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segunda-feira, 10 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

TLP 007

FACE 1

Lisboa Meu Amor

Palavras
Cantar de Vivo para um Camarada Morto
Nocturno
Monólogo do Operário

FACE 2


Ruas de Lisboa

Balada do Medo
Canto Chão
No Silêncio da Espera
Amélia dos Olhos Doces

 

Poemas de Joaquim Pessoa

Músicas de Carlos Mendes

Arranjos e Direcção: Musical: Pedro Osório

Técnico de som: José Manuel Fortes

Capa: Artur Henriques

Editado em 1977

Produção de «Toma Lá Disco, SCARL»

 

Há dias, um viajante passou por este cais, gostou de voltar a ler o poema do Joaquim Pessoa «Lisboa, Meu Amor» e deixou o seguinte comentário.

«É dos poemas mais fantásticos que já li, um hino exuma epopeia em 20 ou 30 linhas.»

Este disco, que se chama «Canções de Ex-Cravo e Malviver», andou embrulhado num trabalho que se queria fazer para uma revista que não chegou a ver a luz de uma máquina-impressora de tipografia.

As melhores histórias são as que vêm do nada.

Lembra-se de, perante este disco, apetecer gastar toda adjectivação que os dicionários possuem.

Lembra-se dos pedidos de ajuda para dar a volta ao novelo complicado de encontrar palavras para tal tarefa. 

As melhores histórias são as que vêm do nada.

Lembra-se de um dos textos que recebeu:

«Pode gostar-se muito do que muito se desconhece? A resposta é SIM, e a prova é esse disco...

Confesso que pouco ou nada sei acerca dele. Não sei onde e por quem foi gravado, nada sei da autoria das músicas (penso que quase todas do próprio Carlos Mendes, mas sem nenhuma certeza...) e dos músicos de apoio e nem sequer o ano exacto de produção te posso garantir...

E, no entanto, é um dos discos de música portuguesa que mais gosto... Porquê? O coração tem razões que a razão desconhece.... Mas, racionalizando, haverá sempre dois ou três aspectos que poderão ser aqui evocados:

- Em primeiro lugar a belíssima poesia do Joaquim Pessoa, embora saiba que há quem discorde e o considere um mero "pastiche" do Ary dos Santos...;

- Em segundo lugar, a qualidade das músicas do Carlos Mendes e as composições foram feitas em verdadeiro "estado de graça". Poucas vezes a poesia portuguesa foi elevada a um nível tão alto como nessa obra e, como comparação, só me veem à memória as composições dos primeiros tempos do Manuel Freire, para os poemas do Barahona da Fonseca, do Carlos de Oliveira, do António Gedeão, ou as do Adriano para o Manuel Alegre;

- Em terceiro lugar, a própria escolha dos poemas. Numa época de muito "som e fúria", em que era fácil cair na tentação dos "amanhãs que cantam", sempre me tocou a opção emocional pela ternura e sensibilidade de muitos desses poemas: a "Amélia", o "Nocturno" e muitos outros que por lá andam;

- Finalmente - e de todos este é o aspecto mais subjectivo... - a Marta tinha uma pancada forte por música portuguesa e este também era um dos discos de que ela mais gostava. Talvez que, bem lá no fundo do meu subconsciente, eu também queira  guardar com algum calor esses tempos em que, no meio da conturbada amálgama de "pluie et de beau temps" que foi a nossa existência conjunta, ainda comíamos cerejas».

domingo, 1 de outubro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


 Um poeta, um cantor.

O poeta deixou-nos em Abril deste ano.

O cantor remeteu-se a um qualquer silêncio.

Fizeram discos lindíssimos.

Os discos necessitam de urgente e imperiosa reedição.

Com outros companheiros, amigos, camaradas, fizeram uma «CooperativaToma Lá Disco».

Mas num qualquer canto da estrada desentenderam-se.

Nunca soube bem porquê.

Ponto por ponto, e acreditando nas palavras, não terá sido o Dom Dinheiro que apunhalou a Cooperativa.

Ou foi?

O livro do Joaquim Pessoa ainda não tinha aparecido em Olhar as Capas.

O disco do Carlos Mendes também não tinha aparecido por aqui.

Nós vamos seguindo os trilhos.

Mas existirão quem não conheça os livros, os discos…


É útil não esquecer que os discos foram feitos para todos!

sábado, 22 de abril de 2023

OS CLÀSSICOS DO MEU PAI


O meu pai tinha Lisboa dentro dele.

