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sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOLTAS

 

O livro do Nuno Júdice, Primeiro Poema, fecha-se com estes versos:

«o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio

cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é

sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parou

nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso

relógio

de luz radioactiva que se pode ver do fundo da

carruagem,

se alguém estiver muito interessado em saber que

horas

são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,

como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça»

1.

A ministra da Saúde reconheceu que o INEM enfrenta falta de recursos humanos, após a morte de um homem de 63 anos que esperou mais de uma hora por assistência médica em Palmela. Ana Paula Martins garantiu, contudo, que o Governo tem reforçado o recrutamento.

2.

O país está a entrar numa armadilha demográfica e laboral que ameaça transformar a falta de trabalhadores num dos maiores bloqueios ao crescimento económico da próxima década. O alerta é deixado pelo relatório "Emprego em Portugal", apresentado esta terça-feira em conferência no Porto e elaborado pelo CoLABOR, que traça um retrato duro de um país envelhecido, incapaz de reter jovens qualificados e dependente da imigração para evitar uma crise estrutural no mercado de trabalho.

 Lido no Jornal de Notícias

3.

N o ano passado mais de 1200 doentes com pulseira amarela abandonaram os serviços de urgência dos hospitais devido ao tempo de espera para o atendimento.

4.

José Sócrates exige 205 mil euros de indemnização por lentidão da justiça.

5.

Os milionários não sabem cozinhar.

6.

«Como vais?

se morrer vestido – vou como quiserem

se for nu – vou como vim…

- Mas o sangue?»

Eusébio C. Martins

7.

Em Portugal, os jovens só saem de casa por volta dos 29 anos. A coabitação, por vezes, torna-se sufocante para pais e filhos e é preciso “responsabilidade, comunicação clara e limites saudáveis.

8.

A idade da reforma vai subir para os 66 anos e 11 meses em 2027, segundo confirmam os dados da esperança de vida publicados esta quinta-feira, 28 de maio, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

"A esperança de vida aos 65 anos, no período 2023-2025, foi estimada em 20,19 anos para o total da população", indica o INE, o que corresponde a um aumento de 0,17 anos (2,0 meses) relativamente ao triénio 2022-2024.

Com base nestes dados é possível calcular que em 2027 a idade legal de acesso à reforma será de 66 anos e 11 meses.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

VELHOS RECORTES

Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil que mostra que Nuno Júdice ganhou o prémio de poesia, 2ª Semana do Concurso Fósforo Ferrero.

O poema Introspecção com que Nuno Júdice venceu o Prémio de Poesia Fósforo Ferrero.

O anúncio da Fósforo Ferrero que patrocinava os Prémios do Diário de Lisboa-Juvenil.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Não sei, não sei mesmo, se o Nuno Júdice é o autor de uma obra poética decisiva que marca a poesia portuguesa.

Sei apenas que gosto muito da sua poesia.

Sentindo o fim aproximar-se, Nuno Júdice deixou três pastas com poemas, a sua mulher Manuela Júdice e o amigo Ricardo Marques, seleccionam os poemas para o livro em que Nuno trabalhara e a que foi dado o título, escolhido pelo autor em conversa com Ricardo: Primeiro Poema.

«Quando acabo um poema não sei muito bem o que escrevi», disse numa entrevista

Houve uma altura da vida do Diário de Lisboa-Juvenil que deu a louca ao Mário Castrim. Foi quando em estado de pura e avassaladora paixão  pela Alice, decidiu que tinha de deixar a Natália, sua mulher de longos e duros anos. Difícil e dramática decisão. O Mário Castrim até tinha uma capacidade de trabalho alucinante, acima, muito acima, de qualquer média, mas aquilo era demais e a cabeça não dava para tudo: diariamente crítica de televisão no Diário de Lisboa, colaboração diversificada e dispersa por jornais e revistas, colaboração no Rádio Clube Português com histórias para crianças e o Juvenil. Quanto a este terá então pensado que teria de deixar, por uns instantes, a selecção dos textos e poesias a mim e ao Armindo, gente de confiança, como ele dizia. Assim foi.

