14 de Maio de 1977
A
velhice é isso – sermos só nós a nossa testemunha.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente 2º Volume
14 de Maio de 1977
A
velhice é isso – sermos só nós a nossa testemunha.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente 2º Volume
23 de Janeiro 1978
A certa altura, temos enfim a vida em
ordem – os filhos arrumados, as ideais arrumadas, os livros escolhidos, a
mulher enfim escolhida, o trabalho realizado, todas as opções feitas. É a
altura finalmente de vivermos, de gozarmos do que acumulámos, de sermos homens
a valer. Mas é justamente nessa altura que nos põem fora da vida. São horas de
a loja fechar ou de ser trespassada.
Vergílio
Ferreira em Conta-Corrente, Volume II
7 de Setembro de 1968
E
vou encerrar o meu dia agitado com esta frase que sublinhei mentalmente durante
a leitura de Entre Mulheres Solitárias de Pavese:
«Maurizio diz sempre que se obtêm
coisas, mas quando já não são precisas para nada.»
José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V
30 de Abril de 1977
A
única certeza da vida é a morte. E é a certeza em que menos se acredita. Toda a
história do mundo assentou sempre na ignorância de que se é mortal. Aqueles
mesmo que o sabem não o vêem – a não ser em instantes de excepção. Que seria o
mundo com essa evidência sempre presente? Só o homem sabe que é mortal. Mas
raramente o homem sobe até si. O animal pesa nele, mesmo no que não é do
animal. Assim a arte, a cultura, poucas vezes funcionam como o que é para o
espírito, sendo para o que é da nossa grosseria.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, Volume II
4 de Janeiro de 1977
Afinal,
voltei a isto. Velho literato, impróprio já para serviços pesados, restam-me
estes servicinhos ligeiros. Tento iludir-me com projectos – não há forças. E
todavia sinto
que ainda posso realizar os dois ou três livros que imaginei. É a ilusão dos
velhos que ainda se imaginam capazes de amar. Só já se ama em imaginação. Ou
nem isso: na lembrança inverosímil de quando se imaginava.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, Volume 2
31 de Dezembro de 1976
Confessarmo-nos
pequenos pode ser um acto de grandeza. Porque ser pequeno não é por força
ser-se mesquinho. E só a mesquinhez é pequena no ser-se pequeno ou grande.
Vergílio Ferreira em Conta Corrente, Volume I
25 de Dezembro de 1976
Há
centenas de milhares de anos que o homem nasce, vive e morre. Mas ainda não
aprendeu que é mortal.
Vergílio Ferreira em Conta Corrente, Volume I
24 de Dezembro de 1976
Natal.
Uma vez mais. Como acreditar ainda?
Vergílio
Ferreira em Conta Corrente, Volume I
26 de Setembro de 1976
Não,
não vale a pena. Já canso da caminhada. Realiza-se a vida fugindo da morte, ela
atrás de nós. Sento-me. Ela deve estar a passar. Que significa tudo o que se
realizou? Mas a nossa glória. É essa: ser capaz de o perguntar.
Vergílio Ferreira em Conta Corrente, Volume I
13 de Março de 1976
Quando
eu subia a avenida, vi um homem a mudar a roda do carro. Estava de joelhos
diante dele.
Vergílio
Ferreira, Conta Corrente, Volume I
16 de Janeiro de 1976
Na
velhice não se retém a vida interior como alguns velhos não retêm as urinas. O
capital acumulado esvai-se, fica o mínimo para os gastos diários – uma conversa,
uma leitura a que se reage ainda. Fica o olhar saqueado como o de uma criança.
Ter ainda vida interior. Céus! Que eu exista ainda bastante e não seja apenas o
mundo e os outros a existirem por mim.
30 de Novembro de 1975
Fomos
a Melo ao encontro do Natal. Mas, como de costume, o Natal não estava lá –
estava só a sua lembrança. Havia neve na serra e a geada nas sombras da aldeia.
Mas uma e outra estiveram só na memória. É a minha pátria, a memória e a
imaginação que lá vive. A realidade é sempre excessiva de presença, o seu pedo
esmaga o que não é elea, porque o que não é ela é extremamente frágil. Dessa
fragilidade vivo, todavia, porque aí é que tudo é verdade. Mesmo precisamente o
real.
