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domingo, 28 de janeiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


 

Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, dclarei em família que iria começar a escrever poesia:

“Antes

De te sentares

à  mesa

lava bem

essas mãos”

 

Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2009

 

Legenda:  fotografia de Melanie Safka tirada do álbum Candles in The Rain, Setembro 1970. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

               João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

É preciso ter percorrido muitos e diversos caminhos de pedras para perceber quem nos acompanhou e ajudou a percorrer esses caminhos.

A morte de Melanie Safka, hoje conhecida, é o sabermos que andou ao nosso lado, a sempre quer saber o que fizeram às nossas canções.

Um texto já aqui publicado no Cais, constitui a nossa Viagem de Abril.

Nunca deixamos de pensar nos dias em que esperámos a queda da ditadura para, como Jorge de Sena, conhecer a cor da liberdade.

Agora que entrámos por Abril dentro, tornam-se nítidas, angustiantes  também, essas lembranças: as palavras, as longas conversas, as canções que nos acompanhavam os dias.

Aos 20 anos, partilhavam-se sonhos desmesurados: mudar a vida, transformar o mundo.

Acontecido Abril, não tardaram ventos trazendo outras brisas.

Brisas que traziam notícias dos que não queriam que as coisas fossem assim tanto, outros que fossem mais suaves e, por estas e por outras, desencontrámo-nos.

Mário-Henrique Leiria, que sempre foi um combatente por causas, daqueles que entenderam a Pasionaria quando  ela gritou : más vale morir de pie que viver em rodillas, num cair de tarde lisboeta, entre dois gins, dizia-me:

- Vê lá tu, que o Álvaro Guerra, deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...

Agora lembramos – os que se lembram, os que, ainda se querem lembrar,  que havia um país para construir, um país onde se pudesse viver com dignidade.

As palavras de Manuel Alegre, que já nos falavam de um País de Abril, poderia ser um outro qualquer mês, mas ele escreveu Abril.

Sorrisos de pássaros, canções de paz.

A Melanie Safka, já naquele tempo, a dizer-nos o que fizeram à sua canção.

Ainda hoje o diz:

Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Vê o que fizeram com a minha canção! É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos bem... e deram cabo dela. Vê o que fizeram ao meu cérebro, mãe! Puxaram por ele como se fosse um osso de galinha... e acho que estou a ficar meio louco, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção.

Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro dele. Quem me dera encontrar um bom livro. Se eu encontrasse um livro realmente bom, não teria que vir - nunca mais - cá fora, para ver o que fizeram com a minha canção.

Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes vou ficar rico, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Embrulharam-na em plástico e viraram-na do avesso, mãe. Olha o que fizeram com a minha canção!

É a única coisa que eu faço bem... e eles viraram-na de cima para baixo, mãe. Vê o que fizeram à minha canção!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

CRUISER A. PUSHKIN


Lembra-se de um verso, num poema de António Reis, «há sempre um rapaz triste em frente a um barco.»

Gosta de começos de livros e agrada-lhe muito o de «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de José Saramago, quando o autor revela que o «Highland Brigade», vapor inglês da Mala Real, que atravessava o Atlântico entre Londres e Buenos Aires, chegou por uma tarde chuvosa ao cais de Alcântara e dele desembarcou Ricardo Reis.

Ocorre-lhe a engraçada a história de Jorge Lima Barreto a explicar, no primeiro disco de Eugénia Melo e Castro, que lhe tinha sugerido o nome artístico de Eugénia C, porque se lembrava de um elegante paquete, que andava entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Gosta de ver, do alto das Janelas Verdes, os paquetes ancorados no cais de Alcântara e, não sabe bem porquê, cada vez que os olha, fica a trautear a «What have they’vedone to my song, Ma», da Melanie Safka «vê o que fizeram com a minha canção, ma!É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos bem... e deram cabo dela. Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro dele. Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes vou ficar rica» e vai pensando que um dia ainda há-de viajar num daqueles paquete».

Este disco tem a referência C92-13392, a etiqueta está em cirílico, mas a tradução, a fazer fé no que «Mr. Ié-Ié», algures lá para trás nas páginas do blogue escreveu, deverá ser «Melodia».
É um EP de 33 rpm, coisa pouco vulgar. Pensa que funcionava como «musical souvenir» para os passageiros que viajavam no paquete soviético «A. Pushkin» e é tocado pelo agrupamento musical de bordo, que animava as tardes e noites dançantes. Pelo menos é isso que as fotografias, publicadas na contra capa, sugerem.

São tocadas e cantadas quatro canções do folclore russo com a inevitável «Kalinka».

Conclui que é um disco de propaganda, pois não está a ver os passageiros do cruzeiro que, normalmente são gente do norte da Europa, com algum gosto, a interromperem o jantar de iguarias, regado a champanhe e glamour, para irem dançar a «Kalinka»., a não ser que estivessem muito bem bebidos. 

Hoje, ainda adormecerá deixando que «Trains, Boats and Planes» passem lentos pela imaginação a caminho de uma direcção que não consegue vislumbrar qual é. 

