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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nos quatro anos de casados nunca ninguém foi tão feliz: Orson chamava-lhe «angel girl», «queridíssima bebé», dizia-lhe «és a minha vida, a minha verdadeira vida» ou «que o sol ande mais depressa para eu poder voltar a ver-te» quando não estavam juntos, e assinava «o teu rapaz».

Apetece ser assim, lamechas, sentimental à «outrance»; afinal é tão breve a nossa vida breve.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra.

Legenda: Rita Hayworth e Orson Welles

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Um dia único.

Manuel S. Fonseca avança que foi o dia mais feliz de todo o século XX.

Um livro desopilante, com coisas, algumas incríveis, outras que já quase não nos lembramos:

«Nem mais um soldado para as colónias! Nem mais uma freira para o céu!»

«Portugal fora da NATO, NATO fora de Portugal»

Slogan da UDP

«Imperialismo só há um, o americano e mais nenhum.»

«O voto é a arma do povo: não votes se não ficas desarmado.»

«Em Belém, qualquer porco fica bem!»

Pichagem em Benavente,

«Companheiro Vasco nós seremos a muralha de aço»

«Os ricos que paguem a crise.»

«As putas ao poder, os filhos já lá estão.»

11 horas da manhã desse tal dia.

«O povo enche as ruas e aclama os soldados. Uma mulher , Celeste Martins Caeiro, empregada num self-service que ia oferecer cravos às suas clientes pelo primeiro aniversário, mas não chegou a abrir nesse dia, voltava para casa com um molho de cravos. Um soldado pede-lhe um cigarro, que ela não tinha. Dá-lhe um cravo, «se quiser tome, que um cravo oferece-se a qualquer pessoa.»

No Natal desse ano o jornalista Manuel de Azevedo decretava, na última página do Diário de Lisboa, que o Natal era de Esperança.

Depois, depois houve alguém que se enganou e como cantou o Chico Buarque estragaram-nos a festa.

OLHAR AS CAPAS


 25 de Abril: No Princípio Era o Verbo

Manuel S. Fonseca

Ilustrações: Nuno Saraiva

Capa: Ilídio J.B. Vasco

Guerra e Paz Editores, Lisboa, Março de 2024

O 25 de Abril foi catarse e foi delírio. Nesse dia, Portugal viveu um dos seus dias mais felizes, senão o mais feliz de todo o século XX. Num dia de amor à primeira vista, em que o povo beijou a boca dos seus soldados, e fez jardins de cravos na ponta das espingardas, de alguma forma exorcizando a céptica e inelutável máxima do ditador Mao Tsé-Tung, nesse dia de amor à primeira vista esboroou-se o regime de partido único (ou de partido nenhum, na verdade) que acinzentava o país e bloqueava a liberdade: liberdade de ler, de falar, de viajar até, liberdade de rompermos com uma imposta e impostora solidão, tão orgulhosa como patética. Um sobressaltado Salazar deu, nesse dia, uma desconfortável volta no seu túmulo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Era uma vez um fanático do passado que sonhou um país, depois o sonho morreu e foi ver filmes.
Ser fanático do passado é uma opção da qual não posso abrir mão. Ser fanático do passado é ser fanático daquilo que nos construiu. Não para um regresso ao passado, não por uma nostalgia que se fecha sobre si própria, mas por ser um processo de construção.


Manuel S. Fonseca

domingo, 2 de novembro de 2025

CRONICANDO POR AÍ


«Gosto tanto do Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.

O Eduardo, como foi hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos nestes túmulos do que amigos aqui fora.”

Não sou muito de me agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25 de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H. Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.

Eu já podia fazer um rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no Lincoln Center.

Os meus mortos. Tu, Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês, entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram  os vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers, que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.

Não sei o que diga aos meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II, que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu tenho deles.

Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

domingo, 28 de setembro de 2025

À LUPA


A crónica da Página Negra de Manuel S. Fonseca fala de tiros e mais tiros, que vão desde o tiro que matou um rei em Portugal, o tiro que matou Kennedy, alguns mais, mas o final da crónica é delicioso mais que suficiente para que A Lupa o não apanhasse:

«Podia falar do atentado a tiro contra Lenine. Mas não, falo da sua segunda morte. Havia um frequentador da Cinemateca, que era a pálida cara chapada do primeiro ditador soviético. Tão doce como pálido, viveria com uma sopa por dia e a pobreza de um Bartleby, um obsessivo amor pelo cinema. Chamávamos-lhe Lenine, e um dia, como alguém dirá de nós outro dia, olha, morreu. A Antónia, minha augusta mulher, entra a chorar no gabinete do João Bénard: «Morreu o Lenine.» O João, sabedor das inóspitas inclinações políticas da Antónia, espanta-se: «Ó Antónia, o Lenine já morreu há um século.» E logo a Antónia, em choro convulso: «Não é esse. Morreu o nosso Lenine.» Não há tiros no silêncio do cinema.»

terça-feira, 16 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Não falar a língua é a primeira janela virada para a solidão, confirma o austríaco Billy Wilder que tanto havia de filmar Marilyn: olhos, lábios, seios, nádegas e pernas, e nunca por esta ordem, reconhecendo ao corpo dessa extraordinária mulher uma solidão que mais ninguém tão bem lhe reconheceu.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra 

sábado, 13 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Vejamos: há o fio da navalha. E a nossa vida é ir, pé ante pé, por esse fio. Mas, o que nos faz cair para o lado bom ou mau do fio da navalha? Que grão de areia ou leve sopro de vento nos balança para o lado do santo ou o lado do jagunço?

Manuel S. Fonseca


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

POSTAIS SEM SELO


Há fio da navalha. E a nossa vida é ir, pé ante pé, por esse fio. Mas, o que nos faz cair para o lado bom ou mau do fio da navalha? Que grão de areia ou leve sopro de vento nos balança para o lado do santo ou o lado do jagunço?

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

sábado, 21 de junho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Às 02,42 horas começou o Verão.

O Ruy Belo adorava o Verão, eu nem por isso. 

Fico-me com as restantes estações do ano e fico bem.

O Cesare Pavese escreveu que  «a gente sente-se não sei como quando sai e vê as mulheres com vestidos de Verão.»

Seguindo o calendário, dir-se-á que a Primavera acabou ontem.

Por um Março de 2019, Manuel S. Fonseca saudava assim a chegada da Primavera:

«A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas, nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

 

Gosto:


Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.

Do teu decote.

Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.

De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.

Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.

De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.

Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.

De um dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.

Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.

De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.

Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.

De risos e beijos.

Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.

Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.»

sábado, 1 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Sim, registamos com um sorriso complacente a mão de Emmanuel Macron no braço de Donald Trump e a interrupção a corrigi-lo: “Não, querido Donald, não foram os Estados  Unidos, foi a Europa quem mais ajudou a Ucrânia: 60% de toda a ajuda.”

Foge o tempo e amanhã já o mundo se terá esquecido desse reparo de menino espertíssimo ao pai senil.

Do que nunca nos esqueceremos – pelo menos eu – é de uma canção que nos tenha feito estremecer de vida e desejo. “The first time ever I saw your face” é essa canção. Clint Eastwood sentiu, ao ouvi-la, esse estranho tremor cardíaco a que chamamos emoção. Ligou à cantora desconhecida e pediu-lhe a canção para um filme. A cantora, incrédula, desmaiou. Quando acordou, “The first time” era um êxito galáctico. A cantora morreu agora, aos 88 anos. Era a portentosa Roberta Flack: till the end of time my love.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Lembro-me de um tipo, não sei se era Locke ou Hobbes, de quem o Eduardo Prado Coelho dizia que a sua maior obsessão era o medo. A minha é a felicidade. Sobretudo agora, que já estou velho de mais para ser outra coisa senão feliz.

Manuel S. Fonseca

Legenda: Manuel S. Fonseca

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Há poucos homens que saibam amar as mulheres e merecê-las.

Agustina Bessa-Luís, lembrada por Manuel S. Fonseca

domingo, 1 de dezembro de 2024

OLHARES

«Quando penso no ofício do actor volta-me o medo das duas da tarde, no Teatro da Trindade com o Senhor Gutkin. Mais depressa andaria numa montanha-russa no escuro do que quereria fazer a assombrada visita ao interior de um actor.

A questão é mesmo essa: será que se pode ver um actor por dentro? Como se faz? Sobe-se uma escada, abre-se-lhe a boca e olha-se para o escuro que está lá dentro? Quantas mulheres e quantos homens é que estão no quarto escuro, sem janelas, da Greta Garbo? Seria por isso, por estar tão acompanhada, que ela dizia, num filme, o “Grand Hotel”, que queria ficar sozinha, aquele seu célebre “i want to be alone, i just want to be alone”?

