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sábado, 6 de setembro de 2025

sexta-feira, 23 de maio de 2025

BLOGUEANDO POR AÍ

"O ministro dos Negócios Estrangeiros rejeitou hoje classificar as ações de Israel como genocídio, apesar de reconhecer que a situação humanitária na Faixa de Gaza, provocada pelo bloqueio e bombardeamentos israelitas, é “absolutamente intolerável”."

Para ser genocídio, era preciso serem russos, muçulmanos, chineses, pretos ou indostânicos. Sendo judeus, coitadinhos, são danos colaterais.

hmbf na Antologia do Esquecimento

segunda-feira, 19 de maio de 2025

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«Em seis anos, Chega sobe de 1,3% para 23% e empata com PS." Nos próximos dias vamos ouvir muitos comentários sobre este fenómeno, as televisões vão dedicar horas infindas a este fenómeno, dezenas de comentadores vão debruçar-se sobre este fenómeno, mas é quase certo que ninguém vai perder um minuto a escrutinar os deputados eleitos e as razões por detrás da sua eleição. O fenómeno continuará a crescer, porque vai crescer ainda mais, porque por detrás do seu crescimento não está apenas o descontentamento, não está sequer a ideologia, mas está, definitivamente que está, a rendição do racionalismo ao espectáculo, às paixões exacerbadas e às emoções sem freio. Tudo isto é muito antigo e vem desse páthos que os gregos nos deixaram de herança e Nietzsche associou ao rancor e ao desejo de vingança. As bandeiras do "Portugal é nosso", "os portugueses primeiro", acompanhadas dos chavões do "isto é tudo uma bandalheira" ou a "imigração descontrolada", não têm outra raiz senão o páthos que só com a razão se combate, uma razão que os media dispensam, porque não oferece audiências, e as novas plataformas de comunicação, controladas por bilionários como Elon Musk ou Mark Zuckerber, acorrentam com os grilhões do algoritmo. A razão só traz despesa, não dá dinheiro a ninguém, portanto adaptem-se. É que vai ser cada vez pior, já foi no passado e será no futuro. Querem uma imagem mais eloquente deste eterno retorno do que a hipocrisia com que se tem tratado o genocídio em Gaza? Também no passado os campos de extermínio eram um exagero, uma ilusão, uma mentira. A verdade chega sempre tarde, o páthos encarrega-se de atrasar o relógio.»

Lido na  Antologia do Esquecimento

quinta-feira, 15 de maio de 2025

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                                       Ventura                                    Bolsonaro

                                                        a mesma luta

«Simiesca, a canalha não é criativa, repete os gestos e as fórmulas, usa os mesmos embustes, descora a inteligência alheia focando-se no emocional. Cabe-nos descodificar o logro e divulgar a manha.»

Do blogue As Palavras São Armas de Cid Simões

domingo, 6 de abril de 2025

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O título da prosa é «Sondagens» escrita por hmbf no seu Antologia do Esquecimento:

«Uma pessoa olha para as sondagens e não acredita", diz Amélia. Acredite, Amélia, porque isto não tem nada que saber, nascemos corruptos, crescemos amorais e morremos cheios de virtudes. Portugal é, sempre foi, e não consta que venha a ser outra coisa, um país de favorzinhos, amigos de seus amigos que desenrascam amigos, país de chicos espertos. Isaltino Morais foi eleito na prisão e por aí anda a fazer vídeos sobre rotundas e distribuir comentários na TV, Albuquerque prepara-se para ter maioria absoluta e Montenegro cavalgará a onda. As pessoas não querem saber de truques porque vivem de truques, são iguais, sentem-se legitimadas e desculpadas quando aproveitam a cunha na junta de freguesia, nos serviços camarários, na bicha do hospital, no banco & etc. Andámos anos ajoelhados no beija-mão a Berardo, oferecemos maiorias a Sócrates e Cavacos e tecnoformas e submarinos. Enfim, somos sensíveis a licenciaturas por correspondência e plágios porque não é Doutor quem quer. Isso nem pensar. Mas em sendo, pois que não seja parvo e desça ao nível da realidade genérica e genética: está no adn português, os obséquios, as mercês, os favorzinhos, as amabilidades, as simpatias, os amiguismos. Tudo isto com sentido crítico e doutoramentos em axiologia e ética, que servem, bem sabemos, para passarmos por quem não somos neste reino da hipocrisia.»


terça-feira, 1 de abril de 2025

BLOGUEANDO POR AÍ

Já quase não há blogues.

