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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

CRÓNICA FEMININA

estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.
 
estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito
 
só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.
 
toda a nudez, toda a nudez, toda a melancolia
a dor no mundo, a deslembrança, a febre, os
olhos rasos de água e solidão 


Vasco Graça Moura

sábado, 28 de dezembro de 2024

BOLO-REI


Naquele tempo apenas havia Bolo-Rei.

Depois inventaram o Bolo Raínha, o Bolo Rei escangalhado, não sabe mais o quê.

Já antes, a ASAE mandou proibir o brinde e fava no Bolo-Rei.

Dizem que o melhor Bolo-Rei é o Confeitaria Nacional, casa fundada em 1829, ali à Praça da Figueira. O segredo da feitura do bolo nunca saiu portas fora. Uma tarde, por um findar de ano, esteve hora e meia, na fila, à espera de comprar o bolo. Não por ele mas por um amigo, chegado de Montalegre, que daquele bolo ouvira falar e nunca tinha comido.


Para ele não há problema. Gosta tanto que os come de qualquer lugar: do Continente, do Minipreço até da padaria aqui da rua. 

Gosta de Bolo-Rei, mas se o querem ver mesmo feliz é quando o encontra fora da época. Que querem? Sempre foi assim e está velho para mudar. Também se perde por broas castelar…

Mas pode dizer que sim, que é bom o Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, só que é uma opinião em que não podem ter qualquer tipo de confiança. Está à vista o porquê.

Por ele, em certo Natal uma amiga esteve uma hora na fila para comprar o Bolo-Rei da "Garret", ali para os estoris, Bolo-Rei "chique, chiquérrimo", como a amiga dizia. Sim, um bom Bolo-Rei. Tanta generosidade merecia uma pequenina mentira e disse-lhe: 

"O melhor Bolo-Rei que comi até hoje!"

O sorriso valeu a mentira, o entusiasmo também:

 “Vês! Eu não te dizia!..

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava


- de um poema de Vasco da Graça Moura

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A SOMBRA, O GATO

vejo atrás dos vidros

no jardim o gato

siamês que passa

entre os girassóis.

 

na mesa da sal

há mais girassóis

num pote azul

de fainça.

 

às cinco da tarde

a janela,

a porta,

estão fechadas, mas

 

agora o gato

vai passar na penumbra,

entre os girassóis

e a parede.

 

é uma sombra

rapidamente

imaginada

sobre a mesa.

 

que fica em ponto,

de olhos límpidos,

e percebe o jogo

de espaços e que

 

já regressou ágil

de salto felino

ao corpo do gato

repentino lá fora.

 

Vasco da Graça Moura

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

PARTO

venham ver o presépio: há pouca luz.

a figura do pai desapareceu.

despedaçou-o há dia um obus.

a mãe secou o leite. não comeu

 

mais do que umas raízes e algum lixo.

já nem lágrimas tem para as desgraças.

não há vaca nem burro. nenhum bicho

na azinhaga apodrecem as carcaças.

 

não virão os reis magos. não se engana

 a agenda traficante que combina

o que pode valer a vida humana

em armamento e gramas de heroína.

 

no céu, mais um clarão de morte avança

de cauda tracejante que desponta.

nasceu estropiada uma criança.

e deus, se acaso existe, faz de conta.

 

Vasco Graça Moura poema retirado da antologia Natal… Natais

segunda-feira, 6 de março de 2023

A SOMBRIA BELEZA DO TEMA DA ESTAÇÃO E DA MORTE

a sombria beleza do tema
da estação e da morte", diz o Kundera algures.
nesta imagem desenha-se um olival perdido
de surdas tonalidades, atrás do cais de onde

se despenhou alguém, alguma forma
aflita e trágica, vinda do fundo súbito de uma
paisagem tão modesta, sob as vozes
de quem chega e quem parte, ou simplesmete foi ali para olhar

outros seres de passagem, outros rasos destinos sem anjo para o remorso.
há flores, dirás, algumas flores diurnas, confiantes,
que outras mãos hão-de dispor na jarra, relembrada
junto à parede branca, mas essas são um ténue

