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quinta-feira, 18 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


18 de Abril de 1974


O dia 18 de Abril, segundo António Mega Ferreira num futuro número do Expresso (25-04-1981), amanheceu cinzento. Um céu pesado, envolvia Lisboa numa promessa de chuva. Ao fim da tarde, porém, o estado do tempo agravou-se: uma violenta trovoada desabou sobre a cidade e choveu torrencialmente.

Nessa tarde do dia 18, Marcelo Caetano não escondia o seu desalento: «Não sei se algum Governo terá tido tantas dificuldades para governar como o meu,

O governo de Marcelo  não vive momentos de unidade, as forças conservadoras minam tudo. O próprio presidente da república  era mais um escolho e um foco de oposição;

Uma frase de Marcelo retida por António Mega Ferreira:

«Os meus ministros vêm aqui crucificar-me! Sou tido por responsável de tudo o que se faz e do que não se faz neste país.»

UMA PORTARIA do Ministério das Comunicações determina que as provas teóricas de condução de automóveis deixem de ser feitas oralmente e passam a ser prestadas de testes escritos.

MARCELO CAETANO convida o reitor da Universidade Clássica de Lisboa, Veríssimo Serrão, para substituir com urgência, Veiga Simão na pasta da Educação.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

ANTÓNIO MEGA FERREIRA (1949-2022)


Morreu António Mega Ferreira.

 Um homem de Lisboa, um homem de cultura, com o Sport Lisboa e Benfica como o seu primeiro e grande amor, uma enorme caligrafia de prazeres onde pontificavam gravatas, relógios, filmes, restaurantes, música clássica, livros, certos lugares, «até morrer, todos os anos hei de ir a Itália».

Fazedor de inúmeros projectos culturais, Expo98, por exemplo, sem qualquer interesse pela posteridade, no fundo apenas queria que o reconhecessem, unicamente, como um escritor e ao dizê-lo certamente lembrava um verso de Jorge Luís Borges que tanto admirava:

«Em breve saberei quem sou». 

sexta-feira, 4 de março de 2022

OLHARES


 Não faz parte dos inúmeros e incondicionais leitores do panteão onde se louva Jorge Luís Borges.

Sabe-se que não recebeu o Prémio Nobel devido ao alinhamento político que manteve com a ditadura argentina.

Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.

Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política.

«É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.»

Certamente esta história afastou-o de Borges. Leu muito pouco.

António Mega Ferreira é um enorme admirador de Jorge Luís Borges. Em 1980 entrevistou o autor. «Borges ao Anoitecer» consta de «Retratos de Sombra»:

«É contra as ditaduras?

Uma pausa, «Contra todas não, pelo menos em abstracto. Admito que possa haver ditaduras que sejam boas.» Outra pausa, mais longa: «Mas devo confessar que não sei da existência de nenhuma que tenha sido positiva.»

Defende então a democracia?

Também não. Foi a democracia que conduziu ao poder demagogos como Hitler ou Péron.

Que propõe, então?

Não sei. Sabe, eu tenho dificuldade em compreender as coisas reduzidas às fronteiras de um país, muito menos de um partido,político. Eu não sou, nunca fui um nacionalista. Sinto-me igualmente cidadão de Genève, Londres e Buenos Aires. Oenso que há mais segurança no bairro chinês ou no bairro italiano de Nova Iorque do que em muitos países onde há um governo forte. O que há ali são formas de autoridade que escapam totalmente à lógica dos governos: uma antiquíssima cultura ou uma Máfia organizada. Por isso sou céptico em relação aos governos que se assumem como tal: quero im mínimo de governo, e muito curto.

E acha que, um dia, seremos er capazes de merecer…

… que pura e simplesmente, os governos deixem de existir.»

 

domingo, 4 de julho de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO


José Sócrates, Ricardo Salgado, Joe Berardo, juntos e ao vivo, foram pivots de manigâncias que provocaram enormes prejuízos na banca.

Prejuízos que há longos anos, a grande parte dos idiotas deste país têm vindo a pagar.

Que essas trafulhices, só recentemente tenham provocado intervenção policial, causa o pasmo dos idiotas-pagantes do país.