Ainda frequento alguns, velhos conhecidos que têm ficado imunes à javardice que por aí campeia.

A Antologia do Esquecimento, do Henrique Manuel Bento Fialho é um desses blogues a que me chego.

 Este texto, está datado de 19 de Março de 2024:

EU CONHEÇO-OS

«Eu conheço-os, sei quem são, sentei-me à mesa com eles, vimos a bola juntos, frequentamos os mesmos cafés, cruzamo-nos na rua, sim, eu sei, são primos, gente chegada, até amigos, de outrora, de agora, cheios de raiva, consumidos pelas frustrações pessoais, explorados em empregos de merda, na loja do shopping, sim, onde foram parar com currículos medíocres depois de uma vida inteira a cuspir nos livros, ler para quê, estudar para quê, pois se até os professores são infelizes, sim, têm irmãos que queimaram as pestanas para acabarem como caixas de supermercados, parvalhões, mais valia terem emigrado, arranjavam um trabalho de merda na Suíça a ganharem o dobro ou o triplo do que ganham cá, a limpar a merda dos outros, a servir à mesa, a apanhar batatas, a fazer camas nos ferries, a ladrilhar o chão que alguém há-de pisar, cá não, isso é para os monhés, que o trabalho é bom para o preto e eu sou filho de boa gente, até fui baptizado, cá a gente arranja amigos, mete uma cunha, dedica-se à sucata, constrói uma vivenda a fugir aos impostos e faz uma piscina com os fundos sacados ao Estado, que Deus Nosso Senhor mandou-nos ser bons mas não mandou ser parvos, cá a gente glorifica os carvalhos e os vieiras e os berardos, frequentamos as quintas de uns e as sextas dos outros, arranjamos um bom partido e adoramos o senhor doutor, o senhor engenheiro, até que caiam na desgraça e se afundem para nosso espanto, quem diria, tão boas pessoas, amigos de seus amigos, isto, enfim, uma pessoa já nem sabe com o que pode contar, e siga, um Mercedes para exibir na aldeia, uma moto quatro para entreter os fins-de-semana, férias no Algarve, mariscadas, bola e toiros e Quim Barreiros, tasquinhas, feiras medievais e passadiços, uma paisagem deslumbrante no miradouro com balancé panorâmico e faz-se a festa, que à noite temos novo episódio do Quem quer casar com o agricultor?, e temos a Cristina e o Goucha e a CMTV com um desfile de crimes para entreter as horas a destilar o ódio aos pretos, aos ciganos, que isto já não se pode andar na rua, não fossem os bombeiros e a polícia o que seria de nós, de nós e da Mónica Silva, desaparecida para encher noticiários, a nossa telenovela da vida real, sim, eu sei, isto aqui está tudo bem, são vidas, ai que gente, e ele é o macaco, golo, ele é o Pinto da Costa, um senhor, até diz poemas de cor, ele são 25 mulheres assassinadas, enfim, algumas, eh pá, eu não sou machista, mas algumas estavam a pedi-las, eu não sou racista, até tenho amigos, pronto, assim pretos, não é, que isto cada um é como cada qual, entre marido e mulher não metas a colher, vai para a tua terra, a minha terra é aqui, é isto, eu sei, tanto Abril, tanta educação, somos os melhores na bola, o Mourinho já deu o que tinha a dar, o Ronaldo já deu o que tinha a dar, venha daí um novo Salazar, um em cada esquina, que este país está a precisar é de um novo 25 de Abril com um Salazar em cada esquina, para acabar com os corruptos, os outros, não eu, que eu sou bom tipo, não faço mal nem a uma mosca, não me meto em esquemas nem conheço quem meta, não sei, não vi, não ouvi, isso não é comigo, não tenho nada que ver com isso, deixem-me em paz, deixem-me em paz antes que parta esta merda toda, agora nem casa tenho, vou comer pizza, vou para fora, vou para fora cá dentro, vou ver o RAP, vou, sei lá, comer uma bifana e arrotar postas de pescada.»

