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domingo, 9 de março de 2025

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Sou do tempo em que os números de telefone tinham apenas cinco digitos.

O telefone de casa do meu pai começou por ser 40951, anos mais tarde passou a ser 840951 e por fim ficou 21840951.

Não havia telefones e toda essa parafernália comunicante que se passeia por aí.

Odeio telefones.

Li não sei onde:

Se o telefone não tocar sou eu!

O Pedro Alvim escreveu que

«Somente

as pessoas solitárias

é que atendem o telefone

imediatamente»

Lidia Jorge em O Vento Assobiando nas Gruas:

Do outro lado, Milene discou os velhos números do telefone que ainda erma de rodar e fazer ruído, como se lá dentro houvesse uma cremalheira.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

 


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

João Pacheco, filho do jornalista, poeta e escritor Fernando Assis Pacheco, escrevia no Expresso de 26 de Janeiro: À espera da notícia. Ele fala de uma crónica do Pedro Alvim, publicada no Diário de Lisboa de 3 de Abril de 1974: «Um Campo de Neve Todos os Dias». Eu era um cliente habitual das crónicas que, naquele tempo, o Diário de Lisboa publicava todos os dias. Lembro-me desta crónica, gostava muito do Pedro Alvim, guardei a crónica. Andei agora à procura, mas não a encontro. Sirvo-me do recorte do Expresso do João Pacheco porque ele lembra que até 5 de Maio estará na Cordoaria Nacional uma exposição do Eduardo Gageiro:

«Não se sabia quando, como ou quem. Esperava-se a notícia de um golpe de Estado. Aquela primavera de 1974 arrastava-se em tons de crise, para o ditador Marcello Caetano. E o jornal “Diário de Lisboa” publicou a 3 de abril a pequena crónica “Um campo de neve todos os dias”, do jornalista Pedro Alvim. Para os censores, aquela seria prosa inócua sobre jornalismo, desencantada para resolver a falta de assunto. Já para quem tivesse o treino de ler nas entrelinhas, lá estava aquela frase inicial inteira e limpa: “Estou aqui à espera da notícia.” Sim, corria muito mal a guerra nas várias frentes africanas. Aliás, pode uma guerra correr bem? Crescia o descontentamento entre os militares, acumulava-se o sofrimento nas famílias afetadas de forma direta. E além do esforço de guerra, a economia portuguesa precisava de inventar forças para enfrentar a conjuntura mundial, com os preços do petróleo a roubar margem de manobra às pessoas, às empresas e aos Estados. Enquanto o regime fascista se preparava para dar o berro, no mesmo jornal faziam-se reportagens sobre o preço do peixe. Como se fosse um fenómeno natural, desligado da política. O último álbum gravado por Zeca Afonso antes do 25 de abril chama-se “Venham mais Cinco”. E inclui a canção ‘Nefretite não Tinha Papeira’, onde se alude aos preços das arábias, terminando com estes versos: “Os sheikes israelitas/ Já que estou com a mão na massa/ Lembram-me os sheikes das fitas/ Que dão porrada a quem passa”.

Aproximam-se os 50 anos da revolução que trouxe a democracia a Portugal. E somos confrontados com muitas imagens daquele “dia inicial inteiro e limpo”, relatado por Sophia de Mello Breyner. Naquele dia “emergimos da noite e do silêncio”. E esta é uma imagem que dá a noção da originalidade da revolução portuguesa. A qualidade popular deste dia inicial nasceu da desobediência, quando o que poderia ser apenas um golpe militar se transformou numa revolução também do chamado povo. O autor desta imagem chama-se Eduardo Gageiro, tem 88 anos e é um enorme repórter fotográfico. Até 5 de maio, podemos ver em Lisboa 170 imagens de Gageiro, na exposição “Factum”, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional. Espalhem a notícia.»

Eduardo Gageiro, um brilhantíssimo fotógrafo deste nosso país, tão triste de esquecer gente, de esquecer  os seus melhores.

Ele também esperava a notícia. Como tantos outros e não eram assim muitos. Melhor: não eram aquele rio de gente,e que no 25 de Abril, desaguou nas ruas a gritar por Liberdade, Democracia…

