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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

quinta-feira, 12 de março de 2026

ARCO-ÍRIS


 Poema de Raul de Carvalho dedicado a Vasco Granja, patente na Exposição «Olá Vasco Granja».

Legenda: fotografia de Rui Ornelas.


quarta-feira, 26 de março de 2025

O EXACTO BEM

Só se deve sonhar em comum.

 

O pensamento não cinge, converte.

 

É preciso despegar a alma das fibras dos sentimentos.

 

Abominar a realidade, mas não lhe fugir.

Ter documentos móveis e instantâneos, que se envolvem e decifram.

Ser um gato, parado ao sol, que abre de vez em quando

                                 uns verdes olhos, cheios de cambiantes.

Calar o medo e o pavor.

 

O que sobra de nós, fica nos outros. Que o repelem.

O constrangimento revela a diferença e a suspeita.

Nenhum entendimento entre a água e a pedra.

 

É preciso somar os minutos inconformes. E atirá-los à cara

                                                            do primeiro transeunte.


Dominar – a correr – a imaginação. Causa de tantas mortes.

 

                                                         14 de Fevereiro de 1969

 

Raúl de Carvalho  em Um e o Mesmo Livro

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

CORAÇÃO SEM IMAGENS

                       Ao António Ramos Rosa

 

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta
ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas e mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

 

Raul de Carvalho de Cântico em Poesia

segunda-feira, 4 de março de 2024

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho em Poesia

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

TAMPO VAZIO

Palavras

Como me mandam sempre

fazer o que não sei…

encho-me de pavor por não saber…

Penso depois que o necessário é preencher o tempo…

É o que tenho feito.

De qualquer amneira…

De todas as maneiras.

Âs vezes penso que é bom trabalhar para os outros…

Que isso nos traz um grande alívio.

Que, enquanto temos o espírito aocupado

com o que sobra ou enche o espírito dos outros,

nos vamos iludindo, esquecendo…

nos vamos apoiando.

Penso que precisamos, todos de apoio.

Que, se Deus nos falta, falta-nos tudo.

E que é compreensível recorrer,

de vez em quando,

à estricnina.

Penso que, de manhã, se está, geralmente, mais desperto.

Que é hora melhor para iludir compromissos.

Para esquecer que se acordou, e temos…

Penso várias e uma só coisa ao mesmo tempo.

Penso que tenho tido pouca sorte mas que assim era preciso.

E se ouço passos, tremo…

Penso que gostaria, tanto!, de ler um livro…

sem pensar em mais nada.

De ajeitar, delicadamente,

O lenço a minha mãe.

De viajar.

Penso que a vida nos reserva grandes coisas,

e que que ainda estais a tempo…

Dou por mim a pensar de outra maneira:

que  nunca chegaremos ao fim,

que não sabemos se queremos lá chegar,

e que, se a vontade nos escapa, temos vontade de tudo menos

     de morrer.

Porque algo, um pequenino motivo inconsciente, uma parte,

      minúscula, do nosso destino,

Precisa atravessar as trevas, e viver!

Penso muitas vezes se acaso ser poeta não será outra coisa,

e que os versos que escrevo bem pode ser que estejam

me enganando…

há forças que não sei explicar.

No que sempre acredito, divido sempre – observo-me – estou

       sempre de pé atrás…

também eu, é verdade, senti deslumbramento

pela variedade multicolor dos canteiros,

pelos reflexos e mil jogos de cor da luz sobre a folhagem…

parecia-me que a beleza perdoava tudo e a tudo conferia

     majestade.

Hoje penso que não: que adoeci, que fui envelhecendo, que

     há poucos livros úteis, que para sobreviver, temos de

     trabalhar… e o trabalho sem amor mata.

Não penso já no amor, pendso na morte.

Não na morte que a todos nos espera, a um canto do mundo,

     a um momento  não na morte final estou pensando

     agora.

Agora e a toda a hora penso na diária morte que atravesso

      e se atravessa em mim.

