Mostrar mensagens com a etiqueta Em Órbita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Em Órbita. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 

O Em Órbita teve a sua aparição no FM do Rádio Clube Português às 19 horas de 

1 de Abril de 1965.

O primeiro locutor foi Pedro Castelo, mais tarde surgiria a voz única de Cândido Mota.

O primeiro indicativo musical do Em Órbita foi "Revenge" um instrumental dos Kinks.

Os autores do Em Órbita foram, entre outros, Jorge Gil, José Gil, João Manuel Alexandre e Pedro Albergaria.

Tenta-se a reprodução desse “Revenge”, bem como algumas músicas passadas no Em Órbita. 

Em relação ao Alan Price Set, Cândido Mota dizia «o set de Alan Price».






quinta-feira, 7 de maio de 2026

FEITO POR TODOS E DITO POR MIM


 

RCA VICTOR - TP 328 - edição portuguesa

Dedicated To The One I Love (Bass/Pauling) - Free Advice (M. Gilliam/John Phillips) - Even If I Could (John Phillips) - Once Was A Time I Thought (John Phillips)

Se uma modificação profunda se processou no gosto musical de uma geração, isso deve-se ao "Em Órbita". Raros foram os dias em que o não ouvi no velho “Blaupunkt”, de olho verde à esquerda,” de casa do meu pai.

Isso até Junho de 1967 porque por esses dias assentei praça em Tavira e chegou um tempo em que o FM do Rádio Clube Português não chegava às ondas do transístor de fancaria que ouvia na caserna do CISMI.

Quando passados tempos regressei, o “Em Órbita”, entrara em novas aventuras e deixara de ser o programa que conhecera.

Quem não o ouviu não sabe o que foi e não dá para explicar, se isso, naturalmente, fosse possível – "Um programa feito por todos e dito por mim", como dizia o Cândido Mota, em minha modesta opinião, a melhor voz que o “Em Órbita” teve. (estou de acordo! - nota do editor).

Este disco, com esta bonita capa, Made in Portugal, é um dos muitos que comprei por causa do “Em Órbita” e escolho este porque “Dedicated to the One I Love” se tornou uma das canções das minhas diversas vidas.

“While I'm far away from you, my baby
I know it's hard for you, my baby
Because it's hard for me, my baby
And the darkest hour is just before dawn".

Como diria o Tom Waits, esta é do fundo do coração e como a vida nunca é exactamente o que queremos, transportamos, por vezes, algumas canções que associamos a memórias mágicas.

Mas isto já está a resvalar para a lamechice e por aqui me fecho. Até porque os silêncios são mais preciosos que as palavras e eu só queria lembrar o “Em Órbita”, mostrar esta capa e concluir que, como dizia alguém que agora não lembro o nome, é preciso chegar aos sessenta anos para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

 

Texto publicado em 30 de Junho no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

UMA VOZ ÚNICA


A cremação de Cândido Mota, segundo Teresa Mota, sua filha, ocorreu ontem pelas 13,00 horas no Cemitério do Alto São João.

Segundo reconheceu Herman José: «a melhor voz de sempre da rádio e da locução portuguesas».

Já não veremos mais o rigor das suas eficientíssimas apresentações de artistas e convidados nos palcos das Festas do Avante.

Por estes dias, irei desencantar coisas e loisas do velho Em Órbita onde Cândido Mota foi brilhante mestre.


DECCA - PEP 1159 - 1966

You Were On My Mind – Wat I’m Gonna Be – The Pied Piper – Sweet Dawn My True Love

Neste disco sei que “You Were on My Mind” é a canção forte, de referência, “o grande êxito de Crispian St. Peters”, tal como se pode ler na capa. 

Mas gosto muito de “The Pied Piper”.

Cândido Mota, no “Em Orbita”, a anunciar o disco, as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: “sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica".

Disco comprado na Discoteca Universal, em Lisboa, no dia 30 de Junho de 1966, por expressa e oportuna indicação do “Em Órbita”.



(nota do editor: eu, por mim, tenho a subida honra de ter sido o introdutor de Crispian St. Peters e de "You Were On My Mind" em Portugal, em 1965. Não mais me esqueci disso. Mal recebi o disco, fui imediatamente levá-lo à "23ª Hora", de João Martins. Foi o êxito total! O "Em Órbita" ainda estava a dar os primeiros passos).

