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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SEMPRE PREFERI O MORRER


Como é vulgar dizer-se , li as Memórias de Rómulo de Carvalho enquanto o diabo esfrega um olho.
Comprei-o na Feira do Livro no dia 17 de Maio de 2011 e logo nesse noite dei-lhe um bom supetão.
Para estas Leituras, voltei a pegar no livro, mas antes já o fazia.
Pego-lhe como os crentes se debruçam sobre A Bíblia para, em cada hora, em cada dia, em cada semana, em cada mês, lerem passagens.
Ficaram por aqui, começaram em 20 de Abril de 2017, alguns excertos das Memórias de Rómulo/Gedeão, pálida imagem da riqueza que este livro possui, escrito por um poeta, um cientista, um homem extraordinário, um príncipe.
Rómulo de Carvalho escreve o seu adeus.
A 1 de Fevereiro de 1997 escreve aos tetranetos que se aproxima o fim, a vida tornou-se um martírio.
Morreu a 19 de Fevereiro desse mesmo ano.

«Muitas dores. Muitas dores. E que tenho, afinal? Não se sabe. As radiografias que tirei dizem que está tudo bem. E eu a sofrer, a sofrer, a sofrer. Um martírio.
Por tudo isto me decidi a terminar a escrita destas memórias. Ficareis a saber de mim tudo quanto era facilmente comunicável. Morro tranquilo porque nunca fiz mal a ninguém e sempre ajudei o próximo em tudo quanto pude. Nunca me zanguei com ninguém, como já vos disse, e de boa vontade pediria desculpa a quem tivesse tido de mim qualquer impressão de que o ofendera ou magoara, Cumpri sempre os meus deveres para com o próximo e o distante. Trabalhei a vida inteira e, embora mal remunerado sempre o fiz com todo o esmero possível.
A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver e é por isso que alguns se suicidam, o que é digno de todo o respeito. Nunca pensei nisso e só em consequência de um sofrimento excessivo o faria.
O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta permanente e feroz em que cada um busca a satisfação dos seus interesses exactamente como outros quaisquer seres vivos, animais ou plantas, que se espreitam e se atacam. Em nós, humanos, que somos o ponto mais elevado do desenvolvimento das espécies, o modo de proceder é diferente e as manhas são outras. Mas o homem que está comodamente sentado à secretária do seu gabinete, com a esferográfica na mão e o papel defronte, ruminando em qual será a melhor maneira de atacar o próximo, de o explorar, de o dominar e de encher os seus próprios bolsos, em nada difere, nas intenções, de um quadrúpede qualquer, de um insecto, de um peixe, do que for, que está muito quieto no seu reduto, espreitando o outro que anda ali próximo, para dar o salto no momento próprio. Ele vigia, o insecto, o peixe, o quadrúpede, pensa, faz cálculos, analisa, decide e, num relâmpago, atira a sua arma sobre o irmão distraído, pisa-o, esmaga-o, massacra-o e descansa, olhando em redor, não venha outro como ele fazer-lhe o que agora tanto o satisfaz. E nós a julgarmos que somos os únicos e privilegiados animais presentes. Não é sem pensar que o pobre cão perdido a longa distância da sua casa, a dos seus donos, consegue reencontrá-la e de novo repousar no seu habitual aconchego. E assim já tem sucedido. Ou a gaivota que levanta voo do rochedo para ir examinar o mar e regressa para comunicar às companheiras que a aguardam como as coisas decorrem. Ou as formigas que vão e vêm, numa carreirinha, segredando umas às outras o que se vai passando.
As minhas dores no estômago e nos intestinos continuam sem descanso e os médicos não descobrem o que tenho apesar de todo o seu saber, simpatia e generosidade. É preferível morrer. É neste estado que vos escrevo embora a minha letra, que aqui vêdes, não dê sinal de tantos males e de tão profundo abatimento. Fui sempre pessoa de grande coragem e espero conservá-la até o último momento.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

domingo, 29 de julho de 2018

TENHO UM METRO E SETENTA E OITO


Vamo-nos aproximando do das derradeiras páginas das Memórias de Rómulo/Gedeão.
Conta agora aos tetranetos as homenagens que lhe fizeram em vida:

«…aqui para nós que ninguém nos ouve, achei demasiadas tantas homenagens. Não me lembro de nenhum caso como este. Foi talvez único. Eu imagino como os meus colegas de çetras, das poesias e das prosas, terão franzido o sobrolho à medida  que foram tendo notícia dos acontecimentos. Mas que é isto? A surpresa deles teria sido igual à minha. Achei sinceramente que foi demais.»

