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quinta-feira, 27 de abril de 2023

QUE FAÇO AQUI?

Não sei se o mundo mentiu
Eu menti
Não sei se o mundo conspirou contra o amor
Eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é agradável
Eu torturei
Mesmo sem a nuvem em forma de cogumelo
ainda assim teria odiado
Escutai
teria feito as mesmas coisas
mesmo que a morte não existisse
Não me deterei como um bêbado
sobre a fria corrente dos factos
Recuso o álibi universal

Como uma cabine telefónica vazia na noite
da memória
como os espelhos de uma sala de cinema
como uma só saída
como uma ninfomaníaca que se une a mil seres
em estranha fraternidade
espero
que cada um de vós confesse.

Leonard Cohen em Filhos da Neve

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Àquele Que É A Causa De Tudo


Estou sentado aqui sozinho

no dia de Natal

Eu sei, eu sei

Não devia ser assim

Tenho ligado a algumas pessoas

mas estão todas fora

& tenho rezado àquele

que é a causa de tudo

 

Não sei como me afastei tanto

de todos os que amo

ou porque fechei tantas portas

em que estaria a pensar?

 

Leonard Cohen em  A Chama

sexta-feira, 26 de março de 2021

ORAÇÃO PELO MESSIAS


O seu sangue no meu braço é quente como um pássaro

o sei coração na minha mão pesado como chumbo

Os seus olhos através dos meus brilham mais que o amor

Oh manda-nos o corvo antes da pomba Senhor

 

A sua vida na minha boca é menos que um homem

a sua morte no meu peito é mais pesada que pedra

Os seus olhos através dos meus brilham mais que o amor

Oh manda-nos o corvo antes da pomba senhor

 

Oh manda-nos o corvo antes da pomba Senhor

Oh canta apesar das algemas do fundo dessa prisão

os teus olhos através dos meus brilham mais que o amor

o teu sangue detém a morte desta canção

 

Oh canta apesar das algemas do fundo dessa prisão

Os teus olhos através dos meus brilham mais do que o amor

O teu coração na minha mão é pesado como chumbo

o teu sangue no meu braço é quente como um pássaro

 

Oh que rompa entre os teus ramos o ramo verde do amor

depois do corvo ter morrido em vez da pomba do Senhor  


Leonard Cohen em  Filhos da Neve

quarta-feira, 1 de julho de 2020

VELHAS CANÇÕES


Canções simples
   que todos cantam
e alguém pede:
   canta-nos “Born to Lose”
e Hershorn pega
    no uquelete da filha
e todos ouvem
    as notícias

Canções simples que todos cantam
Esqueço-as depressa e abandono-as
Os hinos & as orações das pessoas solitárias

Leonard Cohen em A Chama

Legenda: pintura de Karen Offutt






quarta-feira, 24 de junho de 2020

CONVERSANDO


Em 1966, depois de o seu romance Belos Vencidos, ter sido pontapeado pela crítica, canadiana, foi bater à porta de Juddy Collins que vivia em Nova Iorque.

«Abri-lhe a porta, ofereci-lhe um café, e ele diz-me: “Não sei cantar, não sei tocar guitarra e não tenho a certeza se isto é uma canção”. Tocou-me Suzanne e eu disse-lhe “Podes ter a certeza que é uma canção! E tenho de a gravar imediatamente!»

Escrevia poemas, canções, desenhos, em cadernos de apontamentos, em guardanapos de papel. Quando, em Novembro de 2006, partiu para longe, em entrevista, avisara de que estava preparado para morrer, que deixara as coisas em ordem.

«Deixar tudo em ordem, quando se pode fazê-lo, é uma das atividades mais reconfortantes, e os benefícios são incalculáveis.»

Nas entrelinhas deixara a ideia de quando partisse não se metessem nessas tretas de sentimentalismos que a nada conduzem.

A pena que ele tem que os estupores da Academia Sueca, quando lhes deu a veneta de serem diferentes no Nobel da Literatura, não tivessem escolhido Leonard Cohen, em vez de Bob Dylan, e deve declarar que gosta de Dylan, mas não tanto, como de Cohen.

Em 1966, depois de o seu romance Belos Vencidos, ter sido pontapeado pela crítica, canadiana, foi a Nova Iorque bater à porta de Juddy Collins.

«Abri-lhe a porta, ofereci-lhe um café, e ele diz-me: “Não sei cantar, não sei tocar guitarra e não tenho a certeza se isto é uma canção”. Tocou-me Suzanne e eu disse-lhe “Podes ter a certeza que é uma canção! E tenho de a gravar imediatamente!»

