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sábado, 27 de setembro de 2025

REOLHARES


 Só agora, fortuitamente, uma chatice, ultimamente tudo me acontece fortuitamente, dei conta que o Presidente da República atribuiu a Grã-Cruz da Ordem de Camões a António Lobo Antunes no 10 de Junho e entregue a Lobo Antunes a 1 de Setembro, dia do seu aniversário.
Segundo o jornalista João Céu e Silva, António Lobo Antunes deixou de escrever, de fumar (algo que para Lobo Antunes era como respirar), já não reconhece os seus próximos e perdeu a noção do mundo que o rodeia.
Voltar atrás, e reolhar este texto por aqui publicado no dia 5 de Maio de 2018:

«Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

domingo, 2 de junho de 2024

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Dizem as diversas fábulas que, durante largos dias, finais dos anos 60, Natália Correia andou às voltas por Lisboa para encontrar um sítio onde pudesse concretizar um dos seus muitos sonhos: um bar-tertuliano estilo belle époque dos cafés de Paris onde acontecessem beberes, comeres, poesia, música e muita cavaqueira.

No Largo da Graça, junto à Vila Sousa, vila operária, que ao contrário da Vila Berta não mereceu os cuidados do escriba José Cardoso Pires, no seu Livro de Bordo, Livro de Bordo, encontrou uma velha carvoaria e entusiasmou-se.

Chamou-lhe O Botequim.

Por ali, antes e depois de 25 de Abril, passou toda, ou quase toda, a intelectualidade, portuguesa, gente interessante, nem toda, também políticos, militares, que dissertavam sobre cultura, política e muita má-língua.

Melo Antunes pelas suas ideias progressistas teve vários bates-boca com Natália.

José Saramago também teve direito a uma natalice.

Segundo Joaquim Vieira, no seu mal-amanhado livro no seu mal-amanhado livro sobre o Nobel português, conta:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá tido com Saramago a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Dacosta como testemunha: »A Natália falava da “desterritorialização” da literatura em Portugal, de autores que escolhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao Saramago, a propósito disso: "E tu também enveredaste por esse processo, porque queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.”»

 A um canto do bar havia um piano e por aquele tempo gente vária andava com uma viola a tiracolo. Bebia-se do fino, teceram loas ao Rosbife da casa, também ouvi dizer que por lá se comia um razoável Bacalhau à Brás.

Quando, após a sua morte, O Botequim deixou de ser da Natália Correia, ainda funcionou uns meses como bar mas, como faltava a presença real da Diva, acabou por fechar.

A Associação José Afonso chegou a sediar-se por ali e num São Martinho, no pátio central da Vila Sousa,  organizou uma castanhada, comeram-se bifanas e entremeadas, beberam-se fartos  packs de tintol.

Este menú de um café francês, datado de 1911, que encima o paleio, foi, nesse findar de tarde, por lá encontrado.

sábado, 25 de novembro de 2023

APENAS UM VENCEDOR


Saramago foi o único vencedor do 25 de Novembro.

Luiz Pacheco

terça-feira, 17 de novembro de 2020

SARAMAGUEANDO


 O Botas de Santa Comba Dão, que marcou este país de negro, desespero e miséria, mandou um dia os seus capangas espalharem a notícia de que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses.

Foi um copo de vinho a mais bebido, ao almoço, pelo funcionário do Registo Civil, Silvino de seu nome, que à criança nascida na Azinhaga, terra ribatejana, a 16 de Novembro, de 1922 chamou  José de Sousa Saramago. O pai da criança pretendia que se chamasse apenas José de Sousa mas o funcionário Silvino, de olho brilhante pela pinguinha acrescentou Saramago que era a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Saramago é uma erva que cresce sem cultura em quase todo o Portugal.

José Saramago agradeceu o toque vinícola de Silvino que lhe permitiu o nome por que passou a ser conhecido no mundo, em vez do lacónico José de Sousa.

Regressamos a um País Levantado em Alegria, que, segundo Sergio Ramirez no prefácio,  nos conta como se fosse um thriller a história do Prémio Nobel atribuído a José Saramago:

«No dia 8 de Outubro de 1998, minutos depois de receber a notícia de que o Prémio Nobel lhe havia sido atribuído, José Saramago viu-se só, num imenso corredor de um aeroporto. Estava longe da companheira, muito distante da sua casa, do jardim onde passava os finais de tarde rodeado dos cães, e foi invadido por uma «solidão agressiva» que nunca havia sentido. «Deram-me o Nobel e o quê?, diz que pensou, naquele momento o escritor português. E percebeu que a alegria com a notícia fora encoberta pelo facto de não ter com quem partilhar aquela conquista.»