 

Texto publicado em 7 de Julho de 2008 no inesquecível «IÉ-IÉ», blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

DAVID CROSBY (1941-2023)


 Morreu David Crosby.

Continua o tempo dos que me ajudaram a palmilhar caminhos, estarem a desaparecer.

Onde estão os fins de tarde a ouvir o Cândido Mota a anunciar os Crosby, Stills, Nash and Young?


quinta-feira, 26 de maio de 2022

VELHOS DISCOS


 Dois viajantes do Cais comentaram a morte de Vangelis.

Entendi que um texto serviria melhor do que um comentário circunstancial.

 Sou mais de livros e de filmes do que de músicas. Musicalmente não sou tipo de confiança. Todo o meu gosto musical é caótico, uma completa anarquia, não dá para entender. Se gosto, gosto, se não gosto, passo à frente.

Vai de Vivaldi ao Conjunto da Maria Albertina, passa por Tony Bennett, Pete Seeger, Gram Parsons, Neil Young, Agostinho dos Santos. Maysa Matarazzo.

Confusos?

Certamente que sim, mas a família diverte-se, os amigos nunca entenderam e, no fundo, apenas tento seguir os passos do velho Saint-Just quando dizia que a felicidade, seja lá o que isso for, é possível!

Eram de 78 RPM os primeiros discos de casa do meu pai, que rodavam num pick-up instalado num móvel com um rádio Blaupunkt que, para além do alti-falante central, tinha dois laterais.

O meu pai tentava fazer perceber ao meu avô que aquilo era a estereofonia, o meu avô era quase surdo e acenava com a cabeça.

Os bailes de aniversário, ou Carnaval, tinham, por exemplo, o Renato Carosone a cantar Torero ou a Picolissima Serenata, também Nat “King” Cole e Line Renaud, enfim, o que havia à mão, e não era muito.

Os tais bailes da vida como, noutro contexto, diria, o Milton Nascimento.

Vieram depois uns 33 RPM, (que eram um LPsmais curtos) Popular Favourites da Philips com selecção de canções do Frankie Laine, da Jo Stafford, dos Four Aces, a Rosemary Clooney, o Louis Armstrong a Orquestra de Roberto Inglês, por aí fora.

Depois chegaram os EP”. O meu pai tornou-se um fã do Paul Anka, do Pat Boone e o Volare cantado pelo Dean Martin

Os 78 rotações partiram-se. Guardava um da Hebe Camargo a cantar Índia, mas nunca mais o vi. Dos EPs e dos 33 rotações a maior parte perdeu-se ou foi desviada.

O passar a conhecer outras músicas, devo-o ao programa Em Órbita, com histórias e memórias registadas, por aqui, com a etiqueta do programa.

O primeiro “EP” comprei-o na “Discoteca Universal” (30.06.1966), You Were on My Mind do Crispian St. Peters, por causa do The Pied Piper que  ainda ouço com imenso prazer e que me traz sempre à memória, o Cândido Mota a dizer, no Em Órbita já com as primeiras espiras a correr: sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica.

Mais tarde levei uma enxurrada de grande música, de grandes músicas, fornecidas pelo meu amigo Luís Miguel Mira, um profundo, mas mesmo profundo conhecedor de música, principalmente Folk Music e Country Music e que, volta e meia, nos delicia com histórias que por aqui tem publicado e é sempre bom lembrar que tem um livro publicado Crónicas da América que, com um bocado de sorte, pode ser encontrado em alfarrabistas ou feiras de livro ocasionais.

 Mas sempre fui um disperso em músicas e em estilos.

Lembro-me dos tempos em que andei apanhado pelos sons e vozes da Motown, lembro-me quando andei a comprar discos do Vangelis porque, mercê de largos gin-tónicos no British –Bar, descobri que Vangelis levara a música electrónica a um outro nível.

E houve aquela pancadinha pelo trabalho que Vangelis fez com o Joe Anderson, o vocalista dos Yes

Dois discos ficaram por aí.