Assim aconteceu: gravou a canção em 1967 para o seu álbum In My Life, que tem outra canção de Cohen, Dress Rechearsal Rag, e também encontramos canções de Richard Fariña, Kurt Weil. Jacques Brel, Donovan, Randy Newman.

O pai dizia-lhe: se o encontro está marcado para as 10,00 horas, apareces dez minutos antes. Um dia, numa velha crítica de televisão, anos 60, do Mário Castrim, leu: Só quem chegou à estação um segundo atrasado, sabe como compensa chegar à estação demasiado cedo.

Chega sempre mais cedo que a hora do encontro. Mas a algumas músicas – e não são poucas… - chegou atrasado. Para atenuar um pouco a amargura, costuma dizer: “mas chegou!”

Está em crer que a primeira canção de Cohen que ouviu foi Suzanne.

Leonard escreveu a canção em 1966. Suzanne tinha um quarto numa rua à beira do porto de Montreal. Era mulher de um amigo seu. Cohen e Suzanne garantiram que nada mais se passou: acendiam velas, bebiam chá e ficavam a olhar um para o outro calados; outras vezes falavam das coisas da vida, trocavam ideias.

É uma bonita canção.

Luís Miguel Mira educou as suas filhas ensinando-as de que deviam desconfiar de quem não gostasse de Leonard Cohen...!

 A tradução utilizada é a de Manuel Cadafaz de Matos:

Suzanne conduz-te para o seu cantinho mesmo perto do rio
Podes ouvir os barcos passando, ficar a noite junto dela
Sabes que é meia tonta mas é por isso que gostas de estar ali
Ela oferece-te chá e laranjas que vêm lá da China
E quando lhe queres dizer que não tens amor para lhe dar
Ela arrasta-te na mesma frequência e deixa o rio responder
Que foste sempre seu amante
Tu desejas viajar com ela desejas viajar cegamente
E sabes que ela confiará em ti
Porque tu tocaste o seu corpo perfeito com o teu espírito.
Jesus era um marinheiro quando caminhava sobre as águas
E passou imenso tempo a viajar da sua torre solitária de madeira
E quando teve a certeza de que só os náufragos o podiam ver
Ele disse: «Todos os homens serão marinheiros até que o mar
Lhes restitua a liberdade».
Mas ele mesmo era despedaçado muito antes que o céu se abrisse
Desamparado, quase humano, ele afundava-se
Na vossa sabedoria como uma pedra
E tu desejas viajar com ele, desejas viajar cegamente
E pensas que é possível confiar nele.
Porque ele tocou o teu corpo perfeito com o seu espírito.
Agora Suzanne segura a tua mão e conduz-te até ao rio
Veste trapos e penas dos balcões do Exército da Salvação
E o sol derrama-se como mel sobre a nossa senhora do cais
Ela indica-te para onde olhares entre o lixo e as flores.
Há heróis pelos sargaços há crianças pela manhã
Elas assomam à procura de amor, inclinar-se-ão sempre assim
Enquanto Suzanne segura o espelho
E tu desejas viajar com ela, desejas viajar cegamente





quinta-feira, 30 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Há um pedacinho, de que gosto muito, no livro Blackpot de Dennis McShade, pseodónimo de Dinis Machado enquanto escritor de romances policiais:

«Ao segundo dia sentira a náusea mais intensa dos últimos anos. Vomitara tudo o que comera e mais ainda não sabia o quê. Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão.»

Poder vomitar tudo menos o medo e a solidão.

É esse medo que não sai no vómito, que me percorre quando vou ouvindo algumas das medidas que o governo preparou para a entrada do país, a partir do dia 2 de Maio, no estado de calamidade.

O comando distrital de Aveiro revela que deteve, em Ovar, uma mulher de 76 anos, infectada com Covid-19, a circular na via pública e sem qualquer meio de protecção individual, máscara e luvas, violando o confinamento obrigatório.

Inconsciência? Maldade? Loucura? Indolência? Ignorância? Estupidez?

É este um dos medos que me deixa às aranhas, sem vislumbrar estratégia alguma para me defender, sentindo que a única hipótese é mesmo não sair de casa.

Será possível?

Preocupar-me é o meu signo diário.

A preocupação deu-te para lembrar aquele filme do René Clement que em português se chamou Brincadeiras Proibidas.

Esta é a música que percorre o filme.

Amanhã será outro dia.