Numa entrevista ao Jornal de Letras falou sobre os cerca de 400 dias em que viveu uma vida de estrela de rock.

«Quando disse que o Nobel não ia mudar a minha vida, provavelmente o que queria dizer é que não ia mudar a pessoa. Mudar a vida, calculava; não podia imaginar era até que ponto. E com que intensidade, nesta espécie de delírio que foi viver este ano. Um ano que não posso esquecer.»

«Não quis ficar em casa. Seria absurdo se i fizesse então, porque nunca o fiz. Nunca fui pessoa de me entregar à minha obra e não querer saber de mais nada.»

«Nesse ano atípico, em que não escreveu quase nada, mas em que viveu muito, Saramago dividiu com os seus leitores e amigos espalhados pelo mundo um galardão que foi recebido e celebrado como um bem comum. Foi o Nobel da língua portuguesa, o Nobel de milhões de leitores de Saramago espalhados pelos cinco continentes, E também o Nobel daqueles que, não tendo lido um só livro do autor, se reconheciam nas suas origens e forma de ver o mundo.»


Legenda: fotografia de Daniel Mordzinski

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

SARAMAGUEANDO

Há um pedacinho nas Férias de Agosto de Cesare Pavese em que se lê: «… e era já manhã, um outro dia tranquilo. Recordo o perfume quente, as vozes nas ruas. Sei onde cai a uma certa hora a quadra do sol na tijoleira da sala.»

 Eu, ainda hoje, recordo a intensidade do sol, as vozes no quiosque, em Manteigas, quando olhei a capa do «24 Horas» e li que José Saramago poderia ganhar o Nobel. Comprei o jornal, não que eu acreditasse que alguma vez a Academia Sueca faria a atribuição do Nobel a um escritor de língua portuguesa e muito menos a um escritor português.

 Mas aconteceu.

 Um escritor português ganhou o Nobel, foi o primeiro.

 Terá sido o último?

 Um país então levantou-se em alegria, escreveu na altura Eduardo Prado Coelho:

 «É possível, como se viu nesta semana, que um país se levante em alegria porque alguém ganhou um prémio de literatura.»

 Muitos já terão esquecido essa alegria.

 Esteve bem a Fundação José Saramago, pelos 20 anos da atribuição do Nobel,  em publicar um livro, Um País Levantado em Alegria, da autoria de Ricardo Viel em que se desenha o caminho do que foi esse acontecimento, algo que se perdeu nas páginas dos jornais da época, acrescentando episódios desconhecidos.

 Em cento e setenta páginas viajamos por esse tempo que eu, mais alguns, direi inesquecível, e disso se dará conta por estes dias de triste e terrível confinamento.

 O livro abre com um texto de Eduardo Lourenço a que chamou «A mão esquerda de Deus…»:

 O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo á violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta. Isso não o coloca fora de uma mais arcaica tradição nacional: a do alegorismo que é sempre espelho de uma verdade já revelada. No horizonte da sua ficção há essa íntima convicção de uma verdade de rosto exclusivamente humano que lhe servirá para invocar, por contraste, a inumanidade ofuscante que caracteriza o tempo da cegueira que nos coube. E lhe coube. Salvou-o da hagiografia e do dogmatismo um miraculoso dom de ironia e uma quase inexplicável candura ou simplicidade diante da vida, que a vontade e poderio e o cego arbítrio tantas vezes desvirtuam.

De hoje em diante haverá um «mito Saramago» como existe em torno de Fernando Pessoa, que, como todos os mitos, não tem tanto a ver com o valor das respectivas obras, mas com o vazio que vêm preencher no nosso imaginário nacional em busca do reconhecimento universal. Toda a nossa cultura beneficiará dessa aura que poderia ter recaído sobre outros, mas lhe coube e assenta como um diadema invisível ao autor de Todos os Nomes, a mais bela e profunda das suas alegorias.»

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Um País Levantado em Alegria

Ricardo Viel

Introdução de Eduardo Lourenço e Sergio Ramírez

Porto Rditora/Fundação José Saramago, Lisboa, Outubro de 2018

Gostaria, depois de já não estar, que a Pilar organizasse, para publicar, cartas absolutamente extraordinárias, documentos humanos de uma profundidade, uma beleza e emoção raras, que me chegam de toda a parte.