Peguei no Friends of Mr Cairo porque tem uma canção I’ll Find My Way Home.

Reproduzo a capa do disco que tem a curiosidade de no topo do lado direiro, num rectangulozinho branco, ter o preço: 350$00, que ao cambio da moeda de hoje seriam una 1,75 euros, mas naquele tempo, para o teso que sempre fui, era dinheiro.

Há uns bons tempos atrás, a minha filha Sara, hoje com 44 anos, perguntou-me se eu ainda tinha o LP. Acrescentou então que I’ll Find My Way Home, de tanto a ouvir cá por caso, ficara como uma das canções da vida. Respondi-lhe que nunca me apercebera,  mas entendi, porque é sempre bom saber o sítio onde se cai, e nunca esquecer o caminho de casa, também porque só estaremos sozinhos, se quisermos mesmo que isso aconteça.

O Alexandre O’ Neil , numa entrevista, deixou uma fabulosa ideia sobre a solidão:

«A solidão procurada é boa., a não procurada, às vezes é chata.

O estar sozinho não é a solidão. Às vezes está-se sozinho porque se quer e isso pode dar um bom monólogo, uma meditação. O facto de eu viver só é que, às vezes, é chato e vou até ao barbeiro da esquina só para falar com alguém.»

quinta-feira, 14 de maio de 2020

EMPANELADO


É estranho que, gostando eu hoje tanto de música, não tenha guardado da minha infância grandes memórias musicais.

Tal como acontece com quase todas as mães, a minha cantar-me-ia também, certamente, canções de embalar.

Mas eu não me recordo de nenhuma…

Lembro-me do doce cheirinho do “Vick Vaporub” sobre o peito…

Das inúmeras tentativas falhadas para me ensinar a rezar o “Padre Nosso”, na hora de adormecer…

Mas de canções de embalar, nada.

Na falta delas, lembro-me muito bem de uma cantilena meio poética que a minha Mãe me dizia ao deitar, e que reza assim:

“A morte é certa, dela ninguém se escapa.
Mas hei-de escapar eu….
Compro uma panela.
Escondo-me dentro dela muito bem.
A morte passa e diz: “hum!, aqui não está ninguém”…
Adeus meus senhores, passem todos muito bem…!”

Eu nem consigo perceber muito bem como é que uma história destas era contada a uma criança ao adormecer…

Mas eu não faria a mínima ideia do que era a Morte… Para mim, a história não devia passar de uma curiosa versão do “jogo das escondidas”.  E talvez que a minha Mãe acompanhasse a récita com divertidos gestos de expressão corporal, e fosse isso que me levasse a pedir-lhe a mesma cantiga todas as noites…

Mas, bem vistas as coisas, aquela curta história até será bastante adequada a estes tempos de pandemia que atravessamos, porque é mesmo assim que eu me sinto hoje, mais de sessenta anos depois. Bem fechadinho dentro de uma panela, à espera que a Morte passe ao largo e não queira nada comigo…!   

Por essa altura, na nossa casa do Mercado Geral de Gados, em Entrecampos (onde depois se instalou a Feira Popular), lembro-me da minha Mãe a tocar piano e a cantar o “Que Sera, Sera”, que nesses tempos devia fazer furor na Rádio pela voz da Doris Day.

Era um belíssimo piano “Steinway & Sons” que lhe coubera por herança e que era a menina dos seus olhos.

Gostava muito de ver a minha Mãe a cantar e a tocar, mas a verdade é que não me parecia impressionar muito com os bonitos sons que emanavam do piano. Para mim, o piano era motivo para brincadeiras, às escondidas… Dar o maior número possível de voltas no banco giratório… Carregar nos pedais… Bater teclas sem sentido…

Esse piano acabaria por ter um fim trágico.

Vendida a nossa quinta da Tala, nos arredores de Sintra, nos finais dos anos 50, o meu Pai teria prometido à minha Mãe que parte do dinheiro dessa venda seria investido na compra da moradia dos seus sonhos, onde certamente haveria muito espaço para um piano.

Mas quando tivemos de sair de Entrecampos os meus Pais alugaram casa ali perto, defronte do jardim do Campo Pequeno. Ainda me lembro de ter visto o piano na  sala de jantar dessa casa, mas não poderia ser uma solução definitiva… Era demasiado grande eocupava demasiado espaço.