E em verdade vos digo que, quando houver condições mínimas para zarpar, arranco por aí abaixo e só páro no «Beira-Gare» para devorar bifanas, metidas naquela molhanga que faz arregalar os olhos, e junto-lhes uma garrafa de verde Ponte de Lima estupidamente gelada.

Há caminhos que eu sei de cor.

Alguém irá dizer que aquelas bifanas são brincadeiras proibidas.

Que sejam!


1.

Por finais do ano de 2008, numa sessão solene realizada na London School of Economics, a Rainha Isabel II lançou a seguinte pergunta aos economistas aí reunidos:

«Como é que ninguém viu aproximar-se a crise?»

Ano de 2010, poderemos perguntar: «como é que ninguém viu o vírus aproximar-se?»

2.

O tempo de quarentena deu para algumas pessoas conhecerem os vizinhos dos prédios onde habitam.

Muitos, afazeres diversos, como trabalhar-sair-de-manhã-regressar-à-noite, nunca se cruzavam.

A vizinha de cima do Dudu chateia-o quando percorre a casa, pela noite, de socas ou tamancos, ou lá o que é.

- Porquê? - pergunta, sentado à mesa do café.  

Rostos que o olham, que dizem que não sabem.

- Será solidão?

3. 

Talvez a despropósito, este poema de Leonard Cohen:

«Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
e escrevem isto mesmo»

4.

Será que vai chover amanhã?

Importa assim tanto?

Sobre isso Rui Manuel Amaral tem uma opinião:

«As previsões meteorológicas interessam-me pouco. Pelo menos tal como se apresentam neste momento. E porquê? Porque são escandalosamente incompletas. O boletim meteorológico só será realmente útil quando incluir as previsões sobre o tempo que fará dentro de nós: sol ou chuva; céu limpo, neblina ou nevoeiro; o estado do mar no meu norte e no meu sul.»

5.

De acordo com o New York Post foram descobertos entre 40 e 60 corpos, empilhados, dentro dos veículos, mas também no chão das instalações da própria funerária. O alerta foi dado depois de vários moradores darem conta de um odor desagradável, provocado pelo facto de os corpos estarem armazenados naquele local há várias semanas.

6.

À vista desarmada, parece existir uma série de empresas que, dado os lucros, que foram registando, não deveriam recorrer ao lay-off.

Apenas as empresas em dificuldades deveriam ter esse direito.

O governo tem mecanismos que evitem estas trafulhices?

Duvida-se.

Quem ainda acredita que depois desta pandemia passaríamos a ter novos e decentes procedimentos, que tire o cavalinho da chuva.

Digo-o com mágoa!

7.

O Conselho Nacional de Saúde classificou de irresponsáveis, criminosas e genocidas as ações do Presidente Jair Bolsonaro, face à pandemia da Covid-19  e apelou ainda a que a população brasileira mantenha o isolamento social como medida preventiva contra a Covid-19, ao contrário do defendido por Jair Bolsonaro.

8.

Os negros números:

As mortes provocadas pela pandemia nos Estados Unidos registam 60.999 mortos.

 Portugal regista 989 óbitos.

Itália: 27.967 mortos
Grã-Bretanha: 26.771 mortos
Espanha: 24.543 mortos
França: 24.376 mortos

Em todo o mundo já morreram 231.808 pessoas.

domingo, 12 de janeiro de 2020

DEVES TER OUVIDO NA MINHA VOZ


Deves ter ouvido na minha voz
o som que eu já não te amava
Nunca disfarçaria esse som
Nunca te faria isso
Meu ser brilhante:
ultrapassaste o nosso amor
voltaste o rosto para outros
Não tive forças para esse teste
Virei-te as costas
Uso um colar de ferro
e dou a minha corrente a qualquer uma
mas nunca finjo  que és tu
Meu ser brilhante:
seguraste o meu espírito como um fósforo
nas tuas mãos em concha
Meu ser brilhante
que me ensina com a sua ausência

Leonard Cohen em A Chama

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

ÀQUELE QUE É A CAUSA DE TUDO


Estou sentado aqui sozinho
   no dia de Natal
Eu sei, eu sei
    Não devia ser assim
Tenho ligado a algumas pessoas
mas estão todas fora
& tenho rezado àquele
que é a causa de tudo

Não sei como me afastei tanto
de todos os que amo
ou porque fechei tantas portas
em que estaria a pensar?