terça-feira, 26 de novembro de 2024

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«Estou aqui a comemorar o vinte e cinco de Novembro porque, antes de mais, sou dado a comemorações e, além disso, o vinte e cinco de Novembro é o tricentésimo vigésimo nono dia do ano do calendário gregoriano, o que significa que é um dia muito importante. Foi neste dia que nasceu Ana de Jesus e faleceu Pedro Primeiro de Alexandria, portanto não me venham cá com coisas: comemoremos. Acrescento que devíamos comemorar mais vinte e cincos, pois a soma de dois com cinco dá sete, e sete é um número mágico. São sete as cores do arco-íris, os dias da semana, as notas musicais, os mares e os continentes e muitas coisas mais de insofismável relevância na história da humanidade em particular e do mundo em geral. Escolhi o álbum “Ser Solidário”, de José Mário Branco, para comemorar este vinte e cinco de Novembro de dois mil e vinte e quatro, ano dos meus cinquenta anos, o dobro de vinte e cinco. É uma edição de que gosto muito, sobretudo porque além das canções tem um tema extra intitulado “FMI”, que, não por acaso, tem a duração de vinte e cinco minutos. Como vêem, o vinte e cinco é um número especial. O que seria de nós sem os vinte e cincos? Eu gosto de ver as pessoas aperaltadas para as comemorações, eles de fato e gravata, elas de fato cumprido e cabelo arranjado, devidamente maquilhadas, unhas a preceito, talvez com um blazer à medida e calças a condizer. Com saltos altos, não muito, o suficiente, quanto baste. Todos maravilhosamente penteados, excepto os carecas. Toda essa nuvem de perfumes à deriva no ar embriaga-me e deixa-me tonto de comemorações, dá-me logo para ir para a rua e apanhar um táxi a caminho do melhor restaurante onde, à mesa, poderei manifestar-me contra as injustiças do mundo degustando arroz de lavagante com um Château d’Yquem de 1811. Não faço por menos, é para meninos. Portanto, deixem-se de lamentações. Nenhum de nós tem culpa do estado a que isto chegou, se é que chegou a algum estado. Estamos bem, muito obrigado, vamos indo, tudo na boa, adiante. Temos de ser uns para os outros, comemorar, brindar ao bem que fazemos e nos fazem, ao sucesso e ao empreendedorismo e aos unicórnios e à luz que nos alumia nas horas adversas, quando nos falta, por exemplo, papel higiénico. Por mim, comemoremos o de Abril, o de Novembro, o de Dezembro, e de premeio venham daí as sopas dos pobres, os alojamentos locais, dezassete milhões para matar a fome com dezassete milhões de pólvora a derrear escolas e hospitais e teatros e outros castelos de areia. Sou solidário, comemoro, como, não calo, porque a mim ninguém me cala, eu grito a plenos pulmões: viva a democracia liberal que devolve pacientes por táxi e lhes cobra a conta, vivam a chaise-longue de Freud e as foices e os martelos recheados com doce de ovos, viva o amor com que nos fodemos uns aos outros, desculpem a linguagem, mas se é por bem, é por bem, viva o fado e o corridinho e as iluminações de Natal a preço de saldo e o cozido à portuguesa no centro de trabalho e a vida está difícil. Setecentos e cinquenta mil euros em luzinhas a piscar nas ruas da capital, em honra dos sem-abrigo disseminados pelos cantos onde dormem e defecam e comem. Que os seus olhos brilhem de comoção como os meus hoje brilham pelo vinte e cinco, o que me levará da Praça da Figueira aos Prazeres. Qual é a vossa, ó meus?»

Hmbf no blogue Antologia do Esquecimento 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

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«Em «Simetrias — os 5 actos nos filmes de John Ford», Paulino Viota elogia os textos de Javier Marías sobre o realizador americano. Como estou sempre na disposição de me desviar do caminho traçado, fui procurá-los.

O que Marías escreveu sobre o olhar de John Wayne depois de beijar Maureen O’Hara no cemitério é formidável (El reino de la posibilidad, El País Semanal, 16 de março de 2014). Eles estão encharcados pela chuva e colados um ao outro e apaixonados, sim. Mas há uma certa gravidade nos olhos de Wayne — como se tivesse encontrado e perdido não se sabe o quê nesse preciso instante —, qualquer coisa que é quase uma tristeza (uma tristeza doce, diria Walser).

Através desse olhar, percebemos como são complicadas as relações entre homens e mulheres.

Como nos filmes Passion, de Godard.