Mário Castrim fazia a grande triagem e passava o resto da papelada para mim e para o Armindo e, cada um fazia a leitura e selecção da colaboração. Trocávamos impressões e seguia-se a reunião com o Mário Castrim, para o Juvenil da semana seguinte, normalmente no Diário de Lisboa ou na Orion, café e pastelaria com “fabrico próprio” que, para meu grande espanto, não se tornou banco ou loja de trapos, ainda existe no cimo da calçada do Combro, esquina para a rua que vai dar a Santa Catarina, uma das mais belas vistas de Lisboa

Por vezes, Castrim, punha lápis vermelho nas nossas escolhas. O Armindo ficava à beira de um ataque de nervos, eu nem por isso porque entendia que o Mário era o responsável-mor do suplemento. Foi nessas andanças que nos surgiram os poemas do Nuno Júdice e neles já estava quase tudo do que viria a ser um dos poetas marcantes da poesia portuguesa, assim como o Jorge Valdano disse,  que um verdadeiro camisa 10 se nota logo, mesmo que venha mascarado de bailarina sevilhana.

Lembro-me do olhar deliciado do Armindo a ler os poemas do Nuno Júdice, nas mesas da Brasileira,  chávena de café suspensa na mão.

O Armindo deu o “salto” para fugir à guerra colonial, mandou-me um primeiro postal de Grenoble, mas nunca mais, para meu grande lamento, tive notícias do seu exílio.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O PRIMEIRO POEMA


In my End is

my Beginning
 

T.S. Eliot
 
 

É difícil não falar aqui, no meio destas prosas soltas, a resvalar aqui e além em confissões pessoais, naquilo que senti ao confrontar-me com este livro póstumo de Nuno Júdice, primeiro poema que inaugura o seu encontro com a morte, essa margem incontornável que envolve de luz negra toda a poesia.

Como apontou certeiramente Tatiana Faia, na apresentação que fez deste livro (Primeiro Poema, Dom Quixote, 2026), aquando do seu lançamento, os últimos versos são o explícito olhar sobre a morte do poeta que maior lucidez sobre a poesia revelou em todo o seu percurso. Organizado, com cuidado atento e permanente fidelidade ao que seria desejo do autor, por Manuela Júdice e Ricardo Marques, este livro culmina nos versos que a seguir reproduzo:

o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio

cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é

sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parou

nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso

relógio

de luz radioactiva que se pode ver do fundo da

carruagem,

se alguém estiver muito interessado em saber que

horas

são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,

como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça.

Maurice Blanchot, em La littérature et le droit à la mort, considera a escrita literária como a palavra essencial que nasce do silêncio e da ausência e onde o autor se apaga para dar lugar a uma voz impessoal. Por isso, considera a criação literária como uma experiência de “morrer sem morte”.

Em toda a poesia de Nuno Júdice, o autor apaga-se para dar lugar a um sujeito poético irónico e mesmo, por vezes, divertido. Tornando menos grave essa ausência e dando máscaras à impessoalidade, Nuno Júdice não deixa de entrar plenamente, com a sua poesia, nessa separação das coisas e da vida que funda a palavra literária, mesmo nos belíssimos poemas de amor que põe na boca de Pedro dirigindo-se a Inês ou em múltiplos dizeres de amor desse “ser suposto” (Emily Dickinson) em que todos os grandes poetas transformam a sua subjetividade.

Mas o choque e a revelação que o último (verdadeiramente o último) poema de Nuno Júdice me trouxe foi esse olhar soberano sobre a morte, quando os relógios param e está na altura de recomeçar do zero. Do zero que é o vazio da morte, que a poesia conhece, mas em que por fim o poeta nos deixa, para que nós leitores recomecemos em cada leitura de cada poema a dar sentido às palavras da poesia.

Indo agora talvez demasiado longe na confidência pessoal, tenho andado bloqueado na minha escrita poética pela tentação da prosa, como já escrevi, mas descobri, com a perda do Nuno, que a sua falta foi também uma das causas deste bloqueio.