O piano foi então levado para a Quinta de Moscavide, que não era nossa mas estava ao serviço da empresa de que o meu Pai era sócio, com o solene compromisso de que ficaria bem guardado e que voltaria a ter um espaço condigno logo que fosse comprada a tão badalada moradia.

Mas, como na canção da Doris Day, o que teria de acontecer aconteceria, e não estava escrito que a minha Querida Mãe teria direito à casinha dos seus sonhos.

O dinheiro da quinta da Tala foi investido em negócios, do Campo Pequeno saímos para um grande casarão na Avª da República e de moradias nunca mais se falou…

Um dia, de passagem por Moscavide, a minha Mãe deparou com o piano a um canto, coberto de pó, com galos e galinhas por cima, como num filme do Buñuel,  e com as magníficas teclas de marfim arrancadas.  

Ficou em estado de choque, a minha pobre Mãe!

O meu Pai nunca percebeu – ou não quis perceber… - que o piano, para ela, era muito mais do que um simples instrumento musical. Eram recordações dos tempos em que uma menina e moça prendada tocava piano e sabia francês … Eram sonhos de vestidos de cetim envolvidos em pedaços de Chopin…

E nunca mais me lembro de ter ouvido a minha Mãe cantar.

Deixava que lhe corresse uma lágrima pelo canto do olho sempre que ouvia o ”Oh Tempo, Volta Para Trás”, do António Mourão.  Aquela parte em que se pede ao tempo para nos voltar a dar tudo aquilo que perdemos deveria ser demais para o seu pobre coração... 

Quanto ao meu Pai, não me lembro de o ter ouvido alguma vez cantar.

Quando estava feliz, assobiava. Ou melhor, soprava, porque tinha tanto jeito para assobiar como eu...

Estou a vê-lo na Tala, em casa dos Trancosos, a jogar às cartas depois de uma boa jantarada, a refastelar-se para trás na cadeira, cigarrilha numa mão e conhaque na outra, a assobiar o “Petite Fleur”, do Sidney Bechet…

Talvez seja pouco para memória musical de um Pai, mas é o que se arranja… Em contrapartida, aprendi imenso sobre touradas e sobre os bons restaurantes de Lisboa e arredores…!

Da minha Querida prima Lena, assim uma espécie de irmã mais velha (ela gostava de dizer que eu é que era o seu filho mais velho…) que passava largas temporadas em nossa casa, o que me dá mais prazer recordar é Paço d’Arcos, numa noite de Verão no restaurante sobre a praia. Havia música no ar vinda de uma “Juke Box”, julgo eu, e um grupo de adultos que dançava em fila indiana à volta da esplanada uma música que só muitos anos mais tarde vim a saber ser do grande Dorival Caymmi.E a minha prima a chamar-me para me juntar aos crescidos e eu a ir assim com ela, para a Maracangalha e de chapéu de palha…

Ainda hoje um bonito luar sobre as águas, música, companhia de amigos e um bom petisco são, para mim, garantia de Felicidade absoluta. Se possível, tudo junto…!

Do meu Querido irmão José Carlos, a quem devo o gosto pelo Cinema, não me lembro de muita coisa, a não ser de o ver a estudar e a ouvir música no quarto, enquanto eu procurava adormecer. Era o mais velho dos irmãos e aquele que mais virado me parecia estar para a Música Clássica, coisa que não dá muito jeito para trautear… Mais tarde, quando já estava a fazer o Serviço Militar em Macau, vim a saber que era um grande fã dos Kraftwerk e de John McLaughlin...

O meu irmão Jorge, o único sobrevivente dos Irmãos, era aquele que, vistas agora as coisas à distância, me parecia ter o gosto musical mais apurado para a música desses tempos. Levava revistas de música, que eu folheava, e parece-me ter vindo dele a ideia de se começar a ouvir o “Em Órbita” lá em casa… Muito mais tarde, já em Serviço Militar em Angola, ajudei a namorada e futura mulher a comprar-lhe uns discos e fiz-lhe umas gravações. Fiquei contente quando, muitíssimos anos depois, ele me contou como era surreal ouvir o “Colour My World”, dos Chicago, à noite em pleno mato...

