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quinta-feira, 16 de julho de 2026

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Um texto de José António Barreiros sobre a Seara Nova:

Não sei se é uma tristeza ou uma vergonha. Aqui fica o aviso, avisei-me a mim próprio esta tarde. Daqui a pouco começa a quietude do entardecer. Naquele tempo, aos sábados, talvez por ser a hora da tristeza, eu lia. Hoje, que escrevo, não sei se o meu mundo estará melhor.

Apesar da negritude cultural em que a ditadura de Salazar mergulhou o país, apesar do cinzetismo que foi a ditadura de Marcelo Caetano, esse estranho equivoco que deu pelo nome de primavera marcelista, existiam pequeninos faróis que serviam de porta-aviões onde fomos descortinando algo, principalmente nas entrelinhas. Apesar de tudo havia uma oferta cultural que fez algumas diferenças, só possíveis à teimosia e coragem de alguns intelectuais. Jornais e revistas conseguiram furar o cerco da ignorância, da solidão, do despotismo, do medo, sobretudo do medo.

Do Sótão tirou algumas dessas revistas que lhe acompanharam os dias daqueles tempos. Começa pela “Seara Nova”, uma revista fundada em Lisboa em 1921. O primeiro número saiu em 15 de Outubro desse ano, por iniciativa de Raul Proença a que se juntou um naipe de intelectuais portugueses onde, entre outros, pontificavam António Sérgio,, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. Recusaram ser partido político apenas pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Apesar das vicissitudes resultantes da censura e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, publicou-se regularmente até 1989. O seu último número corresponde aos meses de Outubro/Novembro desse ano e tem o número 1596/1597. Custava 30$00 e o seu director era Ulpiano do Nascimento.

No editorial deste último número regular da Seara Nova, já se dava conta que a revista abandonara a sus periodicidade e vivia as dificuldades sentidas por milhares de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo que se estudavam medidas tendentes a sanear financeiramente a empresa, de forma a poder viabilizar-se o projecto patriótico e humanista que a Seara Nova se impôs.
Não foi possível. A ditadura nunca conseguiu calar a voz à “Será Nova”, os novos tempos democráticos permitiram-no.

Este é o número mais antigo da “Seara Nova “ que possui, referente aos meses de Novembro/Dezembro de 1957 e com os números 1345/1346. Era director Câmara Reys e custava 5$00. A meio da primeira página pode ler-se “VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA” e, entre outros, regista colaboração de Fernando Piteira Santos, João de Barros, Victor de Sá, Mário Sacramento, Lilia da Fonseca, José-Augusto França. aso números 1345/1346
Porque é um documento histórico transcreve-se a Declaração de Princípios, publicada no primeiro número da revista:

“O GRUPO SEARA NOVA:
- não lisonjeará nenhuma classe da sociedade
- não dará a nenhum dos seus aderentes qualquer beneficio de ordem pessoal
- não pretende o poder, mas preparar as condições necessárias de todo o verdadeiro poder
- quer a Revolução mas não aplaude as revoluções
- quer semear em proveito colectivo, e não colher em proveito próprio
- não se limita a prosternar-se perante as glórias passadas da Pátria: quer criara para a Pátria uma nova glória
- não olha o passado, marcha resolutamente para o Futuro.
- não se limita a glorificar os mortos heróis: quer que apareçam os heróis vivos.
- não fará festas, nem lançará morteiros. Dirige todos os esforços para a acção, e para a preocupação do dia de hoje e de amanhã.”

Legenda: 1º número da Seara Nova , imagem tirada da Internet.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A Biblioteca da Casa possui, devidamente encadernados, os números da Seara Nova desde o nº 1400 (Junho de 1962 até ao nº 1597 (Novembro 1979), um total de 8 volumes.

Os primeiros dois volumes foram encadernados com o amadorismo do meu avô, os restantes foram encadernados por um grupo de reformados da Companhia Nacional de Navegação, que assim ocupavam os seus tempos livres, e completavam, com uns escudos, as baixas reformas.

Dados tirados da Wikipédia:

«A Seara Nova é uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, (15 de Outubro de 1921) por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses da época.

Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos.

O grupo de intelectuais reunidos em torno do projeto editorial definiram-na como "de doutrina e crítica", tendo como objetivo, como se lê no editorial do N.º 1, datado de 15 de outubro de 1921, ser de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes.