Como Marilyn Monroe, espantava-se com os que diziam que as noites são para os sonhos. Servem para sonhos, mas para muito mais.

Trabalhava noite dentro, o fecho do jornal, quem saberá hoje o que isso é, jogatanas de poker, que abandonou quando nasci, ceias com os camaradas do jornal, amigas com quem bebia aguardente Ferreirinha ao balcão de um qualquer ao bar, sapatos de tiras e pões, conversas sem fim.  

O lindíssimo poema «Amélia dos Olhos Doces» do Joaquim Pessoa, caía-lhe como uma luva, umdos seus clássicos.

Quando para o meu pai gravei em cassettes as canções de que ele muito gostava, o aviso de que teria de lá estar a «Amélia dos Olhos Doces», foi dos primeiros avisos para que não houvesse esse esquecimento.

 Amélia dos Olhos Doces

quem é que te trouxe

grávida de esperança?

Um gosto de flor na boca.

Na pele e na roupa

perfumes de França.

 

Cabelos cor de viúva.

Cabelos de chuva.

Sapatos de tiras

e pões, quantas vezes

não queres e não amas

os homens que dormem

contigo na cam.

 

Amélia dos Olhos Doces

Quem dera que fosses

apenas mulher.

Amélia dos Olhos Doces

se ao menos tivesses

direito a viver!

 

Amélia gaivota

amante ou poeta.

Rosa de café.

Amélia gaiata

Do Bairro da Lata.

Do Cais do Sodré.

 

Tens um nome de navio.

Teu corpo é um rio

onde a sede corre.

Olhos Dcoces. Quem diria

que o amor nascia

onde Amélia morre?

 

Cabelos cor de viúva.

Cabelos de chuva.

Sapatos de tiras

e  pões, quantas vezes

não queres e não amas

os homens que dormem

contigo na cama.

O pai do Carlos Mendes, foi meu pediatra. Militante comunista, Abílio Mendes de seu nome, consultório num 1º andar na Travessa do Calado, teve vários e sérios problemas com a ditadura de Salazar. Muitas vezes telefonavam do consultório a dizer que o Sr. Doutor, por estar em viagem, teria que remarcar a consulta para um outro dia. As viagens ocorriam para os calabouços pidescos.

 Esta música de sábado lembra também Joaquim Pessoa que há uns dias partiu para onde as nuvens da sua infância sobrevivem, e os velhos desejos nunca se apagam.

MÚSICA PELA MANHÃ

A música deste sábado teria que incidir sobre as canções que o Carlos Mendes fez para alguns poemas do Joaquim Pessoa.

Justamente «Amélia dos Olhos Doces», uma canção de que o meu pai muito gostava, e sendo um dos seus Clássicos, já há muito aqui deveria ter desaguado, mas o mundo dos livros, das músicas é demasiado vasto para o pouco tempo que, cada vez mais intensamente, vou tendo.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

LOUISE


Faz pouco mais de um mês que faleceu Paul Siebel. Tinha 84 anos e levou-o a sequela de uma fibrose pulmonar.

Por cá não vi a notícia em lado nenhum, nem sequer nos suplementos ditos “culturais” dos principais jornais.

Nos Estados Unidos, seu país natal, deve ter sucedido o mesmo, embora eu esteja esperançado que alguma das chamadas “revistas da especialidade” lhe dedique um ou dois parágrafos de despedida e de agradecimento, porque ele merece.

Mas não é de estranhar tanto esquecimento…

A morte do Paul Siebel que fazia pão num restaurante de província, do Paul Siebel que construía barquinhos de madeira para vender aos turistas, ou do Paul Siebel modesto empregado camarário numa cidadezinha do Maryland não é notícia.

E Paul Siebel, o “folksinger” que, por breves momentos, atingiu a ribalta no início dos anos 70 do século passado, esse já tinha morrido há quase 50 anos.

Se Paul Siebel não tivesse nascido com o dom de compor e de cantar, não se poderia afirmar, em boa verdade, que a “Folk Music” teria ficado muito mais pobre.

Mas eu sim…

É que Paul Siebel foi o autor de “Louise”, uma das canções de que mais gosto e que, por ironia do destino, transportava comigo no carro e tinha acabado de ouvir várias vezes, na precisa altura em que, por mera coincidência, tomei conhecimento da sua morte.