Que, em tempo corrente, o clã-SONAE, farinha do mesmo saco, tenha dito que o trio de artistas-mafiosos tinham trafulhado a OPA da PT, apenas provocou sorrisos da gente esclarecida que esclareceram serem eram apenas palavras de rapaziada com dor de cotovelo.

Clara Ferreira Alves, excelsa pluma caprichosa do reino, contou na 5ª feira na SIC-Notícias que, enquanto presidente da Casa Fernando Pessoa, solicitou a Joe Berardo uma esmola de 500 euros para uma qualquer iniciativa pessoana que não especificou. Reuniu com o artista, aturou-lhe a parvoeira, a conversa a atirar para o marialvismo, para o nazismo, para sabe-se lá mais o quê, mas já muito agoniada saiu porta fora.

Contou então aos espectadores do «Eixo do Mal» que, tão frustrada, tão, tão o que não conseguiu especificar bem, depois daquilo, teve que ir beber champanhe.

E onde estão os abraços calorosos de António Mega Ferreira quando o trafulha-madeirense-sul-africano, espetou, no CCB, num negócio de bradar aos céus, com a sua colecção de quadros? 

Tudo isto é de uma tristeza sem fim. 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Voltamos às páginas do Joaquim Vieira em José Saramago Rota da Vida.

Vieira conta que José Saramago, vivendo na Parede com Ilda Reis e a filha Violante, inscreve-se «como o sócio nº 488 do Clube Nacinal de Ginástica da Parede, dedicando-se ao ténis como a sua actividade física favorita. E surpreendentemente publica no suplemento «Cultura e Desporto», do jornal «O Benfica», em início de 1956, um longo artigo intitulado «É tempo», onde não fala de desporto mas sim de «atitude do homem cristalizado diante da arte moderna, para fazer uma apaixonada apologia das vanguardas estéticas.

Joaquim Vieira não conta, mas José Saramago foi sócio do Sport Lisboa e Benfica e tal como se pode ler no catálogo da exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos em 1999 tornou-se Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Há um curioso recorte do Mário Castrim, numa crítica, publicado no semanário Tal & Qual, a um programa, bem idiota, dos princípios da SIC, que dava pelo nome de Os Donos da Bola:

«O momento mais alto do programa aconteceu na Assembleia do Benfica transmitida em directo. Levantou-se para falar o sócio Jorge Máximo. “O galardão máximo da literatura foi entregue a José Saramago. Ainda por cima, José Saramago é do Benfica. Vamos daqui dar uma salva de palmas a esse grande homem, a esse grande português. Somos campeões do mundo em literatura! É isso que nós, benfiquistas, não podemos perder no nosso humanismo».
Fico siderado. Uma vontade doida de rir e não ser capaz. Porque aquilo é mesmo assim. Todos agora nos sentimos campeões do mundo em literatura, todos e não apenas os benfiquistas. Está aí a grandeza so Saramago: dar força ao nosso humanismo».

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

O meu avô meteu-me, aos 6 anos, o vício do futebol, mais concretamente do Benfica. Anos mais tarde não deixou de me dizer que as coisas mais importantes da vida não se escolhem.

António Mega Ferreira, benfiquista assumido, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, porque em matéria de futebol não se pode ser razoável, ou como disse o cineasta João Botelho, outro benfiquista: «a paixão pelo futebol é um dos lados dos comportamentos irracionais das pessoas».

Albert Camus dizia que o melhor que sabia sobre a moral e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

«Aprendi rapidamente que uma bola nunca nos chega de onde a esperávamos. Isso serviu-me para toda a vida».

Mas fechamos os taipais com o escritor Mário de Carvalho:

«A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

Legenda: fotografia de José Saramago em 1933, tirada do catálogo exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos

terça-feira, 29 de maio de 2018

SE NÃO PODES AJUDAR-ME A VIVER, AJUDA-ME A MORRER


A discussão sobre a eutanásia é uma discussão dificílima, um emaranhado de melindres, cada cabeça sua sentença…ou se está a favor… ou se está contra…

O resto é pano de fundo onde se torna difícil navegar… mas navegar é preciso!

Eutanásia significa morte tranquila, ajudar as pessoas em agonia a sair deste mundo com serenidade, não é a escolha entre a vida e a morte.

É uma escolha entre duas maneiras de morrer.

Com ou sem dignidade.