No dia 17 de Dezembro de 1966, a Escola Secundária Pedro Nunes, antigo Liceu Pedro Nunes, homenageou o seu antigo professor:

«Comecei por efectuar duas visistas aos meus antigos locais de trabalho que deixei há vinte e um anos, em 1975. A primeira foi ao Laboratrio da Física à entrada do qual descerrei o pano que cobria uma lápide sobre a porta que atribuía o meu nome àquele espaço. Lá dentro tudo em ordem, o material nas prateleiras dos armários (à excepção das peças roubadas pelos alunos após o 25 de Abril), e a minha mesa de carpinteiro, que o reitor de então lá pusera a meu pedido, onde saboreei longas horas em que nela serrei, limei, martelei, preguei».
(…)
«Num dos últimos dias do mês de Dezembro a Editora João Sá da Costa lançou ao público uma edição da poesia de António Gedeão intitulada “Poesia Completa”. É uma edição luxuosa, de grande formato, que reúne toda a minha obra poética, os seis volumes que publiquei, ilustrada com dezasseis estudos do consagrado pintor Júlio Pomar. A obra custa um pouco menos do que recebo, em dois dias, do meu vencimento de miserável reformado. Também haverei de ser condecorado por ter conseguido viver com tão pouco.»
(…)
«Reparando em tanta e tanta gente que se me dirigiu, por escrito, ou por boca, em tanta gente que participou nas diversas homenagens, gente de nomeada, professores universitários, investigadores, cientistas, avulta o desinteresse dos letrados, dos escritores, dos chamados intelectuais. O reduzidíssimo número dps que se manifestaram, três ou quatro, fizeram-no porque foram especialmente convidados para colaborarem, como foi o caso de Urbano Tavares Rodrigues, que estou certo nunca se lembraria de me escrever, dando-me cumprimentos, se não o tivessem escolhido para falar sobre mim na sessão da Academia das Ciências. Nem um só escritor se lembrou de me enviar um cartãozinho de cumprimentos. Nem um só. Vocês, meus queridos tetranetos, que me conhecem bem, sabem que isto, em mim, não é motivo de aborrecimento, de desagrado, de ressentimento, de protesto, mas apenas motivo de reparo. Reparei que nenhuma pessoa de letras, espontaneamente, me cumprimentou. Recordei até aquele rapaz, de nome João de Melo, escritor, com quem um dia conversei, que em certo momento me disse que eu era “um grande poeta. Sim – disse eu. Tenho um metro e setenta e oito. Ele não se riu, nem sorriu. Olhou-me sério e de sobrancelhas carregadas.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: Liceu Pedro Nunes

sábado, 21 de julho de 2018

A DESTRUIÇÃO DA VIDA SOBRE A TERRA


Estamos a chegar às últimas palavras das Memórias de Rómulo de Carvalho.
O que se segue, foi o que o professor, poeta e cientista, quis deixar aos seus tetranetos  no dia em que fez 90 anos:

E assim chegámos ao ano de mil novecentos e noventa e seis, ano em que completei noventa anos de idade no dia 24 de Novembro.
Pesai estas palavras, meus queridos tetranetos, e reconhecei quanta paciência é necessária para viver tanto tempo. Pode ser que os progressos da Ciência façam desta idade apenas um valor médio das idades nos anos dois mil e tal em que vocês caminhem sobre este planeta. Mas também é possível que essa mesma ciência já tenha destruído as vossas vidas. Por enquanto ainda vamos aguentando tudo isto. Mas qual será o meu futuro ou seja o vosso presente? As águas dos rios e dos mares estão cada vez mais poluídas. As fábricas lançam neles os resíduos do que produzem e envenenam-nos. Os peixes mortos, aos montões, flutuam nessas águas. Os animais dão-nos carne engordada com os produtos químicos que s obrigam a engolir. As florestas estão a ser completamente dizimadas pelo fogo ou pelas serras que as cortam. A atmosfera está poluída com os produtos gasosos que as fábricas e os motores dos automóveis libertam incessantemente. Tudo se encaminha para a destruição da vida sobre a Terra, e creio que todos estamos nisso de acordo, excepto talvez o papa. E a tudo isto Deus assistirá repimpado na sua poltrona de nuvens.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UM POEMA QUE EU FIZ QUASE A ASSOBIAR


A “Pedra Filosofal”, a que a imprensa se refere frequentemente, foi, não propriamente o poema por si só mas ele e a música do Manuel freire, um dos acontecimentos mais notórios destes últimos anos, entre nós. Aliás foi um dos poemas que eu fiz quase a assobiar e daqueles que menos gosto. Quando Manuel Freire o musicou e o cantou em público pela primeira vez, na televisão, em 1969, a aceitação popular foi unânime, e daí até hoje, quase trinta anos depois, ainda a canção, e o poema, continuam a ser aplaudidos com entusiasmo "um dos mais importantes temas do momento a que se chamou da «nova canção portuguesa» ou, mais simplesmente, das «baladas» que haveriam de transformar-se na canção de intervenção que antecedeu a actual Música Popular portuguesa”. (Jornal Sete, de 16.VII.1985).