Leonard Cohen em  A Chama

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Chama

Leonard Cohen
Prefácio:
Adam Cohen
Tradução: Inês Dias
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água, Lisboa, Janeiro de 2019

EU NÃO SABIA

Sabia que era fraco
Sabia que eras forte
Não ousava ajoelhar-me
Onde não pertencia

E se quisesse tocar
A tua beleza com a mão
Vinham as bolhas e o sangue
Que eu entenderia

Rasgaste os teus joelhos
E a solidão revelou-se
Puxando este coração por nascer
De correntes que não cediam

Mas enfraquecida pelo esforço
Caíste sobre a minha alma
A alma ferida
Que a mente nega
Até a recompres

Já posso amar a tua beleza
Embora pareça de longe
Até o meu mundo neutro aceitar
Quão íntima tu és

Às vezes estou tão sozinho
Que não sei o que fazer
Trocava a minha reserva de tédio
Por uma dose de ti

Eu não sabia
Eu não sabia
Eu não sabia
Que precisavas tanto de mim

terça-feira, 28 de maio de 2019

ANNE


Agora que Anne se foi
embora que olhos comparar
ao sol da manhã?

Não que os comparasse
outrora mas comparo-os agora
que ela se foi embora

Leonard Cohen em Filhos da Neve

domingo, 4 de dezembro de 2016

POEMA


Ouvi falar de um homem
que dizia palavras tão formosas
que só com pronunciar o seu nome
se lhe entregavam todas as mulheres.

Se fico mudo junto ao teu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores nos teus lábios
é porque ouço um homem subindo a escada
e clarear a voz fora da porta

Leonad Cohen em Filhosda Neve

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Não é assim tão difícil dizer adeus. Sem dúvida, o espírito sangra um pouco, mas se não fazes um risco fundo no cabelo, ninguém se dará conta. E certamente que o ego se ressente como um dente ante o açúcar, quando aceita, por fim, essa estranha perfeição, mas, mesmo assim, as despedidas far-se-ão, e não desde tão longe como poderias crer. Estamos sós aqui, trepando pelos reflexos brilhantes da raquítica escada de mão que cedeu sob os teus pés. As nossas botas nos degraus imitam o ruído de uma metralhadora. Olha: um sorriso numa caveira. O ano passado pensávamos que isso se via apenas na boca dos hipócritas.

Leonard Cohen em Filhos da Neve

PERGUNTO-ME SE O MEU IRMÃO


Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.

Leonard Cohen em Filhos da Neve

FAMOUS BLUE COAT


Este é um desenho que Leonard Cohen deixou no disco Famous Blue Rain Coat, em que Jennifer Warnes interpreta canções de Leonard Cohen.

Numa das faixas, ambos fazem dueto em Joan of Arc.


Agora as chamas seguem Joana d’Arc
enquanto cavalga na escuridão.
Não há lua
para brilhar na sua couraça.
Não há homem
para a levar através desta noite de fumo.

Ela disse: «Estou cansada da guerra.
Quero a espécie de trabalho que tinha antes.
Um vestido de noiva,
qualquer coisa branca,
Para cobrir o meu saciado desejo.»

«Estou contente
por te ouvir falar assim.
Sabes que todos os dias te observava
enquanto ias cavalgando.
Qualquer coisa em mim anseia
por uma tão fria e solitária heroína.?

«E quem és tu?», disse ela
para o outro do outro lado do fumo.
«Quem? Eu sou o fogo.» Respondeu ele.
«E amo a tua solidão.
E amo o teu orgulho»

«Então a chama gela o teu corpo.
Vou dar-te o meu, para abraçares.»
Dizendo isto, ela avançou,
para ser a sua única e incomparável noiva.

No mais fundo do seu coração ardente
tomou o pó de Joana d’Arc.
E por cima dos convidados da boda
espalhou as cinzas do seu vestido de noiva

Foi para o mais fundo do seu coração ardente
que levou o pó de Joana d’Arc.
Então ela percebeu claramente.
Se ele era fogo, então,
ela deveria ser lenha.

Eu vi-a contorcer-se.
Eu vi-a gritar.
Eu vi a glória no seu olhar.
Eu próprio anseio pelo amor e pela luz.
Mas deverão vir assim?
Ele tão cruel, ela tão brilhante?

A tradução de Joana d’Arc é de José Alfredo Marques e é tirada de 59 Canções de Amor e Ódio.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

ADEUS, MARIANNE


No dia 28 de Julho, com 81 anos, morreu Marianne Ihlen.

Foi companheira de Leonard Cohen, musa inspiradora de poemas e canções, sendo a mais conhecida So Long Marianne.