O Jorge gostava de Fats Domino, mas não me lembro de o ter visto cantarolar grande coisa quando era mais novo.  Com uma única exceção… Tinha alguns dotes vocais e lembro-me que imitava na perfeição a abertura instrumental do “I Feel Fine”, dos “Beatles”. Eu, de tanto o ouvir fazer aquilo, tornei-me também um especialista na matéria, mas só uns anos mais iria conseguir  identificar a música.

A minha Querida irmã Rosa Maria, a Zita, seria aquela a quem mais ficariam ligadas as minhas memórias musicais da adolescência. Lá em casa era ela a verdadeira fã dos Paul Anka, dos Pat Boone, dos Ricky Nelson e dos Elvis Presley.

À noite, já na Avº da República, ouvíamos a Rádio na salinha pequena, na companhia da nossa empregada, a Cesália. Era o “Quando o Telefone Toca”, do Senhor Matos Maia e do Senhor Joaquim Pedro,  onde todas as noites, invariavelmente,  ouvíamos aquilo a que as meninas então chamavam a “Melodia do Desespero”, que não era mais do que a “Unchained Melody”, dos “Righteous Brothers”… 

E havia, também, um outro programa para o qual se devia telefonar previamente para escolher uma canção, e a mais votada era passada na Rádio. Lembro-me de eu próprio ter telefonado a votar, certamente a pedido delas,  no “Sabor a Sal”, do António Calvário…!  

Por essa altura deveria andar pelos meus 11/12 anos, o que já era muito boa idade para ter juízo… Esse pé em falso poderia muito bem ter traçado o meu destino mas, felizmente, assim não aconteceu e coisa compôs-se...

Com exceção do Jorge, felizmente ainda vivo, todos estes meus Entes Queridos já desapareceram, levando-me agora a sentir na pele, dolorosamente, aquela afirmação  que há muitos anos atrás me lembro de ter ouvido num filme do Truffaut e à qual me limitara a achar, então, imensa graça...: chega uma altura da nossa Vida em que chegamos à conclusão de que conhecemos mais mortos do que vivos…

Mas falei do que a música me fazia recordar em todos eles, e pouco falei de mim.

Voltando ao início da conversa, é claro que teria gostado imenso de possuir uma “lullaby” a que hoje pudesse chamar minha..

À falta dela, a música mais antiga que me lembro de ter gostado foi  “A Mula da Cooperativa”, cantada pelo Max… Sempre que passava na Rádio iam a correr chamar-me e eu ria-me à gargalhada com o raio da mula a zurrar…

Depois,  ainda nos tempos do Mercado, houve aquela que terá sido a primeira música de língua inglesa a ficar-me no ouvido e que mais tarde vim a saber que era “A Wonderfull Time Up There”, do Pat Boone. 

Dois ou três anos mais tarde, talvez já no Campo Pequeno, uma outra que me ficou na memória foi“Wooden Heart”, cantada pelo Elvis Presley. Não sei se terei visto no cinema de Paço d’Arcos, com os meus irmãos, o filme “G.I. Joe” e terei achado graça à cena das “marionetes” com a miudagem à volta. onde a música aparecia, ou se por qualquer outro motivo, mas a verdade é que nunca mais me esqueci dessa música. 

A casa do Campo Pequeno é aquela que associo mais à música, o que não é de estranhar porque se eu tinha mais ou menos 6 anos quando para lá nos mudámos, os meus três irmãos teriam 13, 14 e 15 anos, idade mais do que suficiente para se dedicarem à música com outra atenção.

Lembro-me de por lá existir um pequeno gira-discos muito básico e de ver vários discos de 45 rotações empilhados, a maior parte dos quais deviam ter sido emprestados porque não estou a ver o meu velho Pai a dar-lhes muito dinheiro para a compra de discos.  Quase tudo música francesa e italiana, mas nada que me tivesse ficado muito no goto...  