Dizem que há uma oficina em que os actores aprendem. Nessa oficina o actor descobre a maneira do corpo pensar por si próprio, acabando na aparência com a tirania da mente.  

Será? Ouvi Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, contar outra história. Laughton terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.”

Charles Laughton, que quando abria a boca se lhe via uma oficina inteira por ali abaixo, percebeu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente como uma criança, mas uma criança cujo corpo pensasse com a inocência animal de um gato.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


Cada vez mais curto o naipe de estrelas de Do Fundo do Coração, maravilhoso filme de Francis Ford Coppola.

Teri Garr partiu a 29 de Outubro deste ano, Raul Julia a 24 de Outubro de 1994, Frederic Forrest a 23 de Junho de 20123. Resta Nastassja Kinski.

Muito ao seu estilo, Manuel S. Fonseca lembra Teri Garr:

«Começo esta crónica em regime de pura gatunagem. A frase é de Pauline Kael e o que Kael disse foi isto: “Esta é a mais cómica, neurótica e desorientada senhora do ecrã”. Estava a falar de Teri Garr, mulher que eu amei, de baba e ranho, no “One From the Heart”, do saudoso Coppola.

Mel Brooks, o realizador de “Young Frankenstein”, uma daquelas comédias que, de tanto nos fazer rir, temos a tentação de desvalorizar, quando a convidou para o filme, estava cheio de dúvidas que partilhou com Gene Wilder o actor principal: “Ela é deliciosamente linda, mas será que sabe representar?” Gene foi cortante: “Who gives a shit?”, que em bom português quer mais ou menos dizer “Estou-me bem a cagar”.

E agora quero dizer uma coisa elegante. É verdade que Teri Garr tem uma incrível beleza, mas é uma beleza que, apesar da pele brilhante, apesar do sorriso radioso, apesar do porém do seu colo suave (e já lá irei), é, dizia eu, uma beleza que ela embrulha num celofane auto-depreciativo, como se nos estivesse a dizer “caso não percebam que o melhor de mim tem um sabor de especiarias e entontece como um dry-martini, então tomem e embrulhem”. Só a prodigiosa Shirley MacLaine foi capaz de tanto desprendimento: mesmo Nossa Senhora de Fátima tem a sua beleza em mais auto-estima do que Teri a que Deus lhe deu.

E voltemos ao colo de Teri Garr. Antes de fazer a audição para o papel de Inga, a assistente de laboratório de “Young Frankenstein”, Teri olhou-se ao espelho e viu que o seu peitinho era de relativa irrelevância, atendendo ao que deveria ser o pulposo seio de que um verdadeiro cientista gosta. “Caramba, não vou perder o papel por causa das mamas”, pensou. Como é que eu sei que ela pensou isto? Sei. E ainda estou a ver Teri Garr a caminhar para os armazéns da Woolworth, onde se não estou enganado comprei um colchão (ou pelo menos uma almofada) para o minúsculo quarto-kitchenette-wc em que vivi por três meses em Los Angeles. Saí com um colchão, Teri com lenços e peúgas. Aconchegou tudo sob o sutiã, em íntimo convívio com o acetinado e túmido da sua natureza (como é que eu sei? memória minha do fugaz nu com Raul Julia no “Do Fundo do Coração”), fazendo questão em explicar-nos: “As pessoas espatifam milhares de dólares em cirurgias às mamas. Por cinco dólares no Woolsworth fiz a minha: foi dinheiro muito bem gasto”.

Teri começou bailarina nos filmes de Elvis Presley. Foi um cometa a iluminar cenas de filmes como “Os Encontros Imediatos”, de Spielberg, o “After Hours”, de Scorsese, o “The Conversation”, de Coppola, o “Tootsie”, de Sidney Pollack. Sabia dançar – adorei-lhe libidinosamente as pernas no “One From the Heart” – mas sabia sobretudo enternecer.

Nesse “Do Fundo do Coração” deixa o namorado, o Frederic Forrest, preferindo deslizar para uma aventura sexy e selvagem com Raul Julia. Um desolado Frederic vem ao aeroporto para a convencer a ficar: implora, promete e ela já vai a entrar na manga com o amante, quando, último recurso, Frederic começa a cantar o “You’re my sunshine, my only sunshine”.»