José Saramago, Janeiro de 2003

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

SARAMAGUEANDO

Neste mesmo dia, há 22 anos, quando o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído ao português José Saramago e pela primeira vez à língua portuguesa, muitos milhares e milhares espalhados pelo mundo,  desconheciam o escritor.

Alguns terão ido à procura de um livro seu e pode ter acontecido ficarem a gostar. O contrário também foi possível.

Por aqui, Eduardo Prado Coelho escreveu que um país se levantou em alegria.

Nem todo um país, é certo, mas muitos foram em busca dos seus livros, das suas palavras.

«Gostava de conhecê-lo pessoalmente para lhe poder dizer que, de alguma forma, os  seus livros mudaram muito da minha vida.», como escreveu um leitor anónimo, naquelas muitas milhares e milhares de cartas que Saramago recebeu e que ainda aguardam publicação em livro, tal como um dia o autor deixou expresso.

«Tenho milhares de cartas e costumo dizer que a obra completa de um escritor só estará realmente completa publicando-se uma selecção das cartas dos leitores porque – fala-se tanto da teoria da recepção – é naquelas cartas que se vê realmente o que é a recepção. Em casa devemos ter umas duas mil cartas de leitores que é preciso classificar e ordenar.»

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

ÓDIO À LITERATURA


Por cá, também tivemos um estimável cultor do ódio à literatura, a quem nunca estaremos suficientemente agradecidos: Trata-se de uma sumidade chamada Sousa Lara, quando foi, em tempos recuados (já na altura o seu tempo era recuado), subsecretário de Estado da Cultura. O seu ódio a toda a literatura que não fosse a do cânone estritamente cristão e piedosos é conhecido, o que, como pudemos verificar, só trouxe vantagens. Sousa Lara é a prova de que os políticos conseguem fazer alguma coisa pela literatura quando mostram publicamente que a detestam. O ódio dos políticos pela literatura devia ser considerado um bem público.

António Guerreiro no suplemento Ipsilon do Público.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel da Literatura.

As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente ausentes.

 O Prémio Nobel, é acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.

José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».

Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio de 1967, José Saramago revela:

Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…

José Saramago queria ser escritor, era esse o seu gosto.

Já tinha publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953 termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Não consigo encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.

Há aquela frase largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:

«Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter».

É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força e determinação.

José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.

Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:

«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.»

Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que um dia Saramago seria Prémio Nobel.

Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que, enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»

Outra pessoa que acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Pilar del Rio também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.

A páginas 548 de Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não tenho dúvidas.»

Joaquim Vieira revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da Literatura. Vem na página 549 do livro:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização” da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»

Nunca se me colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

No ano da atribuição do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».

De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.

Ao longo dos cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:

No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…»

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»

No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:

«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.»

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

UM PRÉMIO POLÍTICO


João Pedro George pergunta a Luiz Pacheco a sua opinião sobre José Saramago:

É muito meu amigo. Foi muito porreiro comigo na altura do Diário de Lisboa. E noutras ocasiões. Um dia apareceu-me no sanatório do Barro, em Torres Vedras, com a Isabel da Nóbrega... quando se foram embora puseram uma nota de cinco contos, disfarçadamente, na gaveta da mesa de cabeceira... Quando ele recebeu o Nobel foi lá a Palmela uma filha minha, com o marido e com os dois filhos, e diz-me assim: “ah, tu tens é inveja do Saramago”. Tenho agora inveja do Saramago… nunca quis prémio nenhum quanto mais agora o Nobel… quem tem inveja do Saramago é o Lobo Antunes e muita… porque o Lobo Antunes deve ter-se convencido que com o seu mérito próprio ganhava o prémio... ora o prémio não é um prémio para mérito próprio, o prémio é um prémio político, o prémio é dado com pontaria, com muita pontaria...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

DISCURSOS DE ESTOCOLMO


Discursos de Estocolmo

José Saramago
Fundação José Saramago, Lisboa s/d

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

NOTÍCIA DE PRIMEIRA PÁGINA


Não posso passar por livrarias, bancas de jornais.

Nas livrarias entro logo, nas bancas de jornais fico a olhar.

Foi assim naquela quarta-feira de 7 de Outubro de 1998.

