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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

NUNCA O ALCANÇAMOS

«Depois de ter velejado durante muitos dias e muitas noite, compreendi que o Ocidente não tem fim, antes continua a deslocar-se connosco, e que podemos persegui-lo quando quisermos que nunca o alcançamos.»

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

quinta-feira, 2 de março de 2023

DOS JARDINS FANTÁSTICOS


 Luiz Pacheco no seu primeiro Texto Local, a que chamou Os Namorados, escreve:

«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»

 Maravilha de texto lido com um prazer de velhos tempos, agora que nos jardins já encontramos poucas crianças e as que vão aparecendo têm telemóveis e outros mecanismos dos tempos de hoje.

 Nuno Pacheco, na sua apreciada crónica das quinta-feiras, no Público, escreve sobre jardins:

 «Há coisas que parecem premonitórias. No seu mais recente trabalho em torno da obra pessoana, Faust, o cantor e compositor italiano Mariano Deidda escreveu (e cantou, a fechar o disco) uma canção intitulada Nos jardins de Lisboa, dedicando-a ao escritor Antonio Tabucchi. Vale a pena citá-la na íntegra (é cantada em italiano, mas no libreto do disco surge também traduzida para português): “Meu caro professor Tabucchi/ agora que você se encontra/ entre as águas do aqueronte/ e o vórtex furioso dos átomos/ onde tudo está disperso/ e onde tudo é criado de novo/ em breve poderá voltar/ aos jardins de Lisboa/ como flor/ que floresce em Abril/ ou como chuva nos lagos/ e nas lagoas de Portugal/ e quando eu estiver a passear/ voltarei a ouvir a sua voz/ percorrida pelo vento.” O disco foi lançado em Março de 2022, e, passado quase um ano, um jardim de Lisboa ganhou oficialmente o nome de Jardim Antonio Tabucchi. Foi inaugurado numa sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, e era conhecido como Jardim da Travessa da Piedade, a curta distância da casa onde o escritor italiano viveu, a Rua do Monte Olivete, a meio caminho entre a Assembleia da República e o Largo do Príncipe Real. O Gogle Maps já o reconhece.

Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor, Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao final da vida.»

 Difuso no texto da crónica do Nuno Pacheco, copio o poema de Mariano Deidda:


«Meu caro professor Tabucchi

 agora que você se encontra

 entre as águas do aqueronte

e o vórtex furioso dos átomos

onde tudo está disperso

e onde tudo é criado de novo

em breve poderá voltar

aos jardins de Lisboa

como flor/ que floresce em Abril

ou como chuva nos lagos

e nas lagoas de Portugal

e quando eu estiver a passear

voltarei a ouvir a sua voz

percorrida pelo vento.»

Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.

domingo, 15 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Não podemos ser destrutivos ao ponto de dizer que a «Revista» do Expresso não tem ponta por onde se lhe pegue.

Há por lá uma secção «Planetário – No Caminho das Estrelas» da responsabilidade de João Pacheco, filho do poeta Fernando Assis Pacheco que morreu, prematuramente, à porta da Livraria Bucholz.

Numa das suas últimas colunas, João Pacheco disserta sobre Movimentos Improváveis:

«O prato do dia era ensopado de borrego à moda de Borba. Mas o que estava em causa naquela jogada arriscada era uma garrafa de Porto de 1952. A aposta fora feita à volta da mesa de bilhar opondo o maître da Casa do Alentejo ao narrador do livro “Requiem”.»

Regressei ao livro e apanho estas palavras:

«Aparentemente estou lixado, mas não me vou dar por vencido, é proibido o macê? O macê não, disse com ironia o Maitre da Casa do Alentejo, mas se o senhor rasgar o pano terá que pagá-lo. Está bem, disse eu, então acho que vou tentar um macê.»

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, quase a cortar para a Almirante Reis, com o antigo Cinema Lyz na outra esquina, havia um café formidável: o «Ribatejano».

Café, restaurante, sala de jogos, do lado direito que tem entrava, venda de jornais, revistas e tabacos, engraxador por entre as mesas, um belo balcão.

O antigo Café Ribatejano,  no lado esquerdo o espaço da venda de jornais, revistas.
 

                                                       O antigo Café Ribatejano, o café e  o restaurante, a sala de jogos.

