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segunda-feira, 6 de julho de 2026

REOLHARES

O sonho meu, como o de tanta gente, era que um teatro tivesse tanta gente como um Benfica-Sporting, e nem era preciso tanta. Mas estas coisas acontecem porque desde putos jogamos, à bola rua, - ainda se joga à bola nas ruas? – e criámos esse gosto.

Joaquim Benite é um homem de teatro.

Conheci-o ainda ele era um jovem repórter de “O Século”.

Como morava num quarto, perto da casa dos meus pais, amiúde, acontecia apanharmos o último eléctrico para a Graça. Descíamos ao fundo da Heliodoro Salgado, subíamos a rua e entre tantas outras conversas, o teatro entrava sempre. Terá sido das primeiras pessoas a quem ouvi dizer que o teatro existia para ser representado e que entre ler uma peça e vê-la nas tábuas de um palco, há como aquela diferença entre beber um café e beber um nescafé porque o teatro tem que ter aquela vivacidade que só o actor e um palco emprestam ao texto.

Fiquei feliz quando lançou e alicerçou o “Grupo de Teatro de Campolide” ali, entre o Restaurante “Valenciana” e a “Pastelaria A Pastorinha” ícones do bairro de Campolide.

Mais velho que o mundo: quem gosta verdadeiramente do que faz , tarde ou cedo alcança o sonho.

O sonho hoje chama-se “Companhia do Teatro de Almada”.

De 4 a 18 de Julho realiza-se o 28º Festival de Almada, que se encontra entre os melhores festivais que se realizam pelo mundo.

Mais informações aqui

“Não sei se Joaquim Benite foi um jornalista que se transformou em encenador, ou se foi um homem de teatro que andou escondido, demasiado tempo, no lado quase invisível das notícias que escreveu para os jornais e revistas onde trabalhou.

Mas isso não é o mais importante, pelo menos se pensarmos que Almada conhece muito melhor o homem do teatro - cujo contributo artístico, como encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, tem sido fundamental para o desenvolvimento da Arte de Talma na nossa cidade -, que o homem dos jornais.”

Luís Eme em “O Casario do Ginjal” 


Lembrança de um texto publicado em O Cais do Olhar de 7 de Julho de 2011.

domingo, 24 de maio de 2026

REOLHARES


Este é o cartão do associado nº 38315,  de "A Voz do Operário" de Afonso Borges Correia, meu avô materno.

Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, republicano histórico, era um pândego patusco, castiço, um gozador da vida, tocava “caixa” na Banda da Câmara.

Nos domingos em que não havia concertos, manhã cedo,  saía de casa, máquina “à la minute”, ele dizia à la minuta, e arrancava para as praias, para as feiras nos arredores, para tirar fotos de “olhó passarinho”.

Dizia à minha avó que assim fazia um dinheirinho para compor o curto ordenado de funcionário da Câmara. Mas isso, era apenas um pedaço de treta, tirava, quando tirava, uma ou duas, ou três fotos, o resto era copos e convívio com os amigos. Pelava-se por polvo seco assado na brasa, na Feira da Luz, ou na das Mercês, e é fácil imaginá-lo naqueles restaurantes de feira, mesas com toalhas de plástico, petiscos, jarros de barro com tintol e lá fora, a máquina, em cima do tripé, a olhar para ele, ou vice-versa.

Claro que nos domingos de concerto, também saía manhã cedo, mais petisco, mais copitos, o chegara casa, ao cair da noite, e a ouvir a minha avó: “maior fosse o dia maior era a romaria”.

Reformado da Câmara, já com pouca estaleca para transportar a la minuta, conseguiu alvará de guarda de automóveis num espaço junto à Sé de Lisboa.  Um fino humor, uma figura garbosa, davam-lhe o toque de charme que cativa damas e cavalheiros das missas de domingo, das missas de fim de tarde, e as gorjetas eram cantantes.

