Mostrar mensagens com a etiqueta José Fanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Fanha. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ao Qu’isto Chegou!?

Diversos autores

Capa: Soares Rocha

Editorial Estampa, Lisboa 1977

 

QUE É FEITO DO MÊS DE ABRIL?

 

Que é feito do sol da Abril

que nos circulou pelas veias?

Que é feito das ruas cheias

quando o sol era um balão

e andava tudo ao contrário

as estátuas vinham ao chão

e o sonho era o nosso horário?

 

Que é feito do mês do mês do sonho

quando o sonho era concreto

e tinha forma de casas

portas abertas

e pão,

quando o sonho que sonhámos

era filho colectivo

parido pela multidão!

 

Foi então

num país

de repente sem fronteira

foi a feira

a desgarrada

foi o espanto dos abraços

na arquitectura sem margem

duma terra a conquistar.

 

Foi num país que acordou

com planícies no olhar

e a concertina a tocar

dentro do peito.

         Que é feito do mês de Abril?

Soldados a quem dissemos:

amigos eh! Pá! Irmãos

operários que descobriram

um espaço para além das mãos

e as mulheres trabalhadeiras

que rasgaram seus vestidos

para as bandeiras de alegria

com que Abril foi envolvido.

         Que é feito do mês de Abril?

 

Foi um país impaciente

que de pé se quis em flor

foi o riso das guitarras

cansadas de choro e dor

foi a alegria fabril

foi a força da razão.

       Não esqueças o mês de Abril!

       Não esqueças que és multidão!

terça-feira, 17 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Busca

José Fanha
Ilustrações: Manuel Botelho
Capa: João Nasi Pereira
Edição do Autor, Lisboa s/d

Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.