O café há muito que fechou portas e no seu lugar ainda está a Nortel – Utensílios e Equipamentos para Hotéis e Restaurantes.

Tantas horas que passei naquele café, a ler o Diário de Lisboa, um qualquer livro, o café era de «saco», tinha uma pastelaria fina e uns excelentes pastéis de bacalhau.

Acabada a leitura, rumava para a sala de jogos: damas, xadrez, bilhares, a três tabelas e snooker.

Na parede o aviso: «É proibido o macê».

O mesmo aviso existia na sala de jogos, no primeiro andar da Cervejaria Portugália.

Nunca tive habilidades para o bilhar, limitava-me a ver e gostava disso, pricipalmente o snooker.

Ainda o Requiem do Tabucchi:

«O Maitre da Casa do Alentejo tapou a garrafa e disse: o que fica é para quem ganhar, acho que chegou a altura de o senhor experimentar o seu macê.

Levantámo-nos e eu senti que tinha as peernas pouco seguras, pensei que naquelas condições era uma milagre se conseguisse acertar na bola, mesmo assim peguei no meu taco, passei o giz na ponta e fui até à beira da mesa de bilhar. Pus-me na ponta dos pés para atingir a bola de cima. A minha mão tremia ligeiramente, teria de precisar de um apoio, mas o macê joga-se sem apoio, de cima para baixo.»

João Pacheco, para ilustrar o texto, escolheu «Grande Masse», de 1933 do artista japonês NakagawaIsaku e adianta sobre o macê:

«O objectivo do jogador é picar a bola, mas esse malabarismo é muito arriscado, até para a saúde do panoi verde da mesa de bilhar. É também esse truque de bilharista que esta jogadora está atentar na gravura “Grand Masse”»

Por macê não poderia deixar de trazer aqui a loucura mansa de Alexandre O’Neill com o seu «É Proibido o Macê», que faz parte de «As Andorinhas Não Têm Restaurante»,  nº 7 da Colecção Cadernos de Literatura, publicado em 1970 pelas Publicações Dom Quixote, livro que levou sumiço da Biblioteca da Casa:

 «Satisfeita a malvada, Datuatia mete o último preso na enxovia, passa a a língua pelo teclado e pelas gengives e diz que este do carvoeiro é que sim, é que pinta. Observada uma aflita à velha, que tem os pintores escondidos atrás do Sagrado Coração e está a dar carapau ao Benfica, Datuatia pega na albarda, resmunga «tèlogomãe». «Não venhas tarde» cacareja a velha num arrasto neopopulista de varizes.

Ao passar pelo Vicente, Datuatia traqueja e diz para a velha das castanhas «troque-me este em miúdos!» e ri-se como um selvagem. A tiazinha fica-se a dar ao abano, como que a espalhar o petisco com que Datuatia a mimoseara. «Que vá gozar a patusca da mãe dele» diz a tiazinha de mistura com outras gentilezas de fazer corar o mais conspícuo, mas já Datuatia virara a esquina na bruta gáspea.

Em menos duma loja de barbeiro, Datuatia chega aos Bilhares, atira o cabedal para uma cadeira, põe a pata em cima do verde e declara que dá quinze às cinquenta a qualquer dos èpás que por ali se coçavam. «Prajá» disse um deles. Chamaram o Rentàterra, que em três trrrins tirou as bolas, depositou-as em cima do verde e preveniu pela estafadésima vez os èpás que era proibido o macê.»

sábado, 26 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Se há palavras que detesto, o «politicamente correcto» é uma delas, porque raro compreendo os que as aplicam, ou o que querem dizer quando as aplicam.

Desde que saiu o 1º volume de Os Cadernos de Lanzarote se percebeu, facilmente, que os que  desprezaram a ideia, estavam mais interessados em apoucar José Saramago do que outra coisa qualquer. Não tardaram a chamar-lhe narciso, não sabendo – nem querem saber! – que poderão existir narcisos de excelência.

Numa entrevista ao JL, sobre  o começo da publicação dos Cadernos, Saramago disse:

« Desde que o Eduardo Prado Coelho declarou que lhe deu «um grande gozo» escrever Tudo O Que Não Escrevi, parece que se esperam afirmações de um «gozo» pelo menos igual por parte daqueles que também praticam o ofício. Por meu lado, o que me preocupa é o «gozo», o «prazer», que possam vir a ter os leitores  diante do que, para mim,  foi trabalho».

