Eça
de Queiroz
Nota
Prévia: A. Campos Matos
Capa
e Ilustrações: João Abel Manta
Edições
O Jornal, Dezembro de 1979
Eça
de Queiroz
Nota
Prévia: A. Campos Matos
Capa
e Ilustrações: João Abel Manta
Edições
O Jornal, Dezembro de 1979
Que música para
amanhã de hoje?
Será Bella Ciao,
ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda
Conta a
Wikipédia:
«"Bella
Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino
global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a
letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que
antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»
A provável letra original da canção tem como tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:
Stamattina mi
sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato
I'invasor!
A lavorare
laggiù in risaia
Sotto il sol che
picchia giù!
E tra gli
insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi
tocca far!
Il capo in piedi
col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a
lavorar!
Lavoro infame,
per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a
consumar!
Ma verrà il
giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà!
Tradução em
português
Esta manhã, eu
me levantei, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, esta manhã, eu me levantei
e encontrei um
invasor!
Para trabalhar
lá no arrozal, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal
Sob o sol que
nos derruba!
E entre os
insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,
Um trabalho
pesado que tenho que fazer!
O chefe está de
pé com uma vara, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! O chefe está de pé com uma vara
E nós curvados a
trabalhar!
Trabalhe infame,
por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro
E tua vida a
consumir!
Mas chegará o
dia em que todos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,
trabalharemos em
liberdade!
A versão
partigiana
Stamattina mi
sono alzato,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi
sono alzato,
ed ho trovato
l'invasor.
O partigiano,
portami via,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano,
portami via,
ché mi sento di
morir.
Se io muoio da
partigiano,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da
partigiano,
tu mi devi
seppellir.
E seppellire
sulla montagna,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire
sulla montagna,
sotto l'ombra di
un bel fior.
E le genti che
passeranno,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che
passeranno,
Ti diranno «Che
bel fior!»
«Questo fiore
del partigiano»,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore
del partigiano,
morto per la libertà!»
Tradução em
português
Nesta tradução,
a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe
a um invasor externo ou a um exército de ocupação.
Acordei de manhã
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Acordei de manhã
E deparei-me com
o invasor
Ó resistente,
leva-me embora
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Ó resistente,
leva-me embora
Porque sinto a
morte a chegar.
E se eu morrer
como resistente
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E se eu morrer
como resistente
Tu deves
sepultar-me
E sepultar-me na
montanha
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E sepultar-me na
montanha
Sob a sombra de
uma linda flor
E as pessoas que
passarem
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E as pessoas que
passarem
Irão dizer-me:
«Que flor tão linda!»
É esta a flor do
homem da Resistência
Minha querida,
adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
É esta a flor do
homem da Resistência
Que morreu pela liberdade
OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
Que
ao longo deste texto são relembrados.
Faltava um ano para Grande Festa.
De repente, recordo-me
de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha
maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava
em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.
José
Gomes Ferreira em Intervenção
Sonâmbula
Legenda:
Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.
Sozinho, sempre sozinho,
mesmo quando vou a teu
lado.
De ti que constróis o
rumor das cidades
e no campo, semeias,
lavras,
e pisas
o sabor do vinho.
Sozinho, sempre
sozinho.
aqui vou a teu
aldo
eu, o poeta, operário
de palavras
- as palavras «sonho?,
«bandeira*, «esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza
irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os
bairros de lata
em futuras cidades de
cristal
num planeta de
paisagens de prata
onde as bocas das
flores, das manhãs, dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume
doirado
cantarão um dia
connosco a Internacional
- que eu continuarei a
cantar sozinho,
sempre sozinho,
a teu lado.
José
Gomes Ferreira em O Diário, s/d
Era para ser uma
comemoração do 25 de Abril em S. Bento, organizada pela máquina de propaganda
do staff de Montenegro, com a presença de Tony-Carreira-cantor-pimba-cá-do
burgo.
