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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL



 Último Poema 

 

É Natal, nunca estive tão só.

Nem sequer neva como nos versos

do Pessoa ou nos bosques

da Nova Inglaterra.

Deixo os olhos correr

entre o fulgor dos cravos

e os diospiros ardendo na sombra.

Quem tem assim o verão

dentro de casa

não devia queixar-se de estar só,

não devia.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

RELATO BREVE

Deixarás a casa por acabar.
Ficarão nos muros janelas por abrir
para o primeiro,
o último crepúsculo.
No ar ainda doce, encostado
à parede, o limoeiro
voltará a florir para nenhum olhar.
No jardim uma ou outra flor resiste.
Talvez alguém passe e diga para si mesmo:
Como os goivos cheiram bem!


Eugénio de Andrade de Os Sulcos da Sede em Poesia

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios…)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade de As Mãos e os Frutos em Poemas

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

ESPERA

Aqui onde o exílio
dói como agulhas fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade de As Mãos e os Frutos em Poemas

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

OUTRA CANÇÃO

Com as quatro folhas
dos trevos de verão
farei uma casa
sem portas sem janelas
para te esconder.
Farei um rio
de sombra onde dormir
contigo nos olhos.
Para não morrer.


Eugénio de Andrade em Poesia

quinta-feira, 17 de julho de 2025

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

 

Eugénio de Andrade em Poemas

terça-feira, 24 de junho de 2025

RELAÇÃO DE CASAS BOAS E MÁS PARA JUÍZO DOS ARQUITECTOS CARLOS LOUREIRO E PÁDUA RAMOS

Há casas
cuja beleza começa no projecto;
outras, e são talvez as mais belas,
existem só na cabeça do arquitecto.

Há casas feitas à medida do homem,
outras há para andar de bicicleta;
há casas sobre cascatas
onde ao sortilégio da água
se junta a música de Bach.

Há casas tão ajustadas
como fato por medida
ou um verso de Cesário,
outras de tão confusas
não viram regra nem esquadro.

Há casas de papel, casas de madeira,
casas de palha e de barro;
casas que trepam pelo céu,
casas que cheiram a jasmim do Cabo;
há casas só para dormir
parecidas com um sudário.

Há casas onde
habitar é o começo da morte;
há casas de pátios caiados
com varandas para o mar;
casas onde apetece estar sentado
com um gato nos joelhos
e o coração apaziguado.

Há casas com recantos para amar,
há outras onde o amor
se faz em cinco minutos,
e às vezes já é demais;
há casas como um dedal
e geometria de abelhas,
casas de perfil atento
ao rumor de nascentes e de estrelas.

Há casas como um cristal,
casas de luz circular,
casas onde não é possível
ouvir correr o silêncio; há casas
que de casas só têm o nome;
há casas que nem para cães.

Há casas tão inteligentes
que não consentem qualquer margem
para luxos e arrebiques,
casas onde a alegria se instala
sem tempo nenhum para a mágoa.

Há casas onde o pão é triste
e a roupa mal lavada;
há casas que são um rio, há casas
que são um barco;
outras têm pomares
onde os diospiros ardem;
há casas com terras de vinha e trigo
e muros a toda a roda.

Há casas que são um poema
para dar a um amigo.

Eugénio de Andrade em Poesia

sexta-feira, 23 de maio de 2025

RELATO BREVE

Deixarás a casa por acabar.
Ficarão nos muros janelas por abrir
para o primeiro,
o último crepúsculo.
No ar ainda doce, encostado
à parede, o limoeiro
voltará a florir para nenhum olhar.
No jardim uma ou outra flor resiste.
Talvez alguém passe e diga para si mesmo:
Como os goivos cheiram bem!

Eugénio de Andrade de Os Sulcos da Sede em Poesias

quinta-feira, 27 de março de 2025

AOS JACARANDÁS DE LISBOA

«São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.»

Eugénio de Andrade de Os Sulcos da Sede em Poesia

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

ESTIVE SEMPRE SENTADO NESTA PEDRA

Estive sempre sentado nesta pedra

escutando, por assim dizer, o silêncio.

Ou no lago cair um fiozinho de água.

O lago é o tanque daquela idade

em que não tinha o coração

magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,

dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,

tão feito de privação.) Estou onde

sempre estive: à beira de ser água.

Envelhecendo no rumor da bica

por onde corre apenas o silêncio.

 

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

VER CLARO

Toda a poesia é luminosa,
até a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol,
nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

 Eugénio de Andrade de Os Sulcos da Sede em Poesia

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Estas «Entrevistas Corsárias» sobre a política e sobre a vida, estão datadas, mas retém a importância do papel de Pasolini em tudo o que disse, tudo o que escreveu, nos filmes que realizou.

Em Junho de 1970, perguntam-lhe:

Qual é a sua definição do amor?

- Quando falta o amor, as pessoas cessam de viver. Focam reduzidas a nada. É melancolia, o fim de tudo. A sociedade apercebeu-se disso e aqui está a razão de tanto tentar exaltar o amor. É uma chave de produtividade. Sem amor, o homem não consegue produzir. Porém, ao mesmo tempo, todos os tipos de sociedade reprimem o mundo sexual, pois a energia que o homem consome ao fazer amor não beneficia o capital. Todas as sociedades são, acima de tudo, puritanas. Não se pense que vivemos num período de plena liberdade sexual, é uma ilusão.

Outra pergunta:

Ama a vida?

- Amo-a ferozmente, desesperadamente. E acredito que esta ferocidade e este desespero me acompanharão até ao fim. Amo o Sol, a relva, a juventude. Para mim, o amor pela vida tornou-se num vício mais mortífero do que a cocaína. Eu devoro a minha existência, com um apetite insaciável. Como acabará tudo isto? Não sei.