A amizade do Nuno vem de muito longe na minha vida. O meu projeto poético tem pouco a ver com o seu, mas a palavra poética que nos deixou está sempre presente na minha consciência. Entre os muitos vazios que se me abrem nesta difícil fase da vida, a perda do Nuno avulta, e com a leitura do Primeiro Poema (todos os poemas são um primeiro poema) essa perda ganhou um relevo ainda mais nítido na minha consciência.

Mas ele diz-nos como devemos reagir à sua ausência:

Mas não te obstines: nada do que aqui está, ou

estiver para vir, precisa de mim.

Dirigindo-se a nós do próprio lugar da morte, ele insta-nos a recomeçar (recomeçar do zero, onde tudo recomeça) e recomeçar é o nosso trabalho de leitores, que em cada leitura dos seus poemas vimos recomeçar a obra infinita que ele nos deixou.

Nuno Júdice fica assim sempre connosco.t
 
 

Dedicado à Manuela e à Didas, os dois pilares da nossa amizade


Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Mistério de Lisboa

Nuno Júdice, Maria Isabel Barreno, Sérgio Godinho, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Mário de Carvalho, entre outros

Pinturas: José António Cardoso, Ilda David

Ilustrações: Fernanda Fragateiro, Rui Martiniano

Fotos: José Afonso Furtado

Capa: Fernando Mateus

Relógio D’Água Editores, Lisboa 1993

Havia vendedores de quase tudo: peixeiras com canastas à cabeça, tapadas com um oleado; as várias carroças de hortaliças, de frutas; havia até a carroça do petróleo; e a mulher da fava-rica, e o oculista e o homem das peles de coelho. Alguns não só vendiam como compravam, nesse tempo em que os cordéis se guardavam numa caixa, na despensa, e os papéis também, em que quase tudo valia algum dinheiro, pouco que fosse, e tinha certamente um valor de uso; o das peles de coelho, que comprava as peles frescas e vendia pelas curtidas, o ferro velho, o dos trapos e garrafas. Todos tinham pregões, espécie de logotipo sonoro da época, e hora certa para passar.

(Maria Isabel Barreno)

sábado, 22 de novembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Quando se escreve nós vemos as palavras, é um pouco como a pintura, onde temos a tela, esse sujar as mãos na tinta. Escrever para mim também é sujar as mãos nas palavras e é esse trabalho que eu também quero que esteja visível no poema.

Nuno Júdice

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 A pianista Maria João Pires disse que terminou a carreira como intérprete, depois de em Junho ter sofrido um problema de saúde que a afastou dos palcos, e está agora num "processo de mudança radical".

No discurso de agradecimento pelo Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, entregue este sábado numa cerimónia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, afirmou que adoeceu porque tentou "ultrapassar-se e ir até limites proibidos".

Disse ainda:

«Assistimos ao mesmo tempo a massacres hediondos, à destruição de povos, de culturas e, sem piedade, ao massacre do planeta. Parece que de repente temos de nos interrogar, afinal o ser humano será não inteligente ou simplesmente incapaz de evoluir com a experiência adquirida? É de certo modo explorar, tirar, não se importar, ficar indiferente ao Outro, recusar a realidade do grupo e a pertença comum. E perder é ficar de fora.»

José Saramago:

Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João, obrigado.» 

1.

A Galp registou um lucro de 973 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, com um recorde de 407 milhões de euros no terceiro trimestre (+53%).

2.
A Siemens anunciou que vai despedir cerca de uma centena de trabalhadores da sua fábrica de produção e manutenção de pás eólicas em Oliveira de Frades. E tudo indica que irá fechar portas em breve. A notícia surge nove meses depois da multinacional alemã ter avançado com um despedimento coletivo de 222 operários na sua unidade em Vagos.

3.

Preços das casas ultrapassam dois mil euros por metro quadrado pela primeira vez.
Num trimestre em que foram vendidas mais de 41 mil casas em Portugal, o preço mediano aumentou em quase 19% e fixou-se em 2065 euros por metro quadrado, o valor mais alto já registado pelo INE.

4.
Dois em cada cinco residentes em Lisboa são estrangeiros. No final de 2024 residiam em Portugal milhão e meio de estrangeiros, 85% dos quais em idade activa.  Os imigrantes são 17% da força de trabalho.

5.