Com a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Depois da implantação da Ditadura Nacional surgida da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, o grupo da Seara Nova, a que atualmente se usa atribuir a designação de seareiros, não obstante a censura e as dificuldades financeiras, assumiu-se como um dos grupos mais ativos no combate ideológico contra o salazarismo.

Nos seus anos iniciais o projeto reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio, mas também, entre outros, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Ferreira de Macedo, Cabral do Nascimento e Augusto Casimiro. Após estas vicissitudes e múltiplas entradas e saídas de colaboradores, a revista perdeu o prestígio de outrora e já pouco significa enquanto movimento social atuante.

Desde 2015, o seu nome está consagrado na toponímia de Lisboa através da Rua Seara Nova, que foi inaugurada em maio de 2017 na Urbanização Nova Amoreiras (antiga Quinta do Mineiro), na freguesia de Santo António.

A revista prosseguiu com a sua publicação, embora nem sempre regularmente, até ao ano de 1979, atingindo então o número 1598/1599. A partir daquele ano, passou a publicar apenas um exemplar anual para assegurar que, face à lei portuguesa, o título não caducasse, assim se mantendo até ao ano de 1985, quando reapareceu com uma nova série. Agora como revista trimestral, a partir da edição do Verão de 2004 a publicação retomou a anterior numeração, incorporando posteriormente todas as edições entretanto feitas.»

Nem sempre a encontro, mas quando isso acontece, compro.

Três revistas completaram o curso cultural e político da casa: a Seara Nova, a Vértice e O Tempo e o Modo (esta apenas esporadicamente).

OLHAR AS CAPAS


 Seara Nova

Nº 1775/Julho 2026

Director: João Luiz Madeira Lopes

Capa: Óleo sobre tela de Artur Bual

Seara Nova Editores, Lisboa Julho de 2026

E, todavia, vale a pena ter um Tribunal Constitucional. Não porque seja o tribunal dos direitos que imaginámos, mas pelo que ele verdadeiramente é: o Guardião da integridade objectiva da Constituição, um árbitro que impede que a maioria do momento disponha livremente do pacto de abril. Num tempo em que, por toda a parte, se elegem democraticamente os que corroem a democracia por dentro, ter um órgão que vincula o poder ao texto fundamental, que barra o arbítrio e obriga à fundamentação, não é supérfluo, é uma defesa importante.

Mariana Canotilho

quarta-feira, 10 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


10 de Abril de 1974


NESTE DIA a censura proibia que a “Seara Nova”, para o seu número de Maio, publicasse este cartoon de Sam
Um trabalhador empunha um cartaz em que se lê :”1º de Maio”, ao lado um patrão diz para o outro: “Deixa lá!...Os outros 364 dias são nossos.”

Disto se saberá no primeiro número da revista publicada em liberdade.

MAIS DESPACHOS da censura para este dia.
Assinado pelo Coronel Garcia da Silva: “Comunicado da Ordem dos Médicos contra as contribuições – o título fica (só) assim: “Ordem dos Médicos”. No texto dizer apenas que foram enviados telegramas a membros do governo e não dizer o que eles dizem.
Despacho assinado pelo Coronel Saraiva: “Polícia agredido em Gaia: não pôr em título, que é polícia”.

EXPULSOS pela PIDE/DGS, deixaram hoje Moçambique em direcção a Lisboa e Roma, cinco missionários combonianos, de nacionalidade italiana e dois padres portugueses. Também o bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, deixou a sua diocese. O telegrama da ANI noticia também o encerramento dos estabelecimentos comerciais na cidade, em sinal de protesto contra a posição da igreja local, acusada de simpatizante da FRELIMO. Cerca de três mil pessoas manifestaram-se junto do Palácio do Governo, pedindo que fossem tomadas medidas urgentes. No dia anterior já tinham destruído os vidros do complexo missionário em Nampula.

O MINISTRO DO ULTRAMAR, Baltasar Rebelo de Sousa, recebeu o chefes de núcleos graduados da Mocidade Portuguesa. Neste primeiro encontro, que reuniu graduados de todas as parcelas do território nacional, o ministro realçou que foi demonstrada vitalidade do movimento e testemunha doa altos ideais que norteiam  a Mocidade Portuguesa.

 

quinta-feira, 19 de março de 2015

FOLHETIM NA SEARA NOVA


Apresentação do romance Idealista no Mundo Moderno, de José Rodrigues Miguéis, que começou a ser publicado, como folhetim, no nº 1419, Janeiro de 1964 da Seara Nova.