Ou em Onde Jaz o teu Sorriso?, quando Danièle (que é uma verdadeira mulher de Ford, como todas queremos ser) diz: Sicilia!... se nos apaixonámos e nos apeteceu fazer o filme foi porque, em 1972, quando andávamos por Itália, à procura de lugares para filmar Moisés e Aarão, que rodámos em 1974, fizemos 30 000 quilómetros a passo de caracol e, um dia, em cima de uma ponte, dissemos um para o outro: «que cheiro tão estranho, não é desagradável, mas é muito intenso, que será?» E vimos quintais de laranjas despejadas num rio. Isso ficou-nos cá dentro e quando lemos o início de Conversazione in Sicilia, veio-nos à ideia, como uma recordação muito forte. Dito isto, como é que um homem e uma mulher fazem para aguentar... é a palavra certa — AGUENTAR — juntos?

Também tem a ver com as laranjas no rio...»

Cristina Fernandes em Bicho Ruim

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

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Encontrado na Antologia do Esquecimento:

«Ontem, um amigo mandou-me uma mensagem a dar conta de que sua excelência a Ministra da Cultura foi para o festival literário de Óbidos gabar a rede de bibliotecas. Pois muito bem. Só que a senhora disse que as bibliotecas são centros de actividade onde inclusivamente se podem realizar aulas de tricot, yoga, croché. Hoje, o mesmo amigo envia-me a notícia de que a "Livraria Lello quer médicos a receitar livros e lança petição para que Parlamento o decida". Sic erat scriptum. Quando era livreiro tinha pesadelos com clientes que saíam da livraria com sacos cheios de canecas, lápis, baralhos de cartas, marcadores para os livros, óculos de leitura, sabonetes literários. Levavam tudo menos livros. Eram pesadelos que se tornaram realidade. A ficção não foi superada pela realidade, fundiram-se uma na outra a ponto de hoje nos ser difícil aceitar que o mundo não é um grande manicómio. Sendo este o caminho, deixo algumas sugestões: que os livreiros passem a vender ansiolíticos e que as bibliotecas se transformem em casas de passe e que os hospitais sejam discotecas e que o Parlamento produza pastéis de nata e que os parques e jardins se tornem definitivamente grandes salas de espectáculos a céu aberto e... Ah, espera, os parques públicos já são grandes salas de espectáculos a céu aberto. Enfim, chego sempre tarde ao futuro.»

sábado, 5 de outubro de 2024

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Imagem e textos encontrados na Antologia do Esquecimento. Junto também o comentário que alguém deixou por lá:

«Que se pode dizer desta maravilha?
«O resto é silêncio», como diria o velho Hamlet.»

«Kalil gostava de livros. Quando lia histórias, dizia, era como se deixasse de ouvir os estrondos, os tiros, os gritos ao longe, as sirenes. Era como se uma luz se acendesse no coração do escuro.»

João Pedro Mésseder (texto) e Ana Biscaia (ilustração), in "Que luz estarias a ler?", Xerefé Edições, Coimbra, 3.ª edição, 2017.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

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Pergunta do exame de Filosofia. Quando o nível é este, mais vale não haver nível. Pobres professores, pobres alunos, pobre mundo que nos deste Aristóteles e Camões para isto.

Copiado da Antologia do Esquecimento

segunda-feira, 13 de maio de 2024

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Passagem pelo blogue Antologia do esquecimento:

«Habitações, escolas, hospitais em ruínas. Sob as ruínas, o cheiro putrefacto dos corpos em decomposição. As bombas não cessam de cair, esventrando mulheres, estropiando velhos, esmagando crianças. Aos milhares. Há relatos de fome, de gente enterrada vida, outros a matarem a sede com água do mar, relatos de tortura, de perseguições, destruição massiva de instalações da Organização das Nações Unidas, jornalistas silenciados, à bala ou à censura, prisões e detenções administrativas, aos milhares, aos milhares. Por cá, celebram-se as unhas da Iolanda. Um statement. E os apelos à paz. E espantam-se pardais com o televoto português, que deu pontuação máxima a Israel. Continuemos a tratar o caso com unhas de gel e outfits. Posição, era não ter cantado. Ficar em silêncio no palco. E mandar aquilo tudo à merda. O resto é só mais um número, espectáculo tão ridículo, boçal e degradante quanto o da Catarina Furtado a cortar uma madeixa de cabelo em solidariedade para com as mulheres iranianas.»

terça-feira, 26 de março de 2024

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Estamos em 31 de Março de 2019 e Manuel S. Fonseca na sua Página Negra saúda a Primavera:

«A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas, nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

Gosto:

  1. Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.
  2. Do teu decote.
  3. Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.
  4. De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.
  5. Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.
  6. De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.
  7. Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.
  8. De um dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.
  9. Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.
  10. De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.
  11. Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.
  12. De risos e beijos.
  13. Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.
  14. Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.»