Nessa, sim, é que eu penso; irremediavelmente.

Porque a outra morte tem remédio ou, se o não tem, paciên-

      Cia…

Esta, sim é que custa.

É que custa a carregar todos os dias,

peso morto.

Peso morto em que penso

sobre o tampo limpo.

Limpo e vazio.

Raul de Carvalho em Tampo Vazio

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

PASOLINI FOI DENUNCIADO...

Pasolini foi denunciado a um padre – Ah! essa velha invenção do confessionário… - de ter relações sexuais com um aluno seu. Sofreu-lhe as consequências: foi depois disso, desse episódio maligno que a Santa Madre Igreja recomenda aos rapazes, ficou desempregado. Ora, interessante para mim era saber o que pensa X um padre e intelectual de vanguarda com fama de progressista, homem inteligente, frugal, doutor honoris causa, acerca desse velho e desfavorecido problema. Será… será que S. M. I. não vê nisso – ou deixou de ver – ameaça ao seu bordel nupcial? Dois padres eu conheci que – nunca mo disseram – estavam, os dois, longe o bastante dessas quezílias. Mas o Bispo de Braga, o Bispo-adjunto de Aldegundes, o coadjunto de Bucelas, o próprio Cardeal bem bonito em novo, o padreca lá da terra – dizem que foder em comum só entre os animais, e, caso estes sejam masculinos, o que devem é apagar as luzes e não sujar os lençóis… Bem, por entre o quadriculado da tampinha que desce e sobe, entre ais e gemidos do padre António espanhol (apanhado em flagrante no eucalipto e que, como era altíssimo, apertava as pernas dos meninos entre os joelhos), tudo isso conta: o estar na tropa é uma atenuante de peso. Nos corredores do Vaticano, nas colunas do Osservatóre, nas ante câmaras e penumbras do Sacro -: será que assim seja, ámen seculorum ámen? As putas do Bairro Alto, bem como os marinheiros de Alfama -: hão-de pensar que, assim, a Madre Igreja não se governa… E que toda a governação eclesiástica é veste clerical sem princípio nem fim, sem justeza moral.

Raul de Carvalho em Mágico Novembro 

quinta-feira, 28 de abril de 2022

VINTE E QUATRO HORAS

Eu vos digo que é tarde, demasiado tarde

Para principiar

A exercer a justiça;

O número dos mortos já excede

O tamanho da terra

E há corações para os quais

A esperança já não passa

De um nome, de um nome como qualquer outro…

 

Eu vos digo que já não temos tempo

Senão para a vingança.

 

Raul de Carvalho

(31.XII.1955)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

AMIÚDE

No vale dos afectos
ninguém está seguro:
mingua a lembrança,
Esquece-se o rosto,
Retorna-se ao eu,
Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a
presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo –
 
E apenas as pequenas ilusões
- um café, o cigarro, a limonada –
Imitam dois corações unidos…

Raul de Carvalho .

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

TODAS AS HORAS


Todas as horas, todos os minutos,
São para mim a véspera da partida.

Preparo-me para a morte, como quem
Se prepara para a vida.

Em qualquer parte eu disse que a Beleza
Não nasce só mas sim acompanhada.

Não são palavras minhas as que eu digo.
À minha boca pertence aos que me amam.

Mudos e sós.
À nossa volta todos os amantes
Sentir-se-ão tranquilos.
Um coração puro
É como o Sol:
Brilha todos os dias.

