Mostrar mensagens com a etiqueta António Botto Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Botto Poemas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ainda Não se Escreveu

António Botto

Edições Ática, Lisboa, Julho de 1959

 

Canção


Não digas mal do teu amigo

E não ofendas nunca o teu irmão

Nem compliques a vida do companheiro

Onde trabalhas, também, para viver…

Quem precisa de lutar e de ganhar

Para comer,

Respeita o sentimento da solidariedade

Para não ter que ficar

A ser um dia procurado

Pela vingança do ofendido,

E ter então finalmente que ajustar

As contas que ficaram na memória

Do camarada que se ofendeu.

 

Não sejas desleal ao teu amigo.

Sê e nunca te arrependas

De ser bom, dar o exemplo

Para não te poderem criticar

Apontando os defeitos que saíram

Nesse momento em que o teu raciocínio

Deixou de ser sensato.

 

O mundo tem o feitio de um balão,

Rebenta num rápido segundo

E tudo cai na invisível retratação

De sermos coisa caída,

Coisa morta abandonada pelo chão.

E não fica sequer uma porta

Nessa infixável ocasião.

 

Não te esqueças meu leitor

Desta despretensiosa canção.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

EM MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA


Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver 
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos, 
Fiquemos uns momentos a cantar! 

António Botto

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não volto, não. Isto acabou e foi de vez.

Atleta de uma única vontade,
Não quero mais prender-me novamente
No fumo de uma triste combustão
Em que eu andei...

Sabe-me bem viver, - ser livre, enfim!

Já sei falar de coisas esquecidas.

Fui ontem ao cinema.

Sentei-me, calmo, à noite, num jardim.

Beijei uma mulher
Sem perguntar quem era..

 - Agora, dou por mim.

António Botto em Canções

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

SE PASSARES PELO ADRO


Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto,
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto;
Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo,
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

António Botto em As Canções de António Botto

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS



Isto Sucedeu Assim

António Botto
Colecção “A Novela” nº 2005
Editora Argo, Lisboa, Abril de 1940

Doía-me a garganta de tanto fumar. Cigarros sobre cigarros. Um arrepio de frio fêz---me levantar a gola do meu velho sobretudo. Houve uma aberta… Saí. Os meus vinte e oito anos e a minha virilidade de homem que punha no amor todo o lume de uma vida que sente a sensualidade, eram, agora, um desalento à mercê de qualquer coisa…
Uma guitarra tocava. Fui ao encontro do som. Entrei. Café de operários. Ao fundo, um tipo de «chauffeur». Arrancava da guitarra lentas revoltas de fado. Sentei-me; pedi um copo de vinho.
A guitarra dominava. Chorosa, quási em surdina, ia atrás do cantador; e a cantiga tinha cunho, certo recorte fatal em versos de amargo travo:

A mulher que vai ao clube
Passa por ser desonesta
Até lhe chamam perdida;
Só se vê nela o desejo
Decadente de viver
O fundo inútil da vida.

Ninguém procura ver nela
Mais que a mentira de um beijo
À margem de outra mentira;
Um cigarro que se fuma,
Ou palavra que se perde
Na voz de alguém que delira...

Se os olhos enche de pranto,
E com ele os olhos lava
- Reflexo de uma agonia, -
Quantos não dizem: - Fiteira,
Quer comprar alguma jóia
E o ourives não lha fia.


E a mulher por mais rameira
Não tem somente por norte
Atraiçoar ou mentir:
Nela, há tesoiros de amor
Que valem mais que a fortuna
Maior que possa existir!

Porque nós é que a levamos
Ao pecado que deprime
E ao bordel da perdição;
Triste odisseia da carne
Que se canta e se amortalha
Nos versos de uma canção!

Mas, como a verdade é uma,
Embora digam que há muitas,
E cada qual tem a sua,
Na mulher não queiram vê-la
Simplesmente quando beija
E apenas quando está nua.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

BENDITO SEJAS


Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo
A minha dor,
Estremecendo, acorda…

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.


Canto e choro amargamente;
Mas, a dor, indiferente,
Continua…

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!

— E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

— Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!

António Botto em Canções

Legenda: pintura de Jan Fyt

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

OUTRA


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto em Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade

Legenda: pintura de Pablo Picasso

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

CANÇÃO MUTILADA


A tarde cai amaciando a terra,
E enchendo-a de miragens tentadoras
Enquanto o Sol,
Nos últimos alentos,
Se prende aos galhos de um arbusto
Que, ressequido, à beira de uma ermida,
Parece o próprio símbolo da Vida.

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,
Pisam o pó e as pedras dos caminhos
- Como bandeiras humanas
Movidas pelo infortúnio,
Sem alegria, sórdidos, curvados,
Mas enormes no seu frémito de luta!

