Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Nestas viagens, fazemos a primeira incursão
pela música.
Chegou-se a pensar em Adriano Correia de
Oliveira, que entrou primeiro na Casa que José Afonso.
Mas este EP do Manuel Freire é o primeiro
disco das grandes músicas que fizeram todo o nosso mundo musical antes do 25 de
Abril.
Lado 1
Dedicatória
- poema de Fernando Miguel Bernardes
Livre –
poema de Carlos de Oliveira
Lado 2
Eles - poema
de Manuel Freire
Pedro o Soldado – poema de Manuel Alegre
Todas as músicas
são de Manuel Freire.
Acompanhamento
viola: Fernando Alvim
Rapidamente
tornaram-se hinos de intervenção, cantados um pouco por toda a parte.
Principalmente Livre,
com aquele seu grito, retirado do Cancioneiro Popular, de não
haver machado que corte a raiz ao pensamento.
Estávamos então
unidos pelo desejo de derrubar uma ditadura.
Muitas vezes
direi: naquele Portugal, o canto foi o melhor, e mais eficiente, sinal de
protesto.
Muito pouca gente lê em Portugal e menos
ainda o escritor Manuel Mendes.
Os livros de Manuel Mendes presentes na
Biblioteca da Casa foram comprados pelo meu pai.
Deste livro de Manuel Mendes, em 1970,o realizador Alfredo Tropa fez uma adaptação para o cinemaque
contou com a colaboração de Fernando Assis Pacheco e Afonso Praça. As canções
do filme têm poemas de Fernando Assis Pacheco, música de Manuel
Jorge Veloso e são cantadas por Manuel Freire.
Manuel Mendes dedicou Pedro, Romance dum Vagabundo, ao Prof.
Bento de Jesus Caraça:
A “Pedra Filosofal”, a que a imprensa se refere frequentemente, foi,
não propriamente o poema por si só mas ele e a música do Manuel freire, um dos acontecimentos
mais notórios destes últimos anos, entre nós. Aliás foi um dos poemas que eu
fiz quase a assobiar e daqueles que menos gosto. Quando Manuel Freire o musicou
e o cantou em público pela primeira vez, na televisão, em 1969, a aceitação
popular foi unânime, e daí até hoje, quase trinta anos depois, ainda a canção, e
o poema, continuam a ser aplaudidos com entusiasmo "um dos mais importantes
temas do momento a que se chamou da «nova canção portuguesa» ou, mais
simplesmente, das «baladas» que haveriam de transformar-se na canção de
intervenção que antecedeu a actual Música Popular portuguesa”. (Jornal Sete, de 16.VII.1985).
Não conheço de António Gedeão, nenhum poema dedicado
ao mar. Alusões variadas, chamamento de ondas, de marés, de espumas e de galés,
combinações de palavras alusivas ao mar, insinuações marítimas, expressões de
água salgada, tudo isso aparece na sua poesia. Mas aquela prontidão, aquele
arroubo de mar alto, essa invocação quase divina do mar, do mar, do mar, não
aprece nunca. A sua visão do grande oceano era nele, a configuração de um
entendimento antropológico e físico.
O Poema
da Malta da Naus é o exemplo inequívoco desse entendimento. É um poema
extraordinário que configura uma maneira de ser portuguesa que se manifestou
num período áureo da nossa História.
É que a atração pelo mar é característica dos povos
que vivem perto dele e que não são assim tantos. Os homens das planícies, das
montanhas, das savanas, dos desertos, têm outros tipos de relacionamento com o
meio envolvente porventura tão apaixonado e aventureiro comos os povos que
vivem com o mar como horizonte.
Outros sentimentos. Outros romantismos.
Aos rios, sim,
especialmente ao Tejo, esse rio estranhamente metalino que permaneceu
recatado, que manteve a serenidade líquida por toda a sua vida, rio que visitou
e sempre admirou e o encantou desde a infância, desde aquele quarto andar onde
nasceu a olhar para ele, a seguir-lhe a ligeira ondulação e a conhecê-lo por
inteiro como só o olhar de uma criança consegue vislumbrar, esse sim, essa água
aprece em muitos poemas, esse rio é mencionado constantemente.
Cristina
Carvalho em Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Príncipe Perfeito
Poema da Malta
das Naus
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
Legenda;: capa
do EP «Dulcineia» de Manuel Freire onde se encontra o Poema da Malta
das Naus
Por este mês,
vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da
sonhada madrugada.
25 de Abril
sempre!
Lado 1
Pedra Filosofal
Lado 2
Menina dos Olhos
Tristes
Pedra Filosofal
Poema de António
Gedeão
Música de Manuel
Freire
Eles
não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles
não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles
não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
Aproveitando a onda da chamada Primavera
Marcelista, esse enorme equívoco em que tantos caíram, quando
esquecemos que pode haver uma qualquer primavera que engana, Manuel Freire publicou
seu primeiro EP.
Para além de um poema de sua autoria, Eles,
Manuel Freire compôs a música para Dedicatória de Fernando
Miguel Bernardes, Livre de Carlos de Oliveira e Pedro,
o Soldado de Manuel Alegre.
Rapidamente tornaram-se hinos de intervenção, cantados um
pouco por toda a parte.
Principalmente Livre, com aquele seu
grito, retirado do Cancioneiro Popular, de não haver
machado que corte a raiz ao pensamento.
Estávamos então unidos pelo desejo de derrubar uma ditadura.
Muitas vezes direi: naquele Portugal, o canto foi o melhor e
mais eficiente sinal de protesto
Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento
não há morte.
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão
Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.
Apenas com um livro publicado, “Os Poemas Possíveis”, Julho 1966, não sendo por esse tempo, alguém que tivesse chamado especiais atenções, José Saramago começou a ver alguns dos seus poemas musicados. Luís Cilia, nos três volumes de “La Poésie Portugaise de Nos Jours e de Toujours” e Manuel Freire, foram os que mais se distinguiram.
Por ocasião do 25º aniversário do 25 de Abril, a Editorial Caminho publicou este CD “As Canções Possíveis”:
“Estes poemas foram palavras caladas. Um dia longínquo (vai para trinta anos ou já os fez) Luís Cilia, lá no seu exílio em França, deu música e voz a algumas delas.
Depois no árido exílio interior, Pedro Barroso fez cantar Afrodite. E logo Manuel Freire se veio sentar a seu lado para ouvir Beethoven e pôr na boca do Velho do Restelo ditos que eram obra de razão.”
“Ouvindo Beethoven”, musicado por Manuel Freire em 1973, anuncia que o dia das surpresas estava para chegar:
"Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas."
TAGUS TG 112 Acompanhamento viola: Fernando Alvim Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes/Manuel Freire Livre - Carlos Oliveira - Manuel Freire Eles - Manuel Freire Pedro O Soldado - Manuel Alegre/Manuel Freire
TAGUS TG 121 Acompanhamento viola: Fernando Alvim Lutaremos Meu Amor - Daniel Filipe/Manuel Freire Trova do Emigrante - Manuel Alegre/Manuel Freire Trova - Manuel Alegre/Manuel Freire O Sangue Não Dá Flor - Manuel Freire
ZIP ZIP 30.001/S Arranjos e Supervisão - Thilo Krasmann Pedra Filosofal - António Gedeão/Manuel Freire Menina dos Olhos Tristes - Reynaldo Ferreira/Manuel Freire Quando, em 1969, Manuel Freire aparece no “Zip-Zip”, a cantar “Pedra Filosofal” de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas. Em 1969 publicara o EP “Manuel Freire Canta Manuel Freire”, que inclui “Livre”, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava. Depois um outro EP, “Trovas,Trovas,Trovas”, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, "Lutaremos Meu Amor" disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE. Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer. Claro que a passagem pelo “Zip-Zip” projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança. Uma mera curiosidade: Manuel Freire nasceu a 25 de Abril de 1942. “Livre” “Não há machado que corte a raíz ao pensamento: não há morte para o vento, não há morte. Se ao morrer o coração morresse a luz que lhe é querida, sem razão seria a vida sem razão. Nada apaga a luz que vive num amor num pensamento, porque é livre como o vento porque é livre”.