Rómulo de Carvalho em Memórias

segunda-feira, 25 de junho de 2018

UMA GRACINHA DO AUTOR


A crítica recebeu bem os Poemas Póstumos, com louvores, e ninguém se preocupou que fossem póstumos. Uma gracinha do autor. Somente Agustina Bessa Luís, em editorial do Primeiro de janeiro, ao referir-se a uma “bola de sabão que se confunde com o mundo colorido”, acrescenta: “o tal nas mãos de uma criança, como dizia António Gedeão, que deus guarde.” (7.XII.86). Não sei qual teria sido a razão destas palavras mas talvez que quem as escreveu as tomasse à letra porque, pouco mais de quinze dias decorridos. Agustina faz, no mesmo jornal, a crítica aos Poemas Póstumos que já tinham saído há três anos, em 1983, o que é estranho. Talvez que, ao dar-me por morto, alguém que estava vivo e que a senhora, a modo de desculpa, falasse de mim com mais demora. Ou então, o que será mais certo, como lhe mandei pelo correio, um exemplar dos Poemas Póstumos após o seu “que Deus guarde”, ela se entretivesse a folheá-lo e o considerasse digno de redigir algumas palavras a seu respeito. Também é verdade que não me não me agradeceu o livro mas leu-o e gostou, principalmente o “Poema do cão ao entardecer” a propósito do qual dizia que há quem afirme que um poema nunca deve ser bom de mais. Aquele parece que o era. Desculpará.

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: Agustina Bessa Luís

sábado, 9 de junho de 2018

SOU UM TRISTE SER


Depois de publicar Linhas de Força, o seu quarto livro de poemas, António Gedeão sentiu-se cansado e dispôs-se a não publicar mais poesia.

«Cansado de olhar o mundo e de o ver sempre igual a si mesmo, corrupto e velhaco, ávido e insaciável. Talvez que um ou outro ser humano precisasse da minha poesia. Esses que me desculpassem, que relessem o que já possuíam e a repetissem quantas vezes quisessem. Foi para esses seres que escrevi e alegro-me de lhes ter feito bem, porque o fiz, tenho provas disso. Eu nunca escrevi poemas para ser conhecido, para ser falado, para ser elogiado. Sou um triste ser, risonho e às vezes até divertido. Gosto de exercer o bem e de amar o próximo distante. E nada peço em troca.
Numa noite quente, de verão, em que as vozes alegres dos quintais vizinhos, entravam pela janela do meu quarto, António Gedeão morreu, olhando o chão, sem uma palavra. Gostei de o ver morrer, cheio de saúde, vigorosamente inútil. Envolvi-o nos olhos, aconcheguei-o e sepultei-o no esconderijo da memória. Adeus, António. Adeus. Para sempre?
Em 1983, dezasseis anos depois da publicação do último livro, Linhas de Força, surge nas livrarias um novo volume de António Gedeão. Intitulava-se Poemas Póstumos.
Que diria Jorge de Sena a este insólito acontecimento? Gostava de o saber e ele certamente mais do que eu pois já então falecera há cinco anos.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

quinta-feira, 31 de maio de 2018

NÃO REDIJO POEMAS DE ENCOMENDA


Fui procurado no Liceu de pedro nunes, onde trabalhava, por Jorge Cenáculo, do Rádio Clube Português. Ocorrera há dias a chamada Revolução de 25 de Abril. Cenáculo vinha-me pedir, em nome de quem o mandara procurar-me, que escrevesse um poema que seria musicado, relativo àquela revolução, poema que, de preferência se ajustasse à música do “Abril em Portugal”, já divulgada entre nós e no estrangeiro. Não redijo poemas de encomenda.
(2 de Maio de 1974)

Rómulo de Carvalho em Memórias

terça-feira, 22 de maio de 2018

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«ZAU ÉVUA (NORTE DE ANGOLA)
ABRIL-MAIO DE 1970 

O correio da guerra trouxe um livro. «Poesias Completas», de António Gedeão. «Para musicar. Um abraço. Cambezes». Quase automático. Gedeão é um dos poetas mais musicais (musicáveis) da língua portuguesa. E a sua poesia, minha velha amiga. Esses poemas, a angústia, o estar aqui, a viola, as noites, os estilhaços de um povo, o torniquete equatorial, a medicina artesanal, o resto, tudo tornaram fácil. Tão fácil, como sentir o arame farpado rasgando a pele dos sentidos. Tudo tomou, também, um repentino sentido. Não eram poemas isolados, mas uma história, o que estava ali escrito. E a história, e a poesia, eram demasiado belas para que a música as estragasse. Havia o Homem. Havia uma história. Havia um palco: a Vida. Eu daria apenas um pouco de música e um pouco de ordem. Mas, o importante, era o Homem. Mesmo à dimensão de uma rodela negra, num rodopio de 33 voltas por minuto.

Do início («numa qualquer manhã, um qualquer ser, / vindo de qualquer pai, / acorda e vai, / como se cumprisse um dever») até «vestidos de surrobeco / e acocorados no chão», vai um salto de 20 séculos. Um drama em tempo de LP. Um disco pensado alto. Este o esquema, o funil, o encurralar da ovelha. Sob uma macieira de plástico, o homem nascido-em-qualquer-parte diz donde vem e o que quer:

«Venho da terra assombrada
 do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém».