Numa banca de jornais, os olhos saltaram para o topo da primeira página do «24 Horas», de leitura pouco recomendável, e que deixou de se publicar em Junho de 2010.

O título dizia que os americanos apostavam em José Saramago para o Nobel desse ano.


Já em 2 de Outubro, o «Público» mencionava Saramago para o Nobel, mas era uma curta notícia, perdida no interior do jornal.

Comprei o «24 Horas».

Na página 40, o desenvolvimento da notícia, baseada num telegrama da Associared Press, referia que José Saramago era uma opção para o Nobel, mas o albanês Ismail Kadare era o favorito. Também eram referidos o chinês Beo Dao e o sueco Tomas Transtroemer.

O poeta sueco TomasTranstroemer viria a ser o Nobel da Literatura em 2011.

SARAMAGUEANDO


A imagem, que não vemos, tanto quanto se sabe ninguém a registou, é a de um homem, no cinzentismo do enorme Aeroporto de Frankfurt, a caminho do avião que o levará a casa, gabardina no braço, uma mala na mão, e será o tempo de uma colaboradora da Ibéria, correr no seu encalço para lhe dizer que era o novo Prémio Nobel da Literatura.

Esse homem, que andou sempre descalço até aos 14 anos, dirá dias depois, num comovente discurso:

«A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiveram. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.»

Vinte anos se passaram.

A alegria de todos aqueles que a quiseram sentir, não esmoreceu.

Bem pelo contrário.

E nas imagens, que também ninguém registou, sabemos que nas noites quentes de Verão, depois da ceia, o avô dizia-lhe:

«José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.
E enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava.
Nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo.»

Ali, naquelas noites, outras noites, terão nascido todas as personagens que encheram o mundo dos livros de José Saramago, fizeram dele a pessoa que sempre foi, que uns amam, outros odeiam. mas a que não se pode ficar indiferente.

«Em certo sentido poder-se-á dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei.»

E, servindo-se do seu livro Ensaio Sobre a Cegueira, em final de discurso, dirá «que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo».

domingo, 7 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


9 de Outubro de 1997

Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha. Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: «Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume V

Legenda: fotografia tirada pela minha neta Maria, da janela da cozinha de Lanzarote, quando em Agosto visitou a casa onde viveu e morreu José Saramago.

sábado, 5 de maio de 2018

ETECETERA


Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

A PROCISÃO AINDA NÃO SAÍU DO ADRO

Depois das declarações de António Costa, Carlos César, Fernando Medina, António Arnaut e João Galamba, proferidas nas últimas horas, José Sócrates abandonou o Partido Socialista.

Em artigo, publicado no Jornal de Notícias esclarece:

«Durante quatro anos suportei todos os abusos: a encenação televisiva da detenção para interrogatório; a prisão para investigar; os prazos de inquérito violados sucessivamente como se estes não representassem um direito subjetivo que não está à disposição do Estado; a campanha de difamação urdida pelas próprias autoridades com sistemáticas violações do segredo de justiça; o juiz expondo na televisão a sua parcialidade com alusões velhacas; a divulgação na televisão de interrogatórios judiciais com a cumplicidade dos responsáveis do inquérito.
Na verdade, durante estes quatro anos não ouvi por parte da Direcção do PS uma palavra de condenação destes abusos, mas sou agora forçado a ouvir o que não posso deixar de interpretar como uma espécie de condenação sem julgamento.» 

O primeiro-ministro António Costa mostrou-se surpreendido porque «não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política.»

Mas respeita a decisão de José Sócrates.

A FECHAR

«Ordinariamente, todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações, e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal  são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

Eça de Queiroz no Distrito de Évora em 1917

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

GOSTARIA QUE HOUVESSE UM NOBEL PORTUGUÊS...


Carta de Sophia, datada de Março de 1978, para Jorge de  Sena:

Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.

sábado, 10 de dezembro de 2016

ALGUÉM NÃO ANDA A CUMPRIR O SEU DEVER


Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.


Discurso de José Saramago pronunciado, em Estocolmo, no dia 10 de Dezembro de 1998.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

SARAMAGUEANDO


9 de Outubro

Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha. Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: «Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.» Amanhã partiremos para Colónia.

14 de Outubro

Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Vol. V.

Legenda: fotografia retirada da Fundação José Saramago

domingo, 9 de outubro de 2016

SARAMAGUEANDO


Capa do Público de 9 de Outubro de 1998.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SARAMAGUEANDO

                                                                                               
Em fim de mandato, os presidentes da república desatam a galardoar uma série de gente, irrelevante gente, que pode ir do cabeleiro da mulher ao fornecedor de suspensórios.