O médico e escritor Fernando Namora morreu em Janeiro de 1989.

Até morrer, sofreu horrivelmente.

O Dr. José Luciano de Carvalho que, durante anos e anos, assistiu a nossa família, quando num dia longínquo lhe perguntei a sua opinião sobre a eutanásia, não se mostrou favorável e contou-me que, durante a doença, ao visitar o seu amigo e colega Fernando Namora, e este lhe pedira, encarecidamente, que o ajudasse a morrer.

- Fernando, sabes tão bem como eu, que não te posso ajudar: fizemos um juramento…


Acresce a este juramento profissional, a posição da Igreja.

Tenho um vasto dossier, li livros, vi filmes sobre o tema, sei-o fracturante, a crispação que o tema provoca, por tudo isto, também por instinto, sou a favor da eutanásia.

Hoje, o tema da morte assistida, quatro coprojectos do PS, Bloco de Esquerda, Partido Ecologista Os Verdes e PAN, será discutido na Assembleia da República.

O PCP e o CDS votarão contra, os restantes partidos deram liberdade de voto aos seus deputados.

O desfecho desta votação aponta para um «não» como resultado. Contas feitas pelos jornalistas, mostram que 116 deputados deverão chumbar a legalização da eutanásia contra 114 deputados que votarão a favor, mas estes números não são um dado adquirido.

Li a Posição política do Partido Comunista sobre a provocação da morte assistida, inclino-me a perceber o que nela se pretende, mas não concordo com os argumentos expostos.

Acresce que essa múmia política que dá pelo nome de Cavaco Silva, há longo tempo remetido ao silêncio, disse à Rádio Renascença que é contra a legalização da eutanásia:

 «Estando em causa a defesa do primado da vida humana, entendi que devia fazer uso das duas armas que me restam como cidadão: a minha voz, não ficando calado, e o meu direito de voto na escolha dos deputados nas próximas eleições legislativas.»

No mesmo sentido se pronunciou o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho e, segundo o Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que não tem posição tomada em relação aos diplomas sobre a eutanásia que estão em discussão, mas deverá vetar a lei.

Seguem-se declarações de diversas personalidades, relembro uma história do quotidiano contada por José Cardoso Pires, incursões sobre os Diários de Miguel Torga e Vergílio Ferreira e mais à frente, em Relacionados, coloco três «velhos» recortes:

«Tenho idade e já sofri o suficiente para saber que a vida, sendo embora um bem finito, só vale a pena ser vivida em plenitude ou com dose razoável de humanidade. No ano em que se deixou morrer, Teixeira de Pascoaes disse à família uma coisa luminosa: “Não me tirem a dignidade de viver”. Tinha 75 anos, extinguia-se rapidamente e tinha consciência de que entrara na fase terminal da vida. É por isso, porque a decadência irreversível antecipada por uma cabeça é o mais horrível dos sofrimentos, que defendo o direito de cada um de nós dispor daquilo que pode ser considerado uma “dignidade de viver”.»

António Mega Ferreira, escritor.

«O Expresso pergunta-me por que defendo a eutanásia. E eu respondo, de forma simples e clara: porque quero continuar, como até agora, a poder decidir sobre todos os minutos da minha vida, mesmo quando ela se aproxime do fim e a única expectativa que posso alimentar é sofrer até ao último suspiro ou continuar vivo mas sem vida, estar mais morto que vivo.
Aprovada a morte assistida cada um poderá decidir como entender sobre a reta final da vida, ninguém fica obrigado a ela recorrer mas também ninguém estará impedido de o fazer
Defendo a morte assistida (eutanásia e suicídio medicamente assistido) porque defendo a minha liberdade e a de todos. Aprovada a morte assistida cada um poderá decidir como entender sobre a reta final da vida, ninguém fica obrigado a ela recorrer mas também ninguém estará impedido de o fazer.
Sim, há uma questão ética nesta discussão. A escolha é entre uma ética da liberdade – uma ética da tolerância - e uma ética da imposição. Eu não quero impor a eutanásia seja a quem for, mas não aceito que me imponham opções que não são as minhas. Muito menos quando a consequência dessa imposição é sofrer mais ou reduzir-me a um estado vegetativo.»