sopro de acaso, ou um fulgor antecipando outra nudez.
quando a luz já se tornou mais húmida e quase musical,
e através da folhagem a harpa do desgaste estremeceu,
e passaram as horas e passaram,

pesadas, contadas, divididas, já não dói
a beleza de alguém que vai partir, a sombria beleza
da sua ocultação intransmissível, uma brisa leve misturar-se-á
ao cheiro de óleo, aos acenos afectuosos, aos

ruídos do tema da estação. é tudo. à noite o olival
será uma massa negra de clareiras adiadas,
atrás do cais sem ninguém e sem tempo, como sempre acontece
nas pequenas estações de uma província da alma.

Vasco da Graça Moura

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O LUGAR CERTO

esta manhã na foz, onde eu nasci, o mar da cor do chumbo

rugia contra o molhe, acometia o gilreu exasperado

e era um bulcão de espuma pardacenta a tresmalhar-se nos rochedos.

 

ouviam-se os pios das gaivotas assustadas, os pios,

os pios no seu voo desconjuntado no sibilar do vento, rasgão de asas

sobre a praia, praia triste como as de augusto gomes,

 

as das mulheres sobre a areia lisa de cinza, vestidas de negro

no seu trabalho de luto, na sua esperança sem alento,

mas ali não chegam aos baldões pescadores do mar alto, não,

 

ali, um par despede-se e é para sempre,

os olhos rasos de água e as mãos a desprenderem-se

num mundo pardacento onde morreu o desejo

 

e ninguém já quer nada de ninguém.

e tu, ó meu amor, não podias gostar disto, desta braveza assanhada,

desta pérgola que vem da minha infância,

 

onde agora não passa ninguém, desta orla das horas

sem socorros a náufragos, destas águas enfurecidas

onde só há lugar certo para os afogados.


Vasco da Graça Moura

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 espero que me calhe aquela fava

que é costume meter no bolo-rei:

quer dizer que o comi, que o partilhei

no natal com quem mais o partilhava

 

numa ordem das coisas cuja lei

de afectos e memória em nós se grava

nalgum lugar da alma e que destrava

tanta coisa sumida que, bem sei,

 

pela sua presença cristaliza

saudade e alegria em sons e brilhos,

sabores, cores, luzes, estribilhos...

e até por quem nos falta então se irisa

 

na mais pobre semente a intensa dança

de tempo adulto e tempo de criança.

 

Vasco Graça Moura

 

Poema retirado de Natal… Natais

domingo, 6 de dezembro de 2020

PARTO

 


venham ver o presépio: há pouca luz.

a figura do pai desapareceu.

despedaçou-o há dia um obus.

a mãe secou o leite. não comeu

 

mais do que umas raízes e algum lixo.

já nem lágrimas tem para as desgraças.

não há vaca nem burro. nenhum bicho

na azinhaga apodrecem as carcaças.

 

não virão os reis magos. não se engana

 a agenda traficante que combina

o que pode valer a vida humana

em armamento e gramas de heroína.

 

no céu, mais um clarão de morte avança

de cauda tracejante que desponta.

nasceu estropiada uma criança.

e deus, se acaso existe, faz de conta.

 

Vasco Graça Moura poema retirado da antologia Natal… Natais

terça-feira, 27 de outubro de 2020

CONVERSANDO


Voltaremos ao silêncio das ruas desertas?

 No exacto momento em que começo a escrever, o mundo atingiu o número de 1.164.094 mortes causadas pela covid-19.

Os que destas coisas sabem, dizem que teremos 4 mil casos por dia em Novembro.

 1.

 Segundo o Público, o Banco de Portugal tinha poderes para afastar Ricardo Salgado do BES um ano antes do colapso do banco, mas há que dizer que tiveram medo de afrontar o então dono disto tudo.

 2.

 Mais do que duplicou o número de grávidas dispensadas pelas empresas.

 3.

 Lares para idosos ilegais, jardins de infância ilegais, canis ilegais.