Mas avisa:

«Não há poder que me vença
 mesmo morto hei-de passar"»

Assim começa a fala do homem nascido. O pior é que o mundo não é o que devia ser. Há o desencanto do desencontro. O diálogo não passa de monólogo. As palavras são, apenas, sons. Para isto, mais vale «morrer atolado / na mais negra solidão». (A esta indiferença, a esta fácil aceitação da fatalidade, chamava Roger Vaillant, em «La Loi», «se portugalizer»). No entanto, nem tudo está, ainda, perdido. Acredita-se, mesmo por detrás da angústia, das contradições e de um quotidiano feito de misérias e esperanças, que «todo o tempo é de poesia». Há uma dinâmica permanente entre «bombas que deflagram / corolas que se desdobram / corpos que em sangue soçobram / vidas que a amar se consagram». O Homem acaba por ganhar o desafio, palmo a palmo, dia a dia, calo a calo: «Tenho sofrido poesia... / dói esta corda vibrante / a corda que o barco prende... / se vem onda que a levante / vem logo outra que a distende / não tem descanso jamais». Uma vitória adiada. Um volte-face do disco, um percurso do geral para o particular. Entramos em Portugal.

Todo um (saudável) culto do passado, construído sobre um saudosismo que ainda dói – «Poema da Malta das Naus» – é, a um tempo, homenagem, crítica e incitamento ao Homem Português de ontem e de hoje. O marinheiro quinhentista «moldou as chaves do mundo», mas toda essa epopeia teve (e tem) o seu preço, o preço trágico de uma «lágrima de preta». Este o drama dos descendentes da malta das naus: a ciência diz-lhes que a lágrima não tem «nem sinais de negro / nem vestígios de ódio». Mas... e daí? De que vale a ciência da análise, se o Homem Nascido não está preparado para a aceitar? Bastará a ciência ao Homem para que ele se humanize? Filipe II (que aqui se cognomina de Manuel I) tinha tudo, tudo! «Mas o que ele não tinha / era um fecho éclair». É isto que dói ao Homem Nascido: o não ter coisas tão aparentemente simples e possíveis como um fecho éclair. Jamais a felicidade completa. Sobretudo por ser conseguida à custa da felicidade dos outros. «Lágrima de Preta» é o primeiro poema que, no disco, se dirige à mulher.

A Mulher Portuguesa, mulher em vias de desenvolvimento, é hoje, talvez, o exemplo recente de uma nova forma de alienação. Ao fazer-se uma (demagógica) promoção da mulher, inaugura-se um moderno processo de a escravizar: a escravidão pelo trabalho desumanizado. E escravidão não só à dimensão da sociedade, mas na intimidade da sua própria vida (trabalho, casa, filhos, marido, trabalho... um ciclo vicioso infernal que uma vez iniciado não pode parar). «Calçada de Carriche» é um hino à escravidão da mulher-mártir, frágil máquina suburbana que o quotidiano da cidade suga. Mulher, máquina, máquina, que o vertiginoso e breve amor dos domingos evade para as auto-estradas, na doce ilusão de o novo mundo dos sentidos não ter segundas-feiras...
A evasão dá-se. «Leonor, Leonoreta, fuge, fuge, vai na asa de lambreta» , com o único rumo de fugir a si própria, numa ilusória felicidade, fugaz como a paisagem que a lambreta rasga.

O cerco aperta-se. O Homem torna-se cada vez mais circunscrito. De um trilião de homens passa-se para o grupo e, finalmente, para o indivíduo, para o homem concreto, com nome, residência e tudo. «Álvaro Góis / Rui Mamede / filhos de António Brandão / naturais de Cantanhede...». Eles vivem, existem, são. Em Braga ou em Olhão, no Alentejo ou na guerra, eles lá estão! «Vivos», «vestidos de surrobeco» e «acocorados no chão», eles estão em toda a parte. No chão, mas ainda vivos... Eis a "Fala do Homem Nascido"!
ELE nasceu numa qualquer manhã e não há poder que o vença. Mesmo morto há-de passar!

Lisboa, Novembro de 1972.

Dois anos e meio passados, o disco fez-se.

No caminho ficaram muitas ideias, entre as quais o entusiasmo de amigos como o Rui Ressureição e o Manolo Diaz, que, comigo em África, quiseram esperar por mim. Como muitas vezes acontece, novas oluções surgiram, entre as quais a que o talento e a inteligência  de José Calvário trouxeram a todo este trabalho.
Que António Gedeão me desculpe algumas amputações que fiz aos seus poemas, determinados por razões musicais.

Que, dos erros que houver, me ataquem a mim.

P.S. – Para o Eduardo Cambezes;
           Para ouvir. Um abraço. Niza.»