São diversos os temas e os problemas que Saramago a aflora nos seus Cadernos. Muitos dos apontamentos estão datados no tempo, outros não são fáceis de clarificar, por não sabermos de quem Saramago fala, ou quer falar, e o porquê, outros, ou aqueles em que o pé não joga com a chinela. Mas a maior parte são clarinhos como água: as fricções invejosas de Lobo Antunes que sugeriu a Saramago que devia deixar um parêntese aberto à noite para arejar a prosa ou quando afirmou que Saramago era um pobre inútil, pois existem muitos escritores que são propagandistas de si mesmos.

Em resumo: críticos, outras gentes, entenderam que os Cadernos estão repletos de fragilidades, vaidades. 

Entendo estes Cadernos, nunca como uma obra marginal, antes uma ajuda, boa ajuda, na finalidade de compreender, para além de outras suas obras, José Saramago, o escritor e o cidadão.

 

29 de Abril de 1993

 

   A propósito da publicação em França do seu Requiem, Antonio Tabucchi dá uma entrevista a Le Monde. Em certa altura, o entrevistador, René de Ceccaty, informa os seus leitores de que Tabucchi é o principal introdutor da literatura portuguesa em Itália, asserção que não pretendo discutir, mas que, desde logo, seria bastante mais exacta se, onde se diz é, se tivesse dito foi. O que sobretudo me interessa aqui é o que vem a seguir, posto no francês próprio para que não se percam nem o sabor nem o rigor: “Toutefois, si l’on évoque José Saramago, Tabucchi prend un air absent et détourne le regard. Manifestement, c’est vers une autre littérature que ses affinités le dirigent.” Porque René de Ceccatty passou de imediato a outro tema, porque, por distracção ou delicadeza, não perguntou a Tabucchi a razão profunda daquele “ar ausente” e daquele “desvio do olhar”, devo ter perdido a grande ocasião de conhecer, enfim, os motivos da hostilidade mal disfarçada e da evidente frieza que Tabucchi manifesta sempre que tem de falar de mim ou comigo. Acontece na minha presença, posso imaginar, a partir de agora, como será a ausência. Disse que perdi a ocasião, mas talvez não seja assim. Toda a entrevista se desenrola no campo da relação vivencial e intelectual de Tabucchi com Pessoa, e foi justamente isto, este discurso fechado, este ritornelo obsessivo, que, num repente, me pôs a funcionar a intuição: Antonio Tabucchi não me perdoará nunca ter escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis. Herdeiro, ele, como faz questão de se mostrar, de Pessoa, tanto no físico quanto no mental, viu aparecer nas mãos de outrem aquilo que teria sido a coroa da sua vida, se se tivesse lembrado a horas e tivesse a vontade necessária: narrar, em verdadeiro romance, o regresso e a morte de Ricardo Reis, ser Reis e ser Pessoa, por um tempo, humildemente – e depois retirar-se, porque o mundo é vasto de mais para andarmos cá a contar sempre as mesmas histórias. Admito que a verdade possa não coincidir, ponto por ponto, com estas presunções minhas, mas reconheça-se, ao menos, que se trata de uma boa hipótese de trabalho… Como se já não fosse suficiente carrego ter de levar às costas a inveja dos portugueses, sai-me agora ao caminho este italiano que eu tinha por amigo, com um arzinho falsamente ausente, desviando os olhos, a fingir que não me vê.

 

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, página 22

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O exemplo encontrado saiu por acaso. Podia ser um outro qualquer livro.

Terna é a Noite tem uma forte influência autobiográfica e o filme realizado por Henry King não chega aos calcanhares do livro, tão pouco a Riviera e as excelentes Jennifer Jones e Joan Fontaine, ajudaram à missa.

Tudo isto vem apenas para lembrar uma velha história:

Duas cabras estão num estúdio de Hollywood a comer uma bobine de filme. Poderia ser do filme de King. Diz uma das cabras:

-Então, está tudo bem?

A outra responde:

- Está, mas gostei mais do livro.