Raul de Carvalho

Legenda: desenho pintado por Aida Santos

sábado, 30 de maio de 2020

ROSA QUE NÃO ÉS DO POVO


                                              (Depois de leres Carlos Drummond de Andrade)

Chegou a hora
De ir casa um
Direito à casa
De cada um

Chegou a hora
De calmamente
Por fora – e dentro
Mais rijo e louco
Do que um trovão
Pedir à hora
Que já chegou
Que deixe que
No seu regaço
De esposa pobre
Se deite e aqueça
O coração de cada um

De pois – o mais
Que acontecer
Tudo se passa
Nos desvendados
Balcões de sonho
Onde meditam
Chegada a hora
Ninhos e anjos
Pedras e vícios
Coisas formosas
E outras bem menos


Tudo se perde
Tudo se ganha
Quando aflita
A hora vem
Pé ante pé
Lembrar que o campo
Do coração
É sempre ou quse
Sempre mais móvel
E mais molhado
Do que outras praias
Outros vergéis
Outros clarins
Outros sinónimos
De claramente
Ir pressagiando
Que tudo isso
Milagre ou crime
No fim se escapa
E se mistura
Chegada a hora
Chegada a hora

A luz acesa
O mar defronte
A testa baixa
O corpo doído
O sonho às voltas
E às avessas
A vida aqui
Tão mastigada
E tão comprometida
Que a gente pode
Dizer que não
À vida
As magras mãos
Magras se estendem
E – regressadas
As mãos se cruzam

Estamos lúcidos
A hora passa.

Raul de Carvalho em Um e o Mesmo Livro

terça-feira, 22 de maio de 2018

CALIGRAFIA


Aos hábitos me ligo. Os hábitos não têm porventura outra virtude senão essa:
a de convergir para a existência do nada.
Se, por exemplo, escrevo como quem desenha caracteres chineses para mim
                                                                                                     obscuros,
se me detenho (agora) no uso do não-uso, vulgar, duma letra,
se a circunscrevo, então, meditativamente, dubitativamente e com cautela, -
é porque tudo para mim me habitua a duvidar de mim. Menos os hábitos.
Porque neles é que eu me reconheço. Não me conheço em mim.
E dão-me – por momentos e reconfortantemente – a sensação de que escrevo
por linhas eternamente finas, delicadas, precisas,
toda a incerteza de que me constituo…
toda  a miséria dos meus olhos fechados.

Por isso aos hábitos recorro. Até ao hábito de gostar de ti.
Sem outra companhia que não seja
o não saber viver doutra maneira.

                                             Lisboa, 21 de Outubro de 1970

Raul de Carvalho em Um e o Mesmo Livro

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 3 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS



Poemas Escolhidos

João Cabral de Melo Neto
Selecção: Alexandre O’Neill
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 9
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ESOTERIA


Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas?
                                     não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez… O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.

Raul  de Carvalho em Um e o Mesmo Livro

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Um e o Mesmo Livro

Raul de Carvalho
Capa: F.C.
Colecção Forma nº 19
Editorial Presença, Lisboa, 1984

Vinte Quatro Horas

Eu vos digo que é tarde, demasiado tarde
Para principiar
A exercer a justiça:
O número dos mortos já excede
O tamanho da terra
E há corações para os quais
A esperança já não passa
De um nome, de um nome como qualquer outro…

Eu vos digo que já não temos tempo
Senão para a vingança.

                                                        31 de Dezembro de 1955

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tampo Vazio

Raul de Carvalho
Colecção Círculo de Poesia
Moraes Editores, Lisboa, Dezembro de 1975

Recortar

Talvez eu consiga
mediante empregos
de secreta origem

Chegar à absoluta
fase da absoluta vertigem.

sábado, 26 de setembro de 2015

CONVERSA A SÓS


Olha, Mila, a montra está cheia
de chocolates pequenos.
Talvez o Pessoa tenha escrito aqui
a Tabacaria.
Talvez vão dizer que está tudo dito
e o mais que eu mostro é habilidade.

Talvez que um dia, como tu dizes,
as escolas me recebam de novo
e eu aprenda verdadeiramente
como se diz amor em inglês.

Olha, Mila, para falar a verdade
eu estou muito esquecido dessas coisas
e todos os livros que li sobre a memória
não me deram memória nenhuma.

Para imitar o Pessoa, digo:
Precisamente neste momento
entrou aqui um jovem e pediu: - Licor!
Isso prova
que o amor é diferente para toda a gente.
Isso prova que o sangue do jovem não chega
para que ele se sinta cheio e à vontade.
Isso prova que os chocolates, os bolos e o resto
são medíocres formas de entendimento mútuo.