AO TODO SÃO TRINTA


Foram trinta, como vos disse, os discos que fui reunindo com poemas meus, cantados, e com diferentes músicos e cantores. Depois do de Manuel Freire, o mais conhecido foi o de José Niza, deputado da nação e também músico. É um disco de grande formato, só com poemas meus, ao todo onze. José Niza estava na guerra de África, no norte de Angola, quando o correio lhe fez chegar as “Poesias Completas”. Foi essa a origem do disco, conforme o próprio conta e vem impresso na respectiva capa. Obrigado.
Luís Cília, músico e cantor, publicou em Paris, um disco de grande formato, intitulado 2La pésie portugaise de nos jours et de toujours”, com dois poemas do vosso tetravô: a “Fala do Homem nascido” (“Voix de l’homme né”) e “Dez reis de esperança” (“Deux sous d’espoir”), em 1972. Além destes contém poemas de outros autores, portugueses também.
E muitos mais discos se publicaram, um deles de um cantor célebre na época, entre nós, o Adriano Correia de Oliveira, de quem tenho três discos com poemas meus e de outros autores.
E etc. Ao todo são trinta.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sexta-feira, 11 de maio de 2018

NADA MAIS SOUBE A TAL RESPEITO


Outra curiosidade, ainda relativamente a discos, se passou em 1990. Em certo dia de Março telefonaram-me da Valentim de Carvalho pedindo-me autorização para incluírem o meu poema “Ai Silvina, Ai Silvininha”, musicado pelo compositor português de origem francesa, Alain Oulman, e cantado por Amália Rodrigues, notável cantadeira, em um disco a sair proximamente. O senhor que me telefonou pediu-me que fosse, no dia seguinte, à dita casa Valentim de Carvalho sita na Rua da Cruz dos Poiais, onde estão instalados os respectivos escritórios. Lá fui, e então o senhor que me falara informou-me que o dito Alain Oulman, morrera na véspera.
Entretanto assinei o papel, mas nada mais soube a tal respeito.

Rómulo de Carvalho em Memórias.

Legenda: Amália Rodrigues e Alain Oulman

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ELES NÃO SABEM QUE O SONHO É UMA CONSTANTE DA VIDA


Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.
O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.
Em Setembro de 1969 Manuel freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip. Comprei-o alguns dias depois após a sua saída, e treze dias depois de o ter comprado procurou-me, no liceu em que então eu trabalhava, o Liceu pedro Nunes, um locutor da televisão que me foi oferecer um exemplar. Disse-me então que tinha estado em paris, tendo levado o disco á Feira Internacional que aí decorria, onde um canadiano aí lhe disse que pretendia editá-lo, em língua francesa, no Canadá. Não sei qual foi o futuro desse desejo.
(…)
O disco de Manuel freire foi famoso. Em meados de 1971 já se tinham vendido mais de 10.000 exemplares. Em toda a parte foi cantado. Calculem, meus queridos tetranetos, que em 19 de Fevereiro de 1978, o padre da Igreja de S. Domingos disse, não cantou, durante a missa, o poema da Pedra Filosofal. Era domingo, e a missa foi televisionada.
(…)
Tenho comigo cinco discos do Manuel freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

COM A ADMIRAÇÃO DE QUEM ESTAVA PRESENTE


Na primeira leitura que fiz das Poesias Completas de António Gedeão, Pedra Filosofal ficou logo assinalado como um das muitas poesias suas da minha preferência.
Quando naquela segunda-feira de Setembro de 1969, Manuel Freire cantou, no Programa ZIP-ZIP, a Pedra Filosofal, fiquei arrepiado.
António Gedeão, nas suas Memórias, expressa a ideia que foi Manuel Freire, musicando alguns dos seus poemas, permitiu que a sua poesia conseguisse um êxito generalizado e nunca imaginado.
Mas peguemos em algumas das passagens em que Gedeão aborda essa faceta da sua vida de poeta:

No ano de 1969 fui procurado pela Casa Valentim de Carvalho, importante produtor de discos, que me queria convidar para gravar um disco com poemas meus, ditos por mim. Em 28 de Março desse ano fui a Paço de Arcos aos respectivos estúdios, e aí disse sete poemas, à minha escolha. Tem graça que os disse todos de seguida sem ser necessária qualquer repetição. Conforme os disse à primeira, assim ficaram gravados com a admiração de quem estava presente. Não é costume ser assim. Devo dizer, na minha qualidade de ouvinte, que das dúzias de poemas meus que tenho ouvido dizer por outrem, é a minha dicção a que me agrada mais. Não há nisto nenhuma presunção. Isto quer dizer apenas que gosto mais de me ouvir a mim do que aos outros, ne recitação dos meus poemas.
O disco vendeu-se bem e a casa Valentim de Carvalho resolveu efectuar a gravação de um segundo disco, também dito por mim, de outros poemas. Em 21 de Março de 1971 voltei a Paço de Arcos e aí gravei o novo disco. Depois esperei. Esperei e a esperar terminou esse ano de 71. Entrámos em 72 até que no dia 10 de Março desse último ano, indo eu na rua, encontrei uma senhora conhecida que me disse já ter comprado aquele meu novo disco e, é claro, ter gostado muito. Ai, sim? Não sei de nada.
Fui então à Valemtim de carvalho a aí ao balcão disse à empregada que atendia os fregueses que eu era fulano de tal, que tinha gravado, naquela empresa, um disco meu e que não me tinham dado nenhum exemplar. Se ela não se importasse que fosse lá dentro ver se estava lá algum superior da casa, e lhe comunicasse o que se passava. A criatura foi lá dentro e tornou a aparecer com o disco na mão. Entregou-me, e eu, muito boa tarde, saí do estabelecimento.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

