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sexta-feira, 24 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


 Primeiro de Maio

Eça de Queiroz

Nota Prévia: A. Campos Matos

Capa e Ilustrações: João Abel Manta

Edições O Jornal, Dezembro de 1979

E se assim é, o Primeiro de Maio, tão temido, tem de ser marcado com traço de ouro, porque nos mostra maior doçura, maior paz entre os homens – r como outrora, neste dia de renovação primaveril da terra, deveremos, em agradecimento aos deuses, pendurar à nossa porta ramos de giestas em flor.

sábado, 2 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Que música para amanhã de hoje?

Será Bella Ciao, ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda

Conta a Wikipédia:

«"Bella Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»

 A provável letra original da canção tem como tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,

ho trovato I'invasor!

A lavorare laggiù in risaia

Sotto il sol che picchia giù!

E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,

duro lavoro mi tocca far!

Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone

E noi curve a lavorar!

Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao

Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi

E la tua vita a consumar!

Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante

Lavoreremo in libertà! 


Tradução em português


Esta manhã, eu me levantei, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, esta manhã, eu me levantei

 

e encontrei um invasor!

 

Para trabalhar lá no arrozal, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal

 

Sob o sol que nos derruba!

 

E entre os insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,

 

Um trabalho pesado que tenho que fazer!

 

O chefe está de pé com uma vara, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! O chefe está de pé com uma vara

 

E nós curvados a trabalhar!

 

Trabalhe infame, por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro

 

E tua vida a consumir!

 

Mas chegará o dia em que todos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,

 

trabalharemos em liberdade!


A versão partigiana

Stamattina mi sono alzato,

 

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Stamattina mi sono alzato,

ed ho trovato l'invasor.

O partigiano, portami via,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

O partigiano, portami via,

ché mi sento di morir.

Se io muoio da partigiano,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Se io muoio da partigiano,

tu mi devi seppellir.

E seppellire sulla montagna,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E seppellire sulla montagna,

sotto l'ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E le genti che passeranno,

Ti diranno «Che bel fior!»

«Questo fiore del partigiano»,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

«Questo fiore del partigiano,

morto per la libertà!»


Tradução em português


Nesta tradução, a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe a um invasor externo ou a um exército de ocupação.

 

Acordei de manhã

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Acordei de manhã

E deparei-me com o invasor

Ó resistente, leva-me embora

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Ó resistente, leva-me embora

Porque sinto a morte a chegar.

E se eu morrer como resistente

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E se eu morrer como resistente

Tu deves sepultar-me

E sepultar-me na montanha

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E sepultar-me na montanha

Sob a sombra de uma linda flor

E as pessoas que passarem

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E as pessoas que passarem

Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»

É esta a flor do homem da Resistência

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

É esta a flor do homem da Resistência

Que morreu pela liberdade



sexta-feira, 1 de maio de 2026

REOLHARES



OS MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.

Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.

Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

1º DE MAIO À MINHA MANEIRA


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.


José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

sexta-feira, 2 de maio de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO


Era para ser uma comemoração do 25 de Abril em S. Bento, organizada pela máquina de propaganda do staff de Montenegro, com a presença de Tony-Carreira-cantor-pimba-cá-do burgo.

Entretanto foi marcado o luto nacional pelo Papa Francisco e a festarola deslizou para o 1º de Maio, mesmo local, mesmos artistas, mesma parolice.

Aconteceu ontem com o subtítulo «São Bento em Família»

As televisões deram imagens e bateram na tecla do dueto entre o rural de Espinho e o cantor-pimba, na canção plagiada que fala duns sonhos de menino numa aldeia da Beira.


Simplesmente patético.

Os custos do show-comício, certamente, terão saído dos lucros da Spinumviva.

Ou não?

Deixem o Luís cantar e vão ver o que nos acontece!... 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

POSTAIS SEM SELO


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

REOLHARES

OUTROS MAIOS



 



(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.

Texto publicado no dia 1 de Maio de 2022).

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.

 

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

MÚSICA PELA MANHÃ


Operários, vanguarda do povo

camponeses que a terra lavrais
libertai-vos do jugo para sempre
é o povo quem vós libertais

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.

Norte a sul, vinde trabalhadores,
pescadores não fiqueis para trás
avançai, e sem medo, na luta
pelo pão, p’lo trabalho, pela paz.

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.

Todos juntos numa só torrente
na cidade, no campo e no mar
alcancemos com as forças armadas
liberdade, governo popular

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final!

