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segunda-feira, 27 de abril de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS


Este livro de Adalberto Alves foi comprado num alfarrabista.

Dedicatória do livro:

«Ao Senhor Manuel Passarinho oferece o autor, com afecto e agradecimento»

Que terá acontecido para o Dr. Manuel Passarinho ter mandado às malvas o afecto e o agradecimento de Adalberto Alves?

A velha questão:

O livro foi roubado da estante do Dr. Manuel Passarinho?

O livro foi emprestado e não foi devolvido?

Se caso disso, os herdeiros venderam os livros por tuta e meia?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS

É vulgar os escritores queixarem-se que as editoras que lhe publicam, atribuem um pequeníssimo número de exemplares das obras destinados a ofertas.

Para as muitas ofertas que têm que fazer a amigos e familiares têm que comprar os livros.

Torna-se estranho, que sabendo-se das queixas dos escritores, João Gaspar Simões que nunca terá sido um salazarista, quando publicou o seu livro Crítica em 1942,  tempos de ditadura, tenha oferecido um exemplar do livro à redacão do jornal A Voz, jornal católico, monárquico, ultra-salzarista, «o jornal diário de maior publicação em Portugal», dirigido por Pedro Correia Marques.

Autor do editorial, que intitulava «Das Ideias e dos Factos», muitas vezes, quase em fecho do jornal, ouvia Emídio Navarro, chefe de redacção:

- Então Sr. Correia Marques, hoje não há ideias?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS


Os livros autografados também abrange os que foram comprados em alfarrabistas e incluem dedicatórias feitas a amigos e familiares.

Os Doze Meses de Cozinha, comprado por 10 euros num vão de escada tem a dedicatória de uma avó à sua neta:

«Oferta da avó amiga com beijos de parabéns pelos teus 10 anos».

Factos:

A neta preferiu não perder tempo a cozinhar.

Por quanto «vendeu» a oferta da avó amiga?

Certamente não terão sido pelos 10 euros que o velhote me pediu.

O valor agora não importa, importa que alguns jovens pouco se ralam com o gosto com que os amigos, os familiares lhes oferecem presentes.

Já quando comprei o livro, olhei a dedicatória da avó, ficou-me uma tristeza cinzenta que, sempre que pego no livro, me invade e perturba.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS


Quando em Dezembro de 2025, iniciei esta secção dos muitos livros autografados, comprados em alfarrabistas, não lembrava que já lhe tinha dado um início.

Repetirei esse primeiro episódio publicado por aqui em 23 de Junho de 2024:

 A imagem de hoje não pertence à secção do «Outro Lado das Capa», poderia ser «O Outro Lado das Folhas».

Muitos livros da Biblioteca da Casa foram comprados em alfarrabistas.

Nas tardes de sábado, ia com o meu pai à Barateira no Chiado e ao Fausto na Rua Angelina Vidal e nunca saíamos de mãos a abanar.

Este livro de Alexandre Vieira foi oferecido pelo autor à redacção do jornal A Voz.

O matutino A Voz era um jornal católico, monárquico, conservador e ultra-salazarista. Designava-se como «O jornal de maior assinatura em Portugal»

O jornal «A Voz», juntamente com o «Diário da Manhã», deixou de se publicar nos inícios de 1971 e. ambos, deram lugar a um único título: «Época», que deixou de se publicar logo a seguir ao 25 de Abril e veio a ter duas tentativas de publicação, primeiro como «A Época», tendo como director José Manuel Pintasilgo, dias de pois como «A Época Livre»  dirigida por tipógrafo e um grupo de jornalistas do jornal, mas todas as condições eram precárias e os ventos tinham mesmo mudado.

Um dia hei-de aqui trazer os livros comprados em alfarrabistas, com dedicatórias dos seus autores a camaradas seus, bem como outras gentes.

O trabalho não está organizado nesse sentido, tão pouco é tarefa fácil, mas irei tentar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

LIVROS AUTOGRAFADOS


 

Os livros autografados da Biblioteca da Casa, comprados em 2ª mão, não têm só dedicatórias de gente ilustre para outra gente ilustre.

Por 50 Cêntimos, num desses vãos de escada que ainda se podem encontrar nos velhos bairros de Lisboa, vendendo de tudo um pouco, comprei este livro do Carlos Pinhão.

Comprei-o, principalmente, pelo que um avô sportinguista, corria o dia 16 de Maio de 1991, num bonito gesto de ternura, escreveu para o seu neto benfiquista:

«Para o João com um grande “viva ao Benfica campeão”».

Não sabemos se o João leu o livro, pela capa, pelo miolo, podemos concluir que não tem o mínimo sinal de ter sido lido, mas sabemos que o «despachou» e ter-lhe-ão dado uma ridicularia.

Serviu para quê, esse pouco dinheiro?

Nem para uma caixa de «chiclets» terá dado.