Mas já lá iremos…

Como tantos outros desse tempo, Paul Siebel deu nas vistas quando, no final dos anos 60, atuava nos bares “folk” de Greenwich Village. Foi aí que chamou a atenção de alguém a quem poderemos acusar de tudo menos de não ter “dedo” para descobrir novos talentos na “Folk Music”: Jac Holzman, o todo-poderoso patrão da Elektra Records, talvez a editora mais importante e influente do seu tempo nesse género musical (entre tantos outros, lançou Tom Paxton, Judy Collins, Judy Henske, Phil Ochs, Tom Rush, Tim Buckley…)

A Elektra propôs a Siebel a gravação de um álbum, embora lhe tivesse proporcionado parcas condições para isso: apenas quatro sessões de gravação de 3 horas cada uma. Siebel reuniu alguns músicos amigos, à cabeça dos quais David Bromberg, e cumpriu as suas obrigações contratuais. O LP daí resultante, “Woodsmoke and Oranges”, foi lançado em 1970 e considerado um “marco histórico” pela influente revista “Rolling Stone”. Da noite para o dia, Siebel atingia o estrelato na “Folk Music”.

Mas Paul Siebel fugia da ribalta e não tinha muita paciência para se promover. Fugia dos jornalistas, fugia das ações publicitárias, recusava-se a fazer atuações ao vivo de enfiada, umas atrás das outras, e o resultado foi que o êxito da crítica não foi acompanhado por idêntico sucesso comercial. 

No ano seguinte, com melhores condições de produção, sairia “Jack-Knife Gypsy”, que não repetiria o êxito da critica do anterior e venderia ainda menos.

Foi o fim da curta carreira de Paul Siebel. Não sei se ele não terá previsto isso mesmo, porque também não sei por que raio lhe passou pela cabeça fazer-se fotografar num cemitério decadente e colocar a fotografia na contracapa desse seu segundo e último LP. 

A musa recusou-se a voltar a dar-lhe a mão.

Caiu em depressão e depois mergulhou nas drogas, no que era um fenómeno corrente naquela época.

Não voltou a gravar mais nenhum álbum de originais e a única gravação sua que se conhece é de 1978 e foi feita “ao vivo” num bar de Santa Mónica, com a participação de David Bromberg e de Gary White, dois dos amigos que o acompanharam na gravação do lendário primeiro disco. Isto se não contarmos com uma esporádica participação (uma única música) num dos três célebres álbuns de “Woodstock Mountains – Music From Mud Acres” gravados em meados dos anos 70 e que em Lisboa podiam ser encontrados na saudosa Dargil.

A partir daí Paul Siebel esfumou-se, largou de vez a música e fez o que lhe veio à mão para sobreviver, como é o caso dos trabalhos que acima mencionei.

Mas vamos lá então a “Louise”, que faz parte do seu primeiro disco. 

Já sabemos que na “Folk Music” existem canções dedicadas a tudo: aos pais, às mães, aos animais de estimação, a figuras célebres da Política e da História da América, sendo eles verdadeiros heróis ou até meros “outlaws” que a lenda transformou em heróis, a começar em Jesse James e a acabar em Pretty Boy Floyd.

Mas também existem belíssimas canções dedicadas aos “zés-ninguém”, aos que vivem na miséria, aos deserdados do grande “sonho americano”.


“Louise” é uma dessas canções e deixo-vos lá a “letra”, para que a possam perceber:

“Well they all said Louise was not half bad
It was written on the walls and window shades
And how she'd act the little girl
A deceiver, don't believe her that's her trade
Sometimes a bottle of perfume,
Flowers and maybe some lace
Men brought Louise ten cent trinkets
Their intentions were easily traced
Yes and everybody knew at times she cried
But women like Louise they get by

Well everybody thought it kind of sad
When they found Louise in her room
They'd always put her down below their kind
Still some cried when she died this afternoon
Louise rode home on the mail train
Somewhere to the south I heard it said
Too bad it ended so ugly,
Too bad she had to go this way
Ah but the wind is blowing cold tonight
So good night Louise, good nigh”

Afinal, quem é Louise…? 

Paul Siebel terá desfeito o mistério ao afirmar, uma vez, que se trataria de uma “truck-stop whore” que encontrou no Kentucky. Mas a letra é tão dúbia que poderia muito bem ser outra coisa… Por exemplo, uma empregadita de um snack-bar à beira da estrada, como as vimos tantas no cinema americano, que pusesse em cada encontro amoroso toda a sua fé e esperança de que seria essa a grande oportunidade de alcançar essa coisa que não se sabe muito bem o que é, mas a que chamam Felicidade, com letra grande e tudo…

E, afinal, de que morreu Louise…?