Faltam agentes fiscalizadores: incúria, descuido?

Os gabinetes dos 70 membros do Governo têm ao seu serviço 1236 pessoas.

Razão tinha a Alexandra Alpha:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

 4.  

 Anos 70, eu e o meu pai à conversa, boa parte eram divinos e saborosos silêncios, no banco, debaixo da parreira de uva morangueira que havia na casa de Almoçageme, por vezes, o Marcolino aparecia a dizer-nos que a maçã reineta, para ser boa, tinha que ter aço (ele queria dizer ácidas) e que o vinho só podia ser feito com uvas. Fazia um vinho caseiro sem sulfitos que tínhamos de o engarrafar colocando lacre por cima da rolha para que estas não saltassem.

5.

Vai ficar tudo bem deu-nos a ideia de que o ataque que enfrentávamos nos tornaria pessoas diferentes, solidárias, compreensivas.

A pergunta é retirada da 1ª página do Expresso.

Numa altura em que tanta gente perdeu o emprego e outros aguardam o dia pela chamada para lhes comunicarem a extinção do seu posto de trabalho, ficamos a saber que os mais ricos ficaram ainda mais ricos.

6. 

O governo, o orçamento o Novo Banco.

Palavras de Francisco Louçã:

«Num tempo em que falta dinheiro para contratar médicos, fechar os olhos às manigâncias pouco imaginativas dos banqueiros não é política. É gosto pelo abismo. E sobretudo, desmerece o país.»

 7.

Ferreira Fernandes, no Público, cita o filme Os Amantes do Tejo em que Amália Rodrigues aparece a cantar Barco Negro e onde um miúdo de Alfama pergunta a Daniel Gélin se gostava de viajar e ele respondia: «Gosto é de partir.»

8.

No ano de 1973 a Arcádia pediu a Manuel da Fonseca que fizesse uma biografia de Amália Rodrigues.

O livro nunca foi publicado mas, recentemente alguém descobriu as fitas gravadas das conversas que Manuel Fonseca teve com Amália. Totalizam cerca de nove horas. Nelson de Matos e a Porta Editora, com o enquadramento e notas de Pedro Castanheira, publicaram, agora, o livro que tem por título «Amália nas suas Palavras». Rui Vieira Nery escreveu o prefácio.

Eu que tento gosto do Manuel da Fonseca e da Amália, dirigirei um destes dias os meus passos para comprar o livro.

Sobre Amália, no seu livro «Amália: Dos Poetas Populares aos Poetas Cultivados» escreveu Vasco Graça Moura: «soube incutir como mais ninguém um acento profundamente dramático à expressão daquilo que cantava. Não apenas por ser dotada de uma voz absolutamente extraordinária. A sua articulação por vezes centrava-se mais no significante do que no significado, mas acabava restituindo misteriosamente a este último todo o seu valor, e encontrou ou inventou melismas, inflexões verbais, tensões intrasilábicas, portamentos, arabescos e outros efeitos vocais, alguns porventura de uma inspiração mediterrânica bebida da Andaluzia à Córsega, mas todos eles únicos, pessoais, intransmissíveis e sobretudo singularmente adequados a traduzir uma entrega total à intensidade dos sentimentos, das dilacerantes violências da paixão à angústia mais torturada, à ternura mais límpida, ou à alegria simplesmente ingénua dos fados que ela cantava.»

 


 Lágrima tem versos de Amália Rodrigues que, segundo Vasco Graça Moura «é uma obra-prima».

Nota do editor: a citação do livro de Vasco da Graça Moura é retirada de um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

NO QUE ESCREVI ME TRADUZI


no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é sua a vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.