Entretanto foi
marcado o luto nacional pelo Papa Francisco e a festarola deslizou para o 1º
de Maio, mesmo local, mesmos artistas, mesma parolice.
Aconteceu ontem com o
subtítulo «São Bento em Família»
As televisões deram imagens e bateram na tecla do dueto entre o rural de Espinho e o cantor-pimba, na canção plagiada que fala duns sonhos de menino numa aldeia da Beira.
Os custos do show-comício, certamente, terão saído dos lucros da Spinumviva.
Ou não?
Deixem o Luís cantar e vão ver o que nos acontece!...
José Gomes Ferreira
em Intervenção
Sonâmbula
Legenda:
Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.
OUTROS MAIOS
(Em
Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do
Olhar.
Texto publicado no dia 1 de Maio de 2022).
Sozinho, sempre
sozinho,
mesmo quando vou a teu
lado.
De ti que constróis o
rumor das cidades
e no campo, semeias,
lavras,
e pisas
o sabor do vinho.
Sozinho, sempre
sozinho.
aqui vou a teu
aldo
eu, o poeta, operário
de palavras
- as palavras «sonho?,
«bandeira*, «esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza
irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os
bairros de lata
em futuras cidades de
cristal
num planeta de
paisagens de prata
onde as bocas das
flores, das manhãs, dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume
doirado
cantarão um dia
connosco a Internacional
- que eu continuarei a
cantar sozinho,
sempre sozinho,
a teu lado.
José Gomes Ferreira em O Diário, s/d
Operários, vanguarda do
povo
camponeses que a terra
lavrais
libertai-vos do jugo para sempre
é o povo quem vós libertais
Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.
Norte a sul, vinde trabalhadores,
pescadores não fiqueis para trás
avançai, e sem medo, na luta
pelo pão, p’lo trabalho, pela paz.
Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.
Todos juntos numa só torrente
na cidade, no campo e no mar
alcancemos com as forças armadas
liberdade, governo popular
Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final!
Letra: Mário Vieira
de Carvalho
Música:
autor anónimo do século XIX. A música apareceu em 1852, por ocasião das lutas
civis da Patuleia e Maria da Fonte.
Arranjo
e direcção de coros: Pedro
Osório.
As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos, uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos os jovens a morrerem numa guerra inglória.
Não acreditem
no que as fotografais dos jornais, os registos dos filmes, mostram.
Foi muito
mais do que aquilo que vos é mostrado.
Sabemos,
hoje, que esses dias foram de uma perenidade violenta, esperanças frustradas,
desilusões, esforços, muitos esforços mas que, pequenos que sejam., eram
resultados.
Roubar a
alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do
pão que lhe é devido.
Como escreveu
José Gomes Ferreira em Revolução Necessária:
«A festa do 1º de Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento, o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.
Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de
balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de
terramotos implacáveis.»
VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre.
Manuel Alegre
na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre
em Maio:
Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.
Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.
Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.
Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles
amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.
OS EXILADOS
políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno
exercício dos seus direitos.
A VIOLAÇÃO da
correspondência era feita por acção directa da PIDE/DGS e não
pelos trabalhadores dos CTT.
O SINDICATO
dos Escritórios denuncia que há patrões que não querem pagar o 25 de Abril aos
trabalhadores e chegaram a despedir trabalhadores que faltaram nesse dia.
A RÁDIO
RENASCENÇA é ocupada pelos trabalhadores com uma nova administração eleita,
depois de a anterior administração ter censurado as reportagens da chegada a
Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores Luís Cilia e José Mário
Branco.
AOS POUCOS os
jornalistas vão demitindo as direcções e conselhos de administração dos
diversos órgãos de informação, colocando nos seus lugares jornalistas e pessoas
que estejam com o espírito de Abril.