Fumava dois maços de "Definitivos" por dia. Copos e tabaco, outras coisas, provocaram-lhe graves problemas de circulação, ao ponto de lhe terem amputado as pernas.

O médico proibira-lhe os cigarros, o copito.

Assim, um pouco sem jeito, ia-lhe lembrando esses cuidados, e o avô andarilho que foi, acamado que estava, a dizer-me:  “é pá! A vida são dois dias e o qué que queres que p’raqui esteja a fazer?

Nunca hei-de esquecer o prazer com que puxava cada fumaça de “Definitivos”.

As consoadas eram preenchidas com as suas anedotas que, invariavelmente, repetia todos os anos. Recordo esta:

Um homem entra pela drogaria a pedir uma esmola para o ceguinho..

- Mas  onde está o ceguinho?  pergunta uma cliente

- Está  lá fora a ver a montra!

Pelos cigarros, pelo copito, terá morrido mais cedo… mas morre-se por tantos motivos…

Foi “A Voz do Operário” que lhe tratou do funeral.

Já não lembro o que aconteceu à máquina à la minuta e ao boné com a placa de guarda de automóveis.

Do meu avô apenas guardo um relógio de pulso de marca “Invicta” e este cartão de  sócio de “A Voz do Operário”.

Sou o único da família, que saiu com os olhos azuis do meu Afonso.

(Texto publicado em 29 de Setembro de 2011).

Legenda: a imagem do fotógrafo “à la minuta” foi tirada  daqui.
A outra imagem, mostra o espaço, junto à Sé, onde o meu avô foi guarda-de-automóveis.

domingo, 3 de maio de 2026

REOLHARES


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.

Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

O Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.


Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

REOLHARES



OS MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.

Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.

Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

REOLHARES

V.S.T. & ETC

««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar, que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.

2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).

3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)

4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro, tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora, é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.

5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc — uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre, coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca, para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado, como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados: conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para os destruir.

6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais; a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos ou ofertas aos críticos.”

7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre.

 

Alexandra Lucas Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013

(Texto publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).

quinta-feira, 23 de abril de 2026

REOLHARES

VELHOS RECORTES

O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.

Passou um ano.

Que pensará o leitor José da Cruz Santos? 


segunda-feira, 20 de abril de 2026

REOLHARES

UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO

Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.

Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso, mas a perca de certo aconchego que num tasco é coisa fundamental.

Mas voltemos àquele 5 de Outubro.

Entramos no tasco e antes de se pedirem os copos, o Helder Pinho lança um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»

Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:

- Aqui não se admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.

domingo, 19 de abril de 2026

REOLHARES


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO

Por vontade própria, o meu pai reformou-se tarde.

Já tinha, há algum tempo, passado os 65 anos, quando colocou um ponto final na carreira de jornalista-gráfico, como gostava de se considerar.

Passámos, então, a ter um tempo que até aí não existira e, pelo menos, uma vez por mês, arrancávamos para uma jantarada, mais regada do que o resto, que terminava sempre com conversas “non-sense”, que iam desde o marxismo-leninismo ao carrapito da D. Aurora, do Benfica às pernas da Cyd Charisse.

Por vezes a jantarada era antecedida de sessão de cinema.

Juntos, vimos, no Fórum Picoas. as Recordações da Casa Amarela do João César Monteiro, - e o que nos divertimos! -, juntos também, (não) vimos no Londres a adaptação cinematográfica da Insustentável Leveza do Ser. Ao fim de vinte minutos de filme, olhou para mim e disse: vamos embora!.

Apanhámos um táxi para Alcântara e aterrámos no Cuidado Com o Degrau, um restaurante que, penso, já não existe.

Marxista-leninista convicto, gostava particularmente de Sartre e, e lia-o em francês. O livreiro Carvalho, da Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, ao lado do então Cinema Eden, , conseguiu arranjar-lhe os seis primeiros volumes de Situations e sempre disse:

Mais vale estar errado com Sartre do que ter razão com Aron.