Um estudo da Universidade da Beira Interior indica que mais de metade do país corre o risco de ficar sem cobertura jornalística e indica que cresce o número de concelhos sem órgãos de comunicação social.

5.

Nuno Júdice tem uma interessante reflexão sobre o assunto, em entrevista dada a Ricardo Marques, em que diz nomeadamente “Quando se escreve nós vemos as palavras, é um pouco como a pintura, onde temos a tela, esse sujar as mãos na tinta. Escrever para mim também é sujar as mãos nas palavras e é esse trabalho que eu também quero que esteja visível no poema”.

sábado, 4 de outubro de 2025

DISTO,DAQUILO E DAQUELOUTRO


As eleições autárquicas são a 12 de Outubro.

Os partidos, em campanha eleitoral, têm invadido as ruas das cidades, vilas, aldeias.

Tirando os que vão a todas, são eles que são o número das arruadas, das bandeiras, das palavras de ordem.

O resto do país está cansado de eleições, desmotivado, não acredita nas promessas apregoadas e nunca concretizadas.

Chegámos a isto!

O circo não presta e o pão já vai faltando!...

1.

Passado um mês sobre o trágico acidente, o governo ainda está a averiguar quem é a entidade responsável pela fiscalização do elevador da Glória.

2.

«Governar com a expectativa de que o Chega pode ser, ou vir a ser, um parceiro fiável é desconhecer a fábula da rã e do escorpião. Com tantos malabarismos, tanta estalada sem resposta, tanta ambiguidade no confronto com um inimigo agressivo e perigoso, Montenegro pode ganhar uma lei para acalmar as percepções e mais meia dúzia de meses de equilibrismo. Mas sendo assim, jamais será o que hoje faz mais falta: um homem de Estado, capaz de ler o país e o mundo para lá do pequeno cálculo eleitoral. As pessoas que prezam coisas simples como a coragem, que em tempos expressou no “não é não”, ou a honra do bom nome, dificilmente olharão para ele com apreço.»

Manuel Carvalho no Público de 2 de Outubro.

3.

«Até Agosto deste ano, o SNS gastou mais de 17 milhões que em todo o ano de 2024 com médicos tarefeiros. Desde 2009, uma única empresa faturou perto de 56 milhões de euros. 

Em notícia avançada pela revista Sábado foi revelado o negócio de milhões das empresas que fazem da doença lucro. Empresas como a Randstad, a Talenter, ou Select Clinical viram na falta de médicos no SNS e na dificuldade de recrutamento, a oportunidade de negócio ideal e os vários governos foram facilitando e alinhando cada vez mais na contratação de médicos a essas empresas.

Na prática, os médicos tarefeiros trabalham à tarefa, ou seja, recebem por horas de serviço prestado, consultas feitas ou turnos realizados, e normalmente não têm vínculo laboral direto com o hospital público onde trabalham. Desta feita, o hospital ou centro de saúde celebra um contrato com uma empresa de prestação de serviços médicos e paga-lhe a quantia acordada por hora ou turno.» 

Lido em Abril, Abril

4.

«A medicina é uma arte do comércio.»

Nuno Júdice

5.

«Que podemos nós fazer pelo mundo, enquanto vivemos? Muitos homens e muitas mulheres desejariam servir a Humanidade, mas encontram-se perplexos, e a sua força parece infinitesimal. O desespero apodera-se deles, e mais sofrem com o sentimento de impotência, e os que mais estão expostos à ruína espiritual através da perda da esperança.»

Bertrand Russell 

sábado, 28 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Colóquio Letras Nº 219

Lembrança de Nuno Júdice

Diversos autores

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa Junho de 2025

Em 2008, o ano seguinte à publicação de O Enigma de Salomé, Nuno Júdice publicou um poema intitulado «Para Escrever um Poema». Que começa assim: «o poeta quer escrever sobre um pássaro/ e o pássaro foge-lhe do verso». Depois entram no poema uma flor, uma gaiola feita de palavras onde o pássaro capturado não pode cantar, uma tentadora Eva (ou uma outra Salomé?) que ofereceria a sensual maçã mas que tem medo da serpente. O poeta então desiste. «E quando o poeta pousou a caneta, /o pássaro começou a voar.» E o poema termina: «O poeta voltou a pegar na caneta,/escreve o que tinha visto,/ e o poema ficou feito.» Mas isto também significa que o poema ficou incompleto, como tudo que permanece.