Mas a verdade é esta: por essa altura eu não devia ligar muito à música e nem o perverso desejo tinha de ouvir os discos às escondidas, quando os meus irmãos não estavam em casa… Gostava mais de lhes pegar para ver as fotografias, do que propriamente de os ouvir,,,

Até que por volta dos meus 9/10 anos ocorreu um facto que iria mudar por completo a minha relação com a música.

No Cinema Roma passou “Mocidade em Férias”, com o Cliff Richard e os Shadows, que hoje sei ter sido realizado pelo inglês Peter Yates.

O filme era para “Maiores de 12 Anos” mas os meus irmão levaram-me quando nem sequer 10 anos tinha. Fizeram disso um grande mistério e quando estávamos no “foyer” disseram-me que tinha de ter muito cuidado porque a qualquer momento um fiscal poderia aparecer e pôr-me na rua… O que eu sofri naqueles breves minutos, em que todos os olhares me pareceram altamente ameaçadores…

Depois entrei na sala, as luzes apagaram-se e ….. continuei a sofrer…. Não é que o raio do filme era a preto e branco…! Quem é que vai ao Cinema para maiores de 12 anos ver um filme  a preto e branco…?? Para isso havia a televisão…! Mas num passe de magia o preto e branco  inicial transformou-se em cor e depois a história continuou pela estrada fora a bordo daquele enorme autocarro vermelho e com aquela maravilhosa música a surgir de tempos a tempos… O meu primeiro “road movie”, certamente, eu que tanto gosto de “road movies”…

Fiquei extasiado! 

Tornei-me no maior fã de Cliff Richard das Avenidas Novas…!

Embora poucas palavras soubesse em inglês, eu sabia de cor as músicas do filme de que mais gostara e cantava-as para dentro e para fora de mim quando as ouvia na Rádio : o “Summer Holliday”, o “Bachelar Boy”, o “Dancing Shoes”, o “The Next Time”….

A partir desse momento a minha relação de desapego pela Música nunca mais seria a mesma e ainda hoje, se me preparo para fazer uma longa viagem de carro para a qual tenho de levar uma pilha de CD’s, é certo e sabido que entre eles estará uma compilação de Cliff Richard e os Shadows desse início dos anos sessenta…

Depois, já na Avº da República, vem a fase de ouvir Rádio com a minha irmã de que já falei e mais tarde, sem saber muito bem como nem porquê, fui parar à “Soul Music”.

A minha irmã não quis prosseguir os estudos. Fez o curso da Escola Lusitânia Feminina e começou a trabalhar muito cedo, como Secretária.

Para além de me levar quase todos os Domingos ao Cinema Paris ver uma sessão dupla, a Rosa Maria também começou a comprar, com alguma frequência, os discos que eu lhe pedia, e que eram os últimos sucessos do Otis Reding, da Aretha Franklyn, de Sam & Dave e por aí fora. Devorava esses discos e também os sabia de cor esalteado.

Curiosamente, não me lembro de ter tido nenhuma “pancada” especial pelo Beatles, embora comprasse as pastilhas elásticas e colecionasse os bonecos...

Depois comecei a dar mais atenção ao “Em Orbita” que já se ouvia lá por casa, e a Música passou a ser outra.  Os meus amigos também estavam na mesma onda, como era o caso do João Pedro, que era filho único e que tinha uma enorme capacidade de chantagem sobre a Mãe, a qual lhe permitia ir sacando o dinheiro necessário para comprar  em Portugal, ou importar de Inglaterra, o que mais lhe interessava. E por essa altura já não estávamos na era dos 45 rotações, mas na dos LP’s, que iriam mudar, para sempre,  a nossa relação com a música…

Mas depois, e até hoje, os nossos destinos musicais iriam divergir: o João ficaria agarrado aos seus Stones e aos seus Isaac Hayes e eu iria partir, de mansinho, para as minhas “músicas de passarinhos”…

Uff! 

É verdade que vim de longe, de muito longe, mas só agora me dei conta do imenso que andei para aqui chegar…

A pretexto de vos contar que gostara muito de música Soul na adolescência,  e que isso tinha despertado o meu interesse em visitar o “Stax Museum of American Soul Music”, em Memphis, este texto era suposto ter dado conta dessa visita e teria por título, assim mesmo com um ponto de interrogação,  “Birthplace of Soul Music?”.