Na semana passada, Cavaco Silva, cumpriu essa tradição.

Acontece que entre os condecorados estava António Costa de Albuquerque de Sousa Lara, com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro.

Ora, Sousa Lara ficou para a história por ter tomado, como subsecretário da cultura, a iniciativa de vetar o Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago, da lista de candidatos ao Prémio Literário Europeu do ano de 1992.

Fiama Hasse Pais Brandão e Pedro Tamén, também estavam nessa lista, mas em solidariedade para com Saramago, pediram para ser excluídos da candidatura.

Ao tempo, Sousa Lara, um idiota vaidoso, argumentou que a obra não representava Portugal, e a sua moral pífia, de mera rata-de-sacristia, levou-o a bolsar que o livro ataca princípios que têm a ver com o património religioso dos cristãos e, portanto, donde em vez de unir os portugueses, desunia-os.

Era Santana Lopes o secretário de estado da cultura e Aníbal Cavaco Silva o primeiro-ministro, o tal que nunca se engana e raramente tem dúvidas.

Nem Santana, nem Lara foram demitidos e Cavaco Silva sempre concordou com a decisão. Lara referiu mais de uma vez que a sua decisão teve o apoio do primeiro-ministro.

Houve mesmo um jantar de homenagem a Lara no Muxaxo, no Guincho.
    
Entre os duzentos convivas, estavam ministros do governo, representando o espirito de Cavaco, que acabou por enviar  um telegrama de solidariedade e D. Duarte Pio, em discurso, afirmou, com elegância monárquica e cristã que o livro era uma merda.

Interrogada pelo Público em relação à atitude de Sousa Lara, Agustina Bessa-Luís respondeu: Foi um acto impolítico. Deviam-me ter perguntado, eu explicava tudo, ninguém percebia nada, mas ficavam todos contentes.

Por efeito do triste e lamentável acto censório de que foi vítima, José Saramago passou a viver em Lanzarote.

Quando o senhor Sousa Lara já nem a si mesmo se representar, eu ainda representarei este país, disse, então, Saramago ao Expresso.

Hoje, não existem dúvidas que o estúpido, o abjecto acto de censura que o governo de Cavaco Silva exarou sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo, desencadeou uma repercussão internacional, que fez voltar as atenções para a pessoa e o escritor José Saramago.

Do lamentável incidente governativo ao Nobel, foram apenas alguns passos.

Cavaco Silva, que não gosta de livros nem de comunistas, arrasta consigo o pesadelo de ter feito com que José Saramago entrasse na engrenagem da Academia sueca para atribuição do Nobel.

Cavaco Silva nunca leu José Saramago.

Certa vez, titubeou que tentara mas achou-o maçador, não sabe se por falta dos pontos finais, das vírgulas, dos pontos e vírgulas.

Sousa Lara foi o idiota vaidoso a quem deram uma cadeira de poder.

Apenas agarrado ao poder por mera vaidade e não pelo dinheiro.

Segundo Francisco Sousa Tavares, num artigo no Publico desse ano de 1992, Lara é milionário por dois lados: o lado Alnodovar da sua mãe – das maiores fortunas em posse de terras do Alentejo – e a herança dos Sousa Lara que, na exploração do café e dos negros, trouxeram de Angola uma enorme riqueza.

José Saramago dirigiu sempre as suas críticas para a pessoa do primeiro-ministro Cavaco Silva, ele sim o grande culpado pelo lamentável incidente, não só por ter escolhido atrasados mentais para o seu governo, como nunca se ter desmarcado do acontecimento.

Não cabe nas minhas forças evitar a existência dos «dráculas», mas nada poderá obrigar-me a apertar-lhes as mãos, escreveu no 3º volume dos Cadernos de Lanzarote.

Pilar del Rio, viúva de Saramago, qualifica a condecoração de Cavaco a Lara de triste fim.

Acrescentando: Coitados, um e o outro.

Com esta condecoração ao Lara Cavaco Silva mostra aquilo que sempre foi: um rancoroso, um insensível, um vingativo, um inculto, um medíocre, um cínico.

Enfim:  um ser DESPREZÍVEL!

Legenda: na fotografia, o Lara idiota é o segundo a contar da esquerda.