 

Letra: Mário Vieira de Carvalho 

Música: autor anónimo do século XIX. A música apareceu em 1852, por ocasião das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte.

Arranjo e direcção de coros: Pedro Osório.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Aquele primeiro 1º de Maio…

 As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos, uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos os jovens a morrerem numa guerra inglória.

Não acreditem no que as fotografais dos jornais, os registos dos filmes, mostram.

Foi muito mais do que aquilo que vos é mostrado.

Sabemos, hoje, que esses dias foram de uma perenidade violenta, esperanças frustradas, desilusões, esforços, muitos esforços mas que, pequenos que sejam., eram resultados.

Roubar a alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido.

Como escreveu José Gomes Ferreira em Revolução Necessária:

 «A festa do 1º de Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento, o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.

Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.»

 VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre.

Manuel Alegre na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre em Maio:

Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

OS 
EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.

A VIOLAÇÃO da correspondência era feita por acção directa da PIDE/DGS e não pelos trabalhadores dos CTT.

O SINDICATO dos Escritórios denuncia que há patrões que não querem pagar o 25 de Abril aos trabalhadores e chegaram a despedir trabalhadores que faltaram nesse dia.

A RÁDIO RENASCENÇA é ocupada pelos trabalhadores com uma nova administração eleita, depois de a anterior administração ter censurado as reportagens da chegada a Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores Luís Cilia e José Mário Branco.

AOS POUCOS os jornalistas vão demitindo as direcções e conselhos de administração dos diversos órgãos de informação, colocando nos seus lugares jornalistas e pessoas que estejam com o espírito de Abril.

Eduardo Valente da Fonseca publica no República uma Carta Aberta a alguns jornalistas:

«Vocês que bajularam ministros, presidentes das câmaras, governadores civis, figuras proeminentes da política e da finança, vocês que se bateram à miseranda cartinha com uma gratificação dentro para tecerem toda a espécie de falsos elogios e louvores, que enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que o vosso magro ordenado não comportava, que se puseram sempre do lado das autoridades contra os trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado repressivo de Salazar e Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o vosso desacordo, vocês não são dignos de escrever para um Povo que só agora se apressam a vir dizer que respeitam, e não são dignos de serem lidos por um leitor novo, que começa a despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a construir com ele um outro país, uma nova relação humana sem censura nem camaleonismo. Desistam e reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo agradecem.»

O ESCUDO subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é inédito numa revolução.

ANÙNCIO  no Diário de Notícias de 3 de Maio de 1974, um político libertado procura emprego: 


O TEATRO da Cornucópia decidiu suspender a peça que tinha em ensaios para começarem a trabalhar na encenação de «Grandezas e Misérias do III Reich» de Bertold Brecht.

A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a abolição da obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os espectáculos de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.

 DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime: Novidades e Debate.

 FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.

 CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.

 A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália Rodrigues.

 O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.

 O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se Ministério do Trabalho.

DECRETADA a amnistia a refractários e desertores das Forças Armadas.

 MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!

 FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a apoiante do espírito de Abril.

Passou de Época a A Época, depois A Época Livre.

OS TEMPOS em que até os capitalistas respeitavam o Dia do Trabalhador, e faziam-no decretar, como publicidade paga, nos jornais:

OUTROS MAIOS


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.


Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

 Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.


Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.

 

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

O Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


29 de Abril de 1974

O quinto dia da nossa vida em liberdade.

 A importante, quase única, notícia que percorre todos os jornais:

É instituído como feriado nacional obrigatório o dia um de Maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»

Por outro lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»

Outras decisões:

Amnistia para os Presos Políticos.

Abolida a censura aos espectáculos.

Dissolução da Acção Nacional Popular.

Destituído o Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.

Serão reintegrados os funcionários despedidos por motivos políticos

 Continuava o regresso dos exilados políticos.

 Os desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação Nacional, querem voltar e pedem amnistia.

 Tal como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países africanos.

 

1.

Na página desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.

Com tanto pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre- trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…

2.

O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário Soares na sua chegada a Lisboa.


Nas páginas interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava a monte.


Quem quisesse sair do País só poderia levar um máximo de 50 contos.

Na última página, ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se, voluntariamente, à Junta de Salvação Nacional.

Também no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de Abril.

3.

Na primeira página, A Capital dava conta da constituição do Movimento Democrático Português.

Para a Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.