E aquele gesto de ternura do avô que tanto me agradara, passou a tristeza, reflexo da insensibilidade do João face ao gosto do avô lhe ter comprado o livro do Carlos Pinhão e que acabou num vão de escada de compra e venda de livros em 2ª mão.

Se o lesse teria reparado no que o Carlos Pinhão, a dado passo escreveu:

«Jogar é bom, faz bem, mas não é tudo, os jovens devem criar outros hábitos que contribuam para um desenvolvimento harmoniosos do corpo e do espírito… Por exemplo, ler…»

Mas os jovens não lêem.

Lembrar aquela história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: «Evito!»

José Tolentino Mendonça:

«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»

Carlos Pinhão era uma pessoa amável, um competente jornalista desportivo  de A Bola e autor de histórias infanto-juvenis.

Devo ao jornal A Bola ter-me dado a conhecer o poeta Ruy Belo.

domingo, 21 de dezembro de 2025

LIVROS AUTOGRAFADOS


Há algum tempo referi por aqui, um bom número de livros, comprados em alfarrabistas, em que encontro que alguns desses livros pertenceram a escritores, e outras gentes, a quem os autores  os ofereceram.

Os livros ou foram roubados, emprestados e nunca devolvidos, ou, simplesmente, os herdeiros, após ao morte dos proprietários, venderam-nos ao desbarato.

Amiúde encontramos nas listagens, colocadas pelos alfarrabistas na internet, a seguinte indicação:

«exemplar em bom estado de conservação; miolo irrepreensível, valorizado pela dedicatória manuscrita do autor ao…»

E aqui o preço do livro sobe bem.
Começo esta viagem de livros autografados, que se encontram na Biblioteca da Casa, com Ruy Belo.

Livro comprado numa loja-vão-de-escada-em-que encontramos-de-tudo-um pouco.

O livro é nem mais a 1º edição de Aquele Grande Rio Eufrate publicado em Abril de 1961 pela Ática Editora.

 

«A Tomaz Kim, com a amizade e a consideração do Ruy Belo

Alguma poesia que pode haver em Aquele Grande Rio Eufrates

Lisboa 19/VII/62.»

 

O velhote, certamente, não sabia o que estava a vender, muito menos, quem seria Ruy Belo.

Na capa do livro, o velhote colocou o preço: 10 escudos, ao câmbio de hoje, 5 euros.

 

Sobre Tomaz Kim, copiamos da Infopédia:

 

«Poeta, tradutor e ensaísta literário angolano, de nome completo Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo, nascido a 2 de fevereiro de 1915, em Lobito, e falecido a 24 de janeiro de 1967, em Lisboa.
Fez os estudos primários em Cape Town e o ensino secundário em Lisboa. Estudou Engenharia em Londres, mas, regressado a Portugal, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi leitor de Inglês e professor de Literatura Inglesa. Especializou-se depois nessa área em diferentes universidades do Mundo, tendo recebido formação de pós-graduação em Oxford, Heidelberg, Bona e Göttingen.
Com Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal, fundou e dirigiu, na sua primeira fase, Cadernos de Poesia, publicação eclética, editada em Lisboa, em 1940, e que, sob o emblema "Poesia é só uma", apresentava como objetivo "arquivar a atividade da poesia atual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas". Colaborou também em diferentes periódicos como Atlântico, Aventura, Presença e Graal.
A sua poesia, juntamente com a de Ruy Cinatti, inaugura um lirismo "depurado e um pouco hermético", no dizer de Jorge de Sena, mas é uma poesia "elíptica e oblíqua, dada todavia numa expressão muito direta".
Escritos e editados no decurso da Segunda Guerra Mundial, os seus primeiros volumes de poesia relevam de um compromisso com a História que não se traduz em termos de empenhamento social, mas da articulação entre a exigência ética e uma escrita condicionada pelo perigo apocalíptico que o conflito mundial traduzia. A tradução de poetas ingleses, nomeadamente T. S. Elliot, e a convivência com a cultura e língua inglesas justificam a sintaxe elíptica que caracteriza a sua escrita.
Destacam-se na sua obra: Em Cada Dia Se Morre, Os Quatro Cavaleiros, Dia da Promissão e Exercícios Temporais.»

 

Um poema de Tomas Kim tirado da Internet:

 

Quando a morte vier, meu amor,
fechemos os olhos para a olhar por dentro
e deixemos aos nossos lábios o murmúrio
da palavra branda jamais pronunciada
e às nossas mãos a carícia dispersa;
relembremos o dia impossível,
belo por isso e por isso desprezado,
e esqueçamos o que nos não deixaram ver
e o resto que sobrou do nada que possuímos;
deixemos à poesia que surge
o pranto de quem a trocou para comer
e os passos sem rumo pelas ruas hostis;
deixemos à carne o que não alcançámos,
e morramos então, naturalmente...