E como esta incompleta homenagem a Nuno Júdice fica feita.

terça-feira, 18 de março de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

O Governo já se encontra em gestão mas quer passar para os privados 174 centros de saúde agregados aos cinco hospitais que virão a ser PPP.

A notícia é do Expresso:

«Relançamento das parcerias público-privadas em cinco hospitais inclui todas as estruturas de cada uma das cinco unidades local de saúde. As ULS que têm os hospitais de Braga, Loures, Vila Franca de Xira, Amadora-Sintra e Garcia de Orta servem mais de um milhão e 700 mil pessoas. Privados esperam para ver se as propostas interessam.»

Esta de os privados esperarem para ver se as propostas interessam, não lembraria ao careca!...

O poeta, Nuno Júdice, que nos deixou em 17 de Março de 2024 – um ano, como o tempo voa! – deixou escrito num poema:

«A medicina é uma arte do comércio.»

Outro poeta, Marta Cristina Araújo, também disse que:

« Que importa o nome das doenças, se o dinheiro não chega para pagar a cura? Os pobres quando adoecem deitam-se e tomam chá.»

Sempre soubemos o que o governo do homem de Espinho tinha como prioridade primeira a destruição do Serviço Nacional de Saúde e entrega-lo, de mão beijada, aos privados.

Vamos deixar?

Temos a possibilidade de nas eleições de 18 de Maio evitar que isso aconteça.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS

 


Poemas Reunidos

Luís Filipe Castro Mendes

Prefácio: Nuno Júdice

Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2018


Carta a Fernando Echevarria


Estes versos que lês, caro Fernando,

buscam em metro e rima duro mando.

Como se na medida e no rigor

pudessem esquivar-se do sabor

das mastigadas fórmulas sem amo,

academismo vão que se fez presa

de um poetar sem cor e sem surpresa.

No alto e frio rigor da poesia

teus versos são cristais, na demasia

talhados, como pedra se lapida

e brilha, diamante, contra a vida.

Um dia me falaste de uma aura

que ao poeta preserva, como em jaula

de luzes e crepúsculos doirados

a fera aguarda o salto. Transviados,

nossos passos perdíamos no cais

em frente ao Châtelet e nunca mais

pude esquecer o teu conselho certo:

- Tempo podes perder, mas não um verso.

domingo, 7 de julho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 O Dia seguinte.

Copio do jornal A Bola do dia 6:

«A prestação aquém das expectativas de Cristiano Ronaldo no Euro 2024 está a fazer correr muita tinta em França, país que deitou por terra as aspirações de Portugal em voltar a vencer o troféu, vencendo a Seleção nas grandes penalidades.

O único que tinha mesmo estatuto de insubstituível era Ronaldo. Mas esse Martínez sempre assumiu. Apesar de, como se viu, estar errado

Pela primeira vez na carreira, o avançado do Al Nassr terminou uma fase final de grandes torneios de seleções sem apontar um único golo e, no espaço de opinião, a RMC Sport não perdoou as exibições de CR7, que foi sempre titular nos cinco jogos de Portugal na prova. «O Cristiano Ronaldo arruinou o Euro para Portugal. Sempre disse que gosto de Portugal, é uma grande Seleção, com jogadores extraordinários e, depois do que conseguiram em 2016, é incrível que não tenham melhores resultados. Entendo que Cristiano Ronaldo é uma lenda, mas desde há vários anos impede a projeção de outros jogadores e não dá nada à equipa», lê-se no texto do jornalista Daniel Riolo.

Avançado do Al Nassr ficou em branco nos cinco jogos de Portugal no Euro 2024

«Isso foi visível diante da França, Portugal jogou com 10. É uma lenda, pode continuar a ser adorado, mas foi ele que impediu que Portugal fosse mais longe no Europeu. Não gosto de ver jogadores consagrados como este a fazerem uma última aparição como se fosse uma volta olímpica. Chega a ser patético e é necessário virar a página», atirou o francês.»