Em OJogo do Reverso, António Tabucchi tem um conto à volta do livro de Fitzgerald:

«À noite falávamos de Fitzgerald ouvindo Tony Bennett que cantava Tender is the Night. Do filme, para dizer a verdade, ninguém tinha gostado, nem sequer o senhor Deluxe, embora não fosse de gostos difíceis. Mas o Tony Bennett tinha uma voz «pungente como o romance», e o Gino tinha de voltar a pôr o disco uma quantidade de vezes. Inevitavelmente pediam-me o início do livro, todos achavam delicioso que eu soubesse de cor o início dos romances de Fitzgerald: só os inícios, que eram uma das minhas paixões. O senhor Deluxe, sério como de costume, pedia silêncio, eu procurava esquivar-me, mas não era possível dizer que não, o disco do Tony Bennett tocava em surdina, o Gino tinha servido os bacardis, eu olhava fixamente para ti, tu sabias qua quele início te era dedicado, era quase como se tivesse sido eu a escrevê-lo, acendias um cigarro na boquilha, também aquilo fazia parte da representação, brincavas à flapper, mas não tinhas nada de uma flapper, nem a franja, nem as meias de rayon e muito menos o espírito; tu pertencias a outra categoria, poderias ter entrado talvez num romance de Drieu, ou de Pérez- Galdós, tinhas um sentimento trágico da vida, talvez fosse o teu egoísmo sem solução como um castigo.» 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM SINAL DE LUZ


De volta a Barcelona, tropecei acidentalmente num conto de Tabucchi, El pequeño Gatsby: «O vento abanava as cortinas, tu dormias, o farol lançava raios intermináveis, a noite estava agradável, quase tropical, mas eu chegaria em breve ao meu farol, sentia-o, estava perto, bastava esperar que a noite me mandasse um sinal de luz, não deixaria fugir essa oportunidade, não atormentaria a minha velhice censurando-me por não ter ido ao farol.»

Enrique Vila-Matas em Diário Volúivel

terça-feira, 30 de outubro de 2018

OS AÇORES ESTÃO DESERTOS


A Capitania está fechada, mas o senhor Chaves recebe-me igualmente. É um homem distinto e amável, com um sorrisos aberto e ligeiramente irónico, os olhos de algum antepassado flamengo. Já não há quase nenhum, diz-me creio que não será fácil encontrar um embarque. Pergunto se se está a referir aos cachalotes, e ele ri-se divertido. Não, referia-me aos baleeiros, especifica, emigraram todos para a América, todos os açoreanos emigram para a América, os Açores estão desertos, não viu? Sim claro, apercebi-me disso, digo, lamento muito. Porquê?, pergunta ele? É uma pergunta embaraçosa. Porque gosto dos Açores, respondo com pouca lógica. Então gostará mais deles desertos, objecta.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

PETER'S BAR


«Peter’s Bar» é um café do porto da Horta, perto do clube náutico. É um misto de taberna, o ponto de encontro, uma agência de informações e uma estação de correios. É frequentado pelos caçadores de baleias, mas também pela gente dos barcos que fazem a travessia atlântica ou outros percursos mais longos. E como os navegantes sabem que o Faial é um ponto de apoio obrigatório e que todos passam por aqui, o «Peter’s Bar» tornou-se o destinatário de mensagens precárias e de sorte incerta que, de outro modo, não teriam outro destino. No balcão de madeira do «Peter’s» estão colados bilhetes, telegramas, cartas à espera de alguém que venham busca-las.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

domingo, 30 de setembro de 2018

PARA ONDE O VENTO ME LEVAR


Para os navegantes que param na Horta é norma deixar no paredão do molhe um desenho, um nome, uma data, É um muro com uns cem metros de comprimento, onde se sobrepõem desenhos de barcos, cores de bandeiras, números, frases. Refiro uma entre muitas: Nat, de Brisbana. Vou para onde o vento me levar.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

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No Prólogo que escreveu para Mulher de Porto Pim,Tabucchi explica o Post Scritum, uma baleia vê os homens, com que finaliza o livro e que colocámos como citação em Olhar as Capas:

«… o texto intitulado Uma baleia vê os homens, além do meu velho vício de espiar as coisas do outro lado, inspira-se sem dissimulação num poema de Carlos Drummond de Andrade, que, primeiro e melhor do que eu, soube ver os homens através dos olhos dolorosos de um lento animal. E a Drummond de Andrade é humildemente dedicado esse texto, também como recordação de uma tarde em Ipanema em que, em casa de Plínio Doyle, ele me falou da sua influência e do comete de Halley.»