Não admira as cócegas que sentiu vendo o filme saído do livro do Milan Kundera. 

Pelo meu lado li Sartre, As Palavras é um livro que marcou muito os meus passos, mas sempre fui mais Albert Camus.

Há dias, ao rever Peggy Sue Casou-se, um filme mal-amado, ou melhor dito: pouco citado,  de Francis Ford Coppola, dono e criador de obras inescapáveis, topei com o diálogo de uma maravilhosa Kathleen Turner com o avô:

- Avô!

Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.

- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.

- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?

- Trataria melhor dos meus dentes

Este tratar melhor dos dentes, mandou-me para idênticas palavras do meu pai  (estaria a citar Coppola? Não sei!), numa das jantaradas,  quando a conversa  terá entrado pelo velho beco do se eu soubesse o que sei hoje, se voltasse atrás, blá,blá,blá, e ele muito peremptório a afirmar que faria tudo, mas mesmo tudo, o que fizera, com uma única excepção: 

Trataria melhor dos meus dentes."

(Texto publicado por aqui em 20 de Setembro de 2011).

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SEXTA-FEIRA SANTA

Numa sua crónica, João Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:

 «O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»

 Tão pouco sabia Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a frase.

 E adiantava:

 «Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer pois que não tenho sustentação possível».

 Semana Santa.

 A entrada de Jesus em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a Ressurreição.

 Vitória, cantam os cristãos católicos.

 Porquê?

 Dizem que é a vitória da vida sobre a morte.

 «Ninguém conseguirá jamais perceber esse mistério.»

 Ninguém!


Legenda: Pintura de Paul Gauguin

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Legenda: pintura de Rubens

A ÙLTIMA CEIA


 Segundo a tradição cristã, hoje é Sexta-feira Santa.

 A Igreja exorta os fiéis a que neste dia observem alguns sinais de penitência, em respeito e veneração pela morte de Cristo. Assim, convida-os à prática do jejum e da abstinência da carne e qualquer tipo de acto que se refira a Prazer.

 Jesus Cristo percorre a Via Sacra, também chamada Via Dolorosa.

 Pilatos pergunta ao povo que fazer com Jesus.

 A multidão responde: Que seja crucificado!

 Pôncio Pilatos, face à escolha do povo, lava as mãos.

 A escolha do povo é soberana.

 A História dos povos fala de todas as escolhas a que foram chamados.

 Os portugueses percorrem hoje, até quando não se sabe, a sua via dolorosa.

 D. Alfredina, minha porteira, diz que ouviu nos noticiários que muita gente, nestes dias pascais, ainda, conseguiu, ir de férias

 O Herman, quando era Herman, costumava dizer que a vida dos pobres é um espanto.

Legenda: A Última Ceia de Leonardo Da Vinci.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

QUINTA-FEIRA SANTA


Definitivamente, não sei explicar mas, em tempo de Semana Santa, vêm-me sempre, mas sempre, à memória duas ou três coisas:

A parede do antigo Cinema Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes cartazes de A Túnica de Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.

A Emissora Nacional a interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do Torneio de Montreux.

 O Carlos Alberto que aparecia de gravata preta.

 Os putos da rua que éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:

- Cristo morreu!

A minha avó apenas respeitava a quinta e a sexta-feira santas  e nesses dias não havia carne para ninguém.

Curiosamente, também não abundava nos outros dias.

Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

REOLHARES


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?

(Publicado em 18 de Abril de 2011)


Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas -  de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:

“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.

 Enquanto monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma aldeia vietnamita ao som  da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.

De cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco, disserta  sobre a onda perfeita para praticar “surf”.

A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.

Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?

“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.

Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:

“Nixon: Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.

Kissinger: Isso, julgo, seria ir longe demais.

Nixon: A bomba atómica perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.

Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”

Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.