1.

Milhares de pessoas manifestaram-se em Barcelona contra o turismo excessivo na capital catalã, que recebe anualmente milhões de visitantes, demonstração de uma revolta crescente em Espanha, segundo destino turístico no mundo.

Com palavras de ordem como "Basta! Ponham limites ao turismo", cerca de 2.800 manifestantes, de acordo com a polícia, desfilaram para exigir uma mudança de modelo económico para a cidade, a mais visitada em Espanha.

2.

O sector da construção civil tem mais de 340 mil trabalhadores, dos quais 69 mil imigrantes e precisa de mais 80 a 90 mil pessoas.

 3.

A princesa Ana teve alta hospitalar e regressou a casa. A irmã do Rei Carlos III estava internada desde domingo passado, na sequência de um acidente com um cavalo que lhe provocou um traumatismo.

4.

Zero é o número de mulheres que a Assembleia da República elegeu para o Conselho de Estado desde 1982, quando foi criado. Na verdade, a única mulher que representou o Parlamento no órgão consultivo do Presidente da República foi Assunção Esteves, que desempenhou o cargo de presidente da Assembleia da República (logo, teve assento por inerência).Mulheres no Conselho de Estado só acontece por inerência ou nomeação presidencial. Isto fica patente na atual constituição, em que há quatro conselheiras (Maria Lúcia Amaral, provedora de Justiça, a maestrina Joana Carneiro, que entrou para substituir António Damásio, a escritora Lídia Jorge e a presidente da Fundação Champalimaud e ex-ministra Leonor Beleza).

5.

«É ao mesmo tempo fácil e difícil explicar por que razão eu e o Nuno não nos afastámos, em todos estes anos. Que nos manteve juntos? A Poesia? A Poesia não é senhora que partilhe os seus afetos. A política? Tem sido algo esporádico na nossa vida: só estamos lá quando faz falta. A admiração pelo poeta? Há tantos poetas que admiramos, mas que preferimos não encontrar...»

Luís Castro Mendes na morte do poeta Nuno Júdice

6.

O presidente da Associação Portuguesa de Arte Xávega reclama, exige dos governantes mais acção e apoios para este velho sector da pesca.

 7.

Marine Le Pen diz que, sem a maioria absoluta da extrema-direita, a França será um “pântano”
Marine Le Pen rejeitou as sondagens que mostram que o seu partido de extrema-direita, a União Nacional, deverá ficar muito aquém da maioria absoluta nas eleições legislativas francesas deste domingo e alertou para o "pântano" em que ficará o país se o seu partido não obtiver um mandato para governar.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


De noite, quando o frio entra pela casa, e um resto de solidão gela o fundo da alma, aqueço-me com o fogo que me deixaste.

De manhã recolho as suas cinzas.

Nuno Júdice em O Fruto da Gramática

Legenda: imagem Shorpy

sábado, 1 de junho de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO

Pela nossa saúde.

O governo de António Costa estatelou-se, levou um tempo enorme para colocar um competentíssimo Fernando Araújo e a sua equipa, com condições de trabalharem para o Serviço Nacional de Saúde.

Quando as coisas começavam a rolar,  a maquiavélica – é o comentarista Marcelo Rebelo de Sousa que o disse, e repetiu – procuradora geral da república – colocou a maioria absoluta de António Costa em asa delta.

Aconteceu-nos o novo governo da AD cujo chefe há dias perorou:

«Onde alguns titubearam, tergiversaram, precipitaram e revogaram, nós decidimos tranquilamente um impasse décadas.»

No que à Saúde diz respeito, encontramos os privados – muitos sem competência, sem instrumentos que o SNS possui – a esfregar as mãos, a ouvirem o tilintar das contas bancárias.

Entregues aos bichos, arrastamos os dias.

O poeta Nuno Júdice e as sua sábias palavras:

«A medicina é uma arte do comércio.»

Outro poeta, Marta Cristina Araújo:

« Que importa o nome das doenças, se o dinheiro não chega para pagar a cura? Os pobres quando adoecem deitam-se e tomam chá.»

segunda-feira, 6 de maio de 2024

POSTAIS SEM SELO


De noite, o vento partiu um dos vidros das traseiras.