O escritor catalão Enrique Vila-Matas disse sobre este interessantíssimo livro de Tabucchi:

«Toda a vida escrevi sobre a Mulher de Porto Pim, livro de cabeceira e artefacto literário que contemplo como se fosse um Moby Dick em miniatura. As suas menos de cem páginas são um bom exemplo de «livro de fronteira», um mecanismo feito de contos breves, fragmentos de memórias, diários de viagens metafísicas, notas pessoais, biografia e suicídio de Antero de Quental, fragmentos de uma história ouvida na coberta de um barco, mapas, bibliografia, bizarros textos jurídicos, canções de amor: elementos que à primeira vista não têm nada a ver entre si, sobretudo com a literatura, mas que Antonio Tabucchi transformou em ficção pura. Um livro memorável.»

Legenda: Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

QUOTIDIANOS


Para Pessoa seria impossível imaginar uma morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.

Antonio Tabucchi no Expresso, 4 de Junho de 1988

Legenda: Fernando Pessoa por Costa Pinheiro

terça-feira, 29 de setembro de 2015

QUE LHE PARECE?


Antonio Tabucchi, que assina o prefácio da edição francesa de The Fragments, escreve que no interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Na  Autobiografia de Marilyn Monroe, Rafael Reig cita:

Sim, lei muito. Toda a gente está convencida de que sou praticamente analfabeta. A loura burra que eu, aqui entre nós, nem sequer seja totalmente loura. De gve ser por causa das minhas mamas. Como são muito volumosas, devem julgar que tampam metade do livro e que, por isso, não consigo compreender nada do que elio. Não sei, mas a verdade é que leio muito. De tudo, seja o que for: romances, poesia, filosofia, de tudo.
Leio até os folhetos dos medicamentos. Passo as noites quase sempre acordada a ler. A ler ou a flar ao telefone. Também gosto de falar ao telefone. É porque me custa muito a adormecer. Mas, claro, isso está você farto de saber. É por isso que estou aqui. Passei a vida a tentar conciliar o sono. Esse poderia ser um bom epitáfio para a minha sepultura. Mas já escolhi outro. Quero que ponham apenas isto:
«Aqui jazz Marilyn Monroe 95-58-91.»
Que lhe parece?

quinta-feira, 5 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Tomai Lá do O’Neill

Alexandre O’Neill
Selecção, prefácio: Antonio Tabucchi
Fotografias: Alexandre Delgado O’Neill
Capa: Luiz Duran
Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 1986

A minha amiga alentejana tem uma grande alegria. Natural? Acho que não. A sua grande alegria foi ter deixado de viver no Alentejo. Lá, o que era ela, afinal? Uma grande ansiedade nos fundões dos olhos, mãe à perna, aspirante de Finanças a prometer, o idiota, frigorífico e alta-fidelidade, irmã casada, bebé sobrinho todo ringidos, fogagens e refegos, cunhado a atrever-se, paternal.
Agora passeia para mim pela casa toda. Descobriu a minissaia. Descobri a açorda à alentejana. Na capital dos trânsfugas, um quarentão e uma rapariga, contam, a dedo, os barcos que há no rio, vão ver a açorda que está ao lume (brando?), passam rasteiras um ao outro, estatelam-se, riem como desalmados que são, não atendem o telefone («Não vás, pode ser o mêc'cunhado!»), bebem tinto com cerveja, rijo bagaço a seco, lacrimejam, engasgam-se, dão palmadas de gáudio nas coxas, atrapalham-se no sempiterno tango de 75: Ese tu corazón pan-pan de gorrión pan-pan senti-mental vlan-vlan! Que grandes maganos!
A minha amiga alentejana, de minissaia, passeia pelas ruas dos trânsfugas em fuga. Esfrega-se pelas montras, malsetém nas pernas. Dá brincos. Vai e vem. Encosta-se ao meu ombro protector. Que amor!
De repente, o bom costume:
- Miguinho, não te esqueceste de fechar o gás? A minha amiga alentejana é a grande ternura que lhe tenho! Pode lá resistir-se a quem andou no varejo da azeitona e agora estende a mão senhoril aos velhos lambuzeiros de porta de livraria malcontendo o riso! Que o cunhado experimente vir buscar-ma já de olho nas pensões da Praça da Figueira! Que o aspirante rechine em missivas de alta fidelidade! Que a mãe perfile o seu luto severo nos umbrais! Que o bebé sobrinho se escame todo! Que a irmã empine a sua nova prenhez! Ninguém pode tirar-me a minha amiga alentejana, este meu acordar do lado da alegria, este delicioso desconchavo quotidiano em que abandalhei (e salvei!) os meus quarenta, esta minha (já póstuma!) elegia.