Ainda ouviu as palavras de despedida que Cohen lhe enviou:

Chegámos a um tempo em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que serei o próximo, dentro em pouco. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a mão, talvez possas tocar a minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e sabedoria, mas não preciso de discorrer sobre isso porque já sabes de tudo perfeitamente. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, encontramo-nos no caminho.

Para So Long Marianne, utilizámos a tradução de José Alfredo Marques:

Vem junto da janela, meu amor
Gostava de tentar ler a palma da tua mão.
Eu costumava pensar que era uma espécie de cigano
antes de deixar que me trouxessem para casa.
Oh, adeus Marianne!
É tempo de começarmos de novo a rir e a chorar.
A chorar e a rir de tudo isso novamente!

Bem, tu sabes que eu gosto de viver contigo!
Mas, fazes-me esquecer tanta coisa!
Esqueço-me de rezar pelo anjo,
E então os anjos esquecem-se de rezar por nós.

Encontrámo-nos quando éramos quase novos,
no fundo do parque verde e lilás.
Tu seguravas-me como se eu fosse um crucifixo,
Enquanto ajoelhávamos na escuridão.

Todas as tuas cartas dizem que agora estás ao meu lado.
Então porque me sinto tão só?
Estou à beira de um abismo,
e a tua fina teia de aranha
prende o meu tornozelo a uma pedra.

Por agora necessito o teu amor oculto.
Estou gelado como uma lâmina de barbear.
Abandonaste-me quando te disse que era curioso,
mas eu nunca disse que era corajosos!

Oh, tu és realmente uma dessas meninas bonitas!
Sei que partiste, e mudaste de nome outra vez,
precisamente quando eu escalava esta alta montanha
para lavar as minhas pálpebras na chuva.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

QUOTIDIANOS


Queria lembrar
a gerência
que as bebidas estão aguadas
e que a rapariga do bengaleiro
tem sífilis
e que a banda é formada
por antigos torcionários nazis
Porém como é
véspera de Ano Novo
e tenho cancro da boca
vou pôr o meu
chapéu de papel no meu
crânio e dançar.


Leonard Cohen, versão de Pedro Mexia

Legenda: Shirley Maclaine e Fred MacMurray em O Apartamento de Billy Wilder, 1960.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

FAMOUS BLUE RAINCOAT


Leonard Cohen é um abençoado santo do meu panteão musical.

Esta bonita capa é do disco em que Jennifer Warnes canta canções de Cohen.

Jennifer tem sido amiúde suporte – brilhante, também -  nos discos e nos concertos de Cohen.

Infelizmente, esta sua aparição a solo não teve, pelo menos por aqui, a aceitação que bem merecia.

Provavelmente conhecem-na melhor no dueto que fez com Joe Cocker, tema Up Where We Belong do filme Oficial e Cavalheiro e com Bill Medley, tema Time of your life do filme Dirty Dancing.

Ela trata de uma maneira simples e amável as canções de Cohen, ao ponto de este ter dito que First We Take Manhattan saíu melhor que o original.

Cortesia do mestre, cumplicidades várias, provavelmente ditas depois de uma épica e caríssima garrafa de tinto, seguida de uma grande cigarrada.

No disco, Jennifer faz dueto com Cohen em Joan of Arc e Cohen desenhou: Jenny Sings Lenny.


Transcrevo o poema Famoso Impermeável Azul, servindo-me de uma tradução de José Alfredo Marques no seu livro 59 Canções de Amor e Ódio e Um Poema Sobre Portugal:

São quatro da manhã
fim de Dezembro
Escrevo-te agora,
só para saber se estás melhor.
Nova York é fria
mas gosto do sítio onde vivo
Há música na Rua Clinton
durante toda a noite.
Ouvi dizer que estás a construir a tua casinha,
no mais fundo do deserto.
Agora vives para nada,
Espero que mantenhas alguma espécie de recordações.
Sim, Jane voltou
trazendo um anel do teu cabelo.
Disse que lho havias dado
naquela noite em que tencionaste abrir o coração.
Alguma vez abriste o teu coração?
Oh, a última vez que te vimos parecias ter envelhecido tanto!
O teu famoso impermeável azul estava rasgado no ombro.
Tinhas ido `*a estação esperar todos os comboios
e voltaste para cas sem Lili Marlene
E convidaste a minha mulher para uma centelha da tua vida.
Quando regressou, já não era mulher de ninguém.
Imagino-te aí, com uma rosa nos dentes,
um ladrão cigano e escanzelado.
Sei que Jane partiu.
Ela manda cumprimentos.
Que te posso eu dizer, meu irmão, meu assassino?
Que te posso eu dizer?
Acho que vou sentir a tua falta.
Acho que te perdoo.
Estou contente por teres surgido no meu caminho.
Se algum dia voltares aqui,
por Jane ou por mim,
o teu inimigo está adormecido
e a sua mulher livre.
Sim, E obrigado pelo pesar que tiraste dos seus olhos.
Eu julgava que era próprio,
e por isso nunca tinha tentado.
E Jane voltou trazendo um anel do teu cabelo.
Disse que lho havias dado
naquela noite em que tencionaste abrir o coração.
Sinceramente, L. Cohen

