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segunda-feira, 19 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


 Cartas a um Amigo Alemão

Albert Camus

Tradução: José Carlos González e Joaquim Serrano

Capa: Lima de Freitas

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Não Irei muito mais longe. Acontece-me, por vezes, ao voltar de uma dessas curtas tréguas que nos deixa a luta comum, pensar em todos os recantos da Europa que conheço bem. É uma terra magnífica, feita de sacrifícios e de história. Revejo as peregrinações que fiz com todos os homens do Ocidente. As rosas nos claustros de Florença, as tulipas douradas de Cracóvia, o Hradschin com os seus paços mortos, as estátuas contorcidas da ponte Karl sobre Ultava, os delicados jardins de Salzburgo. Todas essas flores, essas pedras, essas colinas e essas paisagens onde o tempo dos homens e o tempo da natureza confundiram velhas árvores e monumentos! A minha memória fundiu essas imagens sobrepostas para delas formar um rosto único: o da minha pátria maior. Algo me oprime quando penso, então, que sobre esse rosto enérgico e atormentado paira, desde alguns anos, a vossa sombra. E no entanto, há alguns desses lugares que você visitou comigo. Eu não imaginava, nessa altura, que fosse um dia necessário defendê-los contra os vossos. E agora ainda, em certos momentos de raiva e desespero, lamento que as rosas possam ainda crescer no claustro de São Marcos, os pombos lançar-se em bandos da catedral de Salzburgo e os gerânios vermelhos germinarem incessantemente nos pequenos cemitérios da Silésia.

domingo, 21 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Escritos de Juventude

Albert Camus
Prefácio: Paul Viallaneix
Tradução: José Carlos Gonzalez
Capa: Infante do Carmo
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Os homens constroem as suas vidas sobre a velhice. A essa velhice eivada de coisas irremediáveis querem proporcionar a ociosidade que os deixa indefesos. Querem chegar a contramestres para se reformarem num chalezinho. Mas uma vez atingida a idade sabem que isso é falso. Precisam dos outros homens para se protegerem.
É nos homens que o homem se refugia. E aquele que se proclama o mais solitário, o mais anarquista, é precisamente aquele que mais arde por se mostrar aos olhos do mundo. O que conta são os homens. As gerações sucedem-se, começam e acabam umas nas outras, nascem para morrer e renascer. Um dia, uma velha sofreu. E daí? O seu destino não apresenta senão um interesse restrito. Ela própria não confia senão no homem. Deus de nada lhe serve, a não ser para afastar dos homens e para a deixar sozinha. Ela não quer isso. Ela chora.
Um homem, uma velha, outras mulheres falaram, e as suas vozes apagam-se lentamente, progressivamente, abafadas pelo clamor universal dos homens, que bate com força. Como um coração presente em toda a parte.