sábado, 5 de julho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os fins de tarde eram lentos, arrastados, ensanguentados por pores de sol magníficos. Seguiam-se noites quentes e lânguidas, ritmadas pelo soluço verde do farol do outro lado do golfo. Eu ficava à janela.

Antonio Tabucchi em O Pequeno Gatsby, conto incluído em O Jogo do Reverso, Quetzal Editores, Lisboa Abril de 1999.

Legenda:  pintura de Edward Hopper.

domingo, 27 de outubro de 2013

O LATEJAR DE COMBOIOS DA INFÂNCIA

Desta maneira, isolados a sós ou em companhia, os heróis que aqui leio aparecem-me povoados de sinais e andamentos, do latejar de comboios de infância e das luzes dos portos nocturnos.

José Cardoso Pires no prefácio a O Jogo do Reverso de Antonio Tabucchi

Legenda: fotografia de Elliott Erwitt

sexta-feira, 21 de junho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995.

Legenda: fotografia de Gérard Castello Lopes.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Fala também na morte, algo que está presente na sua obra. O que aprendeu sobre ela, neste livro, Tristão Morre, ao vestir a pela de alguém a 30 dias de morrer?

Respondeu:

Este livro aproximou-me muito da ideia da morte. É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo moderno. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas. A modernidade elidiu a ideia da morte. É uma omissão incrível. Deveria ensinar-se aos miúdos, na escola, da maneira mais natural, que temos de morrer. Mas a nossa sociedade escondeu totalmente a ideia da morte. Em compensação, porém, estamos cheios de cadáveres. É só abrir a televisão. Como pode funcionar bem uma sociedade em que há muitos cadáveres mas não há a ideia da morte?

Antonio Tabucchi, entrevista concedida a  Adelino Gomes e publicada no Público.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

À LUPA


Descobri-o no fim. Descobri-o nas palavras dos outros. Nos títulos que os outros diziam que ele tinha escrito. Nas palavras dos que confessavam o seu amor pelas palavras dele. Por ele. Descobri-o melhor num texto. Escrito noutra língua por outro autor que, entretanto, eu já tinha descoberto. Foi através das suas frases - que tive o privilégio de traduzir para a minha língua - que ele começou a chegar. O seu nome já me tinha acenado. Já o vira, já quase o lera, mas por uma razão ou por outra, a página não se virara.
Comecei com Noturno Indiano. Lido num só dia. Numas horas em que não houve lugar para mais nada, a não ser acompanhar aquele homem que percorre a Índia em busca de um amigo, de si, dos hotéis e dos passos, do passado, do futuro, dos encontros, dos sonhos, de quartos cheios de histórias (e de horas). Um homem que eu descobri. Mesmo que tarde. Neste momento leio Requiem, e deixo-me encantar por mais uma viagem interior, a única escrita diretamente em português. Afirma Pereira chegará a seguir. Já o tenho. Depois quero descobrir A Mulher de Porto Pim. O quarto dos tantos livros possíveis que Antonio Sarabia destacou naquele texto que eu li, que me cativou, e que me parece já tão longínquo. Percorri livrarias, alfarrabistas, nada. Diz-me um amigo que a reedição está para breve. Espero, sinceramente, que sim. Antes que seja tarde.
Francisca Cunha Rego no JL

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CINEMATECA: ANTEVISÃO DE SETEMBRO


A programação volta cheia de sessões fortes em Setembro, com uma retrospectiva da fundamental obra do brasileiro Glauber Rocha, um Ciclo dedicado à luminosidade de Marilyn Monroe, a evocação no cinema da obra literária de Antonio Tabucchi (em sessões apresentadas por Inês Pedrosa, António Mega Ferreira, Jorge Silva Melo, Clelia Bettini e Augusto M. Seabra), o cinema experimental de Stephen Dwoskin e o assinalar de duas décadas de trabalho do festival Curtas Vila do Conde (com filmes de José Miguel Ribeiro, João Nicolau, Miguel Gomes, Basil da Cunha, Matthias Muller, Christoph Girardet, Sandro Aguilar, Daniele Cipri e Franco Maresco, João Salaviza e Norberto Lobo, Gabriel Abrantes).