Mas ao fim de 16 episódios publicados, a censura accionou o inevitável lápis azul.

Não podendo ser invocada a verdadeira razão, a redacção da Seara Nova recorreu aos motivos alheios à sua vontade, e os leitores, de imediato, ficaram a saber o que acontecera.

A nota foi publicada no nº 1434, Abril de 1965:


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ANOS DE OBSCURANTISMO, LEMBRAM-SE?


Eram duras e variadas as dificuldades com que as revistas de cultura, como a Seara Nova, a Vértice, O Tempo e o Modo, viviam em tempos da ditadura.

A maior parte dos livros editados por essas revistas não chegavam às livrarias.

Com medo da actuação da PIDE, muitas recusavam-se a recebê-los.

Era através dos seus assinantes que os livros eram divulgados e vendidos.

Assim aconteceu, por exemplo, com A Praça da Canção, editada pela Vértice.

Posteriormente, a Ulisseia fez uma 2ª edição que, de imediato, na sua quase totalidade, foi apreendida pela PIDE.

Mas havia livreiros que tinham o cuidado de esconder livros que, de antemão, sabiam que seriam alvo da actuação da sinistra polícia.

Em Lisboa, A Barata foi um bastião dessa luta.

Em Braga, a Livraria Victor, propriedade do escritor Victor de Sá.


Há outros exemplos em cidades como Coimbra, Porto, Setúbal, Faro.



 Este é um dos exemplos das dificuldades que a Seara Nova – e não só! – enfrentava: a regularização do pagamento das assinaturas.

À data deste aviso, publicado na Seara Nova n º 1465 de Novembro de 1967, seis escudos era o preço de cada número da revista.

 O que se segue, é um outro tipo de dificuldades vividos naquele tempos.

Veio publicado na Seara Nova nº 1480 de Fevereiro de 1969.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

LUÍSA DACOSTA (1927-2015)


A escritora e docente Luísa Dacosta morreu aos 87 anos.

Fui sempre mais homenageada como professora do que como escritora.

Temos o triste condão de não partilhar os nossos melhores.

Sejam escritores, pintores, o que quer que seja, menos futebolistas e cantores-pimba.

Preferimos o supérfluo e o folclore medíocre e oco.

Gostava muito de ser professora e não conseguia imaginar a sua vida sem livros.

Militou na Oposição Democrática contra a ditadura.

Considerava o acordo ortográfico um crime.

São parvos, não sabem a língua.


Habituei-me a ler na Seara Nova as suas amáveis e poéticas crónicas.

Chamou-lhes A Ver-o-Mar.

Um título tão bonito como a escrita.

No seu Diário, falou das suas vivências em Timor.

Tínhamos, sem remorsos, abandonado um povo que durante séculos fora feitoria e colónia, primeiro a uma luta fraticida e partidária, depois a uma invasão.

Confessando:

Ia realmente percorrer os caminhos, as terras, as águas do mapa? Ia conviver com as gentes que sabia da enciclopédia e dos poetas?
Ali estava à procura dum destino, disposta a mar. A dar e a receber. Ah! esquecida de que a vida lhe recusara sempre destinos e que tudo o que tocava nas mãos, apodrecia, maleficamente, se esgarçava…

Palavras finais de Na Água do Tempo, escritas em Dezembro de 1987:

O tempo arrefece. Mas há sol e na linha do horizonte uns flocos de nuvens levemente rosadas como borlas de pó-de-arroz, 1920. Sobre as águas um jogo de velas. Os brancos fendidos oscilam, bailam sobre o azul – rodinha de borboletas, entre o leque aberto da rama dos pinheiros.
De manhã, dava logo de rosto com o mar, porquê então aquela melancolia? Olhava aquela beleza balética, oscilante, grácil, como se olhasse um campo lavrado de lágrimas. Era dela, dentro dela, que a melancolia morava.