Tudo poderemos imaginar, mas também nada ficaremos a saber…

Ter-se-á suicidado…?

Terá sido morta por ocasião de um desses encontros amorosos…?

Terá sofrido um ataque cardíaco fulminante…? 

O narrador que nos conta toda a história nada nos esclarece e só nos lança a confusão.

Tanto nos diz que Louise morreu naquela tarde, como nos conta que ela já vai num caixão a caminho do Sul.

Tanto nos dá a entender ter conhecido Louise, como nos leva a perceber que tudo o que nos conta foi de ter ouvido alguém contar 

Pouco importa, porém…  É esse o fascínio da canção.

Tal como a nossa Amélia, que Joaquim Pessoa confessou ter sido uma muito jovem prostituta que uma vez encontrou lá para as bandas do Liceu Camões, imagino que também Louise teria os olhos doces, que os seus sonhos a traziam grávida de esperanças e que, também ela, não teve direito a viver.  

E se Paul Siebel, apesar de bom escritor de canções, não tem a veia poética de Joaquim Pessoa, tem uma escrita muito mais cinematográfica.

Sempre que oiço esta música (e já a ouvi centenas de vezes…) consigo ver tudo, como se estivesse ali mesmo ao lado a espreitar

Vejo uma garezinha de província perdida no meio de nenhures.

Vejo um caixão feito de meia dúzia de tábuas baratas a ser colocado no vagão das mercadorias.

Ouço o apitar do comboio, vejo-o partir e vejo-o desaparecer lá ao fundo, no fio do horizonte.  

E o vento da canção, esse sinto-lhe o frio no meu próprio corpo…  

Que mais se pode pedir a uma canção…?

Obrigado e “good night” Paul Siebel, “good night”…

Desculpem a maçada, mas foi a forma que encontrei para prestar a minha modesta homenagem a Paul Siebel e fiquem com duas versões de “Louise”: a original e uma outra de Ian Mathews com os “Plainsong”, de que gosto muito, embora a voz calorosa de Mathews tenha o dom de adoçar a mais trágica das histórias…


COLABORAÇÃO DE LUÍS MIGUEL MIRA

domingo, 14 de novembro de 2021

VELHOS DISCOS


TOMA LÁ DISCO - TLP 002 - 1976

Lado 1
Os Pais – O Lenhador – A Costureira – Os Carteiros

Lado 2
Os Palhaços – O Pasteleiro – Os Vendedores – Os Amigos

É escassa a produção portuguesa de Discos de Natal. Algumas pontas soltas por aí perdidas, a maior parte singles e EPs.

Mas existe Operários do Natal.

A editora discográfica Toma Lá Disco, uma cooperativa de música, teve curta duração, mas teve o tempo suficiente para conseguir produzir uma boa mão cheia de discos que marcam a música portuguesa.

Neste número encontra-se o LP dos Operários de Natal.

O disco foi gravado em 1976 e reúne as canções de um espectáculo que, com o mesmo título, foi representado no Teatro Adóque, um barracão improvisado a fazer de teatro, no Martim Moniz onde agora se erguem vários mamarrachos.

Apetece dizer que um naipe de poetas e artistas conseguiu realizar um trabalho em que as crianças são tratadas como gente e não como uns patetinhas e, por isso, está longe, muito longe, das costumadas parvoeiras.

Apetece dizer: tratadas com dignidade.

Canções com textos partilhados entre José Carlos Ary dos Santos e Joaquim Pessoa, interpretados por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, que também escrevem as músicas, e introduzidas pela belíssima voz de Maria Helena d’Eça Leal.

Aqui terá que dizer que o disco faz parte do cancioneiro da vida dos filhos, começa a fazer parte da dos netos e, dirá ainda, que é um disco muito, mas mesmo muito cá de casa – cada amigo nosso vale mais que um pai natal.

Por muitos natais se cantaram estes operários. O tempo foi passando e, hoje, já não encontra a voz desafinada de alguns que à volta da mesa, e não só, se faziam ouvir.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

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Este poema de Joaquim Pessoa foi musicado por Carlos Mendes e faz parte do álbum
Canções de Ex-Cravo e Malviver editado em 1977.
Num outro, Amor Combate, editado em 1976, Carlos Mendes também musicou poemas de Joaquim Pessoa.
São dois discos de grande qualidade em vinil e que, lamentavelmente, nunca tiveram edição em CD.
Hoje, apenas os podemos encontrar, a preços exorbitantes, em lojas e, em leilão, em sites de vendas de iscos de vinil.
Nos respectivos anos de publicação, a crítica distingui-os como Melhor Álbum do Ano.