João Semedo, médico e ex-deputado do Bloco de Esquerda

«A Igreja que quero forte é a maioritária no meu país: a Igreja Católica Apostólica Romana. Sou ateu, não acredito na existência de um Deus (ou vários), acredito na autonomia do homem, na natureza, no conhecimento científico e que o que sobra quando morremos é pó e a memória que os outros guardarão de nós. Mas, mesmo sabendo que Deus não existe, sei também outra coisa: a Igreja existe. E, mesmo assente naquilo que eu simpaticamente posso admitir como um grande equívoco, é melhor que continue a existir - e forte. Forte para os nus e para os esfaimados do mundo, para os excluídos e para os que não têm outro remédio. Mal ou bem, para estes. Caridadezinha ou humanismo grande - que salve pessoas, é o que interessa.
Vêm aí decisões sobre a despenalização da eutanásia, no Parlamento. Afirmo-me desde já favorável. Admito o direito de alguém em dor e sofrimento, lúcida e plenamente informado, por decisão rigorosamente própria, perante uma doença clinicamente incurável, ter direito a que alguém de forma voluntária e medicamente competente lhe ponha fim à vida. Acontece que não tenho certezas sobre isto - e duvido que alguém verdadeiramente possa ter. Há nas circunstâncias de alguém que pede morte assistida mil e uma razões que me podem levar a ter dúvidas. E nenhuma lei as poderá prever todas, para lá de qualquer dúvida.»

João Pedro Henriques, jornalista

«No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.»

Patrícia Reis, escritora

«Nós ouvimos falar de eutanásia e não nos podemos esquecer que a palavra vem do grego, significa "boa morte". Defendo que a vida compreende inevitavelmente a morte. Assim sendo, todos nós temos o direito de dispor da forma como queremos terminá-la. E devemos ter esse direito.
Penso que a sociedade já interiorizou que as pessoas não devem ter uma má morte. Quantas vezes nós ouvimos dizer, mesmo de quem tem um ponto de vista religioso: "Deus o leve." Isto quer dizer o quê? Ponham termo a este sofrimento. Com toda a franqueza, penso que esse sentimento já está interiorizado socialmente. As pessoas não gostam de ver sofrer familiares, nem terceiros.»

Paula Teixeira da Cruz, deputada, ex-ministra da Justiça.

«Sou a favor da eutanásia e subscrevi o recente manifesto Direito a Morrer com Dignidade. Não o fiz propriamente por achar que há um direito a morrer ou por qualquer razão jurídica. Não o fiz por considerar que a morte sem recurso à eutanásia e após grande sofrimento não possa ser digna. Claro que pode. E claro que se pode defender que a disposição da nossa Constituição que determina que “a vida humana é inviolável” não permite a legalização da eutanásia. Como, de resto, se afirmou relativamente à legalização da interrupção voluntária da gravidez. Mas são meras construções jurídicas e a questão de fundo não me parece ser jurídica.
É uma questão de concreta humanidade e amor ao próximo. Aceitar a legalização da eutanásia exige-nos a capacidade de aceitar que o “outro em sofrimento” não queira viver um pesadelo existencial sem outra saída que não seja a morte e possa evitar esse pesadelo e pôr termo à vida de uma forma não clandestina e angustiada mas antes, tanto quanto possível, tranquila e em paz. É também a possibilidade de alguém a quem amamos não ter de sofrer absurdamente.»

Francisco Teixeira da Mota, advogado

«Dois velhos a viverem há cinquenta anos numas águas furtadas da Avenida Marginal, frente ao Tejo: ele reformado da construção naval, sentado à cabeceira da mulher que esperava a morte que não vinha, e a olhar os navios que entravam e saíam da barra; a estudar os voos das gaivotas; a confirmar hora após hora os comboios que passavam entre ele o rio por essas praias além; a pensar mundos perdidos para lá dos nevoeiros. E vencido, impotente, porque a mulher há tantos anos, minada por metástases até aos ossos gritava, dormia e respirava dores, implorando a Deus que a levasse, depressa, Senhor, depressa para a sua santíssima presença.
Uma manhã, ao despertar, o velho viu-a por instantes bela e serena como nos seus tempos de amor. E chorou de mansinho e também ele desejou morrer.
Depois sentiu as dores a aproximarem-se de novo, e a escorrer lágrimas de desespero, de cansaço, de saudade, abraçou-se à mulher amada, envolveu-se nela e no seu sofrimento e cobriu-lhe o corpo de facadas.
Suicidou-se atropelado por um comboio, mesmo em frente da janela onde costumava ver passar os navios.»

