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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

COMO UM BARCO BALOUÇANDO NAS SUAS PALAVRAS


 - E para pensar ficas sentado? Se queres ser poeta começa por pensar caminhando. Ou és como o John Wayne, que não conseguia andar a mascar chicletes ao mesmo tempo? Agora vais até à Calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar, podes ir inventando metáforas.

- Dê-me um exemplo.

- Olha este poema: “Aqui na ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beijando-a , humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome” – Fez uma pausa satisfeito - O que achas?

- Estranho.

- “Estranho” Que crítico severo és tu!

- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como me sinto quando recitou o poema.

- Querido Mário, vamos a ver se te despachas um pouco, porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.

- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as palavras iam de cá para lá…

- Como o mar, claro!

- Isso é o ritmo.

- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.

- Enjoaste?

- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras.

As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.

- “Como um barco balançando nas minhas palavras.”

- Claro!

Sabes o que fizeste Mário?

- O que foi?

- Uma metáfora.

 

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

QUOTIDIANOS


Tarde bonita de Sol, neste frio Fevereiro como há muito não se sentia.

Comprar uma camisola para o aniversário de um familiar.

Descer a Avenida Guerra Junqueiro, entrar na loja, acto de pagamento.

Conversa vinda sabe-se lá donde, porquê, que antes de ser empregada de balcão fôra carteiro, que deixou com muita pena, os porquês importam pouco, o importante residia no pormenor do que ser carteiro lhe nasceu depois de ter visto O Carteiro de Pablo Neruda. Depois leu o livro, de que também gostou muito. Há que ler os poemas de Pablo Neruda, acrescentou-se quase em final de conversa.

Lá chegarei!

Cá fora, a tarde continuava lindíssima.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O POETA CASAMENTEIRO


Não gosto da casa sem telhado nem da janela sem vidros. Não gosto do dia sem trabalho nem da noite sem sonhos. Não gosto do homem sem mulher nem da mulher sem homem. Quero que as vidas se integrem acendendo os beijos até agora apagados. Eu sou o bom poeta casamenteiro.

Pablo Neruda numa encenação criada por Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

Legenda: fotograma do filme O Carteiro de Pablo Neruda

sexta-feira, 11 de maio de 2018

UM FATO QUE ME FICA DEMASIADO LARGO


«Queria mandar-te mais alguma coisa além das palavras. Por isso meti a minha voz nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um pássaro. Ofereço-ta. Mas também quero pedir-te uma coisa, Mario, que só tu podes fazer. Os outros meus amigos todos ou não saberiam o que fazer, ou pensariam que sou um velho gagá e ridículo. Quero que vás com este gravador passear pela Ilha Negra, e me graves todos os sons e ruídos que fores encontrando. Preciso desesperadamente nem que seja do fantasma da minha casa. A minha saúde não anda bem. Falta-me o mar. Faltam-me os pássaros. Manda-me os sons da minha casa. Vai ao jardim e deixa tocar os sinos. Primeiro grava esse repicar fininho dos sininhos pequenos quando os agita o vento, e a seguir puxa a corda do sino maior, cinco, seis vezes, Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tanto como a palavra sino, se a ouvimos de um campanário junto ao mar. E vai até às rochas e grava-me a rebentação das ondas. E se ouvires gaivotas, grava-as. Paris é bonita, mas é um fato que me fica demasiado largo. Além disso aqui é Inverno, e o vento revolve a neve como um moinho de farinha. A neve sobe e sobe, trepa-me pela acima. Faz de mim um triste rei com a sua túnica branca. Já chega à minha boca, já me tapa os lábios, já não me saem as palavras».
«E para que conheças alguma coisa da música de França, mando-te uma gravação do ano de 1938 que encontrei esquecida numa loja de discos usados do Bairro latino. Quantas vezes a cantei quando jovem? Sempre quis tê-la e nunca consegui. Chama-se J’attendrai, canta-a Rita Ketty, e a letra diz: «Esperarei dia e noite, esperarei sempre que regresses.»

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A poesia não é de quem a escreve, mas sim de quem a usa.

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

AS PALAVRAS SÃO UM CHEQUE SEM COBERTURA


A mãe pôs-se de pé e cruzou diante do peito as palmas das mãos, horizontais como as lâminas de uma guilhotina.
- Filhinha, não me conte mais nada. Estamos perante um caso muito perigosos. Todos os homens que primeiro tocam com a palavra, depois chegam mais longe com as mãos.
- Que mal têm as palavras! – disse Beatriz abraçando-se à almofada.
- Não há pior droga que o blá-blá. Faz uma taberneira de aldeia sentir-se como uma princesa veneziana. E depois, quando chega a hora da verdade, o regresso à realidade, repara que as palavras são um cheque sem cobertura. Prefiro mil vezes que um bêbedo te apalpe o cu no bar, a que te digam que um sorriso teu voa mais alto que uma mariposa!

Antonio Skármeta em OCarteiro de Pablo Neruda

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

COMO UM BARCO BALOUÇANDO NAS SUAS PALAVRAS


- E para pensar ficas sentado? Se queres ser poeta começa por pensar caminhando. Ou és como o John Wayne, que não conseguia andar a mascar chicletes ao mesmo tempo? Agora vais até à Calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar, podes ir inventando metáforas.
- Dê-me um exemplo.
- Olha este poema: “Aqui na ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beijando-a , humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome” – Fez uma pausa satisfeito - O que achas?
- Estranho.
- “Estranho” Que crítico severo és tu!
- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como me sinto quando recitou o poema.
- Querido Mário, vamos a ver se te despachas um pouco, porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.
- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as palavras iam de cá para lá…
- Como o mar, claro!
- Isso é o ritmo.
- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.
- Enjoaste?
- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras.
As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.
- “Como um barco balançando nas minhas palavras.”
- Claro!
Sabes o que fizeste Mário?
- O que foi?
- Uma metáfora.

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Carteiro de Pablo Neruda

Antonio Skármeta
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Colecção estórias nº 81
Editorial Teorema, Lisboa s/d

O que não conseguiu o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade, conseguiu-o o simples e doce posto dos correios de San Antonio: Mario Jimenez não só se levantava de madrugada, assobiando e com um nariz fluído e atlético, como se lançou com tanta pontualidade no seu ofício que o velho funcionário Cosme lhe confiou a chave do local, no caso de alguma vez se decidir a levar a cabo uma façanha desde há muito sonhada: ficar a dormir de manhã até tõ tarde que já fosse hora da sesta e dormir uma sesta tão grande que já fosse horas de deitar, e ao deitar-se dormir tão bem e com um sono tão profundo que no dia seguinte sentisse pela primeira vez essa vontade de trabalhar que Mario irradiava e que Cosme meticulosamente ignorava.

domingo, 27 de novembro de 2011

MATINÉ DAS 3



O Carteiro de Pablo Neruda
Realização: Michael Radford (1994)

Com: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Beatrice Russo

O filme esteve quase um ano em exibição no Cinema Mundial.Há a história de uma idosa que ia ver o filme quase todos os dias.
No Mundial vi-o duas vezes e volta e meia revejo-o e acabo sempre de lágrima ao canto do olho.
De uma deliciosa ternura.
Massimo Troisi, o carteiro, adiou uma intervenção cirúrgica para poder finalizar o filme.
Pouco depois de terminadas as filmagens, um ataque cardíaco fulminou-o.