AQUELA CRIATURA QUE MUITO ESTIMEI



Chegamos ao ponto das Memórias de Rómulo de Carvalho em que o autor se prontifica em apresentar António Gedeão aos tetranetos.
Contará todo o percurso do poeta, como nasceu o pseudónimo, as peripécias do prefácio escrito por Jorge de Sena para a Colecção Poetas de Hoje da Portugália, outras venturas e desventuras, mas as primeiras palavras são sobre a morte de António Gedeão comunicada a Carlos Pinto Coelho:

Já vos escrevi tantas páginas e ainda não vos falei daquela criatura que muito estimei e que muito me ajudou a suportar os dissabores da existência. Quero referir-me àquele meu íntimo amigo, já falecido, de nome António Gedeão. É verdade que já me referi ao nome dele, aqui, nestes papéis, mas acidentalmente, sem lhe prestar atenção de maior. Falarei dele agora, com algum pormenor.
Há poucos dias esteve aqui em minha casa um homem da televisão, de nome Pinto Coelho, acompanhado de outros dois, um deles encarregado de me fotografar e outro de gravar as minhas falas. Dispuseram o material na sala do modo que lhes pareceu melhor, instalaram-me num “maple! E o jornalista iniciou a conversa perguntando-me pelo António Gedeão. Eu fiz um gesto triste com as mãos, encolhi os ombros, e respondi-lhe: morreu. Morreu?! Sim, morreu. E olhámo-nos em silêncio. Alguns dias depois lá veio a minha imagem na televisão dizendo que ele tinha morrido.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

TRÊS PEQUENOS ALGUIDARES DE PLÁSTICO...


Rómulo de Carvalho já contou aos tetranetos que, em Março de 1996, esteve internado no Hospital de Santa Maria, correndo risco de morte e a história que ele conta do quarto que tinha um lavatório de parede, «onde a torneira da água fria não vedava bem e a água sempre a correr em fio» e dizia: «da grave moléstia que tive suponho que estou bem mas, do que padeço permanentemente, é das consequências da minha diverticulose intestinal, e suponho que essa virá a ser a causa do meu fim. Pois que venha esse fim, mas com o menos sofrimento possível. Este é que temo; não aquele».
Mal sabia Rómulo que passados três meses voltaria a dar entrada num hospital «com menos demora, noutro local e por diferente motivo». Dava-se o caso que, há onze anos, tinha um “pace-maker” , um «marca-passos”, «como dizem os espanhóis» que dava sinais de cansaço, que tinha de ser substituído, mas o Hospital de Santa Maria não possuía condições para a colocação de um “pace-maker” de outro modelo, mais moderno.
«Foi o que me disseram».
E acrescenta:

A questão tinha, para mim, um gravíssimo inconveniente. No primeiro caso não gastei dinheiro nenhum com a intervenção, nem com o internamento durante dois dias. O hospital era do Estado o que me proporcionou aquelas regalias. O de agora seria o Hospital Particular de Lisboa, conhecido pela exorbitância dos seus preços, na Rua Luís Bivar.
Entrei nele no passado dia 27 de Junho pelas duas horas da tarde. Dirigi-me ao balcão e disse ao que ia. A empregada já estava informada, sentou-se a escrever e entregou-me um papel. Era a conta da entrada, nada mais, nada menos do que 150.000$00. Cento e cinquenta contos (…) e ganho, por mês, 159.703$00.
(…)
O quarto tinha uma só cama e nela me mandou deitar, debaixo da roupa. Colocou-me então no peito, junto do coração, uma ventosas ligadas por fios eléctricos a um aparelho de medição, e que me deixasse estar assim até o médico vir. E então saiu, com presteza.
Assim fiquei sozinho no mundo, a olhar para o tecto. Sem roupa, sem peúgas, sem sapatos, sem nada que fosse meu, sem um lápis, sem uma tirinha de papel, sem um rádio, sem um televisor, sem nada, absolutamente nada, só, só, e só.
(…)
Tinha entrado para o hospital em 27, fiquei em 28 e saí em 29. Despi o balandrau branco que me envolvia., vesti a roupa que a vossa tetravó Natália me levou ao quarto e regressei a casa. E agora, a conta. Quereis aber quanto foi? Sentai-vos primeiro para não cairdes para o lado. Total: 651.421$00.
E o médico que efectuou a operação, o Dr. Correia da Cunha, pessoa amiga e generosa, não me quis levar nada pelo seu trabalho.
O preço é assustador mas, para compensação e para que não deixássemos o hospital mal-humorados, uma sua funcionária. À saída, aproximou-se da vossa tetravó Natália e estendeu-lhe, com os seus melhores cumprimentos, um saco de plástico com uma lembrança. O saco continha três pequenos alguidares de plástico para serviço na cozinha…

