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quarta-feira, 28 de maio de 2025

À LUPA


Que Nações Unidas? Que Direitos Humanos?

Gaza é o marco do nosso tempo.

As nossas crianças querem brincar e rir.

Não há solução militar.

Há muitos anos, um oficial israelita veio à aldeia e perguntou a um velho  desde quando aqui estava. E o velho respondeu: bem, Adão passou por aqui a ver se eu tinha visto Eva.

Palavras encontradas em Gaza Está em Toda a Parte

sexta-feira, 23 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


Gaza Está em Toda a Parte

Alexandra Lucas Coelho

Capa: Rui Garrido

Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 2025

Um palestiniano deixar a Faixa de Gaza é das coisas mais difíceis do palneta. E a faixa tem apenas 4º Km de comprimento por 6 a 10 de largura, com dois milhões de palestinianos lá dentro, há meio século controlados por Israel, há dez anos governados pelo Hamas. O que significa também para um estrangeiro entrar, agora, há obstáculos por for e por dentro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


«Trump tirou a limpeza étnica do armário mal chegou à Casa Branca, e Israel está com ele. Não só Netanyahu, os seus avatares de extrema-direita e o espectro partidário em geral, mas também dois terços ou mais dos israelitas. É o que dizem as sondagens depois de o Presidente dos EUA anunciar uma “Riviera do Médio Oriente”, com a remoção dos palestinianos de Gaza para sempre.
Dois em cada três israelitas abraçam a limpeza étnica. Pelo menos. Que fará a Europa?
Na pesquisa do Canal 12 da TV israelita, 69% dos cidadãos apoiam o plano (apenas 18% se opõem a ele, 13% estão indecisos). Na pesquisa do Canal 13, o apoio é de 72%. Na pesquisa do Canal 14, sobe para 76%. Não há notícia de políticos israelitas se oporem. Até entre opositores do governo, o “plano” de Trump foi descrito como “interessante” ou “fora da caixa”. Esbarrei no título de um deputado (do Likud de Netanyahu) que seria contra realojar os palestinianos no Egipto e na Jordânia. Corri a ler: era contra realojar os palestinianos... tão perto. Claro que entre a Gronelândia e Elon Musk o céu não é o limite, vi até um cartoon com o foguetão a postos. Mas ainda nenhuma sondagem sobre Marte. Uma pesquisa do Jewish People Policy Institute pouco anterior à das TVs mostrou que 7 em cada 10 judeus israelitas querem “os árabes de Gaza realojados noutro país”. Aqui na Terra. Ainda.»

Alexandra Lucas Coelho, Público de 15 de Fevereiro de 2025

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 3

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Ruy Belo, Alexandra Lucas Coelho, Hélia Correia, Siri Hustvedt,

                  Ha Jin, Hilary Mantel, Susana Moreira Marques, Haruki

                   Murakami, António Osório, Valério Romão,  Paul Theroux,

                   Teresa Veiga, Lina Wolff

Capa: Luísa Ferreira

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2014

O Retorno

Volta, volta

logo que possas.

E que o Sol

abençoe as tuas raízes.

 

Segue umas crianças,

acompanha, viva,

a sua alegria.

 

 Vê as árvores,

as que foram tuas,

esconde-te por trás

do velho mirto florido.

 

Não esqueças a Mimosa,

a tua cadela, linda,

companheira, com olhos

quase tão belos e doces como os teus.

 

Procura o nosso Tempo.

Pede-lhe que seja generoso.

Não te deixes desfazer:

Volta, volta serena.

António Osório

domingo, 21 de janeiro de 2018

TAMBÉM EU ACREDITO EM WOODY ALLEN


Por boas e más razões, Hollywood sempre foi um encantamento.

Só quem tenha andado distraído não verificou que aquilo é um mundo de glamour e horrores, de gente que se lava todos os dias e de trastes.

De há umas semanas para cá o que está na moda são os molestadores sexuais.

O assunto interessa mas há que dar-lhe o devido desconto com que sempre se deve olhar para Hollywood.