Arranjos e Direcção Musical de Pedro Osório.

LADO 1

Lisboa Meu Amor
Palavras
Cantar de Vivo para um Camarada Morto
Nocturno
Monólogo do Operário

LADO 2

Ruas de Lisboa
Balada do Medo
Canto Chão
No Silêncio da Espera
Amélia dos Olhos Doces

Produção de «Toma Lá Disco, SCARL»





domingo, 22 de maio de 2011

COMO NASCEU UM DISCO


Esta é a capa do LP ”Fala do Homem Nascido”, etiquete “Orfeu”, edição de Arnaldo Trindade & Cª., Lda, Porto. Novembro 1972.
Um belíssimo disco da música portuguesa, um disco de referência.

Poemas de António Gedeão
Músicas de José Niza
Interpretações de Tonicha, Samuel, Carlos Mendes, Duarte Mendes.
Arranjos e Direcção de Orquestra de José Calvário
Gravação de orquestra nos estúdios Celada (Madrid) por Pepe Fernandez, Enrique Rielo e Vinader.
Gravação de vozes nos estúdios Polyson (Lisboa)
Produção de José Niza
Arranjo gráfico de Beatriz Morais Alçada
Fotografias de Álvaro João

José Niza conta:

“Zau Évua (Norte de Angola).
Abril-Maio de 1970.

O correio da guerra trouxe um livro. "Poesias Completas", de António Gedeão. "Para musicar. Um abraço. Cambezes". Quase automático. Gedeão é um dos poetas mais musicais (musicáveis) da língua portuguesa. E a sua poesia, minha velha amiga. Esses poemas, a angústia, o estar aqui, a viola, as noites, os estilhaços de um povo, o torniquete equatorial, a medicina artesanal, o resto, tudo tornaram fácil. Tão fácil, como sentir o arame farpado rasgando a pele dos sentidos. Tudo tomou, também, um repentino sentido. Não eram poemas isolados, mas uma história, o que estava ali escrito. E a história, e a poesia, eram demasiado belas para que a música as estragasse. Havia o Homem. Havia uma história. Havia um palco: a Vida. Eu daria apenas um pouco de música e um pouco de ordem. Mas, o importante, era o Homem. Mesmo à dimensão de uma rodela negra, num rodopio de 33 voltas por minuto.

Do início ("numa qualquer manhã, um qualquer ser, / vindo de qualquer pai, / acorda e vai, / como se cumprisse um dever") até "vestidos de surrobeco / e acocorados no chão", vai um salto de 20 séculos. Um drama em tempo de LP. Um disco pensado alto. Este o esquema, o funil, o encurralar da ovelha. Sob uma macieira de plástico, o homem nascido-em-qualquer-parte diz donde vem e o que quer:

"Venho da terra assombrada
 do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém".
Mas avisa:

"Não há poder que me vença
 mesmo morto hei-de passar".

Assim começa a fala do homem nascido. O pior é que o mundo não é o que devia ser. Há o desencanto do desencontro. O diálogo não passa de monólogo. As palavras são, apenas, sons. Para isto, mais vale "morrer atolado / na mais negra solidão". (A esta indiferença, a esta fácil aceitação da fatalidade, chamava Roger Vaillant, em "La Loi", "se portugalizer"). No entanto, nem tudo está, ainda, perdido. Acredita-se, mesmo por detrás da angústia, das contradições e de um quotidiano feito de misérias e esperanças, que "todo o tempo é de poesia". Há uma dinâmica permanente entre "bombas que deflagram / corolas que se desdobram / corpos que em sangue soçobram / vidas que a amar se consagram". O Homem acaba por ganhar o desafio, palmo a palmo, dia a dia, calo a calo: "Tenho sofrido poesia... / dói esta corda vibrante / a corda que o barco prende... / se vem onda que a levante / vem logo outra que a distende / não tem descanso jamais". Uma vitória adiada. Um volte-face do disco, um percurso do geral para o particular. Entramos em Portugal.