Olha, Mila, entre os medos que me assaltam e eu cultivo,
o principal é que a minha mãe já não goste de mim.
Sabes, nunca li com vagar o Álvaro de Campos
porque aquilo era demasiado meu para ser dele.
Porque as multiplicações dele
são as minhas multiplicações.
Porque nunca pus o ouvido à escuta
que não sentisse tudo calado à minha volta.

Porque não é fácil escrever poemas
quando os poemas são difíceis de roer.
E é mais fácil esconder a vergonha
do que a loucura.

Olha, Mila, se a poesia não está nos versos
também não está aqui.
O mais que a gente pode
é pedir que ela venha
e, quando chega,
pôr mais um prato e um talher na mesa.
Entretanto todos os sonhos são bons,
porque são inúteis.

Entretanto, o palhaço de corda recorda
o infeliz voo do Álvaro e dos outros.

Amanhã, que é domingo,
diremos: passou mais uma semana.
A máxima felicidade nossa
será ficar todo o dia na cama
sabendo que o sol, lá fora, é violento
e nos odeia.

Olha, Mila, todas as coisas continuam certas
quando a certeza nos abandonou.

Há quem tenha a voz muito alta
e tanto que basta-lhes falar
para que todas as distâncias os ouçam.
Nós, não.
Nós não sabemos escrever à máquina,
não escrevemos nem lemos as cartas
dos outros, que cruzam o Mundo.

Por isso é que os patrões nos pagam por esmola,
a angústia não é fingida, e amamos todos por obrigação.

Por isso é que a gente nunca sabe
quando fala verdade,
porque, para ser nossa, a verdade é mentira.

Olha, Mila, eu não me importo nada
que digam que o Pessoa
esteve comigo, hoje, nesta pastelaria;
que tenhamos nascido os dois no mesmo sítio,
um sítio onde se nasce por imoralidade.
E que tudo o que ele não viu
- praias, pontes, cidades e navios -
tenha querido agora
inundar o poema.

Não julgues, Mila,
que senti alegria
em calar-me!


Raul de Carvalho

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia

Raul de Carvalho
Portugália Editora, Lisboa, s/d

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.


Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humanidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios
e com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados t
odas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem serenidade,
 com o país veloz e virginal das ondas,
 com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

Vem, serenidade,
com a paz e a guerra derrubar as selvagens
florestas do instinto.

Vem, e levanta palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.

Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.

Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados,
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.

Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.

Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
 para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!

E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
 no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.

Vem, serenidade,
para que não se fale
nem de paz nem de guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.

Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.

Vem com as meretrizes que chamam da janela,
volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.

Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.

Vem serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vício de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.

Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
 mais húmida que a pele marítima da cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
 mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem serenidade,
para perto de mim e para nunca.

……………………………………………..
De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu peço como quem pede amor:
Vem serenidade!

Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.

Vem serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gáz
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.

Vem, serenidade,
leva-me num vagon de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.

Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.

A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à polícia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade.
Vem, serenidade
e leva-me contigo.

Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.

Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem serenidade
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.

E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da Índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retrácteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com a tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente

Serenidade, és minha.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

NADA DE INÚTEIS PALAVRAS


Nada de inúteis palavras apenas proferidas pela língua.
O riso deve ter um alvo.
A lágrima deve ter um rio comum onde se deite e corra.
A raiva deve adormecer satisfeita.
A crítica deve atingir os seus fins.
O sono deve acordar a tempo.
O sonho deve saber onde está e o que quer.
E dividir com alguém o sacrifício, a aespera,
       a desilusão, a esperança, o receio
      da morte e o caminho da vida.
As palavras devem permanecer juntas e unidas
       no coração dos homens:
Aqueles que estão prontos
A, não acreditando nelas,
Serem capazes de morrer por elas.
E pelos outros

                                  6 de Agosto de 1970



Legenda: fotografia de Paulo Nozolino.