Sobre o assunto é importante ler um excelente texto de Alexandra Lucas Coelho subtilmente intitulado Eu Acredito em Woody Allen:

«Como incontáveis milhões de pessoas, cresci com Woody Allen. Não há nenhum cineasta, vivo ou morto, de quem tenha visto tantos filmes. E ouvi bandas sonoras, li peças, contos. Woody Allen é, em si, um cinema, uma cidade, uma escrita, um humor. Não sei se existe mais algum judeu nova-iorquino como ele, aliás, de certeza que não, mas todos os judeus nova-iorquinos receberam esse presente genial de passarem a ser ele, tal como o mundo tem muito mais graça por causa dele».

Recentemente, a sempre bela Catherine Deneuve solidarizou-se com as mulheres que foram abusadas sexualmente mas não deixou de declarar que não vale tudo:

«Vamos queimar os livros de Sade? Vamos qualificar Leonardo da Vinci como artista pedófilo e apagar os seus quadros? Retirar Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me sem voz e inquieta pelo destino das nossas sociedades.»

Perguntada sobre se alguma vez foi molestada sexualamente, Sharon Stone, a protagonista de uma das grandes cenas do cinema, soltou uma sonora gargalhada que diz tudo e… mais alguma coisa.

Entrando no campo da anedota, para além de outras à volta de Woody Allen:


Entrando no campo do humor:


Chega por hoje, porque o importante é o texto da Alexandra Lucas Coelho.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

UMA ESPÉCIE DE CONGESTÃO DO PLANETA


Vim a ler as primeiras dezenas de páginas de Depois do Fim de Paulo Mourão dentro de um comboio que avançava à chuva, com aquela melancolia dos comboios que avançam na chuva, não fosse 2016 já ter transformado a melancolia noutra coisa, numa espécie de congestão do planeta.

Alexandra Lucas Coelho no Público

sábado, 9 de julho de 2016

UM PAÍS À CUSTA DA OUTRA PARTE NÃO TER UM PAÍS


Escrevo de Jerusalém, onde uma parte das pessoas tem um país à custa da outra parte não ter um país, e nisto terem passado décadas, sem que o mundo, incluindo a UE, tenha feito algo decisivo. E à volta de Jerusalém só piora, mal se entra na Cisjordânia, e sobretudo em Gaza, onde é difícil entrar, e de onde sobretudo ninguém sai. Não conheço outro lugar do mundo onde tanta gente esteja presa há tanto tempo. Só a existência de Gaza devia ser a mais antiga vergonha da UE, ingleses e franceses à cabeça, como ex-colonizadores. Quem tem espaço para Gaza quando a UE está ocupada com a própria sobrevivência? Faz bem em estar, mas, se quero que a UE sobreviva para melhor, é também para que Gaza seja um assunto da UE: porque é um assunto da UE. Todos os palestinianos que conheço querem um país para deixarem de ser de país nenhum. Há uma diferença entre ser de país nenhum e ser do mundo. É a diferença entre a morte a vida, entre estar subjugado e poder decidir. A melhor razão para um país existir é que ninguém nasça reduzido a ser de país nenhum. Os meus grandes amigos palestinianos são uma família de Gaza, pai, mãe, três filhas, vi-as crescer. A única coisa que querem é: sair para o mundo.


Alexandra Lucas Coelho, Público 3 de Julho de 2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


E a gente chora porque quer agradecer, claro, dançar o que ele dançou, cantar o que ele cantou, contar como foi para nós, como fomos felizes por um instante, heróis por um dia, aquela noite em que um disco salvou a nossa vida, as noites em que afinal não morremos, as manhãs em que já éramos outros. Fazemos aquilo que os vivos fazem aos mortos: para os tornarem imortais, e para continuarmos vivos.

Alexandra Lucas Coelho no Público.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

V.S:T. & ETC


1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar, que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.

2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).

(4. Ele diria cartinhas, porque nisso é como os mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)

5. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro, tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora, é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.

6. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc — uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre, coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca, para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado, como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados: conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para os destruir.

7. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais; a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos ou ofertas aos críticos.”

 8. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre.