Todo um (saudável) culto do passado, construído sobre um saudosismo que ainda dói – "Poema da Malta das Naus" – é, a um tempo, homenagem, crítica e incitamento ao Homem Português de ontem e de hoje. O marinheiro quinhentista "moldou as chaves do mundo", mas toda essa epopeia teve (e tem) o seu preço, o preço trágico de uma "lágrima de preta". Este o drama dos descendentes da malta das naus: a ciência diz-lhes que a lágrima não tem "nem sinais de negro / nem vestígios de ódio". Mas... e daí? De que vale a ciência da análise, se o Homem Nascido não está preparado para a aceitar? Bastará a ciência ao Homem para que ele se humanize? Filipe II (que aqui se cognomina de Manuel I) tinha tudo, tudo! "Mas o que ele não tinha / era um fecho éclair". É isto que dói ao Homem Nascido: o não ter coisas tão aparentemente simples e possíveis como um fecho éclair. Jamais a felicidade completa. Sobretudo por ser conseguida à custa da felicidade dos outros. "Lágrima de Preta" é o primeiro poema que, no disco, se dirige à mulher.

A Mulher Portuguesa, mulher em vias de desenvolvimento, é hoje, talvez, o exemplo recente de uma nova forma de alienação. Ao fazer-se uma (demagógica) promoção da mulher, inaugura-se um moderno processo de a escravizar: a escravidão pelo trabalho desumanizado. E escravidão não só à dimensão da sociedade, mas na intimidade da sua própria vida (trabalho, casa, filhos, marido, trabalho... um ciclo vicioso infernal que uma vez iniciado não pode parar). "Calçada de Carriche" é um hino à escravidão da mulher-mártir, frágil máquina suburbana que o quotidiano da cidade suga. Mulher, máquina, máquina, que o vertiginoso e breve amor dos domingos evade para as auto-estradas, na doce ilusão de o novo mundo dos sentidos não ter segundas-feiras...
A evasão dá-se. "Leonor, Leonoreta, fuge, fuge, vai na asa de lambreta", com o único rumo de fugir a si própria, numa ilusória felicidade, fugaz como a paisagem que a lambreta rasga.



O cerco aperta-se. O Homem torna-se cada vez mais circunscrito. De um trilião de homens passa-se para o grupo e, finalmente, para o indivíduo, para o homem concreto, com nome, residência e tudo. "Álvaro Góis / Rui Mamede / filhos de António Brandão / naturais de Cantanhede...". Eles vivem, existem, são. Em Braga ou em Olhão, no Alentejo ou na guerra, eles lá estão! "Vivos", "vestidos de surrobeco" e "acocorados no chão", eles estão em toda a parte. No chão, mas ainda vivos... Eis a "Fala do Homem Nascido"!
ELE nasceu numa qualquer manhã e não há poder que o vença. Mesmo morto há-de passar!

Lisboa, Novembro de 1972.

Dois anos e meio passados, o disco fez-se.

No caminho ficaram muitas ideias, entre as quais o entusiasmo de amigos como o Rui Ressureição e o Manolo Diaz, que, comigo em África, quiseram esperar por mim. Como muitas vezes acontece, novas oluções surgiram, entre as quais a que o talento e a inteligência  de José Calvário trouxeram a todo este trabalho.
Que António Gedeão me desculpe algumas amputações que fiz aos seus poemas, determinados por razões musicais

Que, dos erros que houver, me ataquem a mim.

P.S. – Para o Eduardo Cambezes;
           Para ouvir. Um abraço. Niza.”

sexta-feira, 2 de abril de 2010

FALA DO HOMEM NASCIDO

ORFEU STAT 013

Poemas de António Gedeão
Músicas de José Niza
Orquestração José Calvário
Arranjo gráfico Beatriz Morais Alçada
Fotografias Álvaro João
Editado em 1972

Lado 1
Estrela da Manhã – Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha
Fala do Homem Nascido – Samuel
Desencontro – Samuel e Tonicha
Tempo de Poesia – Duarte Mendes
Vidro Côncavo – Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha

Lado 2
Poema da Malta das Naus – Samuel
Lágrima de Preta – Duarte Mendes
Poema do Fecho Éclair – Carlos Mendes
Poema da Auto-Estrada – Tonicha
Poema de Pedra Lioz – Samuel

Pelo ano de 1969, José Niza encontrava-se em Zaú Évua, no norte de Angola, a cumprir serviço militar. O correio da guerra levara-lhe um livro, “Poemas Completos”, de António Gedeão, e um recado: “para musicar”.De poemas, aparentemente soltos, resultou “Fala do Homem Nascido”, um dos mais belos discos da música portuguesa.

Fala do Homem Nascido

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.