Vasco Graça Moura

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

QUANDO OS DIAS SE MOVEM


usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas

e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere

e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

Vasco da Graça Moura

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL


Nós que sofremos de mazelas crónicas
tão ocas como um stradivarius
e da a apatia febril das mnemónicas
circenses de requintes culinários

gostamos de basófias     filarmónicas
de pompas fúnebres    do ar dos funcionários
públicos    e suportamos as mazelas crónicas
fazendo delas autênticos ovários

de onde irrompem embriões e fetos
discursos e chavelhos e essa melancolia
que os avós nos deixaram e vai prós nossos netos

apendicites honras truques burocracia
um trato ameno um trote quase certo
e tretas vigaristas qualquer dia

Vasco Graça Moura em Poesia Portuguesa do Pós Guerra

sexta-feira, 9 de março de 2018

O SUPORTE DA MÚSICA


o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia. 

Vasco da Graça Moura

Legenda: Sylvie Vartan e Johhny Hallyday

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poezz, Jazz na Poesia em Língua Portuguesa

José Duarte e Ricardo António Alves
Apresentação e Notas: Ricardo António Alves
Comentários: José Duarte
Edição Almedina, Lisboa, Maio de 2004

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MORREU O ASSIS COMO É DO CONHECIMENTO PÚBLICO, COMO JÁ TINHA MORRIDO O ESTEVES DA LEITARIA, O O' NEILL DA SEDA CHINESA EM FEIRA DE CIGANO


Borrifava-se nas editoras e publicava livros, pagos do seu bolso, que oferecia aos amigos

Conheci-o no Diário de Lisboa e voltámos a encontrar-nos no República.

Como disse Joaquim Manuel Magalhães, poeta e crítico literário:

O Fernando Assis Pacheco de que eu gosto tem a obra publicada bem longe dos empórios editoriais cuja distância do poder económico é um acto cultural defender (Centelha, Inova); ou então entregues a esse prazer da auto-publicação lateral, através de opúsculos passados a stencil e quase que difundidos de mão em mão; ou mesmo em ignorados jornais de província.

No República e no semanário O Jornal alimentou secções de recensão de livros, nada de crítica, apenas divulgar o que ia saindo das editoras, lembretes.

Se este seleccionista tivesse o sangue-frio e a quietude táctica de um lagarto dos muros, levava bem melhor a sua cruz semanal ao calvário do fotocomposição: Mas ele é um bicho de entusiasmos: fala alto, escreve a traço grosso, chateia meio mundo quando descobre, fresco ainda dos preços, «o livro». Eis, de seguida, alguns exemplos do ano que vai terminar, com o pedido expresso de que não veja neles o rigor da ordem.

No República chamou-lhe PRONTUÁRIO DAS LETRAS:


Em O Jornal chamou-lhe BOOKCIONÁRIO:


Escreveu livros.

Prontuou e bookcionou os livros de outros.

A morte só lhe poderia marcar encontro numa livraria.

Foi há 20 anos, num findar de Novembro, tal como escreveu Vasco Graça Moura deixou em poema:

com Novembro a findar morreu fernando
assis Pacheco numa livraria,
entrava nela sempre que podia
a ver as novidades e foi quando
de ensaios ou romance ou poesia
alguns volumes ia folheando
que o coração então lhe vacilando
lhe emudeceu a escrita nesse dia


Ou ainda Manuel Alegre:

Não sei se alguma vez nós voltaremos
da guerra onde deixámos partes d’alma.
As minas ainda estão a rebentar
trazemo-las por dentro e ninguém pode
desarmá-las.
A última foi a de Fernando Assis Pacheco
não em Zala ou Balacende nem Quilolo
mas numa pacata livraria de Lisboa
às onze da manhã
essa hora fatídica da emboscada.

Não me venham dizer que foi enfarte
ou acidente cardiovascular. Eu sei
que foi a mina

armadilhada no coração.

Nota do Editor: 
O título é tirado de uma prosa que o jornalista Rogério Rodrigues escreveu na morte do Fernando Assis Pacheco morreu,

domingo, 4 de maio de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE


quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão
.

Vasco Graça Moura, em Antologia dos Sessenta Anos tirado do site da Fundação José Saramago.