José Cardoso Pires

«O pior na doença, mais do que o sofrimento, é a desgraça de ter todos os momentos na consciência a humilhação das fraquezas do corpo. É sentir cada órgão a recusar a função, cumprir de má vontade o acto de viver. É suportar a tirania dos sentidos e nada poder contra a degradação e o empobrecimento de ser seu escravo. Viver é estar inocente de si próprio. Como na santidade, que tem de se ignorar, também nenhuma parte de nós deve saber que existe.
(…)
Não sei como hei-de resistir.
- A resistir… - responde-me uma teimosa voz interior.
E deixo-me ficar estoicamente no meu sofrimento, fiel à íntima certeza em que sempre vivi de que a suprema fortuna é saber corajosamente merecer a vida, e a suprema desgraça é coverdemente não a saber perder.»

Miguel Torga, Diãrio Vol. XVI

«Mas a certa altura fala-me da nossa irmã. O espírito apaga-se-lhe precipitadamente e tudo aquilo que a ligava ao mundo se lhe confunde num caos. A filha, marido, todas as pessoas de família lhe são figuras estranhas como toda a perspectiva do tempo se lhe perdeu. Tento situar-me em face da minha irmã e não sei. Quando voltar a vê-la decerto me mão conhece. Todo o passado da nossa infância comum vem ter comigo e de súbito ele está morto nela a uma distância de vertigem. Que significa ela estar viva e real na realidade que é a sua? É morta minha irmã. No fundo de mim o sei.»

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

QUOTIDIANOS


Quando se liga a televisão, um dos elementos maiores do entretenimento, há três coisas maravilhosas que acabam: o escuro, o silêncio e a solidão. Decisivas substâncias de que se faz a literatura, de que se faz a poesia. Onde está a música do pensamento no meio desse som e fúria sem contemplações a que se chama entretenimento?
Quando se escolhe ler cinco mil livros na vida, são milhares e milhares de horas que não estão ocupados a ir ao shopping center, à discoteca dançar todas as noites até às quatro da manhã, por aí fora. Portanto essa opção existirá sempre.

António Mega Ferreira em Conversas com Escritores de Inês Fonseca Santos

terça-feira, 28 de outubro de 2014

QUERO LÁ SABER DO ESPECTÁCULO!


António Mega Ferreira, assumido benfiquista, um dos nomeados no editorial do jornal I de hoje, assinado por Luís Osório, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, já que em matéria de futebol não se pode ser razoável.

Há longo tempo, à entrada do Estádio da Luz para um Benfica-Sporting o repórter da RTP perguntou ao actor Artur Semedo se esperava ir ver um bom espectáculo.

Semedo irritou-se e respondeu: quero lá saber do espectáculo! Quero é que O Benfica ganhe!


Tal com disse o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade: Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

REPOUSANTE E SEDUTOR


António Mega Ferreira é um sujeito interessante, intensamente culto, bem-falante e tem com o Benfica a mais longa e persistente relação afectiva da sua vida. Entende que a felicidade, se existe, acontece quando um homem pode, calmamente, ler os jornais numa esplanada ao sol, fumar um charuto.

No dia seguinte ao casamento da Cristina e do Mário, almoçámos num restaurante da Praia das Maçãs, “Dr.Mira’s account”. Já Mega Ferreira lá estava, com uma razoável pilha de livros e revistas. Quando saímos ainda não tinha puxado de um charuto.

“Tanto ela como ele deviam ter a sensação bastante clara de que a sua relação já não iria cumprir nem metade das promessas não cumpridas, além de terem a certeza absoluta de que a chama da paixão já não ardia em sítio nenhum. Mas há qualquer coisa de muito repousante e sedutor em ler os jornais de fim-de-semana sem dizer uma palavra num restaurante tranquilo de domingo pendurado sobre as Azenhas do Mar, com a espuma nas arribas e o céu muito denso e encastelado a deitar-se-lhes por cima.”

Clara Pinto Correia em “Mais Marés que Marinheiros”

Legenda: “Summer Reading” de Jonathan Burton