Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
É preciso ter percorrido muitos e diversos
caminhos de pedras para perceber quem nos acompanhou e ajudou a percorrer esses
caminhos.
A morte de Melanie Safka, hoje conhecida, é o
sabermos que andou ao nosso lado, a sempre quer saber o que fizeram às nossas
canções.
Um texto já aqui publicado no Cais,
constitui a nossa Viagem de Abril.
Nunca deixamos
de pensar nos dias em que esperámos a queda da ditadura para, como Jorge de
Sena, conhecer a cor da liberdade.
Agora que
entrámos por Abril dentro, tornam-se nítidas, angustiantes também,
essas lembranças: as palavras, as longas conversas, as canções que nos
acompanhavam os dias.
Aos 20 anos,
partilhavam-se sonhos desmesurados: mudar a vida, transformar o mundo.
Acontecido
Abril, não tardaram ventos trazendo outras brisas.
Brisas que
traziam notícias dos que não queriam que as coisas fossem assim tanto, outros
que fossem mais suaves e, por estas e por outras, desencontrámo-nos.
Mário-Henrique
Leiria, que sempre foi um combatente por causas, daqueles que entenderam a Pasionaria quando ela
gritou : más vale morir de pie que viver em rodillas, num cair de
tarde lisboeta, entre dois gins, dizia-me:
- Vê lá tu, que
o Álvaro Guerra, deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...
Agora lembramos
– os que se lembram, os que, ainda se querem lembrar, que havia um
país para construir, um país onde se pudesse viver com dignidade.
As palavras de
Manuel Alegre, que já nos falavam de um País de Abril, poderia
ser um outro qualquer mês, mas ele escreveu Abril.
Sorrisos de
pássaros, canções de paz.
A Melanie Safka,
já naquele tempo, a dizer-nos o que fizeram à sua canção.
Ainda hoje o
diz:
Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Vê o que
fizeram com a minha canção! É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos
bem... e deram cabo dela. Vê o que fizeram ao meu cérebro, mãe! Puxaram por ele
como se fosse um osso de galinha... e acho que estou a ficar meio louco, mãe.
Vê o que fizeram com a minha canção.
Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro
dele. Quem me dera encontrar um bom livro. Se eu encontrasse um livro realmente
bom, não teria que vir - nunca mais - cá fora, para ver o que fizeram com a
minha canção.
Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que
tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes
vou ficar rico, mãe. Vê o que fizeram com a minha canção, mãe! Embrulharam-na
em plástico e viraram-na do avesso, mãe. Olha o que fizeram com a minha canção!
É a única coisa que eu faço bem... e eles viraram-na
de cima para baixo, mãe. Vê o que fizeram à minha canção!