domingo, 21 de fevereiro de 2021

domingo, 14 de fevereiro de 2021

PERDER O COMBOIO


«Sem cá fora um fio tímido (eis a um canto da sala um amigo em história se desdobra), ela um novelo sempre fora, nela eufórico me tendo, me fechando, até que um dia, atrasada, o hálito numa nuvem, entre portas me diz “perdi o comboio”, e fica depois ouvindo as palavras que não digo, já de mim ausentes, porque entre portas a Terra dera uma volta, e fora entre as coisas mudando as coisas, os nomes já outros nos lugares dos nomes que então eram. E eis dos meus olhos, assim a ouvindo, irrompe o comboio de sempre, o comboio não habitado por quem o diz ter perdido, o comboio das cinco e cinco, que era o dela, o comboio curto de pequeno cursos, circulando, circulando sempre, mesquinho e amado, qual lágrima descendo na face do Universo…» Ah, sim – digo - , quando alguém diz “perdi o comboio», os comboios circulam, circulam sempre, diariamente, e são encontrados pontuais pelas pessoas ao longo dos cais, e só as pessoas é que nos cais não são eternamente pontuais…» E ele, um vinho na mão, um revérbero, um sinal vermelho, não para mim, mas longe fitando quem assim o deixara: » E só tu perdeste o comboio quando eu à tua espera somava o ruído de todos os horários. So tu dizes “Perdi o comboio”, como quem pede desculpa de não poder dizer 2Já não te amo”. Só tu, assim entre portas, temendo entrar em mim, o novelo lenta desfazes, o novelo que eu pensara sem cá fora um fio tímido…» «Então – lhe digo - , é o trânsito. Soma outras coisas, bebe este vinho, come este pão, ama!, que o passado é sempre subtracção.» De entre as portas, saíra o dia, entre janelas escurecera – e por estas contas nos fomos perdendo sem cá fora um fio tímido que ao longe só tocasse quem o comboio perdera.

Pedro Alvim em Rútilo é o «I»

Legenda: fotografia de Toni Frissell

domingo, 19 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


TODA A NOITE CHOVEU

Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua dos Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.

Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que o Alvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura cortou,  retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
O Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!

Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

Texto publicado em 25 de Novembro de 2017

quinta-feira, 4 de junho de 2020

RELACIONADOS


Neste nº 9 de Notícias do Bloqueio encontramos poemas de José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz, José Fernandes Fafe e poemas do poeta búlgaro Nicolau Vaptzarov, traduzidos por Egito Gonçalves.

O poema de Pedro Alvim chama-se Lisboa e encerra quadros poéticos do Cais do So- dré, Praça de Camões, Rossio, e Alcântara.

Alcântara denuncia a morte do pintor José Dias Coelho, pela Pide, na Rua da Creche, em 19 de Dezembro de 1961:

Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.

Na etiqueta José DiasCoelho deste blogue, pode encontrar outras evocações poéticas, e não só, do assassínio de José Dias Coelho.

Uma delas é o poema A Morte Saíu à Rua, letra e música de José Afonso, incluído no seu álbum Eu Vou Ser Como a Toupeira, editado no Natal de 1972

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pr'a qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o rei morreu!

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

DO DISCO A OUTRA FACE


Já da página me saio, já do álbum me vou com morte e vida, do acetato redondo me projecto noutra circunferência que não esta que lenta em espiras se desfaz. Sob a agulha fina do ouvido, violinos ligaram o chão aos tectos – e sempre os pianos tecla a tecla os anos brancos somaram aos anos pretos. Um murmúrio se ergueu, subiu de tudo – e quando com um lenço afastei nu o pó que pessoas e coisas vestem, botões descobri de madrepérola outros mundos guardando, outras gavetas. Ah, veia azul da pedra mármore! Ah, veia azul, ah, veia múrmura, múrmura sob o pulso quando a mão murmura se pousa sobre o mármore! Surdo estou de sons, cumpri o disco na breve rotação de uma formiga, e pois como formiga ora me passe – e ao longo do carreiro transportando um pó de lusco-fusco outra formiga cumpra do disco a outra face.

Pedro Alvim em Rútilo é o «I»

sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
O Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM



O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, rua que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário.

O assassinato está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo Amaro. 

No livro “Viagens”,  o poema “Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei”, Mário Castrim assinala  esses últimos momentos de vida de José Dias Coelho:


Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

No  nº 9, referente a Março de 1962, de “Notícias do Bloqueio”, Pedro Alvim, no poema intitulado “Lisboa”, refere o assassínio de Dias Coelho:

4 – Alcântara

Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.


No dia 24 de Novembro de 1976, começava, no 1º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, o julgamento do ex-agente da PIDE António Domingues, acusado de ter assassinado José Dias Coelho, julgamento que só terminaria no ano seguinte:

Na 1ª página do “Diário de Notícias”, de 6 de Janeiro de 1977, lia-se:

“O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues, responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem, condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.”


No editorial do “Diário de Lisboa," também de 6 de Janeiro, lia-se:

“Na verdade, reconhece-se a legitimidade da “profissão” de assassino de adversários políticos de um regime. É um insulto à memória de José Dias Coelho.
Um insulto aos mortos e aos vivos da resistência antifascista.
Um insulto ao 25 de Abril.”

Legenda:  A imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas”


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Astrónomos Portugueses

Pedro Alvim
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1978

Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim o começo das manhãs. O dia era sempre uma palavra de ordem, uma toalha molhada pelos olhos, um pente correndo os cabelos… O dia, primeiras horas logo, era o ambiente a modificar: eles sabiam das sílabas mal colocadas, das vogais que não riam um acento agudo, do til ondulado sem expressão de voo. Uma outra estrofe, um outro sentido. Esta, este:
«É verdade que, em toda a nossa história, houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro, prontos a sacrificarem os interesses da Pátria a interesses não nacionais. Todos nós conhecemos os nomes de tais homens, e execrámo-los. Durante séculos e séculos, como bicho dentro da maçã, o partido castelhano corrompeu e desfibrou o País até o levar aos opróbrios de 1580; mais perto de nós, foram os integralistas (ora de imitação francesa, ora de figurino germanófilo e nazi) que se entregaram à mesma tarefa. Hoje, erguem-se vozes a cantar loas à Europa – não à Europa dos trabalhadores, claro, mas à Europa dos monopólios e das sociedades multinacionais. Ontem, houve quem servisse Castela contra a arraia miúda; hoje há quem deseje colocar as classes laborais portuguesas na situação de fogueiras da fornalha da Europa capitalista…» (1)
Interrogavam-se:
«Alguém um dia falará assim?»
Respondiam:
«Certamente que sim!»
«E se vier a traição e calar estas palavras…?»
Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim a circulação das palavras certas no começo das manhãs invertas.