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

OLHAR AS CAPAS

Filhos da Neve
Antologia Poética

Leonard Cohen
Versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê
Colecção Rei Lagarto nº 10
Assírio &Alvim, Lisboa, Junho de 1985

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive  em apartamentos mobilados
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
e escrevem isto mesmo 

domingo, 21 de setembro de 2014

PARABÉNS, MESTRE COHEN!


Faz hoje 80 anos.
Há uns dias publicou o seu 13º trabalho em disco: Popular Problems.
Que dizer de Cohen?
Juntamente, com tantos outros, ajudou a que todos os meus dias fossem diferentes.
Há uns anos atrás aborrecia-se com os jornalistas: Não percebo o fascínio que as pessoas têm com o número de mylheres que tive. A grande naioria das minha noites passei-as sozinho. E não foi por opção.
Deverão existir meia-dúzia de canções de Leonard Cohen de que não gosto muito, mas não sei dizer quais são.
Pelos seu aniversário, colocar uma canção de Cohen de que gosto mesmo, é tarefa aparentemente fácil.
Acontece que não é. Antes terrivelmente difícil.
Arrisco Bird On the Wire.

Como um pássaro num fio pousado
como um bêbado num coro nocturno
eu tentei a meu modo ser livre.
Como uma minhoca num anzol
como um cavaleiro de algum livro antigo
eu guardei todas as minhas condecorações para ti.
Se eu, se eu não fui amável
espero que não dês importância a isso
se eu não fui sincero
espero que saibas que isso nunca foi para ti
como uma criança nascida sem vida
como um animal com o seu chifre
eu feri todos os que me tentaram tocar
mas juro por esta canção
e por todo o mal que já te causei
que farei tudo para te compensar.
Eu vi um pobre apoiado na sua muleta de madeira
ele disse-me:«Não deves pedir tanto»
e uma mulher bonita encostada a uma porta escurecida
gritou-me, «Eh, porque não me pedes mais?»
como um pássaro num fio pousado
como um bêbado num coro nocturno
eu tentei a meu modos ser livre

(Tradução de Manuel Cadafaz de Matos)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

OLHAR AS CAPAS


59 Canções de Amor e Ódio e um Problema Sobre Portugal

Leonard Cohen

Apresentação, tradução de José Alfredo Marques
Fenda/Centelha, Coimbra 1985

Os Barcos de Guerra

De Portugal os barcos de guerra
contorcem-se no cais,
expondo seus vigamentos.
Gerações de gaivotas caem
através dos esqueletos de madeira.

Na cidade
os belos marinheiros mortos,
intacta a sua paixão,
vagueiam pelos becos
desbaratando poemas e moedas gastas.

Garbosos bastardos !
Que lhes interessa o Império
reduzido a metade de uma península,
A Rainha tendo o conselheiro régio
como sétimo e último amante ?

Os seus mapas não mudaram.
As coxas ainda são brancas e quentes.
Novas fronteiras não alteraram
a maravilhosa paisagem de seios.
Nenhum congresso relegou a boca rubra

Por isso deixai os barcos
apodrecer nos limites da terra !
As gaivotas hão-de encontrar outro sítio para morrer.
Deixai as metrópoles portuárias vestir luto
e insignificantes funcionários
que preencham os papéis necessários.
para um distrito longínquo.

Mas, vós, fazei as malas
meus inimigos marinheiros !
Ide vagueando pelos becos
desbaratando os vossos poemas e moedas gastas.
Ide batendo em todas as janelas da cidade.

Em algum lugar encontrareis o meu amor,
adormecida e esperando.

E mal posso saber há quanto
ela sonha com todos vós.

Levantai suavemente o meu casaco
dos seus ombros.