Nuno Júdice

segunda-feira, 18 de março de 2024

NUNO JÚDICE (1949-2024)


 Algumas mortes também são as nossas muitas mortes e nos últimos tempos não têm deixado de invadir os dias.

Olho o jornal que anuncia a morte de um amigo e é tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira não esteja sabermos o que dizer.

Nuno Júdice, um amigo, um poeta da casa,  morreu com 75 anos.

Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar.

E isso constitui uma tristeza sem fim…

No dia 1 de Março coloquei aqui um poema do Nuno Júdice.

Que dizia que «podíamos saber um pouco mais da morte».

Assim:

«Podíamos saber um pouco mais

da morte. Mas não seria isso que nos faria

ter vontade de morrer mais

depressa.

Podíamos saber um pouco mais

da vida. Talvez não precisássemos de viver

tanto, quando só o que é preciso é saber

que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais

do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar

de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou

amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada

sabemos do amor.»

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


As Palavras da Tribo

Antologia pessoal de poemas dos autores

Fernando Guimarães

Mário Cláudio

Nuno Júdice

Pedro Tamen

Desenhos de José Guimarães

Quetzal, Lisboa 1985

 

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

 

Poema de Pedro Tamen.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

POSTAIS SEM SELO


Uma voz canta as mulheres obscuras de Southampton. Chove no poema há alguns anos. O poeta abre, finalmente, o chapéu de chuva.

Nuno Júdice

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

POSTAIS SEM SELO


Espero do leitor que abra um livro de poesia como se abre uma caixa de fósforos: fazendo a cada poema o que se faz quando se risca um fósforo, para que ele se acenda e o seu fogo ilumine ou incendeie quem o lê. E é isso que eu, colocando-me na posição de leitor, espero de um poema: a capacidade de revelar nas palavras e nas imagens a música, a interrogação, a inquietação, mas também a percepção daquilo a que chamei "o mistério da beleza". É isso que procuro quando escrevo, tentando captar na convergência dos ventos os sinais de que a poesia continua a abrir horizontes surpreendentes num permanente convite à viagem para dentro e para fora de nós.

Nuno Júdice

Legenda: pintura de Hans Thoma

sexta-feira, 5 de junho de 2020

OLHAR AS CAPAS


As Escadas Não têm Degraus

5º Volume
 Direcção: António M. Feijó, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães

Teresa Veiga, Mário de Carvalho, Rui Nunes, Luísa Costa Gomes, Nuno Júdice, Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho, João Miguel Fernandes Jorge, Mari de Fátima Borges, Helena Vasconcellos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Judite de Carvalho, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, José Dinis Fidalgo, Pedro Paixão.
Capa: João Botelho
Livros Cotovia, Lisboa, Novembro de 1991

Há uma palmeira no largo da estação, o que justifica que se lhe chame o Largo da Palmeira, e apanha-se aí o autocarro para a cidade. Mas há quem nunca o tenha apanhado, limitando-se a ficar no banco que está no passeio, em frente de um pequeno relvado que o jardineiro traz bem tratado, bem como os canteiros com uma tulipas e uams roseiras, estas raquíticas, parece que do clima – demasiado sol. Ao fim da tarde, o lugar enche-se de velhos e de pássaros, mas só se ouve o barulho dos pássaros. Isto de abril até ao outono, Depois é a chuva: o barulho da chuva e o largo deserto.
Saí da estação e cheguei ao tal jardim com relva e alguns canteiros. Vi a paragem da camioneta, o poste com a tabuleta indicando o sítio do embarque, mas não havia camioneta. Já esperava que acontecesse uma coisa dessas: o comboio chegou demasiado tarde, a última camioneta já tinha saído; poderia apanhar um táxi, mas este não era um meio de transporte que me agradasse. Estava habituado à ligação comboio-camioneta, e agora teria de esperar toda a noite num banco da estação que a primeira camioneta do dia saísse. Como ninguém estava à minha espera, tanto fazia – excepto para as minhas costas, que saíam sempre maltratadas das viagens.