair pelas mercearias fora.” (“Advertência” in Eusébio Macário – História Natural e Social duma Família no Tempo dos Cabrais, Camilo Castelo Branco, 1.ª ed., 1879).

Sem abandonar a paródia, volto à vida rural, a despeito do encerro das mercearias, para dizer que a vida rural possui encantos e razões que a razão urbana desconhece.

Na grande cidade, uma frase como “Anda comigo ver os aviões” é facilmente interpretada como um metalogismo retórico em que o termo “aviões” ultrapassa o seu sentido literal – de acordo com os dicionários mais respeitáveis: “aparelho de locomoção aéreo, mais pesado do que o ar e provido de asas e motor”.

Como decifrar, porém, o convite de um pastor que nos diz “Quer vir comigo ver as ovelhas?”, desde logo de aparência mais respeitosa dada a forma interrogativa da frase e a incorporação do verbo querer e logo conjugado na terceira pessoa?»

Mas Cavaco Silva, que nem contas sabe fazer, lê livros, lê Aquilino?

Admiti estar perante uma tão em moda «falsa notícia» mas, por inacreditável que seja, é mesmo verdade!

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


De Meca Freixo de Espada à Cinta

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, Lisboa, 1960

Que sabemos nós os Ocidentais, que nunca passámos para lá do Canal de Suez, do Oriente e do mundo árabe?

terça-feira, 24 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Quando os Lobos Uivam

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, Lisboa, 1958

Edição Fac-simile por Edições A Bela e o Monstro em 2014

Manuel Louvadeus dum galão subiu os degraus. Em cima, no patamar, topou a porta fechada e deteve-se, quando ia para bater, como quem toma fôlego. Com a breca, achava tudo tal qual! Os dez anos de ausência apagaram-se como um sopro perante a obsessiva eternidade que se lhe oferecia ao lance de olhos. Tudo na mesma, a velha aldraba, puída de tanto se lhe pegar, o espelho da fechadura escantilhado a uma banda, a couceira de lenho fibroso e terso, não chamassem ao castanho os ossos de Portugal. Quer à roda, o alpendre de telha-vã e os esteios esgrouviados, a pedra negra da parede em que o musgo pastava seus herpes lucilantes, e ainda o silêncio, ah, este silêncio da moradia rústica, a desoras, humilde, suspicaz e atento como um rafeiro no ninho, quer por largo, os carvalhos do vale e os telhados próximos, se envolviam na antiga paz vesperal do céu e da terra, fusca e intáctil como a cobertura duma gare. Que distância, anos e anos que correram na levada do tempo, e as coisas conservarem-se ali iguaizinhas, estáticas, teimosas no seu ar de encantamento! Talvez mais velhas... Sim, mais velhas, ferradas mais fundo pelos dentes da morte e a despenhar-se na voragem como as telhas do beiral. E haviam, porventura, de resistir aos vaivéns mais que o coirão dum homem, entretanto que se fartava de dar tombo por esses mundos de Cristo?! Este sentimento, a transudar amargor, acabou por confortá-lo e absolver a pobre casa da sua inalterável fisionomia. Tornou a olhar para a aldraba. Bato, não bato, que é que me prende os dedos? Ouviu uma voz... a voz de Filomena, e estacou. Era lua cheia, pelos fins de Março marçagão, na altura do ano em que os dias são iguais às noites, e pelo tinir dos garfos e pausas intermitentes assentou para consigo que estavam a cear. «Miga bem a tigela!», dizia a voz materna, amorável no seu sotaque ralhado. «Miga bem, Jaime, que só tens caldo!» Depois as vozes calaram-se. Ressoam assim os córregos quando descem das serras e tropeçam nos seixos solevantados. Mas ele que tinha que especular?! Decidiu-se. Bateu uma... duas... três vezes, e postou-se, parado, à escuta, como os mendigos depois de rezarem o padre-nosso. Mentalmente pôs-se a orçar o tempo que ia passando pelo tempo que levariam a apreender o apelo, a erguer-se da esteira, a poisar a malga, e a abrir-lhe a porta. Demoravam- -se... Pareceram-lhe delongas a mais. Não teriam ouvido! Considerando afinal que as pancadas, percutidas frouxas e irresolutas, não se tivessem imposto à atenção, martelou rijo e afoito. Agora sim, uma voz juvenil, abelhuda, destas que no cortiço estão sempre prontas a acudir ao rumor, ergueu-se: — Quem está lá?

— Gente... 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Abóboras no Telhado

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Dê-me licença, querido amigo, que lhe ofereça esta carrada de abóboras. Dou o que tenho. Faça de conta que lhe trago... o quê? os pomos de oiro das Hespérides.

Abóboras? Pois então! Como os bons e pobres cultivadores da minha serra, agora que chegou o meu Outono, sinto que é a altura de tirar as abóboras do campo e pô-las com a barriga ao léu, o ar estupefacto, a inocência rósea, o esferoidal caprichoso em cima do telhado. 

domingo, 17 de janeiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Um Escritor Confessa-se

Aquilino Ribeiro

Introdução: José Gomes Ferreira

Livraria Bertrand, Lisboa, Junho de 1974

O regicídio, em tanto que obra singular, terá de integrar-se no plano de demolição, intentado contra o Portugal obsoleto pelos espíritos livres e esclarecidos, desde a época liberal até os nossos dias. Os protagonistas foram o braço armado dessa propaganda. Apoucá-los ou engrandecê-los seria cometimento gratuito, que não cabe em cérebro com dois dedos de caco. Mas porque o regicídio em sua nebulosidade, em sua paradoxal concepção e feito, quedaria inexplicável sem o conhecimento psicológico das dramatis personnae, eu experimento pi9ntá-las sob todas as reservas do meu fraco entender.

domingo, 19 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


A Casa Grande Romarigães

Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand, Lisboa, 1957

O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

OLHAR AS CAPAS


A Via Sinuosa

Aquilino Ribeiro
Livrarias Aillaud Bertrand , Paris/Lisboa 1939

O sol tinha rebentado duma hóstia vermelha em terras de Penedono, mesmo ao de riba do castelo, e as cotovias banhavam-se na sua labareda cantando. Já as franças dos pinheiros encandeavam, e era ao alto dos troncos, que pareciam romper a forma processional para largar connosco, um miraculoso, um incomparável pálio, sêda verde, lhama de oiro, a cobrir pelo caminho fora nossas frontes regaladas.
Pelas rá pidas esgueiras do caminho, à nossa direita, o monte luzia, com a farfalha violeta da manhã a levantar às mancheias de sol nos picotos. Não se avistavam os faunos, mas lá deviam andar nos abrigos, em lutas-cambalhotas ou escorregando o sim-senhor lanzudo de tunantes pelas lájeas em lavadoiro. Lá andariam, porque cacarejava para lá do perdigão e a corcolher, e eles, mercê dos jarretes leves de caprípedes e da carne coriácea, são menos tímidos que os voláteis que o homem abate para comer. De lés a lés nas longas estiradas do baldio, já sob os rebates da canícula havia começado a lenta agonia do verde. Desaparecera-lhe já aquele esmalte que nos velhos pratos de Palissy afoga em tinta crua a guloseima loira duns pomos sazonados. E adoçando-se, vivo ainda no codesso, cinzento nos rosmanos, com laivos de cobre no fieital e na rabugem, que come da frágua, havia em seu espraiar a sonoridade lenta dum monocórdio. Nas espaldeiras surradas de mato, flores do sargaço lacrimejavam; mas eram ralas, muito luzentes, inacreditáveis, como contas de oiro de moira desencantada, que as deitasse fora, ao fugir.