Pasolini respondeu não saber como tudo terminaria.

Foi barbaramente assassinado, a 2 de Novembro de 1975, tinha 53 anos, em circunstâncias que ninguém procurou esclarecer.

Lembre-se o poema que Eugénio de Andrade, nessa morte, lhe dedicou:

 

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI

 

 Eu pouco sei de ti mas este crime

torna a morte ainda mais insuportável.

Era novembro, devia fazer frio, mas tu

já nem o ar sentias, o próprio sexo

que sempre fora fonte agora apunhalado.

Um poeta, mesmo solar como tu, na terra

é pouca coisa: uma navalha, o rumor

de abril podem matá-lo – amanhece,

os primeiros autocarros já passaram,

as fábricas abrem os portões, os jornais

anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira

página, o sangue apodrece o brilhará

ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.

O assassino, esse seguirá dia após dia

a insultar o amargo coração da vida;

no tribunal insinuará que respondera apenas

a uma agressão (moral) com outra agressão,

como se alguém ignorasse, excepto claro

os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie

confundem moral com o próprio cu.

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores

como móbil de um crime que os fascistas,

e não só os de Salò, não se importariam de assinar.

Seja qual for a razão, e muitas há,

que o Capital a Igreja e a Polícia

de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,

Pier Paolo Pasolini está morto.

A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

 

Eugénio de Andrade em Escrita da Terra e Outros Epitáfios

terça-feira, 21 de maio de 2024

NA LUZ A PRUMO

Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua, e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos, e as minhas,
pudesse entrar no azul, qualquer
azul: o do mar,
o do céu, o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave, as mãos, a voz.)
E fossem chama. Quase.

Eugénio de Andrade de Os Sulcos da Sede em Poesia

segunda-feira, 22 de abril de 2024

SOBRE A TERRA

Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama
de silencio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo,
vivo sobre o teu peito,
sobre os teus flancos,
e cresço para ti.

Eugénio de Andrade de Cumplicidades do Verão em Poemas 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

METAMORFOSES DA PALAVRA

A palavra nasceu:

nos lábios cintila.

 

Carícia ou aroma,

mal pousa nos dedos.

 

De ramo em ramo voa,

na luz se derrama.

 

A morte não existe:

tudo é canto ou chama.

Eugénio de Andrade de Até Amanhã em Poesia

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A ILHA


Tanta palavra para chegar a ti, 
tanta palavra, 
sem nenhuma alcançar 
entre as ruínas 
do delírio a ilha, 
sempre mudando 
de forma, de lugar, estremecida 
chama, preguiçosa 
vaga fugidia 
do mar de Ulisses cor de vinho. 


Eugénio de Andrade O Ofício de Paciência em Poesia


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

AS AMORAS

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade de O Outro Nome da Terra em Poesia

terça-feira, 11 de julho de 2023

ESCRITA DA TERRA

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

Eugénio de Andrade dee Ostinato Rigore em Poesia

domingo, 4 de junho de 2023

OLHARES


 Tardes de domingo.

 Nos  anos de 70/80 António Gedeão dedicava as suas tardes de domingo a percorrer a velha Lisboa onde nasceu e viveu todo o seu tempo de andar por aqui. 

Gostava muito de fotografar e esse trabalho encontra-se em Memória de Lisboa.

É comovente ter jacarandás  perto do sítio onde moro.

E hoje, tarde de domingo, fui fotografar os 12 jacarandás que estão na Rotunda das Olaias, perto da Escola António Arroio.

O jacarandá é uma árvore exótica que chegou vinda do Brasil, da Argentina, da Bolívia ou do Paraguai

 Nos primeiros dias de Maio os jacararandás começam a florir pela cidade.

 Em outros tempos, fotografei (ver etiqueta jacarandás) os jacarandás do Largo do Rato, da Avenida D. Carlos I. E sempre, sempre os do Parque Eduardo VII, em tempo de Feira do Livro, numa lembrança nostálgica para o Jorge Silva Melo:

 «Não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»


Pegue-se também no livro  A Linguagem dos Pássaros da Ana Teresa Pereira:

 «Foi num mês de Abril, há muitos anos, éramos ainda crianças. Estamos de novo em Abril, o mês mais doce, aquele de que Miguel mais gosta, o mês azul, a nossa casa fica mergulhada em lilases, que escorrem pelo jardim, sobem as árvores, por vezes chegam ao muro que dá para as rochas. É também o mês dos jacarandás, os jacarandás ao longo da rua estão cobertos de flores violetas, que vemos da janela do nosso quarto, da varanda da torre, de um lado do mar até ao infinito, do outro o mar de flores. E o sim dos pássaros, desde Fevereiro que acordo a meio da noite com os pássaros, e deixo-me ficar imóvel, ouvindo-os até adormecer de novo e despertar de manhã, para mais pássaros, e para ele.»

 E não irei embora sem trazer o Eugénio de Andrade:

«São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.»

Também Maria João Avilez:

«Sempre tive ânsia de viver, de experimentar as surpresas maravilhosas que a vida encerra, uma grande alegria de viver. Às vezes, a luminosidade de certas tardes em Lisboa, uma árvore em flor, como esses belos jacarandás do Parque Eduardo VII, um quadro, uma pessoa que observo e que, por qualquer razão, me desperta a atenção, bastam-me».

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

ARREPIO NA TARDE

 Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de Março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.

Eugénio de Andrade de Os Sulcos de Sede em Poesia