Legenda: pormenor de uma crónica A Ver-o-Mar de Luísa Dacosta, publicada na Seara Nova nº  1461, Julho de 1967.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

TODOS PUROS BURGUESES


- Eu sei, disse o Carrilho. Tu, desde que perdeste contacto com a rapaziada, desde, principalmente, que andas metido com esse teu novo amigo, um tal Gomes Ferreira, doutor e poeta, não és mais o mesmo. Não é com poesia que se defende a República.
- Sim, é um poeta. Mas republicano como nós…
- Mas não um poeta popular…
- A poesia, hoje, mudou muito. Não sei se vocês sabem…
- A poesia pode ter mudado, berrou o mesmo Carrilho, mas o povo só se deixa arrastar por uma poesia falada na sua própria linguagem. Sem literatura!
E O Pedro Lico, atiçado pelo Vasco Bulhões: - E você sabe que esse seu novo amigo faz parte do grupo Seara Nova, de que fazem parte o Raul Proença, o António Sérgio, o Câmara Reis, e outros assim, todos puros burgueses, mais preocupados com cultura e classe literária, do que com os verdadeiros problemas do povo?
E o Paulo Chaves, bem populista: - Sim, pá, nós somos povo, os filhos da miséria e da falta de escolas…
- A verdade é que tu e o Gervásio têm-se afastado de nós. Vocês têm outras ambições, não é?
- Quais?
- Sei lá. Em você talvez o desejo de casar rico. Você não vai quase todos os dias almoçar com a Inês, a filha do nosso antigo chefe? Agora ele está rico. E Lia,  a irmã, riquíssima.
- E foi para dizerem cisas assim que vieram procurar-me aqui, no Tribunal de Contas?
- Talvez. Contas nós temos sempre que ajustar pela vida fora…

Chianca de Garcia em Cartas do Brasil.

Legenda: Equipa do filme Aldeia da Roupa Branca, filme realizado por Chianca de Garcia. José Gomes Ferreira colaborou no argumento.
Fotografia tirada de José Gomes Ferreira-Uma Sessão Por Página, edição da Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Junho 2000.

domingo, 30 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS



Teses e Documentos
II Congresso Republicano de Aveiro

Diversos autores
Capa: Santos de Almeida
Seara Nova, Lisboa 1969

Em representação das famílias de muitos presos políticos, venho aqui saudar os republicanos e democratas reunidos em congresso e fazer votos pelo melhor êxito dos seus trabalhos.
É também em seu nome que lanço um apelo, a todos os presentes, para que não sejam esquecidos aqueles patriotas que penam nas cadeias políticas de Portugal pelo crime de serem verdadeiros e coerentes democratas, empenhados em servir a causa da República e da Liberdade.
Lembramos a todos vós a situação dramática em que se encontram, provocada por um regime duríssimo, que parece concebido para alcançar, lenta mas eficazmente, a sua ruína física e psíquica. Privados não só da liberdade, mas de um mínimo de convívio com as suas famílias, de quem nunca se podem aproximar; cortados de todos os contactos com os amigos e parentes afastados; sofrendo limitações de toda a ordem no que respeita a informação e cultura; sujeitos a uma humilhante tutela, a uma contínua e opressiva vigilância e a castigos arbitrários; muitos com a saúde abalada, não só pelo regime desumano a que estão submetidos, mas ainda por anos e anos de cadeia, com alimentação e assistência médica deficientes; e a maioria sujeitos a medidas de segurança e portanto vivendo na incerteza quanto á hora da sua libertação,

(Mensagem lida por Aida Magro, em representação de um grupo de famílias de presos políticos).

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

SARAMAGUEANDO


Pode dizer-se: José Saramago admirava Agustina Bessa Luís.

É numa crítica, publicada na Seara Nova de Maio de 1967, ao livro de Agustina As Relações Humanas, que Saramago expõe essa admiração:

Algumas das ideias de Agustina Bessa Luís não se limitam a ser conservadoras: são retrógradas. Repugnam a um nosso deliberado amor de claridade, de abertura para o inteligível, de definição e construção de um sistema de relações em que a magia não seja utilizada como meio (entre tantos) de dominação de classe. Mas… Como é possível, resistindo e opondo-nos embora no plano das ideias e da sua prática, não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo? Como é possível ficar indiferente a certas bruscas iluminações que vão mais longe e mais fundo, no sentido do conhecimento de si e do outro, que todo o material de análise que comumente manuseamos? Como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?
(…)
Quem escreve assim, quem assim resolve, mistura e separa um universo de figuras dramáticas, mais que humanas, num cenário que mesmo quando quotidiano, apresenta sempre um ondular crispado de mundo em transe de criação, pode dar-se talvez ao supremo desdém de não exprimir ideias concretas ou de exprimi-las segundo uma escala de valores para nós, mortais de consumo corrente, ultrapassada e negativa. Fica uma lição e uma profissão de beleza. E a beleza, essa, não é concretamente um valor ultrapassado.