Cerca de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.

Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.

Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.

Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

REOLHARES


 ATRÁS DE COPO, COPO VEM

Quando Ricardo Reis desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto, finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por exemplo, descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava, muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço, uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes, sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion, mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família, comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si, acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com os dignos hóspedes.

(…)

Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho da tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda-chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.

José Saramago em OAno da Morte de Ricardo Reis

Texto publicado em 30 de Março de 2018

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ELEVADOR DA GLÓRIA

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

REOLHARES


QUOTIDIANOS


Pedro Neves pôs o candeeiro de petróleo em cima duma cadeira poeirenta. Emagrecer, o rosto parecia alongar-se na sombra projectada na parede branca. Reprimiu um gesto, talvez uma palavra.

- Comprendo. Exponha-se o menos possível, peço-lhe. Se ninguém vem aqui…

- Não, ninguém. Só eu.

- … o esconderijo parece seguro. Mas são só dois dias, o máximo três.

Apertaram as mãos com muita força. Antes de fechar a porta, Judite voltou-se para ele.

- Que cigarros fuma?

-  Unic.

- Tem graça, são os do meu pai, Trago-os amanhã.

E sorriu.

 

Álvaro Guerra em Café República

O meu pai também fumava cigarros Unic, tabaco negro. Três maços por dia, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram por o matar.

Legenda: imagem tirada de Tododcoleccion

 

Texto publicado em 11 de Junho de 2018

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

REOLHARES

RELACIONADOS

Publicado em 17 de Julho de 2020

Há uma frase de José Rodrigues Migueis que José Gomes Ferreira citou em A Memória das Palavras:

«Os sonhos da juventude, realizam-se sempre. Se não aos trinta, aos quarenta anos… ou aos cinquenta… ou aos sessenta… mas realizam-se sempre… A questão está em querê-lo bem do fundo da teima dos ossos!»

Exilado nos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, mesmo longe, assistiu à queda da ditadura, viu a cor da liberdade, como poetizou Jorge de Sena.

Morreu em Nova Iorque no dia 27 de Outubro de 1980.

Tinha 78 anos.

«Muitas vezes me perguntaram, porque é que não regresso? Talvez porque nunca cheguei a partir.»

Por vontade expressa as suas cinzas vieram para Portugal onde chegaram em Maio de 1981 e tal como escreveu em A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e  para onde?»

Digo-o com mágoa, muita mesmo: José Rodrigues Miguéis está praticamente esquecido.

E é uma pena que não seja lido.

Segundo uma nota final que escreveu, Miguéis diz-nos que começou a escrita de O Milagre Segundo Salomé, sentado numa mesa d’A Brasileira do Chiado «Junto à porta, e sozinho como quase sempre, eu tenha tomado num papelinho de acaso a primeira nota para uma cena que viria a ser germe e fulcro do romance: «Onde a lava transborda,»

Deu-o, provisoriamente, por terminado pelos anos cinquenta e recopiou-o, em forma final entre 1966 e 67. Deu-o a ler a Mário Castro, a quem o livro é dedicado, a Rogério Fernandes, José Saramago, Maria da Graça Amado da Cunha, Prof. Oliveira Marques, outros de que não recorda o nome e todos tiveram, além de reparos, palavras de encorajamento.

«Houve até quem me incitasse a publicá-lo em pleno caetanismo - -«É agora a altura!» - num surto de crença nas boas intenções de que está cheio o nosso pequeno inferno. Quanto a mim, era mais um Romance-para-a-Gaveta, como outros, menos felizes, que esperam drástica revisão.»