Legenda: Anna Karina e Jean Paul Belmondo no descapotável em Pierrot Le Fou.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

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«Começa a ser demasiado evidente que a guerra da Ucrânia está perdida, mas os comentadores, com raras exceções, continuam a iludir a realidade. Na frente de combate, o lado ucraniano parece à beira do colapso, não há munições e as baixas acumulam-se. O país ficou arruinado e a estratégia de não se permitir o fim do massacre revela a mais pura hipocrisia.

A ideia da América era reduzir as capacidades militares russas sem perder soldados americanos, mas assistimos à destruição progressiva da Ucrânia, que fornece a carne para canhão. O Ocidente queria gerir o fim do império russo, mas apenas reanimou o adversário. Dizem agora que os russos invadem a Europa se a Ucrânia perder, mas oculta-se que o lado europeu da NATO gasta seis vezes mais dinheiro em defesa do que a Rússia. Se nem nos conseguimos defender com tal abundância, a verba serviu para quê? Portugal é um dos entusiastas na defesa da Ucrânia, diz que vai até ao fim, mas não consegue pagar o seu próprio compromisso na NATO de 2% do PIB em defesa.

Esta guerra de dois anos matou talvez meio milhão de pessoas e provocou na Europa brutais aumentos no custo da energia e dos alimentos. A sabotagem dos gasodutos NordStream foi ignorada e o gás natural americano é comprado ao triplo do preço do gás russo. Os nossos dirigentes diziam que a Rússia ia colapsar sob o peso das sanções, mas as sanções saíram do bolso dos europeus. Bruxelas também permitiu a entrada livre de produtos agrícolas ucranianos mais baratos, que não cumpriam as regras da política agrícola comum, e os agricultores europeus entraram em revolta. Não deixa de ser curioso que a metade mais fértil das terras agrícolas ucranianas fosse comprada antes da guerra por multinacionais americanas (também sauditas e europeias) que querem escoar os seus produtos.

Os cemitérios ucranianos estão cheios, o país depende do exterior para pagar salários e pensões, tem um terço da economia destruída, as fábricas em ruínas, 60% dos trabalhadores mobilizados, 2 milhões de habitações danificadas, 10 milhões de deslocados, um quinto do território ocupado e milhões de refugiados que não tencionam regressar. A reconstrução vai custar 500 mil milhões de euros em dez anos (números da UE certamente otimistas). A equação é simples: a guerra está perdida.
Ao longo de dois anos, fomos enganados a ritmo diário. A Ucrânia vencia todas as batalhas, mas na verdade sangrava. Houve oportunidades perdidas para negociar a paz, mas deste lado só se falou em enviar mais armamento. Os russos estavam isolados (não estavam) e tinham perdas calamitosas, mas na realidade a Ucrânia não consegue mobilizar mais soldados e a desproporção em artilharia (a arma mais letal) foi ao longo do conflito favorável à Rússia em cinco obuses para um. Quem é que perdeu mais soldados?
Apenas 10% dos europeus acreditam que a Ucrânia pode vencer, mas os meios de comunicação continuam a transmitir a ideia de que a vitória está ao virar da esquina. A derrota da Ucrânia será atribuída aos que não acreditam, por falta de fé e por serem admiradores de Vladimir Putin. Não se explica que a maior parte do dinheiro que supostamente vai salvar Kiev e que os republicanos do Congresso se recusam a entregar serviria para pagar armas já fornecidas e repor stocks de munições nos EUA. Este dinheiro nem sairá da América e consiste num enorme pacote de financiamento da indústria de armamento.
Os que defendem a guerra usam analogias históricas, como por exemplo a invasão da Polónia em 1939. A Rússia usa uma analogia parecida, de agressão fascista, mas nenhum exemplo descreve a realidade. A Ucrânia estava em guerra civil antes da invasão e a Rússia é uma potência nuclear que se considera em crise existencial. O Kremlin, que foi enganado nos acordos de Minsk, jamais aceitaria a entrada da Ucrânia na NATO ou a perda da Crimeia. A Rússia foi subestimada e do lado ocidental houve a estranha ilusão de que fornecer armas a um beligerante não ia ter custos.
Com a degradação constante da situação na frente e o ocidente incapaz de fornecer mais munições, a opinião pública precisa de abandonar depressa o estado de incompreensão em que mergulhou. Os nossos líderes devem assumir os erros e reconhecer que chegou a hora do cessar-fogo e de acabar com a carnificina. A agonia da Ucrânia só pode parar por negociação ou capitulação e, quanto mais tempo se perder, mais difícil será conseguir um bom acordo para os ucranianos, que se arriscam a ficar sem país, a troco de nada.»