Ah!, nem a Morte quer os homens
Quando eles são desgraçados!

As estrelas lá, no alto,
Riscam cintilantes brilhos.

E em bandos –
Os maltrapilhos,
Silenciosos e ateus,
Zombam do Amor
E até de Deus!

A miséria
Quando atola
O homem nos seus negros labirintos,
Dá-lhe, também, a loucura
Dos mais trágicos instintos…

Agora, neste momento,
A noite –
É a imensa realidade…

E eu julgo ver a justiça
Afundar-se na penumbra
Da sua inútil verdade.

António Botto

Legenda: retrato de António Botto por Almada Negreiros

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

NÃO É CIÚME O QUE EU TENHO


Não é ciúme o que eu tenho,
É pena;
Uma pena
Que me rasga o coração.

Essa mulher
Nunca pode merecer-te;
Não vive da tua vida,
Nem cabe na ilusão
Da tua sensibilidade,
- Mas é bela! Tu afirmas;
E eu respondo que te enganas.

A beleza -
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe
E quando existe não dura.
A beleza -
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto é literatura.

Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
- Esta carne que lembrava
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência,
A aproximar-se do fim...

Eu já conheço o teu sexo,
Tu já gostaste de mim.

A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço,
- Tudo isso eu devassei...

Não é ciúme o que eu tenho;
Mas quando te vi com ela
- Sem que me vissem, chorei...

António Botto em As Canções deAntónio Botto

segunda-feira, 14 de maio de 2018

PARA DIZER À GUITARRA


Cantar! - Não há ninguém que não cante
Mesmo em silêncio, ninguém!
E às vezes a gente canta
Sem vontade, sem prazer,
- Apenas para mostrar
Que a vida sem esse além
Não tem uma razão de ser.

Cantar para dissuadir
Os venenos do ciúme
Ou para ficarmos sós
Com a nossa consciência,
É sempre som que se espalha
E fica na eternidade
Desse momento vivido;
- Nas sombras de uma saudade
Há sempre a visão amarga
De um coração iludido.

Cantar! Resumo liberto
De tudo que anda a viver;
Numa nota musical
Que se escapa da garganta
De quem canta o que souber.


Legenda: pintura de Evaristo Baschenis

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

TANGO


Fico envolvida no remorso
Quando me ponho, lentamente, a recordar
O que foi a minha vida —
Contigo,
Naquele bar...

Dois anos! Dois pesadelos
Que me engelharam as carnes
E envelheceram os cabelos.

Ao que eu desci na tua companhia!
— Vocabulário, gestos, e o que eu fiz?
Queria ver-te bem, e para isso,
Tornei-me tudo... e até fui meretriz.

Nas mansardas do crime e do pecado
Desafiando a sífilis e a morte
Dei-me nua a dançar!...

E tudo para quê? Pra nada te faltar.

Ó tascas sonolentas, marinheiros,
Risos de escárnios, chufas, bofetadas,
Apitos, sangue, um grande cais, e a Lua,
Pálida, longe, a derramar torpor...

Triste, em surdina, uma guitarra fala!...

Visualidade trágica do amor.

António Boto em Canções


Legenda: pintura de RaymondLeech

quinta-feira, 25 de junho de 2015

NAQUELA MESA DO FUNDO


Vem surgindo a madrugada.
Entro agora num dancing.

Numa guitarra que tange
Oiço a mágoa do meu sonho.

Há vestígios de batalha:
Nódoas de vinho,
E alguns pratos
Com restos de carne, -- e o cheiro
A tabaco e a febre e a flores
Paira
Na sala como um cansaço...

Triste,
Vou lembrando os meus amores.

Além,
Naquela mesa do fundo,
Naquela mesa redonda,
Um homem
Descasca uma tangerina
E vai beijando e mordendo
A mulher franzina e feia
Que ao pé dele fuma e sorri...

Vou lembrando os meus amores!

E até me lembro
Daqueles
Que partiram para sempre...

--Mas, não me lembro de ti.

António Botto em Canções

segunda-feira, 16 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Canções de António Botto

António Botto
Livraria Bertrand, Lisboa, 1956

Sentado à minha varanda,
Contemplo a noite que desce
E a rosa
Que puseste no meu peito.

E, largo tempo,
Ficando silencioso,
Oiço uma voz que me fala...

-- Que voz é esta,
Tão incisiva, tão pura,
Que me pede que acredite
E tenha fé no destino?

Inclino a fronte, -- medito
No altíssimo desejo 
Que anda comigo
E sobe a cada momento!

Nas ramas do arvoredo,
O vento,
Passando, diz qualquer coisa.

A sombra cai,
De repente, volumosa.

Mal distingo as minhas mãos.

E ao pé de mim
Tomba o corpo

Fino e frágil dessa rosa.