Vergílio
Ferreira em Conta-Corrente Volume I
15 de Agosto de 1975
Às vezes reparo que já não reparo nas coisas: a praia ao meio-dia, o sol da tarde nas árvores, o silêncio no breve ramalhar dos pinheiros. E então penso que a vida se me está estabelecendo noutro plano, na banalidade, no esquecimento. Deve ser por isso que cada idade tem o seu absoluto de ser. Deve ser por isso que não há loucura para os doidos nem infância para as crianças. Nem patetice para os velhos.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Volume I
21 de Agosto de 1975
Hoje,
visita inesperada dos netos. Decididamente, não me inventei ainda «avô». Não
descobri na vida o caminho do sangue, da carne, mesmo daqueles que mos
partilham ou como se. Sei só o caminho do «espírito» que raro passa pelos
familiares.
Vergílio
Ferreira em Conta- Corrente I Volume
2 de Junho de 1975
O
mais difícil é descobrir importância seja a que for: livros, ideias, projectos.
Quando Ovídio deixou de escrever lá no deserto, terá descoberto que realmente
era mortal.
Vergílio
Ferreira em Conta-Corrente, Volume I
28 de Maio de 1975
No
dia 21, faz hoje oito dias, fui atropelado. Perda de consciência, fractura no crânio.
Felizmente, sem as graves consequências de toque na «base», hematomas, etc. De
qualquer modo, a perfeita experiência da morte. E uma vez mais a brutal incapacidade
de a entender. Tive um pé do lado de lá, mas consegui, não sei como, recolhê-lo
de novo para o lado de cá. E foi sobretudo quando me vi do lado de cá que a incompreensibilidade
do outro lado se me impôs. Que coisa estranha a nulidade absoluta, a ausência de
se ser. Mas não posso reflecti-lo hoje: a cabeça tonta ainda, o cérebro
espesso, a dificuldade em me concentrar. Para outro dia.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, Volume
I
10 de Maio de 1975
A reler poemas do Ramos Rosa. Magnífico
poeta. O ar, a luz, a cal, o mar, a árvore, a casa – mundo da discreta alegria
da vida, da gratidão de viver. Uma expressão espantosa: «uma ave subscreve(ndo)
o céu inteiro».
Vergílio
Ferreira em Conta-Corrente I Volume
29 de Outubro de 1974
Ouço um concerto de Mozart. E abre-se-me o lado melhor da vida,, o do encantamento, da fina e profunda comoção. Sou antimassa, sou antimanada. Devo ser uma tara. O êxtase, a alegria sem riso, a transfiguração. É a minha terra natal. E a minha política de quando estou só. E o meu modo de ser feliz como humano. De ser feliz – não bem de ter «prazer». Uma música, uma pintura, um poema. Quando são horas de ser prático, sou político e o resto. Como é detestável falar de arte para o grande público. Detestável mesmo vivê-la em grandes grupos. A arte é um acto solitário, uma questão a resolver entre nós e nós. Como todos os excessos de ser. A arte é um excesso de nós.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente
Volume I
29 de Outubro de 1974
Vivemos em «liberdade». Mas começa-se a respirar mal. Imprensa nas mãos dos comunistas. Extinção das «Páginas literárias». Livrarias, só com livros políticos. Era tal a fome deles que deu diarreia. TV política e de inspiração comunista. Um certo receio já de se comentar a coisa. Editoras a fecharem. A arte começa a ser suspeita ou menosprezada. Ascensão dos medíocres. Solidão.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente I Volume
9
de Setembro de 1974
Depois do almoço, dou o «digestivo» até ao café do Zé para tomar a beberagem e ler os jornais. Gosto do sossego do café, do largo provinciano que ladeio até lá e me lembra certos versos de Saul Dias. Mas hoje reparei que de um lado e de outro do caminho, através dos pinhais, as moradias estavam fechadas. O Outono já. Ouço os meus passos sobre a areia, olho em volta o silêncio de abandono. A presença oblíqua de quem partiu – nas portas fechadas, persianas corridas, jardins desertos. É o que dá a isto uma indivisível melancolia; a ausência de quem se foi. Não o vazio, mas o ter estado habitado. O espírito irradiante de um ser humano que esteve presente. Penso-o enquanto percorro o caminho silencioso. Os pinheiros imóveis, sem uma aragem, o céu nublado, entristecido de uma chuva que talvez venha. A melancolia do fim.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Volume I