Na reabertura, a sessão especial das 21h30 do dia 1 propõe “The Big Parade” de King Vidor com acompanhamento ao piano por Gabriel Thibaudeau. A primeira matiné do mês, às 15h30 de dia 3, decorre sob o signo do verão de Bergman com “Sommarlek”. Entre as muitas propostas dos programas “Primeiro Século do Cinema” dos sábados, destacam-se as exibições da cópia restaurada do título italiano “La Moglie di Claudio” realizado em 1918 por Gero Zambuto (no dia 15); “Face” e “The Velvet Underground in Boston” de Andy Warhol (também a 15); ou o raro título soviético de 1948 “Skazanie o Zemlie Sibirskoi / O Canto da Terra Siberiana”, de Ivan Pyriev (programado para dia 29).

Seis sessões evocam “In Memoriam” as atrizes Celeste Holm e Isuzu Yamada, o ator Ernest Borgnine, Chris Marker e Gore Vidal. A “Abrir os Cofres”, Paulo Filipe Monteiro apresentará “A Mãe” e “A Sagrada Família” e “A Comédia de Deus”, de João César Monteiro, nas sessões das 19h de 11 e 13 de setembro. A comédia britânica “The Man in the White Suit” (Alexander Mackendrick, 1951) é projetada às 21h30 de dia 19 antecedida de uma apresentação de Alberto do Nascimento Regueira no contexto do programa “Não O Levarás Contigo – Economia e Cinema”.

 As “Histórias do Cinema” são em setembro protagonizadas por João Mário Grilo, que escolheu e apresentará cinco sessões à volta de um tema, “Cinegeografias”, a decorrer na última semana do mês.

terça-feira, 15 de maio de 2012

CARLOS FUENTES (1928-2012)


Aos 83 anos, morreu hoje na Cidade do México o escritor mexicano Carlos Fuentes.

Nos últimos dias a morte tem invadido os corredores da casa, e levado quem tanto  nos ajudou a olhar a vida, a olhar as gentes, a olhar o mundo: Antonio Tabucchi, Fernando Lopes, Miguel Portas Bernardo Sassetti, agora Carlos Fuentes.

É de arrepiar.

O impacto dos seus primeiros romances -projetaram-no como um dos principais actores da literatura latino-americana.
À semelhança de outros intelectuais seus contemporâneos, de Gabriel García Márquez a Mario Vargas Llosa ou Julio Cortázar, Fuentes nunca pôs de lado o compromisso político e social.

Carlos Fuentes foi o mais ‘infeliz’ dos três grandes nomes do 'boom' da literatura latino-americana: Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e ele”,
diz Manuel Alberto Valente, seu editor em Portugal.

Só que os outros dois ganharam o Prémio Nobel. Do Fuentes falava-se sempre que podia ser um candidato ao Nobel mas infelizmente não o teve. Manuel Valente lembra que, também em termos de vendas, foi sempre um autor menos lido do que os outros, Márquez e Llosa. “Pelo menos em Portugal nunca teve um grande sucesso de público. Mas é um autor extremamente importante e o facto de ter tido sempre menos sucesso que os outros dois pode explicar-se por ser o mais político dos três. A obra dele é muito o espelho do México e das suas vicissitudes políticas. É um autor muito marcado ideologicamente e isso talvez tenha contribuído para que não tenha sido um autor tão popular. Mas é indiscutivelmente um dos grandes nomes da literatura latino-americana e da literatura mundial.Em 1955, fundou com Octávio Paz e Emmanuel Carballo, a Revista Mexicana de Literatura. Era um homem de esquerda, membro do Partido Comunista, próximo de Fidel Castro antes de se afastar depois da prisão (1971) do poeta cubano Ernesto Padilla.

Num ensaio da revista Tiempo Mexicano, de 1972, escreveu: O que um escritor pode fazer politicamente deve fazê-lo também como cidadão. Num país como o nosso, o escritor, o intelectual, não pode alhear-se da luta pela mudança política que, em última instância, supõe também uma transformação cultural.

Fonte: jornal Público.