Alexandra Lucas Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Na habitual coluna dos domingos no Público, Não Ficções, Alexandra Lucas Coelho escreve sobre a morte de Vitor Silva Tavares.
Chamou-lhe & Obrigada,

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC





Eu estava no jornal. E de vez em quando precisava de ir ao meu quartinho buscar um livro ou qualquer coisa para trabalho. Quando lá chegava, deixando sempre as portas e janelas tudo aberto, tinha o quarto inundado daquela pretalhada toda, nomeadamente o Vítor Maria José, que limpava o meu quarto e era muito engraçado. Eu tinha um pequeno “pick up” de plástico Philips em que os tipos aprenderam a mexer, e como tinha aqueles discozinhos de 45 rotações da Bessie Smith, da Mahalia Jackson, chegava lá e estava tudo numa grande alegria a ouvir. Eu entrava, tirava as minhas coisas e ia-me embora.
Quem eram eles? Contratados. Como me viam lá às vezes a pintar coisas, um dia vieram com uma grande conversa. O que é que era? Quando acabava o contrato, para aqueles que não eram mortos – embora os contratos fossem muito continuados, mas a certa altura era demais, e eram obrigados a devolvê-los às terras de onde os tinham tirado –, o Estado tinha de arranjar uma camioneta. Juntava aquela gente toda e eles tinham uns paus com umas bandeiras, era um momento de grande alegria porque iam regressar. E então vinham-me pedir a mim para fazer as bandeiras. Andei a pedir pano de lençol por todo o lado e fiz um sol, estrelas, coisas assim muito berrantes, lindíssimas, fui mais considerado por essa gente do que qualquer Picasso ou Miró – espero que isso não apareça no jornal senão o Joe Berardo vai saber onde é que estão essas bandeiras e ainda apareço no Centro Comercial de Belém. De modo que fui encarregado das bandeiras da liberdade.
Um dia chego, e só lá está o tal criado do meu quartinho, muito triste, sentado na cama. “Epá, o que é que se passa? Então agora que vais embora é que estás triste?” Ele começa com uma grande conversa. O que é que ele queria? Levar com ele o disco de 45 rotações da Mahalia Jackson com o retrato dela na capa. Dei-lho.
Mas haveria alguma hipótese deste homem voltar a ouvir o disco? Algures no interior daquele “hinterland” deve estar um disco de Mahalia Jackson jamais ouvido. Mas tinha-o ele dentro do coração, do sangue, da cabeça. Levou aquilo como quem leva um pedacinho de Deus

sábado, 3 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC



Temos andado asaltitar pela entrevista que Alexandra Lucas Coelho fez a Vitor Silva Tavares e hoje, a Alexandra pergunta-lhe quantos cigarros fuma por dia:

Um maço e meio. Indo ao cinema de 15 em 15 dias, ou uma vez por semana, porque gosto muito de cinema, tenho com a minha companheira, que trabalha no aeroporto, um tipo de vida muito estreito do ponto de vista económico, mas com muito conforto. Comemos muito bem lá em casa, as coisas são bem escolhidas, cozinho bem, logo ninguém pode ouvir da minha boca qualquer queixume, coitadinho de mim que sou tão pobrezinho. Não me importo nada de ser pobre. Não trocava a minha posição de modo algum com o Belmiro ou o Berardo. Tenho pena deles. Se o Berardo ou o Belmiro perderem 25 tostões, ou dois euros e meio nessa noite eles não dormem. Ai eu durmo regaladamente.

Do que tenho um bocadinho de pena, e por isso, evito, é de ir a certas livrarias. Poderia ter a tentação deste ou daquele livrito, Evito e custa-me evitar. Eu que faço livros não tenho dinheiro para comprar livros. Mas tirando isso, não me custa nada viver como vivo.

Legenda: fotografia de Nuno Ferreira Santos, Público.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

V.S.T. & ETC



A jornalista pergunta-lhe:

Como conheceu o José Cardoso Pires?

Eu tinha vindo lá das Áfricas, em parte do jornalismo, no tal jornal “O Intransigente”, de Benguela, posto que tivesse outras profissões, fui para lá um aventureiro. E chego a Lisboa com a determinação, desse lá por onde desse, de nunca mais servir qualquer patrão ou fazer aquilo que não queria, de que não gostasse. Nunca mais. Disse o corvo e disse o Vítor. Pronto.


