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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


O Vício dos Livros

Afonso Cruz

Capa: Maria João Lima

Companhia das Letras, Lisboa Maio de 2024

Certa vez, num almoço com mais escritores, um deles, Ales Steger, que é prosador e poeta confessou:

«Escrevo poesia para descansar da prosa e prosa para descansar da poesia. Desse modo, estou sempre a descansar.» 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS


 O Que a Chama Iluminou

Afonso Cruz

Capa: Maria João Lima

Companhia das Letras Lisboa, Dezembro 2024

Começa aqui uma viagem sobre o fim, nas múltiplas formas de que ele se reveste e como se impõe. Tudo acaba a todo o instante, ou, como escreveu Wislawa Szymborska, «quando pronuncio a palavra Futuro, / a primeira sílaba já pertence ao passado»; do mesmo modo que existe uma natalidade presente em todas as coisas, um recomeço constante, assim o surgimento de algo novo implica perda, deixar de ser o que era. E, no meio dessa perda, da transformação em nada face ao tudo, para usar a formulação de Pascal, há sempre um nascimento. Essa simultaneidade é inerente a todos os fenómenos. O tempo é luto, pois empurra constantemente com uma mão — para um passado inacessível — tudo o que foi criado, mas é também celebração, na medida em que cria com a outra. Trata-se de dois movimentos, mas apenas na aparência: analisados atentamente, reduzem-se a um fenómeno. Por isso, encontramos sempre uma forma de contradição quando pensamos nesta coreografia de dois rostos: por vezes, a perda imensurável, outras, a surpresa da criação e metamorfose; por vezes, estamos perante o abismo da extinção, outras, a contemplar um campo de girassóis ou a ouvir a voz de Chavela Vargas cantar os dois beijos que leva na alma: «el último de mi madre y el primero que te di». Morte e vida, o último e o primeiro. Se neste livro pretendo falar do fim, dele será sempre indissociável o início. Há ainda uma terceira face, que tantas vezes passa despercebida, porque emerge em diferentes manifestações: a transformação do mundo em narrativa, em representação, em memória, em arte, em algo que, não sendo a própria coisa, é a sua dimensão depurada ou destilada. 

domingo, 30 de março de 2025

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O Pintor Debaixo do Lava-Louças

Afonso Cruz

Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2022

A minha avó morreu com 99 anos. Dizia que Deus se tinha esquecido dela. Foi praticamente um século a ver que a maior parte da bondade humana é pura maldade.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

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Vamos Comprar um Poeta

Afonso Cruz

Capa: Maria João Lima

Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2020

A mãe divorciou-se pois tinha ideias mais altas do que servir

Bolonhesa e esparguete com ervilhas e receber em troca dois miligramas de saliva em forma de beijo ou das palavras “está insosso”.

quinta-feira, 4 de março de 2021

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Princípio de Karenina

Afonso Cruz

Fotografias: Afonso Cruz

Capa: Maria João Lima

Companhia das Letras, Lisboa, Novembro 2019

A impotência que geravam, os silêncios aturados, as palavras sussurradas ou gritadas, os olhares trocados, tudo aquilo me dava uma tremenda sensação de segurança. Eram majestosas (mudas ou a rir, a carpir ou a orara) e, por mais dura que fosse a vida, transmitiam ali, naquela estranha cumplicidade, a certeza de que tudo seguiria em frente, de que haveria um dia após o outro, e todo o Universo se equilibrava na ponta das suas pálpebras. Os gatos deitavam-se junto às suas pernas, ronronavam encostados às varizes e a pele seca do sol e por vezes uma delas cantava uma canção tão velha que cheirava a pedras vulcânicas. Soltavam os pés dos sapatos, descalçando-se ou deixando metade de fora, os calcanhares apoiados no chão. Espantavam-me os seus joanetes, as unhas grossas , mas sobretudo o modo como os dedos tinham perdido a suavidade da infância para exibirem a pressão dos outros dedos. Já não eram redondos e diáfonos, mas moldados pela pressão dos outros dedos. Eram assim essas mulheres, feitas umas das outras. A sua forma era definida por quem vivia com elas. Eu olhava para o pátio ao fim da tarde e via como todas eram moldadas pelas palavras, pelo risos, pela mudez que ali iam construindo, minuto a minuto, os séculos que elas carregavam nos corações. Quando eu corria (o meu pai não poderia estar a ver), desajeitado, assimétrico e desequilibrado. Pelo pátio, pelo meio delas, respirava a densidade de mil sóis. Elas, imperturbáveis como os gatos que se deitavam aos seus pés, tratavam-me como se eu fosse apenas o vento que passava por entre as árvores. Sei que a felicidade de uma criança, da criança que eu era, apenas corroborava a atitude mitológica com que olhavam o mundo r, por mais sombrios que fossem os tempos, elas tranquilizavam o cosmos, como quem penteia os cabelos no meio de terremoto.

 Colaboração de Sara Calisto