Fica por saber, se José Saramago manteve, para sempre, essa admiração.

Numa entrada,10 de Outubro de 1994, no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, escreve José Saramago:

Agora chegou-me a notícia de que Agustina Bessa Luís passou a dedicar-se também a estas activ9dades conjuntas de polícia, ministério público e juiz. Declarou que eu não sou um «grande escritor», que sou apenas «produto de diversas circunstâncias»… Ser eu, ou não, um «grande escritor» não tiraria nem acrescentaria nada à glória literária e à importância social de Agustina Bessa Luís, mas isso para ela é insignificante perante a ocasião que lhe deram de mostrar-se tão traquinas quanto lho pede a natureza. Mesmo que demoradamente explicasse, Bessa Luís não compreenderia que nunca pretendi ser um «grande escritor», mas um escritor simplesmente. Bessa Luís tem os ouvidos tapados para estas distinções, tão tapados como parece que esteve neste caso o seu entendimento ao deixar os leitores da entrevista dada ao Independente sem saber – porque as não mencionou – de que as circunstâncias perversas sou eu mistificador produto. Muito pior ainda, se é possível, foi ter Agustina Bessa Luís calado as circunstâncias que fizeram dela a «grande escritora» que sem dúvida acredita ser…

Anos mais tarde, em Uma Longa Viagem com José Saramago, dirá a João Céu e Silva:

Não que seja um génio, mas apareço com o meu trabalho feito e a natureza do meu trabalho, o meu tipo de escrita, os temas que eu trato – que saem fora da rotina mais ou menos convencional de uma situação sentimental ou de conflito familiar. Isso é uma área que não me interessa – e os livros têm êxito, os leitores multiplicam-se e isso não se me perdoou. O Vergílio Ferreira… A Agustina, numa entrevista que deu disse que em Portugal só havia dois escritores que mereciam o Prémio Nobel: um era o Vergílio Ferreira outro era ela. E também diz a certa altura: «Não o José Saramago não é um grande escritor. É o produto de certas circunstâncias» e por aqui se ficou. Nem disse quais eram as circ8unstãncias nem disse como é que se chegava a ser grande escritor como certamente ela supunha que era. Não vale a pena, no fundo a inveja é uma coisa que todos mais ou menos sofremos. Alguns dominam-na e transformam-na noutra coisa. Se eu invejo aquele tipo que aquele tipo que é mais alto do que eu, vou fazer ginástica para ser mais alto que ele…


Legenda: a capa do livro de Agustina Bessa Luís foi tirada do site da Fnac.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

SARAMAGUEANDO



O ter publicado aqui uma carta de Jorge de Sena para José Saramago, leva-me a que junte algumas palavras que Saramago diz sobre Sena e que se podem encontrar na Longa Viagem que fez com João Céu e Silva:

«Eu conheci o Sena. Não muito bem, sem qualquer intimidade a não ser aquela que depois resultou de quando ele se foi de Portugal. Além de ser um grande tradutor, tinha uma característica raríssima – e eu não conheço outro caso -, é que a cada tradução que fazia acrescentava-lhe um estudo, o que dava ao editor essa enorme sorte de não se limitar ao que já era. Enquanto eu estava na Editorial Estúdios Cor correspondemo-nos por razões de trabalho e reencontrámo-nos quando veio a Lisboa depois de 1974 uma vez ou duas – uma por ocasião de um congresso de escritores em que casualmente ficámos sentados ao lado um do outro e conversámos – mas a partir daí os contactos romperam-se, não por qualquer motivo de ordem pessoal mas porque nós não publicámos mada mais dele. Digamos que as coisas ficaram por ali e por isso no que se refere ao aspecto pessoal da questão não posso considerar-me um amigo ou um grande amigo de Jorge de Sena.

Mas houve uma troca de correspondência desde 1961!