Mas a música já vai longa e, quiçá, aborrecida, pelo que meterei travões às quatro rodas e prosseguirei  mais tarde.

Mude-se  então o título do texto para  “Empanelado”, coisa que duvido que exista no dicionário…   

E se alguém tiver a infeliz ideia de espetar isto num blogue, já fica a saber… Escolha uma panela como  fotografia…! E não se esqueça da tampa...


Texto de Luís Miguel Mira

terça-feira, 31 de março de 2020

VELHOS DISCOS


Crispian St. Peter’s (1939-2010) foi um cantor inglês da década de 60, que deixou duas canções que fizeram sucesso: The Pied Piper e You Were on My Mind.

The Pied Piper ouvi-a, pela primeira vez nesse extraordinário programa que deu pelo nome de Em Órbita, as primeiras espiras a rodarem e a voz única do Cândido Mota a recitar: «sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica», um, dois dias depois, no dia 30 de Junho de 1966, o EP a ser comprado na Discoteca Universal ma Rua do Carmo, que o incêndio do Chiado, Agosto de 1988, destruiu por completo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

AINDA O EM ÓRBITA


O mítico programa de rádio Em Órbita, teve a sua primeira emissão no dia 1 de Abril de 1965.

Passados 50 anos dessa data, A Antena 1 realizou uma emissão especial conduzida por António Macedo.

Foram convidados Pedro Albergaria, Pedro Castelo, Cândido Mota, José Cid e José Ribeiro.

Sempre me fez uma enorme confusão o facto de os responsáveis, como primeira canção portuguesa passada no programa, terem escolhido A Lenda de El-Rei D. Sebastião interpretada pelo Quarteto 1111, onde pontificava José Cid.

Dizem, Paul McCartney é um dos donos dessa afirmação, que os Beatles chegaram ao fim pela aparição da japonesa Ioko Ono na vida de John Lennon.

Jorge Gil nunca escondeu que o Em Órbita iniciou os seus passos finais a partir do dia em que essa canção do Quarteto 111 passou no programa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Telefonia

Matos Maia
Prefácio: Adriano Duarte Rodrigues
Capa: A. Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1995

Criar Gosto (como na qualidade que reúne todas as outras), e a procura de novas formas do Dizer Radiofónico, constituem as duas únicas linhas onde se inscreve o horizonte comum a toda a vida do Em Órbita. Se hoje em dia ele for somente entendido e classificado como um “programa de música erudita”, todo o trabalho investido ao longo de quase trinta anos terá sido mal compreendido, ou então teremos falhado no modo como procurámos atribuir-lhe uma identidade própria – que deveria afirmar-se como algo autónomo e independente da música que transmite.
Há contudo razões para acreditar que assim não sucede, já que existem provas seguras da existência de um público que se manteve fiel ao programa, a despeito das mudanças por ele experimentadas com o passar dos anos.
A permanência desse auditório, assim como a conquista de um outro que foi aderindo ao movimento da redescoberta do verdadeiro espírito da Música Antiga (oculto durante vários séculos), não pode decorrer apenas de um fenómeno de identificação mimética do gosto dos ouvintes com as opções que foram sendo assumidas pelos responsáveis do Em órbita.
Não foi só a qualidade da música transmitida que permitiu ao programa manter um público fiel.
O modo como ele questionou o Dizer Radiofónico, e as formas encontradas para levar à prática os resultados de semelhante indagação, estão igualmente na origem daquilo que atribuiu ao Em órbita a condição própria de um “objecto familiar”, à semelhança daqueles retratos antigos de família que não se podem perder – porque nos dizem sempre coisas novas.
Se o programa não tivesse despertado intimidades afectivas naquelas regiões da alma onde as coisas ganham a força do que é credível, nunca teria havido condições para a mudança radical que se operou no início de 1974, quando a chamada música erudita estava excluída de qualquer estação de rádio de vocação comercial.
E se foi possível levar por diante semelhante projecto, com naturais perdas de audiência nos primeiros anos, é porque já existia uma audiência cuja generosidade a tornava receptiva à semente de um gosto musical mais rico e profundo.»
Palavras de Jorge Gil que explicam opções, dão definições e caracterizam espaços e fronteiras para um dos grandes programas de rádio portuguesa e que marcou toda uma geração.
Fundamental para um completo entendimento do espantoso feed-back que o Em órbita provocou é o ter-se em conta que não foi só pela qualidade da música que o programa se consagrou. Foi também por um nível altíssimo de qualidade técnica que contrastava com o desleixo e o amadorismo generalizados na nossa rádio.Uma das mais brilhantes análises ao Em órbita, foi feita, no Expresso, por Rui Vieira Nery:
«Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do Em Órbita entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa».
Mas a vocação alternativa do Em Órbita não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do Em Órbita assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A MINHA AMIGA RÁDIO