(     (1) -Vasco Gonçalves, «Discurso de Almada», Agosto/75

sábado, 17 de setembro de 2016

NOTÍCIA DE UM SÓ PARÁGRAFO


Crónica de Pedro Alvim publicada em O Século Ilustrado, s/d.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

EM PLENA SERENIDADE


Notícia da morte de Raul de Carvalho, assinada por Pedro Alvim e publicada no Diário de Lisboa de 4 de Setembro de 1984.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Rectangularmente seca a fotografia no álbum: eu de calções, na margem do Leça, a cana oblíqua, o círculo na água – e o peixe na mão. E só hoje líquido descubro que uma vogal qualquer, talvez o «i» de pai, me pescou do fluir do rio, e assim me trouxe até aqui. Ó mãe, como vai longe a nossa gravidez.

Pedro Alvim em Rútiloé o «i»

Legenda: pintura de Jennifer Bell

quarta-feira, 3 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Rútilo é o «I»

Pedro Alvim
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Junho de 1980

Então o pai não era o que o pai agora é. Agora atravessa o corredor numa bengala, mede os passos da rua para o quarto, longos como prosa, não breves como versos. A todos, cauteloso, exige que dê fruto: a sopa quente, o jornal desdobrado, o cigarro aceso, o chá no fim da noite, o chapéu no cabide, os sapatos sob a cama. Quando, entre janelas, se demora nos plátanos despi8dos de Janeiro, diz que os plátanos têm de ser podados, e pensativo ignora que o tempo o vai podando dia a dia, folha a folha, ramo a ramo, cada vez mais diminuta sendo a sombra que o seu corpo projecta sobre as coisas que vão acontecendo. Há muito que não abre um livro, e das razões não diz mas adivinham-se: as folhas lembram-lhe o passar dos dias – e as palavras inscrições em mármore branco. Já não tem métrica, já não tem rima, está fora do ritmo de tudo. Uma última coragem lhe vem à boca em sílabas rasteiras – e é quando, parado para sair, diz «É o calo.» Mas não é: o coração pesa-lhe ao longa da perna esquerda, imobiliza-lhe os músculos, seca-lhe as artérias – e ei-lo pois parado para sair, a bengala como umo um pêndulo, entre a prosa e o verso, sabendo o que é, mas dizendo «É o calo na sola do pé.»

quinta-feira, 30 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Caçador do Nada

Pedro Alvim
Capa: José Luís da Conceição
Predo Editora, Lisboa Maio de 1972

Ia muito quieto. Ia muito quieto aquele senhor.
«Dormita» - pensou a senhora gorda que se sentou no mesmo banco.
O menino, que se sentou depois da senhora gorda, fungou por não ir junto da janela, a ver, com olhos grandes as coisas da rua.
«E este velhote a dormir com a cara no vidro!» - dizia o menino de si para si.
Amarelo, tilintado, o eléctrico foi-se aproximando do términus. Agora unicamente seguia o senhor adormecido. Fim da linha.
Acorda-o, Zé – disse o guarda-freio ao condutor.
… E veio a ambulância. O corpo foi retirado do eléctrico. Quieto. Com um bilhete de dez tostões entre os dedos da mão esquerda.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:

Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

domingo, 25 de novembro de 2012

TODA A NOITE CHOVEU



Sábado, 25 de Novembro de 1967
Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.
Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.
A chuva fustigava Lisboa.
Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.
Um enorme trovão e ficámos às escuras. As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.
Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.
Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.
Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.




Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.
A chuva desabava como um dilúvio.
Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.
A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.
Não havia transportes.
A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.
Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio
Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias. Ninguém sabia de ninguém.
Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.




A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!
Toda a noite choveu.
Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.
Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.
Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros, palavras do ministro do Interior Santos Júnior, anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.




Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:
A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da trgédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que o Alvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.
Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:
Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».»
No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:



Em 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.
O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.
A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.
Escreveu o jornalista António Valdemar:
Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.
O Diário de Notícias, num dos seus editoriais:
Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.




Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.
O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.
A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.
Estão passados 45 anos.
Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.
Acabamos por esquecer...
Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.
Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre. 
Até um outro dia em que tudo volta a acontecer!
Fontes:
1)      Os Segredos da Censura, César Príncipe, Editorial Caminho, Lisboa Maio 1979
2)      Diário de Notícias de 25 de Novembro de 1997
3)      Pública, revista do Público, 23 de Novembro de 1997