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sábado, 13 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Peregrinação/1

Fernão Mendes Pinto

Versão para português actual: Maria Alberta Menéres

Capa e maqueta da colecção: Paulo Guilherme

Edições Afrodite, Lisboa, Maio de 1975

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas as me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida. E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de El-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro

sexta-feira, 12 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

      Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                              João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Deixamos, por agora, os urgentes trabalhos dos Capitães, as viagens dos ainda ministros de Marcelo, e voltamos à música.

E voltamos com um dos grandes discos da música portuguesa: as viagens de Fernão Mendes Pinto com letras e músicas de Fausto.

Duplo LP editado em 1982 pela Triângulo com Produção da Casa Sassetti – TR-002/3


FACE A

É O Mar Que Nos Chama (instrumental) - O Barco Vai De Saída - Porque Não Me Vês - A Guerra É A Guerra - De Um Miserável Naufrágio Que Passámos

FACE B

Como um Sonho Acordado – A Ilha – A Voar Por Cima das Águas – Olha o Fado

FACE C


Por Este Rio Acima - O Cortejo dos Penitentes - O Romance de Diogo Soares - Navegar, Navegar

FACE D

O Que A Vida Me Deu - Lembra-me Um Sonho Lindo - Quando Às Vezes Ponho Diante dos Olhos


Arranjos: Eduardo Paes Mamede e Fausto

Orquestrações, direcçaõ musical: Eduardo Paes Mamede

Concepção de 2º violas Acústicas, Braguesa e Cavaquinho: Júlio Pereira

Captação de som: José Fortes, Rui Novais e Luís Flor

Fotografias: João Castel-Branco

Coros: Lena, Zélia, Isabel, Toinas, Pedro Casaes, Ed e participação especial de Maria do Céu Guerra e outros actores de Teatro A Barraca.

Capa de José Brandão.

Por este disco, eu que, nas velhas edições da Romano Torres, li Emílio Salgari, que li uma antologia da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, publicada pela Seara Nova, abalancei-me a outros voos: naus catrinetas, navegantes loucos, ilhas do tesouro, terras de pimenta e de todas as especiarias, como sonhos acordados e  quem  conquista sempre, rouba.

«O barco vai de saída, adeus ó cais de Alfama, meu amor adeus, tem cuidado se a dor é um espinho, por mais que seja santa, a guerra é a guerra, o escuro é muito grande, o tempo é mais frio, o mar é muito grosso, como se a terra corresse inteirinha atrás de mim, olhamos tudo em silêncio na linha da praia, vai de roda quem quiser e diga o que tem a dizer, e na verdade o que vos dói, é que não queremos ser heróis, a terra a navegar meu bem como eu vou por este rio acima, abranda Senhor a pena dos mortos, p’ra que te louvem com sono quieto, os anais do grande general chamado o «galego, o homem dos olhares fatais, navegar navegar ó minha cana verde, mergulhar no teu corpo entre quatro paredes, ó mar leva tudo o que a vida me deu, tudo aquilo que o tempo esqueceu, lembra-me um sonho lindo, quando ás vezes ponho diante dos olhos a lusitana viagem, medonha, que eu dobrei, os tormentos passados,  e os fados que chorei.»

terça-feira, 21 de junho de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Logo nas primeiras palavras do longo e excelente prefácio de João Pedro George, lê-se

«Luiz Pacheco sofria de compulsão epistolar.»

Sou um velho  apreciador de correspondência entre escritores.

Acresce que em tempos idos, enquanto subia/descia o Chiado, fiz parte daqueles a quem o Pacheco esticava um livreco e dizia: «Dá cá vintes!»

Mais tarde entrei na longa lista de assinantes da Contraponto para bebeficiar do envio das edições de livros que o Pacheco fazia e que não chegavam às livrarias.

Se tiverem paciência para isso, vejam nas etiquetas deste blogue: «Luiz Pacheco» e «Luiz Pacheco Editor», as minhas aventuras com a pachecal figura.