Rómulo de Carvalho em Memórias

terça-feira, 3 de abril de 2018

A RAZÃO É UMA COISA QUE TODOS TÊM


Sejamos modestos nas nossas “certezas” e na defesa das nossas “razões”. É comum ver seres humanos, eles e elas, encolerizarem-se para impor as suas razões. Eu, pessoalmente, pouca importância atribuo às razões de cada um porque a razão é uma coisa que todos têm. Há alguém que não tenha razão? Não conheço.
(…)
É assim que, pessoalmente, apresento as minhas razões, e não considero patetas, ou coisa pior, as razões dos outros que divergem das minhas. Cada um tem a razão que pode ter, e poderá apresenta-la com toda a convicção, com toda a dignidade mas sem prepotência, sem escutar, com sorriso oblíquo, de troça ou de desprezo, a razão do outro. Estou, evidentemente, a referir-me à “razão” como suposição, interpretação, concepção, crença.

Rómulo de Carvalho em Memórias

quarta-feira, 21 de março de 2018

JÁ NÃO ESTOU AQUI A FAZER NADA


Mas é melhor não dar razão aos crentes para que nos chamem pateta. O corpo é um todo que funciona como uma máquina e que, por isso, tem que ter a sua fonte de energia. A fonte parou, a energia esgotou-se e o sistema deixou de funcionar. Isso não tem nada a ver com alma. A alma é a parte de toda essa máquina. Morreu o corpo e a alma disse para consigo: Bem. Já não estou aqui a fazer nada. E saiu.
A alma não faz mover as pernas nem os braços mas decide que se mexam. É a alma que nos define como seres pensantes, que determina os nossos sentimentos, que impõe os nossos comportamentos, as nossas decisões, as nossas opiniões, nós somos ela. O nosso corpo é matéria. Não é o corpo que pensa, que decide, que tem sentimentos. É ela, a nossa alma. Quando a máquina do corpo deixa de funcionar, por razões meramente técnicas, a alma sai do corpo porque já não tem condições para actuar.
Quanto ao possuidor dessa alma, segundo o nosso código de sentimentos, se for boa pessoa diz-se que é uma “boa alma”, se for má pessoa diz-se que é um “desalmado”.

Rómulo de Carvalho em Memórias

quinta-feira, 15 de março de 2018

UM ANESTÉSICO CHAMADO RELIGIÃO


Eu sei o que sinto, e penso, e digo, não é comum, e que todos, de modo geral, desejariam viver eternamente. Foi esse desejo um dos motivos porque se fabricou esse anestésico que se chama religião. As religiões garantem a eternidade, e a eternidade é angustiosamente desejada. Compreendo que assim seja. Quando se olha um ser humano estendido no seu caixão, acorrem-nos ao pensamento muitas interrogações. Mas este homem, ou mulher, está ali estendido, tem tudo quanto tinha, cabeça, tronco e membros, tem por dentro também tudo quanto tinha, o coração, o fígado, o cérebro, tudo, e não se mexe! Porque é que não se mexe? Por- que não anda, não fala, não olha? Que lhe falta? O sangue nele não circula. Mas porquê? Falta-lhe uma coisa qualquer que lhe punha o sangue e, movimento, e daí poderia estar vivo. Mas que coisa é essa?
Evidentemente que a inevitabilidade destas interrogações, que devem ser de todos os tempos e de todos os seres humanos, sempre exigiu uma resposta. Falta-lhe, sem dúvida, uma coisa qualquer. Essa coisa estava no corpo, enquanto vivo, e deixou de estar. Saiu dele. Saiu dele no momento em que a pessoa morreu. O último suspiro é isso, a saída dessa coisa pela boca do candidato a morto. Saiu, morreu. Mas que coisa é essa? Não se vê sair nada pela boca porque essa coisa é invisível. Saiu e ninguém viu nada. Mas saiu, “evidentemente”, e por isso a pessoa morreu. Temos que lhe dar um nome para falarmos nela quando quisermos. Chamou-se-lhe alma.

Rómulo de Carvalho em Memórias

terça-feira, 6 de março de 2018

ELA QUE VENHA QUE SERÁ BEM RECEBIDA


Na verdade, já que estou a falar-vos em fim da existência, dir-vos-ei a ideia de tal fim nunca me perturbou, nem em velho nem em novo. Nunca consegui adaptar-me à vida e sempre nela vagueei com desagrado, embora sorrindo e até gracejando. Sempre procurei dar aos outros aquilo que sempre deles desejei receber mas cada um é um baluarte inacessível. Bate-se à porta e ninguém responde. Trabalhei a vida inteira e procurei ser útil a quem de mim se aproximava, o que hoje me é afirmado quando isso vem a propósito. Agora cheguei ao termo final, mais de trinta e dois mil dias de vida e, presentemente, só estou a dar incómodos aos outros, sem utilidade de qualquer espécie. Ela que venha pois, a morte, que será bem recebida. Alguns olhos chorarão por mim, mas com o tempo tudo passa, e secarão.

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: pintura de Hugo Simberg

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

MAS FINGIA QUE NÃO PERCEBIA....