E regressei portanto para a minha função de pardal, que sou lisboeta tipo pardal. E para subsistir escrevia indistintamente ou contarelos para o “Diário Popular” ou pequenos textos para a “Crónica Feminina” ou crítica de cinema para a “Flama”, ou crítica de cinema para o então “Jornal de Letras e Artes”. E comecei a dizer “não” a uma quantidade de coisas. Empregos, por exemplo, publicidade: “jamais de la vie”. Não era comigo. E andava assim em pardal, saltitando daqui para acolá, palmilhando Lisboa como hoje – sou pedestre –, quando aparece uma proposta que era nem mais nem menos que ir dirigir a editora Ulisseia. 


A Ulisseia!, que era a editora que eu, enquanto leitor, na altura ainda com algum dinheirito para comprar livros, mais apreciava, com direcção do Figueiredo Magalhães, que ainda é vivo. Grande editor. Não me deve chupar nem à lei da bala, porque eu é que fui suceder-lhe, digamos. Mal sabe ele a admiração que tinha por ele, e mal sabe ele que ao suceder-lhe não tive outro propósito senão garantir àquela editora o mesmo nível cultural, artístico que o velho Figueiredo Magalhães tinha dado.


Ora o José Cardoso Pires estava ligado à Ulisseia, que era a produtora dessa publicação “sui generis”, espantosa que foi o “Almanaque”.
Quando chego à Ulisseia, meti condições que não dá para acreditar, porque eu não acreditava nada que de repente trocava os cem paus, ou os noventa paus, que me pagava o “Diário Popular” por uma colaboração, e de repente estava à frente, como director editorial, de uma editora como a Ulisseia. Era demais. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

V.S.T. & ETC


Em Julho de 2007, Alexandra Lucas Coelho fez a Vitor Silva Tavares, uma importante e lindíssima entrevista, enternecedora mesmo. Está lá tudo.

Chamou-lhe Resistência é a Palavra,

A entrevista foi publicada no Público de 7 de Julho e, mais tarde, incluída no volume & etc uma Editora no Subterrâneo.

Iremos acompanhar alguns excertos da entrevista e, naturalmente, começamos pela abertura:

É lisboeta “pardal”, de palmilhar a cidade a pé. Foi miúdo descalço na Madragoa, uma pobreza de se pôr o relógio no prego para haver sopa de hortaliça numa casa com 13 pessoas. É nessa casa que continua a viver, e o relógio ainda lá está.

Entre o prego e 2007, as aventuras dão para uma conversa que não acaba, a que ele vai tendo com os próximos, sem pensar em escrever memórias. A sua escola de jornalismo, muito antes do “Diário de Lisboa”, é a do “Intransigente”, de Benguela, onde também foi inspector de cartas de condução sem saber conduzir e mudou os nomes todas da cidade numa noite de subversão, o que lhe valeu ter um agente da PIDE à perna, de seu nome Delgado.

Partiu de Angola em risco de ser preso, deixando um 45 rotações de Mahalia Jackson a um contratado do interior que o levou para onde nunca mais terá sido ouvido.

De volta a Lisboa, distribuiu colaborações pelos jornais enquanto, ateu dos quatro costados, pintava Cristos que um “manager” vendia a conventos. Não sabe por onde andará essa extensa obra pictórica.
Depois convidaram-no a dirigir a editora Ulisseia, onde começou a publicar surrealistas portugueses, “nouveau roman” francês e obra de muita indignação para a censura. Os livros eram apreendidos, mas aparentemente a Ulisseia era mesmo para dar prejuízo ao dono, a Abel Pereira da Fonseca.

Gosta de coisas tão antigas como letras de tipografia e histórias a circular pela boca. De fazer coisas porque apetece, e porque tem de ser, e porque é assim. A porta aberta é para entrar e para sair, o importante é que esteja aberta.

Naetc não há lucros e há livros quando houver. Tem havido regularmente, e cá estão eles a toda a volta deste subterrâneo com pátio de azulejo antigo e escadinha de ferro, ali onde o Bairro Alto cola com a Bica, muito lisboeta.

domingo, 27 de setembro de 2015

O QUE VIEMOS AQUI FAZER?