Num velho artigo no suplemento Ipsilon do Público, Luís Miguel Queirós conta quem é Laureano Barros:

 «Grande bibliófilo, matemático e intelectual anti-fascista Laureano Barros (1921-2008), que reuniu na sua quinta da Fonte da Cova uma das mais extraordinárias bibliotecas privadas portuguesas da segunda metade do século XX.

 Quem frequentou os velhos alfarrabistas do Porto, alguns ainda em actividade, sabe que se referiam sempre a Laureano Barros com um respeito muito próximo da veneração. E não apenas por ser um proveitoso cliente, mas porque lhe reconheciam um vastíssimo saber na sua própria área de especialidade, consultando-o a pretexto de dúvidas bibliográficas, ou pedindo-lhe até que lhes recomendasse o preço adequado a pagar por qualquer raridade que lhes era proposta. E admiravam-lhe também essa intransigente rectidão moral que, logo aos 26 anos, em 1947, o lançou no desemprego. Assistente de Ruy Luís Gomes, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, protestou contra a prisão de uma aluna pela PIDE, o que bastou para ser impedido de leccionar no ensino público. Viveu os 20 anos seguintes a dar explicações, com alguma contribuição paterna a arredondar os proventos, já então maioritariamente investidos na aquisição de livros.

A sua biblioteca, leiloada após a sua morte pela Livraria Manuel Ferreira, era tão extensa e tão valiosa que foi preciso organizar um leilão em três partes, com meses de intervalo entre elas. Laureano Barros era um coleccionador exaustivo de Pessoa ou Sá-Carneiro, mas também, por exemplo, de Eugénio de Andrade, Luiz Pacheco ou Herberto Helder. E este seu particular interesse pela literatura portuguesa do século XX convivia com outras predilecções, entre as quais se contava a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, da qual conseguiu reunir todas as dez primeiras edições.

É claro que é preciso algum dinheiro para construir uma biblioteca deste nível, e Laureano Barros tinha até reputação de manter alguns hábitos não apenas dispendiosos, mas um pouco excêntricos, como o de levar regularmente os trabalhadores da quinta a almoçar ao reputado restaurante do Hotel do Elevador, no Bom Jesus de Braga. Mas o coleccionador também teve períodos difíceis. Num dos mais interessantes testemunhos recolhidos por Paulo Pinto no seu filme, o histórico livreiro da Académica, Nuno Canavez, então ainda empregado do fundador da casa, Joaquim Guedes da Silva, recorda que Laureano Barros recorreu a dada altura ao seu patrão para vender a biblioteca que por essa altura já reunira. O livreiro ainda tentou, em vão, emprestar-lhe dinheiro, mas acabou mesmo por lhe comprar a colecção. Ou seja, a biblioteca que veio a ser leiloada era já a segunda.»

 O matemático bibliófilo foi também amigo e correspondente de vários escritores, incluindo Luiz Pacheco ou Eugénio de Andrade, que passava temporadas regulares na quinta da Fonte da Cova. Em Laureano Barros, Rigoroso Refúgio vê-se o exemplar que o poeta ofereceu ao amigo do seu raríssimo (e rejeitadíssimo) livro de estreia, Narciso (1940). No final do volume, Eugénio escreve: “Reli isto, Laureano. Que horror! Para que diabo quer você esta porcaria?”. Quando a biblioteca foi leiloada, este mesmo exemplar foi arrematado por quatro mil euros.

Pena que  «O Grilo na Varanda» não reúna a parte da correspondência que Laureano Barros enviava a Luiz Pacheco  «escritor até aos ossos» tal como o descreve João Pedro George:

E, no entanto, apesar das óbvias diferenças, a correspondência revela a consideração de Pacheco por Laureano Barros, uma estima que se pressupõe mútua. “Pressupõe”, porque as cartas aqui apresentadas são apenas as que Pacheco escreveu a Laureano; e nem mesmo essas são todas as que haverá, como adverte JPG. As cartas que acabam de ser editadas foram arrematadas no leilão portuense, e foi apenas a essas que JPG teve acesso.

A aproximação entre ambos deu-se pela bibliofilia de Laureano, que contactou Pacheco em busca de espécimes bibliográficos da Contraponto e de Pacheco. Muita da correspondência que se seguiu, ao longo de 35 anos, versaria, naturalmente, sobre edições levadas a cabo por Luiz Pacheco. Mecenas tão discreto quanto fiável, Laureano financia empreitadas editoriais e salva bastas vezes Pacheco dos seus infindáveis padecimentos de saúde, da falta de fundos e de todo um sortido crescente de tribulações: com a justiça, com credores, com a vida que lhe ia acontecendo.»

Legenda: contra capa de O Grilo Falante

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Porque a gente que viu pouco mundo, como viu pouco, também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram.

Fernão Mendes Pinto

Legenda: fotograma do filme Peregrinação de João Botelho.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SARAMAGUEANDO


Nas conversas que José Saramago manteve com Carlos Reis, fala de um seu livro que nunca foi publicado e que se seguiu à “Terra do Pecado”:

“Escrevi esse livro que se chama “A Clarabóia” e é um romance. É a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.

O livro foi enviado para um editor, para o Diário de Notícias, por lá ficou quarenta anos, até que um dia recebo uma carta dizendo: “Foi encontrado, na reorganização dos nossos arquivos, o original do seu livro, etc., etc.” E então diziam logo: “se quiser publicar, nós publicamos.” Fui lá, à Empresa Nacional de Publicidade, e saquei o livro que está aí.

Agora, a história de seis famílias que habitam um prédio de Lisboa e vivem sob a nuvem do Salazarismo, ganha uma adaptação pelas mãos do grupo de teatro A Barraca. Num trabalho de adaptação de Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra.

A peça estreia no dia 10 de Dezembro, data em que se comemora o 17.º aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago. 

Ficha Artística e Técnica
Texto: José Saramago
Adaptação do Texto: João Paulo Guerra
Dramaturgia: Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra
Encenação: Maria do Céu Guerra
Cenografia e Coordenação de Guarda Roupa: José Manuel Costa Reis
Banda sonora: João Paulo Guerra
Assistência Geral do espectáculo: Adérito Lopes e Sérgio Moras
Apoio à Direcção de Actores: Lucinda Loureiro
Sonoplastia: Ricardo Santos
Iluminação: Paulo Vargues
Relações Públicas e Produção: Paula Coelho, Inês Costa
Cartaz/ Design Gráfico: Arnaldo Costeira
Fotografias: MEF – Luís Rocha


Maria do Céu Guerra sobre a adaptação da obra de Saramago:

A Barraca tem no seu historial inúmeras obras de ficção transformadas em escrita dramática, a partir das quais se produziram inesquecíveis espectáculos. É aliás esta uma das suas principais vocações. Viagens de Gulliver, de Swifft, O Diabinho da mão furada, de António José da Silva, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, A Relíquia, de Eça de Queiroz, Gente da Terceira Classe, de José Rodrigues Miguéis, Os Emigrantes, de Ferreira de Castro, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, são apenas algumas dessas obras.
 Neste sentido, A Claraboia, de José Saramago, constitui para A Barraca um desafio enorme. São dezassete personagens distribuídas em seis apartamentos num bairro de gente "remediada" na Lisboa dos anos 50. As suas necessidades, aspirações, quezílias, transgressões, mentiras são a principal matéria/desafio para um grande espectáculo de Teatro a acontecer. Tudo encerrado num espaço onde a ausência de amor é a parede mestra de cada casa e onde o fascismo à portuguesa, é vivido até ao mínimo pormenor com a policia à espreita dentro de cada um.
 O entusiasmo de A Barraca e a anuência da Fundação José Saramago levaram-nos a tentar dar cumprimento ao nosso sonho e programarmos este espectáculo para o segundo semestre de 2015.
 Temos a certeza que este espectáculo honrará as instituições culturais envolvidas e não menos o seu autor.