Frederic canta maravilhosamente mal, um horror de ternura, um sentimento de perda do quinto dos infernos. Teri pára, no grande plano dela vemos então um carinho deliciado pela amorosa humilhação daquele homem. Como quem diz, e não sei se diz mesmo: “Oh, que querido”. E depois continua, em direcção à aventura, ao lado amante que promete fazer-lhe as coisas, em cima ou em baixo, que ela anda com vontade de experimentar.

Teri Garr foi agora mesmo lá para cima, experimentar as coisas que já não pode ter cá em baixo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Num dia triste para a América, num dia triste para o mundo, deu-me para ir ao Outro Lado as Estantes buscar um importante documento.

Os catálogos do ciclo O Musical trabalho conjunto da Cinemateca Portuguesa e da Fundação Calouste Gulbenkian, em que de 20 de Dezembro de 1985 a 27 Março de 1986 foram vistos 180 filmes.

O catálogo são quatro volumes metidos em duas caixas, com cerca de 2.000 páginas.

«A expressão  «Cinema Musical adequa-se a qualquer filme (antes ou depois do da invenção do sonoro) em que a música tenha tido um papel importante», João Bénard da Costa dixit.

PRIMEIRO VOLUME

Tem o título de Aberturas com  intervenções de Carlos de Pontes Leça, João Bénard da Costa, João Paes, Luís de Pina, Miguel Esteves Cardoso.

SEGUNDO VOLUME

Titulado com Libretos, com intervenções de João Bénard da Costa. Manuel S. Fonseca, João Lopes, João Gabriel Trindade dos Santos, José de Matos Cruz, José Manuel Costa, Luís de Pina

TERCEIRO VOLUME

Chamaram-lhe As Pautas e tem colaboração de Miguel Esteves Cardoso.

QUARTO VOLUME

Com o título de As Letras tem colaboração de João Bénatd da Costa

De cada volume fizeram-se 2.000 exemplares, há muito esgotados e que, provavelmente, não voltarão a a ter outra edição.

Quem gosta de Cinema, quem gosta de musicais, tem aqui a tudo e mais alguma coisa.

Não tenho memória do primeiro musical que vi. Quase de certeza deveriam conter os passos de magia de Fred Astaire, as pernas de Cyd Charisse. O último direi com  a certeza das certezas, e não só por ter sido visto há poucas semanas: One From The Heart, o mais grandioso filme, o sonho mais louco  de Francis Ford Coppola que o levou à falência.

A primeira vez que vi Do Fundo do Coração foi na magnífica sala do Apolo 70. Depois fui a quase todas as exibições que aconteceram na Cinemateca Portuguesa.

Diga-se que há dias morreu Teri Garr que não sei onde se juntou a Raul Julia um dos seus comparsas na noite fabulosa daquele 4 de Julho, amores conquistados, amores perdidos, amores reconquistados, tudo à volta da genial banda sonora de Tom Waits.

Não resisti à tentação de reproduzir a crítica que Manuel S. Fonseca escreveu para este catálogo com a alegria que é importante destacar  que a crítica seja parcial e entusiasmante.



Claro que nunca poderemos esquecer  que a América, de novo, foi capaz de eleger para presidente  um criminoso, um aldrabão capaz de tudo e de mais alguma coisa.

É isso que o novo ano trará ao mundo. 

Fatalmenete?

Lembrava José Pacheco Pereira: «As democracias não deviam permitir que alguém que é criminosos, que despreza as leis e a Constituição tenha condições para se candidatar».

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Eusébio, Coluna, o pequenino Simões, o Torres gigante desciam da escada do avião para a pista do Aeroporto de Luanda e uma alucinada onda de perfume descia com eles. Ainda não disse: quem vinha à frente era o senhor Otto Glória, brasileiro, com o seu crespo bigode mestiço, a impor respeito ao miúdo que eu era, talvez 12, 13 anos. O Benfica, o SLB desses anos, cheirava bem. O Benfica perfumava uma noite tropical, resgatava até uma noite colonial. Eu estava lá.

Já cá não estarei em 2050, mas o telepático futuro, em sussurro ou estrépito, vem contar-me à noite as coisas que hão de vir. De 2050, o maléfico futuro deu-me conta de elixires entorpecentes e de um Portugal apocalíptico.

Um spleen baudelairiano afligirá os velhos. Em vez de jogarem à sueca nos jardins e baterem uma camuflada manilha, atacam-se uns aos outros, numa nevrose inexplicável que uma cerrada e negra melancolia há de cobrir.