Luís Naves no Delito de Opinião 

domingo, 4 de fevereiro de 2024

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«Ontem, no Expresso da Meia-Noite, uma Maria João AvilLez excitadíssima — porra de imagem para final de dia! — questionava uma Ana Gomes titubeante, cada vez mais patareca, sobre a ameaça à democracia que é o Chega, comparando-o com o PCP e o BE. Foi preciso o Bernardo Ferrão e o Francisco Assis para colocarem alguns pontos nos is, vejam bem. Para as pessoas que ainda têm dúvidas e alimentam hesitações sobre esta matéria, convém lembrar: alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos xenófobos sobre a imigração? Alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos racistas sobre uma etnia? Alguma vez viram o PCP ou o BE defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte? Alguma vez viram o PCP ou o BE dividir a sociedade portuguesa entre portugueses de bem e portugueses de mal? Isto não basta?»

 

Encontrado na Antologia do Esquecimento.

domingo, 7 de janeiro de 2024

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A Ucrânia está a ser destruída e não tem hipótese de vencer a guerra, os ocidentais sabem disso, mas continuam a alimentar a ilusão de um país que resiste à invasão militar não provocada. Na realidade, houve uma provocação ao longo de quase duas décadas. Os EUA queriam levar a Ucrânia para a NATO e sabiam que a Rússia não ia tolerar esse alargamento ou a perda da Crimeia. De alguma forma, é a segunda guerra da Crimeia (houve outra no século XIX); esta porventura ainda mais complexa, envolvendo o conflito indirecto entre Estados Unidos e Rússia, com o campo de batalha na Ucrânia. Temos aqui o verdadeiro motivo do conflito: a tentativa de gerir o iminente colapso do império russo, uma fantasia que fermentou na imaginação dos peritos que conceberam o plano em Washington. Moscovo invadiu, sofreu sanções devastadoras, não se rendeu, a estratégia da NATO falhou. Ao fim de dois meses de combates, quando os exércitos russo e ucraniano estavam perto de um acordo de paz, os ocidentais prometeram todo o apoio para a continuação das operações militares. Os ucranianos agarraram-se à jangada da ajuda, que durou até agora. Centenas de milhares de mortos depois, a situação é desesperada: não há munições, dinheiro ou soldados, estão a ser recrutadas mulheres para a linha da frente e a "minoria" russa na Ucrânia perdeu direitos cívicos (é especialmente falsa a narrativa da luta entre um regime autoritário e uma democracia). A Rússia está mais forte, mas a retórica dos ocidentais insiste na estratégia falhada. Os europeus aceitaram as imposições americanas e mostraram a sua nulidade. Os impopulares governos da UE não sabem como sair do desastre. A Ucrânia será um país de refugiados e órfãos, perde um quinto do território e vai sair disto com o fardo de uma paz cartaginesa bem pior da que conseguia em Abril de 2021. Os ressentimentos vão durar uma geração. Por enquanto, evitou-se a terceira guerra mundial, do mal o menos.

 

Luís Naves em Delito de Opinião

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

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«Maomé foi ao jardim de Moisés e roubou um saco de laranjas. Moisés não se deixou ficar, foi atrás de Maomé exigindo a devolução das laranjas. E enquanto não as conseguiu, não descansou: deu cabo do jardim de Maomé, matou-lhe o cão, destruiu-lhe as muradas, partiu janelas, incendiou portadas, arruinou a casa de Maomé... À volta, os vizinhos assistiam ao espectáculo. Uns, esperando que as laranjas valessem o sacrifício. Outros, esperando que Maomé devolvesse as laranjas e se sentasse sobre os escombros a ver Moisés afastar-se com o seu cesto de laranjas entretanto apodrecidas.»