Ainda da nota final, que tenho vindo a citar:

«OMilagre Segundo Salomé não é um romance histórico: não pretende reconstituir factos ou acontecimentos nem evocar pessoas cuja realidade ou verdade será apenas a que uns e outras assumirem aos olhos do leitor; e os que se inspiram da realidade aparecem aqui transpostos, anacronizados, telescopados ou conjugados seguindo as conveniências da narrativa. Qualquer semelhança entre este «milagre» e algum milagre do mundo não ficcional, deve-se apenas a uma assimilação lógica ou formal, e não ao desejo de fazer proselitismo ou de rebater o segundo.»

Miguéis considerava-o o seu melhor livro, mas a publicação em 1975, durante o PREC, prejudicou fortemente a atenção que crítica e leitores lhe poderiam conceder, o que deixou Migueis profundamente desgostoso.

Mas é um livro extraordinário que retrata a sociedade lisboeta nos primeiros anos do século XX, a decadência dos ideais da Repúblca que originarão o 28 de Maio de 1926 e tudo o que se lhe seguiu.

José Rodrigues Migueis recusou sempre qualquer espírito de nacionalismo, mas tinha um enorme sentimento pelo País onde nasceu, e exigiu ser sepultado em Lisboa.

No topo do texto, o monumento que encima o local onde estão depositadas as suas cinzas.

Reproduz-se a noticia que o Diário de Lisboa, aquando da chegada dos restos mortais, publicou no dia 4 de Maio de 1981.

domingo, 5 de outubro de 2025

REOLHARES


O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva à República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

(Texto publicado em 5 de Outubro de 2020) 

sábado, 27 de setembro de 2025

REOLHARES


 Só agora, fortuitamente, uma chatice, ultimamente tudo me acontece fortuitamente, dei conta que o Presidente da República atribuiu a Grã-Cruz da Ordem de Camões a António Lobo Antunes no 10 de Junho e entregue a Lobo Antunes a 1 de Setembro, dia do seu aniversário.
Segundo o jornalista João Céu e Silva, António Lobo Antunes deixou de escrever, de fumar (algo que para Lobo Antunes era como respirar), já não reconhece os seus próximos e perdeu a noção do mundo que o rodeia.
Voltar atrás, e reolhar este texto por aqui publicado no dia 5 de Maio de 2018:

«Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

REOLHARES


 

NINGUÉM PODE RESISTIR À TUA BELEZA


Claudia Cardinale, quando fez 70 anos,  hoje está com uns radiosos 76 anos, apagadas as velas, nas palavras de agradecimento, disse: nada de plásticas porque cada idade tem a sua beleza.

CC, tal como a conhecíamos em contra ponto a BB, francesa que também foi espanto dos olhos de muitos adolescentes, menor actriz que Cardinale, para além de outros inconvenientes, como se ter dedicado à protecção de animais quando, dizem, nunca cuidou do próprio filho e ainda por cima vota em Jean-Marie le Pen.

Deixe-se em paz a BB e voltemo-nos para CC.                                   

Burt Lancaster, no papel do Príncipe Salina,  em O Leopardo de Visconti:

«Deves tudo a ti mesmo. Ninguém pode resistir à tua beleza.»

Jorge Silva Melo, num inquérito do suplemento Gente do Diário de Notícias, quando lhe pediram o nome de uma mulher bonita, nem pestanejou:

 - Claudia Cardinale.

E, para que não restassem quaisquer dúvidas, acrescentou:

«Luminosa. A luminosidade interior dela como os modelos de Raffaello. Não são os projectores que a iluminam. A luz emana dela. Talento tem com certeza, mas o sorriso nunca é objecto de talento. Vem de dentro. E aquele sorriso é único.»

Claudia Cardinale foi uma aparição tardia para João Bénard da Costa e tem direito a quatro páginas no seu Muito Lá de Casa e dá para, a propósito, ou o seu contrário, citar Jorge de Sena:

«não é senão o libertar do encanto que foste ao longe,à luz do mar aceso.»

E conclui:

«É essa luz, que tantos ficaram presos os anos 60 e 70.»

Tão simples como isto.

 

(Texto publicado em 8 de Novembro de 2014).