Eduardo
Valente da Fonseca publica no República uma Carta Aberta a
alguns jornalistas:
«Vocês que bajularam ministros,
presidentes das câmaras, governadores civis, figuras proeminentes da política e
da finança, vocês que se bateram à miseranda cartinha com uma gratificação
dentro para tecerem toda a espécie de falsos elogios e louvores, que
enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que o vosso magro ordenado
não comportava, que se puseram sempre do lado das autoridades contra os
trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado repressivo de Salazar e
Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o vosso desacordo, vocês não
são dignos de escrever para um Povo que só agora se apressam a vir dizer que
respeitam, e não são dignos de serem lidos por um leitor novo, que começa a
despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a construir com ele um outro
país, uma nova relação humana sem censura nem camaleonismo. Desistam e
reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo agradecem.»
O ESCUDO
subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é inédito numa revolução.
ANÙNCIO no Diário de Notícias de 3 de Maio de 1974, um político libertado procura emprego:
O TEATRO da
Cornucópia decidiu suspender a peça que tinha em ensaios para começarem a
trabalhar na encenação de «Grandezas e Misérias do III Reich» de Bertold Brecht.
A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a abolição da
obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os espectáculos
de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.
DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime: Novidades e Debate.
FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.
CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.
A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália Rodrigues.
O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.
O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se Ministério do Trabalho.
DECRETADA a amnistia a refractários e desertores das Forças Armadas.
MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!
FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a apoiante do espírito de Abril.
Passou
de Época a A Época, depois A Época
Livre.
OS TEMPOS em
que até os capitalistas respeitavam o Dia do Trabalhador, e faziam-no decretar,
como publicidade paga, nos jornais:
Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
Que ao longo deste texto são relembrados.
Faltava um
ano para Grande Festa.
Sozinho, sempre sozinho,
mesmo quando vou a teu lado.
De ti que constróis o rumor das cidades
e no campo, semeias, lavras,
e pisas
o sabor do vinho.
Sozinho, sempre sozinho.
aqui vou a teu aldo
eu, o poeta, operário de palavras
- as palavras «sonho?, «bandeira*,
«esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os bairros de lata
em futuras cidades de cristal
num planeta de paisagens de prata
onde as bocas das flores, das manhãs,
dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume doirado
cantarão um dia connosco a Internacional
- que eu continuarei a cantar sozinho,
sempre sozinho,
a teu lado.
José Gomes Ferreira em O Diário, s/d
Com ironia,
Mário Viegas dirá que o 25
de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.
Alguém, que
não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio
devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida
não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de
Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.
Por fim, uma
outra citação anónima:
Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.
Em todas os
jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de
Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.
Esta veio
publicada no Diário Popular:
Na véspera,
na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim
não gostou muito, e escreveu:
O Diário
de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de
pão estavam encerrados: e colocava em título:
Constante das
notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.
Nas páginas
interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar
as garras de fora.
A Junta de
Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram
alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da
correspondência. Essa violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que
requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a
ditadura.
Por decreto,
a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o
Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.
Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide
Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.
No Porto, um ex-pide suicidava-se.
29 de Abril
de 1974
O quinto dia
da nossa vida em liberdade.
A
importante, quase única, notícia que percorre todos os jornais:
É instituído como feriado nacional
obrigatório o dia um de Maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»
Por outro
lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»
Outras
decisões:
Amnistia para
os Presos Políticos.
Abolida a
censura aos espectáculos.
Dissolução da
Acção Nacional Popular.
Destituído o
Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.
Serão
reintegrados os funcionários despedidos por motivos políticos
Continuava
o regresso dos exilados políticos.
Os
desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação
Nacional, querem voltar e pedem amnistia.
Tal
como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países
africanos.
1.
Na página
desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima
observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua
crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.
Com tanto
pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre-
trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…
2.
O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário
Soares na sua chegada a Lisboa.
Nas páginas
interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês
e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava a monte.
Na última
página, ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da
Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se,
voluntariamente, à Junta de Salvação Nacional.
Também
no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona
descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de
Abril.
3.
Na primeira
página, A Capital dava conta da constituição do Movimento
Democrático Português.
Para a
Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de
Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.