A páginas 364 das suas Memórias, Rómulo de Carvalho começa a contar aos seus tetranetos que, nos começos do ano de 1996, «lá mais para o fim do ano, em Novembro, completo os noventa, idade muito razoável para dar por terminada esta amarga experiência de existir», deu entrada no Hospital de Santa Maria.
D. Olga, sua calista, corria o mês de Janeiro, falou-lhe que tinha os pés inchados, e também as pernas. Passou-se Fevereiro, e no início de Março, «apareci com muita tosse e expectoração com sinais de sangue. Eu próprio me sentia fraco, no caminhar e no respirara, mas fingia que não percebia».
A mulher, Natália Nunes, falou com o filho que apareceu em casa com um médico das suas relações que o observou.

Eu estava sentado na minha cama, de pijama e chinelos, indiferente ao que se passava. O médico observou-me, auscultou-me minuciosamente, voltou a auscultar-me e disse, com voz velada mas segura, que eu tinha de r de imediato para o hospital.
(…)
Entrei no hospital no dia 6 e saí no dia 27. Estive internado vinte e um dias.
Imaginarão vocês, meus queridos tetranetos, o que seja estar vinte e um dias, de roupão, pijama e chinelos, à noite estendido na cama, de dia sentado num cadeirão a um canto do quarto, a olhar para o tecto, para o chão e as paredes, com uma agulha permanentemente espetada numa veia, agulha essa ajustada ao termo de um tubo de borracha que saía de um recipiente cilíndrico de vidro fixado no alto de um suporte metálico com três pés na base para assentar no chão. Para onde eu ia, ia aquilo tudo comigo.
(…)
Soube depois que durante os primeiros quatro ou cinco dias em que estive hospitalizado corri perigo de morte.
(…)
O quarto tinha um lavatório de parede onde a torneira da água fria não vedava bem e a água sempre a correr em fio. É claro que a direcção do hospital não sabe disso porque, se soubesse, mandava arranjar a torneira.
(…)
Quanto à comida, meus queridos tetranetos, mais ou menos sempre a mesma, mas quando era diferente tinha o mesmo gosto. Era comida fabricada e fornecida por uma empresa. Eu como sempre muito pouco, por falta de apetite e por a comida ser má.
(…)
E aqui estou. Não saio à rua porque me sinto fraco. Só acompanhado, e já o tenho feito, sob a protecção da vossa tetraavó Natália, É como quem vai passear o cão com a diferença de que o cão tem de ser passeado todos os dias, e eu só de vez em quando.
E como estou? Menos mal. Da grave moléstia que tive suponho que estou bem mas, do que padeço permanentemente, é das consequências da minha diverticulose intestinal, e suponho que essa virá a ser a causa do meu fim. Pois que venha esse fim, mas com o menos sofrimento possível. Este é que temo; não aquele.


Rómulo de Carvalho em Memórias 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

SUCINTAS DECLARAÇÕES DE AMOR


Aqui, no meu bairro de Campo de Ourique, onde deambulo, vejo, frequentemente, palavras escritas a tinta preta nas paredes dos prédios e nos abrigos das paragens dos autocarros, que são sucintas declarações de amor. Por exemplo: “André love Patrícia”. No suplemento semanal do “DN Jovem”, do “Diário de Notícias” , preenchido por textos, em prosa e verso, de jovens escritores, é frequente ver os títulos desses textos redigidos em inglês.
O caso mais impressionante como sinal do domínio da civilização americana e da nossa falta de identidade, é o de uma manifestação pública de estudantes universitários de Lisboa contra o preço das propinas. Nessa manifestação, berrando e gesticulando, os estudantes portugueses, em Portugal, erguiam um cartaz em que se lia “Não pagamos until the end of the world”. De espantosos que é, aqui vos deixo a data do documento que comprova o que vos digo: Diário de Notícias de 15 de Maio de 1992.
Um outro aspecto impressionante é o da alteração que se tem efectuado da escrita de diversos apelidos portugueses acrescentando-lhe um apóstrofo e um s. O senhor Silva, conhecido leiloeiro de livros, de Lisboa, e que anuncia os seus leilões nos jornais, passou a anunciá-los intitulando-se SILVA’S. Admirável, meus queridos tetranetos. Orgulhai-vos de ser portugueses. Desta pátria, a mais formosa e linda, que ondas do mar e luz do luar viram ainda.
O vosso pentavô  António Nunes, pai da vossa tetraavó Natália, mulher do tetravô que vos está escrevendo, era natural de Oliveira de Frades, uma modesta e graciosa vila do distrito de Viseu, onde eu, e a dita vossa tetravó Natália, fomos diversas vezes passar as férias de verão para recompor o corpo e o espírito passeando nas estradas e nos atalhos da localidade. Um dos poucos estabelecimentos aí existentes era a loja do senhor Grilo. Assim era antes do 25 de Abril. Veio a Revolução, veio a liberdade de expressão e, quando fomos de novo a Oliveira de Frades, pasmaram-se-nos os olhos ao lermos s tabuleta sobre a porta do modesto estabelecimento. Dizia: GRILLO’S.

Rómulo de Carvalho em Memórias