Sim, havia e eu confidenciei-lhe alguns problemas que tinha na altura, mas essas cartas estão aí e se algum dia forem publicadas ver-se-á até onde chegou em comunicação e, digamos, em intimidade. Agora, no que se refere à resposta mais directa à pergunta “e porquê o Jorge de Sena?”, como eu dizia atrás, Jorge de Sena não está esquecido pelos seus leitores. Não sei é como estamos em relação às novas gerações e dos mais novos com a obra dele. Alguns haverá aí – por obrigação ou por gosto espontâneo – que lêem ou leram o Jorge de Sena. Duvido que sejam muitos e eu não penso que o vamos fazer neste dia seja uma espécie de passe de mágica que vá transformar essa situação noutra completamente diferente, com Portugal inteiro correndo às livrarias à procura dos livros do Jorge de Sena, coisa que estrai muito bem se o fizessem, mas, enfim, não sejamos ingénuos. Esta grande admiração pessoal tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele deita água gelada nas fervuras patrióticas (da Revolução de Abril) que se esperavam e que aconteceram realmente. Nessa comemoração disse: “Vocês estão a comemorar um país que não existe e eu venho aqui dizer-lhes que este país temos, pelo menos em minha opinião”. Isso não caíu bem no espírito das supostas massas pensantes, se o eram, desta terra. Sobretudo numa época em que o optimismo era obrigatório, pois se se tinha feito a revolução o que é queríamos mais? Já não tínhamos fascismo… Também não tínhamos democracia, mas pelo menos o céu estava limpo das nuvens de cinquenta anos. Porém, não se percebeu naquela altura, ou percebeu-se mal, ou alguém que o percebeu não o quis explicar ou não o soube explicar, que não se passa assim ligeiramente de uma situação de ditadura para uma situação democrática. Que não é em 24 horas, não foi sequer em 24 meses e já passaram os anos que já passaram e sabemos como é, não só em relação a Portugal, como em relação ao mundo a quase farsa trágica que é a utilização do conceito de democracia na retórica política quando vemos perfeitamente que a realidade desmente isso todos os dias. Mas há uma espécie de consenso com que estamos todos de acordo – ou pelo menos a maioria está de acordo – numa mentira. Porque poderá existir um dia uma democracia que se respeite a si mesma e que mereça o nome que tem, mas agora mesmo não existe. Basta ver o que se passa com toda essa questão da especulação do preço do petróleo que é apenas um efeito da economia que está a acontecer à sombra da democracia e que tem modos de autojustificação que acabam por convencer ou iludir as pessoas… E o Sena que, como bom cidadão que era – deveria estar contente com a revolução – e estava – mas teve a sensibilidade e o tacto para perceber que aquilo era uma espécie de capa brilhante e luzidia; que por trás dela o país continuava a ser o que era e é aquilo que sempre foi e que continua a ser só que com algumas mudanças. Então, este modo de ser do Jorge de Sena agrada-me! Evidentemente que se pode dizer que ele era imprudente ou demasiado expressivo no modo como classificava os factos e como punha o dedo nas feridas desta terra e que são bastantes. Se o Sena estivesse vivo, creio que hoje encontraria maia razões para indignar-se do que aquelas que com toda  a justiça encontrou nessa altura, porque nessa era simplesmente uma democracia que se anunciava, que não se sabia muito bem onde é que chegaria e também não tínhamos ideia do que era viver em democracia e, por isso, íamos andando – para recordar o António Machado – à espera de fazer o caminho. E hoje, depois de todo este caminho andado, não só as desilusões mas frustrações e as decepções parecem inseparáveis da chamada condição humana, porque sempre temos tendência para crer que agora é que é e depois não será. Foi este conjunto de razões que nos levou a pensar que a Fundação não tinha sido criada para enaltecer as minhas qualidades e virtudes – ad majorem gloria – mas para dizer e fazer qualquer coisa de útil social e culturalmente através de uma activ9idade pensada e com uma sequência que lhe permitisse tomar pé no conjunto das actividades culturais do país. Não para recuperar, porque as obras estão aí e, portanto, não o precisam, mas em alguns casos necessitam simplesmente que se faça alguma coisa para chamar a atenção, para dizer às pessoas “olhe lá, você tem muitas razões para estar distraído, tem preocupações na vida mas está aqui isto” e aquele que se apresentou foi de facto o Jorge de Sena.»


Legenda: pormenor da crítica de José Saramago ao livro Novas Andanças do Demónio de Jorge de Sena, pág.161 da Seara Nova nº 1460, Junho de 1967.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Numa carta, datada de 8 de Maio de 1967, José Saramago diz a José Rodrigues Migueis:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

José Saramago publica a sua primeira crítica na Seara Nova no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Numa crítica a O Ser e o Ter de José Marmelo e Silva, e publicada na Seara Nova nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como assustada condição não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da Seara Nova debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís: 

“As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”.