Legenda: imagem tirada de fanpop

sábado, 4 de dezembro de 2010

A FAVA


espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura

Poema retirado de “Natal… Natais”, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d

sexta-feira, 19 de março de 2010

EM NOME DO PAI

´
Os dias “ de qualquer coisa” sempre me incomodaram: da mulher, da mãe, do pai, da água, do livro, da árvore, do teatro, até houve um idiota de um deputado do PSD que chegou a propor, em plena Assembleia da República o "Dia do Cão".Para mim, dia do pai sempre foi, em qualquer dia do ano, telefonar e dizer-lhe: “vamos jantar?” O meu pai, por vezes, sugeria: "podíamos primeiro ir matar uma matinée".Jantar é um modo, suave, de dizer, porque o que íamos era beber uns valentes copos. Por aqui, está emoldurada na parede, a conta do “Isaura Restaurante", de um jantar em 20 de Novembro de 1989:

Pão: 140$00
Vinho: 6.900$00
Peixe: 750$00
Aves e Caça: 950$00
Queijo: 500$00
Fruta: 500$00
Whisky: 1.300$00
Total: 11.160$00.


Numa das tais matinées que o meu pai, por vezes, propunha fomos um dia ver, ao “Londres”, “A Insustentável Leveza do Ser” baseado no livro do Milan Kundera.

Por comum acordo, saímos aos vinte minutos de exibição, e fomos para um restaurante ali para Alçantara, o “Cuidado com o Degrau”, que não sei se ainda existe.

Chegámos ao "Cuidado Com o Degrau", perto das sete da manhã, saímos à uma da manhã.
Havia mais histórias para contar, talvez um dia surjam, mas estes são os dias do pai que, penso, valer a pena ter na vida, os que não estão sujeitos a agenda.

Em Março de 2008, o "Público” publicou “Em Nome do Pai”, uma pequena antologia do Pai na Poesia Portuguesa, organizada por José Cruz dos Santos, que há dias viu a “Leya” guilhotinar-lhe uma série de livros, prefaciada por Vasco da Graça Moura, “a melancolia dos fantasmas mais amados” e direcção gráfica de Armando Alves.

Um livro bonito.

Vou lá buscar um poema, não porque seja dia do pai, mas porque a poesia é para sr consumida em todos os dias do nosso viver e sai hoje como poderia sair num qualquer outro dia.

Escolhi um poema de Vasco Graça Moura, um excelente tradutor de clássicos, um poeta e romancista de valor, mas com essa pecha de se perder, politicamente, na defesa do PSD e dos seus barões e demais populaça.

Necessariamente, ninguém é perfeito:

“o meu pai está em leça da palmeira, lá perto do farol da boa nova,
num cemitério varrido pela nortada e pelo cheiro a maresia,
não longe das melhores coisas do siza vieira e de lugares do nntónio nobre,
não longe da petrogal e dos seus grandes cilindros metálicos,
não longe do lugar onde nasceu, numa casa depois demolida para as obras de leixões

quando ele era pequeno, um dia a mécia de sena trouxe
uma fotografia,
cedidda por um amigo comum, de um renque de casas junto ao mar.
fiquei com uma ideia da casa dos meus avós na leça de fins
do século
e de como o mundo é ainda mais pequeno do que eu imaginava.
agora o meu pai já só escuta o ronco da sereia e as buzinas
do nevoeiro,

e passa-lhe por cima, em cadências regulares, um facho de luz
rasgando a noite.
agora já não vê as banhistas a menearem-se entre o sol, a areia e a água,
nem diz “olha aquela é muito potável” com um riso que sempre
irritou a minha mãe.
agora fiquei eu com a integral do balzac que ele passava a vida a ler,
e faz-me a maior das impressões que ele esteja para ali sem livros,
sem o Eça, sem nós todos.

o meu pai morava ali perto, no silêncio das luas já não sabe onde
era a sua casa.
a gente passa nos dias do costume a deixar-lhe flores e algum
recolhimento,
ou então um de nós diz “fui com a mãe pelo cemitério”, sem falar
no nome dele.
isso não é uma rasura, mas um sinal mais forte que perturba
a densidade das palavras,
porque o meu pai tinha os olhos muito azuis e essa cor às vezes
fica ali no mar.”