Como não encontrou nenhuma gravação do conjunto privativo do paquete russo, arrisca a canção que trauteia quando olha os barcos no Cais de Alcântara: Melanie Safka a cantar «Look what they’ve done to my song, Ma».



domingo, 18 de outubro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

O PAÍS DE ABRIL

 

Nunca deixamos de pensar nos dias em que esperámos a queda da ditadura para, como Jorge de Sena, conhecer a cor da liberdade.

Agora que entrámos por Abril dentro, tornam-se nítidas, angustiantes  também, essas lembranças: as palavras, as longas conversas, as canções que nos acompanhavam os dias.

Aos 20 anos, partilhavam-se sonhos desmesurados: mudar a vida, transformar o mundo.

Acontecido Abril, não tardaram ventos trazendo outras brisas.

Brisas que traziam notícias dos que não queriam que as coisas fossem assim tanto, outros que fossem mais suaves e, por estas e por outras, desencontrámo-nos.

Mário-Henrique Leiria, que sempre foi um combatente por causas, daqueles que entenderam a Pasionaria quando  ela gritou : más vale morir de pie que viver em rodillas, num cair de tarde lisboeta, entre dois gins, dizia-me:

- Vê lá tu, que o Álvaro Guerra, deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...

Agora lembramos – os que se lembram, os que, ainda se querem lembrar,  que havia um país para construir, um país onde se pudesse viver com dignidade.

As palavras de Manuel Alegre, que já nos falavam de um País de Abril, poderia ser um outro qualquer mês, mas ele escreveu Abril.

Sorrisos de pássaros, canções de paz.

 A Melanie Safka, já naquele tempo, a dizer-nos o que fizeram à sua canção.

 Ainda hoje o diz:

 Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Vê o que fizeram com a minha canção! É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos bem... e deram cabo dela. Vê o que fizeram ao meu cérebro, mãe! Puxaram por ele como se fosse um osso de galinha... e acho que estou a ficar meio louco, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção.

Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro dele. Quem me dera encontrar um bom livro. Se eu encontrasse um livro realmente bom, não teria que vir - nunca mais - cá fora, para ver o que fizeram com a minha canção.

Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes vou ficar rico, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Embrulharam-na em plástico e viraram-na do avesso, mãe. Olha o que fizeram com a minha canção! 

É a única coisa que eu faço bem... e eles viraram-na de cima para baixo, mãe. Vê o que fizeram à minha canção!

Nota do editor:

Para a canção de Melanie, utilizou-se uma tradução livre de Samuel Quedas tirada de O Cantigueiro. 


Texto publicado em 3 de Abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

O PAÍS DE ABRIL


Nunca deixamos de pensar nos dias em que esperámos a queda da ditadura para, como Jorge de Sena, conhecer a cor da liberdade.

Agora que entrámos por Abril dentro, tornam-se nítidas, angustiantes  também, essas lembranças: as palavras, as longas conversas, as canções que nos acompanhavam os dias.

Aos 20 anos, partilhavam-se sonhos desmesurados: mudar a vida, transformar o mundo.

Acontecido Abril, não tardaram ventos trazendo outras brisas.

Brisas que traziam notícias dos que não queriam que as coisas fossem assim tanto, outros que fossem mais suaves e, por estas e por outras, desencontrámo-nos.

Mário-Henrique Leiria, que sempre foi um combatente por causas, daqueles que entenderam a Pasionaria quando  ela gritou : más vale morir de pie que viver em rodillas, num cair de tarde lisboeta, entre dois gins, dizia-me:

- Vê lá tu, que o Álvaro Guerra, deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...

Agora lembramos – os que se lembram, os que, ainda se querem lembrar,  que havia um país para construir, um país onde se pudesse viver com dignidade.

As palavras de Manuel Alegre, que já nos falavam de um País de Abril, poderia ser um outro qualquer mês, mas ele escreveu Abril.

Sorrisos de pássaros, canções de paz.

A Melanie Safka, já naquele tempo, a dizer-nos o que fizeram à sua canção.

Ainda hoje o diz:

Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Vê o que fizeram com a minha canção! É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos bem... e deram cabo dela. Vê o que fizeram ao meu cérebro, mãe! Puxaram por ele como se fosse um osso de galinha... e acho que estou a ficar meio louco, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção.

Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro dele. Quem me dera encontrar um bom livro. Se eu encontrasse um livro realmente bom, não teria que vir - nunca mais - cá fora, para ver o que fizeram com a minha canção.

Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes vou ficar rico, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Embrulharam-na em plástico e viraram-na do avesso, mãe. Olha o que fizeram com a minha canção!

É a única coisa que eu faço bem... e eles viraram-na de cima para baixo, mãe. Vê o que fizeram à minha canção!


Nota do editor:
Para a canção de Melanie, utilizou-se uma tradução livre de Samuel Quedas tirada de O Cantigueiro.

domingo, 29 de maio de 2011

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, dclarei em família que iria começar a escrever poesia
“Antes
De te sentares
à  mesa
lava bem
essas mãos”

Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2009

Legenda:  fotografia de Melanie Safka tirada do álbum Candles in The Rain, Setembro 1970