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís.
 
A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim” .

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

Legenda: Mário Dionísio, José Cardoso Pires e José Saramago na Avenida da Liberdade, em Lisboa, por ocasião de uma manifestação pacifista.

Fotografia de Luis Ochoa, “Expresso”.

terça-feira, 27 de julho de 2010

OS POEMAS POSSÍVEIS



Os Poemas Possíveis

José Saramago
Colecção Poetas de Hoje nº 22
Portugália Editora, Julho de 1966 

No momento em que soube da morte de José Saramago, fiquei sem capacidade para dizer alguma coisa a quem quer que  seja, eu incluído.

Bem tentamos, mas nunca estamos preparados para a morte. 

Principalmente a morte daqueles de quem muito gostamos.

Entendi, então, que a minha homenagem passaria pela simplicidade de colocar, aqui, a capa do primeiro livro que li de José Saramago, "Os Poemas Possíveis” e trazer as últimas palavras de “As Intermitências da Morte”. 

Nada mais.

Decidi depois, em cada dia, ir apresentando todos os seus livros. Sem entrar em grandes detalhes porque apenas, um leitor e nunca um crítico.

Com Caim a apresentação  dos livros de José Saramago chegou ao fim.

Mas tenho que voltar ao princípio, a Os Poemas Possíveis.

Foi na Livraria Portugal, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.


Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José Saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.

Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.


Houve tempo para passar os olhos pela “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente.

E tudo começava logo no primeiro poema do livro:

“Até ao Sabugo”

“Outros porão em verso outras razões,
Quem sabe se mais úteis e urgentes,
Mas ninguém se refaz a natureza,
E como quem prevê acusações,
Aqui direi que busco a só maneira
De todo me encontrar numa certeza,
Leve nisso ou não leve a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.”


Ainda hoje o livro tem o preço escrito a lápis pelo livreiro: 40 escudos.

E era daqueles  livros que, gostosamente, se tinham de abrir com uma faca. 

O quanto lamentei quando os livros passaram a dispensar o exercício desse prazer, demorando os olhos pelas páginas que se iam revelando e até o livro estar aberto por completo. Só depois a leitura começaria.

Foi assim que começou a minha josésaramaguite aguda.

Feliz do leitor que, por si só, descobre um autor que desconhece, que sem qualquer tipo de ajuda passa a gostar de alguém que, ainda não saberá, um dia será Prémio Nobel da Literatura.

Se isto não é a felicidade, eu andei por lá perto!

Fiquei à espera de outros livros, outras descobertas.



O meu pai era assinante da Seara Nova, e no nº 1459 referente a Maio de 1967, deparo com uma crítica de José Saramago ao romance A Execução de Júlio Moreira.

Num livro, publicado em Abril de 2010, pela Editorial Caminho e que reúne a correspondência trocada, durante os anos de 1959 e 1971, entre José Rodrigues Migueis e José Saramago, Saramago escreve:


Sabe que fui promovido a crítico literário? E da “Seara”, ainda por cima, que é coisa fina (…) Abri a boca, de puro pasmo.(…) e eu honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões contra: falta de preparação de grau universitário, pouco tempo disponível, ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. (…) Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que, à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

(Carta datada de 8 de Maio de 1967)


Quem me conhece, sabe que nutro por José Saramago um gosto e uma admiração que vão para além da simples relação autor/ leitor.

Óbvio que nem tudo o que José Saramago escreveu, ou disse, ou atitudes que tomou, ou polémicas que manteve, alguma coisa não me provoque reparo, mas de modo algum, ofusca a imagem que dele faço: de um homem de rara personalidade, de braço dado com um brilhante escritor.

Do que de Saramago há aqui pela casa, irei revelando: os livros que outros escreveram sobre a sua obra, entrevistas, opusculos, o enorme dossier que fui organizando ao longo dos tempos e, acima de tudo, olharei as páginas riscadas de todos os seus livros.


Por aqui continuará José Saramago.

Para que a homenagem possa prosseguir.


Legenda: Fotografia da página da Seara Nova”com a crítica de José Saramago ao livro A Execução de Júlio Moreira

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O DIA 25 DE ABRIL


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Um reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.


Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime. 

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.


A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.