Os jovens de 2050, conta-me o xamânico futuro, estarão abúlicos, anémicos e anómicos. O sexo é fortuito, destituído de sedução, agora interdita, um sexo imparticipativo, obrigado à repetição de um mecânico vaivém, nem bem que entras, nem bem que sais, sem efusões ou magia.

O pesadelo é a regra de 2050. Os escritores soçobraram, perdido no tempo o segredo da esplêndida prosa, entregues à lamúria de quem ignora o mistério ou o engenho da alegria, o elixir da felicidade.

Toda a música é sonâmbula, e os coros estão proibidos – nos velhos e decrépitos auditórios, os raros espectadores entreolham-se com horror. Não há cânticos na rua, ninguém sabe já o que é uma mole humana unida à volta de um rubro estandarte, narinas sôfregas, mãos trémulas de sentimento, numa só voz a soletrar a vitória e a glória.

De onde vem essa decadência? Foi essa a patética pergunta que fiz ao profeta de 2050. Vi-o ganhar a dimensão do colossal Gulliver. O espírito da nação, gritou-me ele, afundou-se como o imemorial rio que seca. E acrescentou: tudo começou, abrupta, inexoravelmente, dez anos antes, em 2040.

Descubram, então, a labiríntica verdade que nem a mais astuta sociologia antecipou. Num tribunal, sentenciou-se um processo que o Ministério Público começara no remoto, mortalíssimo ano de 2024. Um caso de corrupção desportiva, que se arrastou por penosos e novelescos 14 anos. O réu foi, por fim, em 2040, apostrofado e condenado: era, diz-me o xamã de 2050, um clube de futebol. Condenado a baixar ao Hades que era a 4.ª divisão, o clube foi extinto. Dessa certeza jurídica nasceu, como o perverso Baco da coxa de Zeus, a caducidade e morte da fé de toda uma nação.

Ao primeiro vendaval de incredulidade, sobreveio o tufão da amargura. Um torpe ateísmo sentimental derramou-se como véu negro sobre os corações: todos os corações, o do rico e do pobre, mulheres, homens, as jovens raparigas de perna lábil e lábios rouge, os cândidos rapazes movidos a cerveja e a inescrutável e labiríntica testosterona. Uma inteira nação, os políticos, a Assembleia da República, as forças armadas, o inconsolável Presidente, mesmo o impávido jurista, uma inteira nação, repetiu-me ele, transformara-se numa gigantesca barata kafkiana, e de Dante imitou os nove ciclos do inferno.

O clube, confidenciou o xamã, era o mesmo desses rapazes que eu vira descer as escadas de um avião em Luanda, esses rapazes, Eusébio, José Augusto ou Humberto, que espalhavam fragrâncias na noite de África e nas tardes da Europa.

Sonho ou pesadelo, acordei. Não voltarei a escutar o inverosímil xamã: o futuro ou é glorioso ou nunca será. SLB forever!»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

Legenda: o velho estádio da Luz ainda em construção.

sábado, 21 de setembro de 2024

MORTES NOS FILMES

«Não gos­tava de muitas mor­tes nos fil­mes – “os cadá­ve­res não sabem representar”, explicou ele, achando que era um desperdí­cio e uma san­gria desa­tada cortar-se sim­ples­mente a cabeça à vítima.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

sábado, 17 de agosto de 2024

VELHOS RECORTES


Largamente já foi dito por aqui que sou um devorador entusiasta leitor de crónicas.

Lidas em jornais e revistas.

Quando publicadas em livro, compro.

Esta é um velho recorte do Expresso  (3 de Junho de 2011) que reproduz a crónica que Manuel S. Fonseca ali publicava.

A essas crónicas deu título: «O Cinema dá o que a Vida Rouba».

Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas.

Manuel S. Fonseca é proprietário da Editora Guerra & Paz e já deveria, como importante serviço público, ter reunido e publicado as crónicas que escreveu para o Expresso.

Talvez no Natal.

Digo eu!

terça-feira, 16 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos, bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim, se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”  Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as minhas iniciais acho que dá!”

Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia, mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.”

E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem devemos um precioso conselho: “Experimentem tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de fazer é arranhá-lo?!”

 É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e, de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa. É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na história.

O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do mundo, disse: “Se o mundo estivesse a acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!”»-

 

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra