«Depois de ter velejado durante muitos dias e muitas noite, compreendi que o Ocidente não tem fim, antes continua a deslocar-se connosco, e que podemos persegui-lo quando quisermos que nunca o alcançamos.»
Antonio
Tabucchi em Mulher de Porto Pim
«Depois de ter velejado durante muitos dias e muitas noite, compreendi que o Ocidente não tem fim, antes continua a deslocar-se connosco, e que podemos persegui-lo quando quisermos que nunca o alcançamos.»
Antonio
Tabucchi em Mulher de Porto Pim
«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância
nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que
tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito
engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com
aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim,
outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha
verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um
papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»
Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem
conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor,
Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara
de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o
grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda
casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento
de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março
de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao
final da vida.»
«Meu caro professor Tabucchi
agora que você se encontra
entre as águas do aqueronte
e o vórtex furioso dos átomos
onde tudo está disperso
e onde tudo é criado de novo
em breve poderá voltar
aos jardins de Lisboa
como flor/ que floresce em Abril
ou como chuva nos lagos
e nas lagoas de Portugal
e quando eu estiver a passear
voltarei a ouvir a sua voz
percorrida pelo vento.»
Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.
Há por lá uma secção «Planetário – No Caminho das
Estrelas» da responsabilidade de João Pacheco, filho do poeta Fernando Assis
Pacheco que morreu, prematuramente, à porta da Livraria Bucholz.
Numa das suas últimas colunas, João Pacheco disserta
sobre Movimentos Improváveis:
«O prato do dia era
ensopado de borrego à moda de Borba. Mas o que estava em causa naquela jogada
arriscada era uma garrafa de Porto de 1952. A aposta fora feita à volta da mesa
de bilhar opondo o maître da Casa do Alentejo ao narrador do livro “Requiem”.»
Regressei ao livro e
apanho estas palavras:
«Aparentemente estou
lixado, mas não me vou dar por vencido, é proibido o macê? O macê não, disse
com ironia o Maitre da Casa do Alentejo, mas se o senhor rasgar o pano terá que
pagá-lo. Está bem, disse eu, então acho que vou tentar um macê.»
Na Rua dos Anjos, em
Lisboa, quase a cortar para a Almirante Reis, com o antigo Cinema Lyz na outra esquina, havia um café formidável: o
«Ribatejano».
Café, restaurante, sala de jogos, do lado direito que tem entrava, venda de jornais, revistas e tabacos, engraxador por entre as mesas, um belo balcão.
O antigo Café Ribatejano, o café e o restaurante, a sala de jogos.
O café há muito que fechou
portas e no seu lugar ainda está a Nortel – Utensílios e Equipamentos para Hotéis e Restaurantes.
Tantas horas que
passei naquele café, a ler o Diário de Lisboa, um qualquer livro, o café era de
«saco», tinha uma pastelaria fina e uns excelentes pastéis de bacalhau.
Acabada a leitura,
rumava para a sala de jogos: damas, xadrez, bilhares, a três tabelas e snooker.
Na parede o aviso: «É
proibido o macê».
O mesmo aviso existia na
sala de jogos, no primeiro andar da Cervejaria Portugália.
Nunca tive
habilidades para o bilhar, limitava-me a ver e gostava disso, pricipalmente o snooker.
Ainda o Requiem do
Tabucchi:
«O Maitre da Casa do
Alentejo tapou a garrafa e disse: o que fica é para quem ganhar, acho que
chegou a altura de o senhor experimentar o seu macê.
Levantámo-nos e eu
senti que tinha as peernas pouco seguras, pensei que naquelas condições era uma
milagre se conseguisse acertar na bola, mesmo assim peguei no meu taco, passei
o giz na ponta e fui até à beira da mesa de bilhar. Pus-me na ponta dos pés
para atingir a bola de cima. A minha mão tremia ligeiramente, teria de precisar
de um apoio, mas o macê joga-se sem apoio, de cima para baixo.»
João Pacheco, para
ilustrar o texto, escolheu «Grande Masse», de 1933 do artista japonês NakagawaIsaku e adianta sobre o macê:
«O objectivo do
jogador é picar a bola, mas esse malabarismo é muito arriscado, até para a
saúde do panoi verde da mesa de bilhar. É também esse truque de bilharista que
esta jogadora está atentar na gravura “Grand Masse”»
Por macê não poderia
deixar de trazer aqui a loucura mansa de Alexandre O’Neill com o seu «É Proibido o Macê», que faz parte de «As Andorinhas Não Têm Restaurante», nº 7 da Colecção Cadernos de Literatura, publicado em 1970 pelas Publicações Dom Quixote, livro que levou sumiço da
Biblioteca da Casa:
Ao passar pelo Vicente, Datuatia traqueja e diz para a velha das
castanhas «troque-me este em miúdos!» e ri-se como um selvagem. A tiazinha
fica-se a dar ao abano, como que a espalhar o petisco com que Datuatia a
mimoseara. «Que vá gozar a patusca da mãe dele» diz a tiazinha de mistura com
outras gentilezas de fazer corar o mais conspícuo, mas já Datuatia virara a
esquina na bruta gáspea.
Em menos duma loja de barbeiro, Datuatia chega aos Bilhares, atira o cabedal para uma cadeira, põe a pata em cima do verde e declara que dá quinze às cinquenta a qualquer dos èpás que por ali se coçavam. «Prajá» disse um deles. Chamaram o Rentàterra, que em três trrrins tirou as bolas, depositou-as em cima do verde e preveniu pela estafadésima vez os èpás que era proibido o macê.»
Desde que saiu o 1º volume de Os Cadernos de Lanzarote se percebeu, facilmente, que os que desprezaram a ideia, estavam mais interessados
em apoucar José Saramago do que outra coisa qualquer. Não tardaram a chamar-lhe
narciso, não sabendo – nem querem saber! – que poderão existir narcisos de
excelência.
Numa entrevista ao JL, sobre o começo da publicação dos Cadernos, Saramago
disse:
« Desde que o Eduardo Prado Coelho declarou que lhe
deu «um grande gozo» escrever Tudo O Que Não Escrevi, parece que se esperam
afirmações de um «gozo» pelo menos igual por parte daqueles que também praticam
o ofício. Por meu lado, o que me preocupa é o «gozo», o «prazer», que possam
vir a ter os leitores diante do que,
para mim, foi trabalho».
São diversos os temas e os problemas que Saramago a aflora nos seus Cadernos. Muitos dos apontamentos estão datados no tempo, outros
não são fáceis de clarificar, por não sabermos de quem Saramago fala, ou quer
falar, e o porquê, outros, ou aqueles em que o pé não joga com a chinela. Mas a maior parte são clarinhos
como água: as fricções invejosas de Lobo Antunes que sugeriu a Saramago que devia
deixar um parêntese aberto à noite para arejar a prosa ou quando afirmou que
Saramago era um pobre inútil, pois existem muitos escritores que são
propagandistas de si mesmos.
Em resumo: críticos, outras gentes, entenderam que os Cadernos estão repletos de fragilidades, vaidades.
Entendo estes Cadernos,
nunca como uma obra marginal, antes uma ajuda, boa ajuda, na finalidade de compreender,
para além de outras suas obras, José Saramago, o escritor e o cidadão.
29 de Abril de 1993
A propósito da publicação em França do seu Requiem,
Antonio Tabucchi dá uma entrevista a Le Monde. Em certa altura, o entrevistador,
René de Ceccaty, informa os seus leitores de que Tabucchi é o principal
introdutor da literatura portuguesa em Itália, asserção que não pretendo
discutir, mas que, desde logo, seria bastante mais exacta se, onde se diz é, se
tivesse dito foi. O que sobretudo me interessa aqui é o que vem a seguir, posto
no francês próprio para que não se percam nem o sabor nem o rigor: “Toutefois,
si l’on évoque José Saramago, Tabucchi prend un air absent et détourne le
regard. Manifestement, c’est vers une autre littérature que ses affinités le
dirigent.” Porque René de Ceccatty passou de imediato a outro tema, porque, por
distracção ou delicadeza, não perguntou a Tabucchi a razão profunda daquele “ar
ausente” e daquele “desvio do olhar”, devo ter perdido a grande ocasião de
conhecer, enfim, os motivos da hostilidade mal disfarçada e da evidente frieza
que Tabucchi manifesta sempre que tem de falar de mim ou comigo. Acontece na
minha presença, posso imaginar, a partir de agora, como será a ausência. Disse
que perdi a ocasião, mas talvez não seja assim. Toda a entrevista se desenrola
no campo da relação vivencial e intelectual de Tabucchi com Pessoa, e foi
justamente isto, este discurso fechado, este ritornelo obsessivo, que, num
repente, me pôs a funcionar a intuição: Antonio Tabucchi não me perdoará nunca
ter escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis. Herdeiro, ele, como faz questão de
se mostrar, de Pessoa, tanto no físico quanto no mental, viu aparecer nas mãos
de outrem aquilo que teria sido a coroa da sua vida, se se tivesse lembrado a
horas e tivesse a vontade necessária: narrar, em verdadeiro romance, o regresso
e a morte de Ricardo Reis, ser Reis e ser Pessoa, por um tempo, humildemente –
e depois retirar-se, porque o mundo é vasto de mais para andarmos cá a contar
sempre as mesmas histórias. Admito que a verdade possa não coincidir, ponto por
ponto, com estas presunções minhas, mas reconheça-se, ao menos, que se trata de
uma boa hipótese de trabalho… Como se já não fosse suficiente carrego ter de
levar às costas a inveja dos portugueses, sai-me agora ao caminho este italiano
que eu tinha por amigo, com um arzinho falsamente ausente, desviando os olhos,
a fingir que não me vê.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, página 22
O exemplo encontrado saiu por acaso. Podia
ser um outro qualquer livro.
Terna é a Noite tem uma forte influência autobiográfica e o filme realizado por Henry King não chega aos calcanhares do livro, tão pouco a Riviera e as excelentes Jennifer Jones e Joan Fontaine, ajudaram à missa.
Tudo isto vem apenas para lembrar uma velha
história:
Duas cabras estão num estúdio de Hollywood a
comer uma bobine de filme. Poderia ser do filme de King. Diz uma das cabras:
-Então, está tudo bem?
A outra responde:
- Está, mas gostei mais do livro.
Em OJogo do Reverso, António Tabucchi tem um conto à volta do livro de Fitzgerald:
«À noite
falávamos de Fitzgerald ouvindo Tony Bennett que cantava Tender is the Night. Do filme, para dizer a
verdade, ninguém tinha gostado, nem sequer o senhor Deluxe, embora não fosse de
gostos difíceis. Mas o Tony Bennett tinha uma voz «pungente como o romance», e
o Gino tinha de voltar a pôr o disco uma quantidade de vezes. Inevitavelmente
pediam-me o início do livro, todos achavam delicioso que eu soubesse de cor o
início dos romances de Fitzgerald: só os inícios, que eram uma das minhas
paixões. O senhor Deluxe, sério como de costume, pedia silêncio, eu procurava
esquivar-me, mas não era possível dizer que não, o disco do Tony Bennett tocava
em surdina, o Gino tinha servido os bacardis, eu olhava fixamente para ti, tu
sabias qua quele início te era dedicado, era quase como se tivesse sido eu a
escrevê-lo, acendias um cigarro na boquilha, também aquilo fazia parte da
representação, brincavas à flapper, mas não tinhas nada de uma flapper,
nem a franja, nem as meias de rayon e muito menos o espírito; tu pertencias a
outra categoria, poderias ter entrado talvez num romance de Drieu, ou de Pérez-
Galdós, tinhas um sentimento trágico da vida, talvez fosse o teu egoísmo sem
solução como um castigo.»