Texto retirado do blogue Antologia do Esquecimento

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

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«Cristiano Ronaldo. O que esperavam? Nascido no meio da miséria, viu-se ainda puto com milhões nas mãos. Endeusado da ralé às elites, foi feito herói nacional por ser um atleta de excepção. No mundo em que vivemos, nenhum cientista de excepção alcançaria tamanho estatuto. Quem carrega aos ombros esta gente é o povo, os governos vão atrás para ficarem bem na selfie com as massas. Ronaldo não tem culpa nenhuma de ser bimbo, é novo-rico natural da parvenulândia. Na minha terra chamam-se saloios endinheirados, adoram exibir casas com piscina, circular em carros topo de gama, fazer férias em resorts, tirar fotografias ao marisco em que se lambuzam nos restaurantes. Muito pior do que ele são todos quantos o endeusam, exigindo de um jogador da bola o que não exigem a si mesmos: dignidade, verticalidade, a nobreza de carácter que nos livra de sermos hipócritas.»

De Antologia do Esquecimento

sexta-feira, 2 de junho de 2023

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Desde que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia, a SIC mantém um programa, a que chama Guerra Fria, onde Nuno Rogeiro e José Milhazes dissertam sobre os acontecimentos que por ali se vivem.

São critérios editoriais, o direito à informação o que lhe quiserem chamar.

Andando por alguns blogues que visito, encontrei no Abril/Abril este texto que fala por si:

«Esta terça-feira, com um cartaz da Festa do «Avante!» como fundo, ouvimos, no Jornal da Noite da SIC, o Milhazes exigir «a explicação da participação de determinados artistas na Festa do "Avante!"» e, à boa maneira da PIDE, citar os nomes de Jorge Palma, Rui Reininho, Paulo de Carvalho, Tim, Mísia, Carolina Deslandes e Rodrigo Leão. Não se dando conta que estamos em 2023, e não nos anos 60, Milhazes não aceita que os artistas que vão participar na Festa do «Avante!» digam, por exemplo, «que se trata de uma mera festa cultural» ou «que estão ali para darem um espectáculo».

Não, não, ele quer proibi-los de ir à Festa e, com esta sua acção pidesca, procura acossá-los e colocar-lhes um rótulo, à boa maneira comportamental dos fascistas alemães com os judeus. Aliás, este tal Milhazes, falando da acusação que lhe fizeram o ano passado de «querer proibir a Festa do “Avante!”», acabou a dizer «não sei se algum dia vou ter poderes para tal coisa». Percebem?

O grupo Impresa tem como compromisso contribuir «diariamente para uma sociedade livre, esclarecida e independente», mas os seus fundadores e responsáveis, nomeadamente o seu director-geral de informação, não se podem esconder atrás destes slogans. Muito menos dar guarida a inimputáveis que, como Milhazes no Jornal da Noite desta terça-feira, afirmam que o "regime de Putin" é «de extrema-esquerda». Todos nos lembramos que nos tempos de Salazar e Caetano os que se lhe opunham e reivindicavam melhores condições de vida e de trabalho eram apelidados de comunistas e, em muitos casos, presos e torturados.

Depois, não digam que ninguém avisou!»

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

BLOGUEANDO POR Aí


 Neste momento, Largo da Memória será o blogue mais antigo que percorre, bonitas  fotografias, que acompanham textos simples que, por vezes, enfrentam  assuntos espinhosos mas em que  hipocrisia está ausente das pedras do Largo.

Gostou da fotografia de hoje. Deixou lá um comentário:

 «Todos os dias por aqui passa, sempre se lhe oferece escrever uma, duas palavras mas nem sempre acontecem, porque os comentários que pensa escrever tornam-se palavrosos e, por vezes, pouco coincidentes com o texto em apreço.

Mas hoje não pode fugir porque a fotografia remete-o para tempos antigos em que, nascido em Lisboa, sempre gostou de Cacilhas e esta fotografia do Farol, agora tão diferente, remete-o para lembranças/saudades quando, aos domingos, ia almoçar àqueles tão populares restaurantes do Ginjal com, como dizia José Quitério, existia a beleza de comer uma caldeirada de peixe olhando as fragatas no Tejo. Lembra-se que o que mais frequentava era o «Grande Elias» e vem à memória, quando se pediam os cafés, a frase de um dos empregados: «e um anizinho para as senhoras e um bagacinho para os cavalheiros».

Apenas podia dizer: «bonita fotografia», como todas as que aqui são colocadas, mas, como disse, é um palavroso.»