Estacionas o carro em frente à praia:
- O que viemos aqui fazer?
- Visitar um morto.
Walter Benjamim chegou a Portbou no dia 26 de Setembro de 1940, depois de atravessar os Pirinéus a pé, fugindo aos nazis. Queria alcançar a América, onde ia trabalhar como investigador, mas a polícia espanhola não o deixou passar, deu-lhe apenas uma noite de o recambiar como judeu. Benjamim estava doente, sozinho e perdera tudo. Alojou-se numa pensão que já não existe. Tomou uma sobredose de morfina. Na manhã seguinte foi encontrado morto.

Alexandra Lucas Coelho em E a Noite Roda 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


O meu vizinho acha que o «Estado Islâmico» é uma criação de quem o armou, porque o mundo não é realmente governado pelos governos e sim por poderes paralelos, como o mercado de armas. E como explicar os voluntários vindos de todo o mundo, perguntei, lavagem cerebral, respondeu, porque as pessoas são fracas, vejo todos os dias aqui como é fácil manipulá-las, em meia hora vão atrás de alguém. E talvez porque eu continuava em silêncio, repetiu, as pessoas são fracas

Alexandre Lucas Coelho em Não Ficções no Público.

sábado, 2 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Sendo ateia e não acreditando noutra vida, sempre pensei que seria bom ter várias vidas nesta.

Alexandra Lucas Coelho

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


E o Natal, sempre o Natal, que fazer ao Natal.

Alexandra Lucas Coelho em O Meu Amante de Domingo

Legenda: pintura de Henri Malott

domingo, 28 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Meu Amante de Domingo

Alexandra Lucas Coelho
Capa: Vera Tavares
Edições Tinta-da-China, Novembro 2014

Num voo directo dos anos 1980 para o Verão de 2014, o primeiro risco é algum drone, algum míssil. Depois, cá em baixo, no último litoral da Europa, as multidões seguem a derrocada do banqueiro com negócios na China que, cumprindo a palavra da maga, foi forçado a uma caução milionária para evitar o desgaste compulsório de qualquer cadeia, sexo ora, anal, o diabo, Como só tinha dinheiro chinês em casa, o arguido despachou trezentos milhões de yuans num blindado para o Ministério Público. Entre uma mini e um pratinho de caracóis, os portugueses tentam conceber trezentos milhões de yuans. Alguns mudam de banco, outros compram um mealheiro. Numa aldeia do interior um marmanjo dá cabo de uma velhinha para lhe roubar o fio de ouro, com Raskolnikov, exactamente como Raskolnikov. É um Verão dostoiévskiano, continua o bombardeio a Gaza, encapuçados tomaram a Mesopotâmia. Mas resistiremos a Julho, e depois de Julho resistiremos. Estou decidida a isso, tenho de apagar um cabrão, manter-me em forma até lá. Costas, o meu estilo é costas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O MEU PAÍS NÃO É DO ORGULHOSAMENTE SÓ!


Em Novembro de 2013, com E a Noite Roda, Alexandra Lucas Coelho venceu o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.

Palavras de Alexandra Lucas Coelho, em Abril deste ano, aquando da entrega do Prémio:

Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.

E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.

Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo. Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.

Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho, porque só a perda é certa.

O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o Governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.

Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o Governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este Governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu Governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo.

Não devo nada ao Governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa, que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.

Este romance também é sobre Gaza. Quando me falam no terrorismo palestiniano confundindo tudo, Al-Qaeda e Resistência pela nossa casa, pela terra dos nossos antepassados, pelo direito a estarmos vivos, eu pergunto o que faria se tivesse filhos e vivesse em 40km por seis a dez de largura, e antes de mim os meus antecedentes, e depois mim os meus filhos, sem fim à vista. Partilhei com os meus amigos em Gaza bombardeamentos, faltas de água, de luz, de provisões, os pesadelos das meninas à noite. Depois de eu partir a vida deles continuou. E continua enquanto aqui estamos. Mais um dia roubado à morte.