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segunda-feira, 14 de abril de 2025

CARLOS MATOS GOMES (1946-2025)

Quase, quase a acontecer mais um aniversário do 25 de Abril, morreu o capitão Carlos Matos Gomes.

Segundo sua filha, morreu serenamente o ouvir canções de Abril.

«Uma revolução é como Saturno e devora os seus filhos ou à conclusão de Rosa do Luxemburgo de que uma revolução não tem ensaio geral. O caminho faz-se caminhando e o caminho e a viagem são mais interessantes e mais estimulantes do que o ponto de chegada.» 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Soldadó

Carlos Vale Ferraz

Prefácio: António Tavares-Teles

Capa: José Maria Ribeirinho

Colecção: A Guerra Colonial em Livros nº 3

Editorial Notícias, Lisboa, Novembro de 1997

Esta é a história de Fergusino do Ó, um dos milhares de pobres diabos convocados para defender as longínquas fronteiras do Império.

Fergusino do Ó não sabia ler nem escrever e, como alguém disse, não pertencia ao conjunto da humanidade responsável pelas descobertas, mas, levado por mão invisível, que sempre acreditou ser a dos omnipresentes sargentos, chegou a Mueleka,  - a terra da guerra - após uma viagem de mais de dois meses.

Era básico, isto é não possuía as mínimas habilitações para especialista do que quer que fosse. No entanto serviu com a melhor boa vontade como pau para toda a obra. Foi cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes porno gráficos, estivador e até piloto e guarda-costas de cíclicas excusoes de prostitutas, vindas para animar os infortunados guerreiros.

Na tropa chamavam-lhe Soldadó e, para ele, Mueleka – a irreparável guarnição – foi o melhor sítio que jamais conheceu.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

OLHAR AS CAPAS



Nó Cego

Carlos Vale Ferraz
Capa: Rogério Petinga
Livraria Bertrand
Lisboa, 1982

No final, os quatro soldados que haviam sido da equipa do Preguiça, cabeça descoberta em sinal de respeito, pegaram no caixão e carregaram-no nas costas até ao barracão que servia de armazém aos corpos encaixotados à espera de transporte de volta à terra de origem.
À porta, o padre rezou as últimas orações, o cabo do batalhão de caçadores encarregado do material retirou a velha bandeira e dobrou-a para futuras cerimónias. Os homens dispersaram em pequenos grupos, dirigiram-se, uns para as barracas, outros para a enfermaria visitar o Pedro.
Encontraram-no na sala dos feridos graves.
- Que tal vai isso?
- Nunca mais pego toiros, meu capitão – respondeu com um sorriso triste. – Depois de me cortarem a perna, doeu. Mesmo assim tive muita sorte. Ao ver o que aqui vai, é que a gente sabe o que é a desgraça – afirmou, olhando para as camas ao lado, ocupadas com corpos mutilados ligados a tubos de plástico, a distinguir-se só o tronco debaixo dos lençóis, os cegos, os amputados, os queimados.
- É a guerra… - assentiu o capitão. – Tens necessidade de alguma coisa?
- Só de correio, mas sei que não veio para ninguém. Ainda agora a minha família julga que ando aqui a correr em cima das duas pernas.