Peça museu da casa, este é o Blaupunkt de olho verde em que ouvia o Em Órbita.

Não sei como se poderá dizer aos jovens de hoje, eu não sei, o que foi o Em Órbita e o que representou.

Aqueles rapazes criaram um gosto, uma cultura musical na esmagadora maioria dos que  viviam enrolados na música francesa, italiana, espanhola, portuguesa.

Passei a conhecer Simon and Garfunkel, Mamas and Papas, Bob Dylan, Bee-Gees, Peter Paul and Mary, Moody Blues, tanta, tanta, tanta gente.

Se disser que graças ao Em Órbita sou uma pessoa diferente, talvez não acreditem ou não entendam o que estou a dizer. As melhores histórias são as que vêm do nada e a história do Em Órbita é uma grande história.

Ficam aí com o indicativo musical do programa, o instrumental Revenge dos Kinks e uma canção divulgada, uma das muitas, no programa: O Crispian St. Peters  a cantar «The Pied Piper» e eu ainda estou a ouvir o Cândido Mota, a melhor voz, o mais competente dos que apresentaram o Em Órbita, «um programa feito por todos e dito por mim», as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: «sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica».

Em memória de Jorge Gil, relembro este texto de San Shepard de que gosto muito:

 «Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida».



domingo, 11 de agosto de 2019

RELACIONADOS


 Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velhaErika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que oFernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

JORGE GIL (1945-2019)


Morreu Jorge Gil.

domingo, 8 de junho de 2014

EM ÓRBITA


Texto de Luís Pinheiro de Almeida, publicado no Público de 1 de Abril de 2000, assinalando a data da primeira emissão do Em Órbita.
Memórias dos anos 60. Quem não viveu esses anos não sabe o que foi e explicações nada adiantam...

sábado, 7 de junho de 2014

PAPÉIS DATADOS


Acabou o Em Órbita.

Em termos de gosto musical e de uma maneira de fazer rádio, influenciaram milhares de portugueses que religiosamente os ouviam.

Falo por mim.

Numa qualquer história da Rádio portuguesa que um dia se escreverá, terá de haver um capítulo que determine: antes e depois do Em Órbita.

Não ficam muito claros os motivos que levaram ao fim do programa, mas um ouvinte atento podia ir reparando que as emissões estavam a perder élan, arrastavam-se sem se pressentir um qualquer sinal dos velhos tempos.

A morte de João Manuel Alexandre, alma e coração do programa, a saída de Cândido Mota, com a sua sobriedade, a sua elegância, ajudaram a que se tenha chegado a um tempo em que o fechar do microfone emorbitiano se tornou irremediável.

Aprendi a ter uma simpatia especial pela ideia de que se gosta mais dos que, apesar de tudo e contra tudo, conseguem sobreviver e nascer de novo.

Mas a história também se faz com os que morrem.

(7 de Junho de 1971).

O Em Órbita realizou a última edição no dia 31 de Maio de 1971.

O primeiro indicativo do Em Órbita foi o instrumental Revenge dos Kinks.

Mais tarde escolheram Also Sprach Zarathustra de Richard Strauss, tema que faz parte da banda sonora do filme de Stanley Kubrik  2001: Odisseia no Espaço.

Legenda: Cândido Mota, o mais brilhante dos apresentadores do Em Órbita – um programa feito por nós e dito por mim.
A fotografia de Cândido Mota é retirada de Telefonia de Matos Maia, Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1995.

                                      

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A LENDA DE EL-REI SEBASTIÃO


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

O Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.