«O melhor de cada novo filme é o momento em que me fecho numa sala a selecionar
clássicos de jazz para a banda sonora. E ainda existem várias «american great
songs» que gostaria de usar.»
O mesmo
poderia dizer Clint Eastwood.
Quem vê os filmes
de Woody e Clint, não fica com qualquer dúvida de que estes rapazes sabem mesmo
daquelas músicas.
Para
acompanhar a crónica do Luís Miguel Mira, fomos em busca de algumas das canções
de Johnny Mercer utilizadas por Clint Eastwood nas suas deambulações pela obra
do compositor.
Em vão se
procurou a imagem que o Luís Mira refere e que mostra John Cusak e Alison
Eastwood, acompanhados pela espantosa “drag queen” Lady Chablis a
bambolear-se, caminhando pela álea junto à fonte.
É provável
que exista, mas os dedos não souberam tocar a guitarra pelo que deixamos uma provocante
Lady Chablis, a sorrir e vestida de vermelho.
Para
assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram publicados.
NUNCA CAMINHARÃO
SOZINHOS
Foram os
ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe
«The Beautiful Game.»
Vivem o jogo
como ninguém.
Deslocam-se,
enchem os estádios.
Avós, pais,
filhos, netos, bisnetos: a família.
A festa.
Nem em tempo
de Natal o dispensam.
Bem pelo
contrário: exigem que haja jogos nesses dias.
Nos dias de
transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se
espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família,
do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.
Uma das
claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.
Tomaram como
hino You’ll
Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard
Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945
e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.
Mas seria com
a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a
canção se tornaria o hino do clube.
Hoje, outros
clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.
Simplesmente
arrepiante.
Uma visita ao
You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana,
bem como outros, que gravaramYou'll
Never Walk Alone.
Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há
versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina
Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy
Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom
Jones.
Também é
possível encontrar uma versão dos Beatles.
Estas são as
minhas escolhas.
A versão da
Nina Simone é tocada ao piano.
Numa
entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos
dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio
destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:
Fui a uma rádio em Los Angeles, que
passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o
início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete
da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde
era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa.
E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone,
pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina
Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí
daquela rádio orgulhoso.
Um orgulho
tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a
pagar excesso de bagagem. Texto publicado em 24 de Maio de 2016
Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»
Vivem o jogo
como ninguém.
Deslocam-se,
enchem os estádios.
Avós, pais,
filhos, netos, bisnetos: a família.
A festa.
Nem em tempo
de Natal o dispensam.
Bem pelo
contrário: exigem que haja jogos nesses dias.
Nos dias de
transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se
espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família,
do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.
Uma das
claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.
Tomaram como
hino You’ll Necer Walk Alone, uma
canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para
o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi
adaptado ao cinema por Henry King.
Mas seria
com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade,
que a canção se tornaria o hino do clube.
Hoje, outros
clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.
Simplesmente
arrepiante.
Uma visita
ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música
norte-americana, bem como outros, que gravaramYou'll Never Walk Alone.
Shirley Jones gravou-a para a banda
sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha
Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra
Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy
Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.
Também é
possível encontrar uma versão dos Beatles.
Estas são as
minhas escolhas.
A versão da
Nina Simone é tocada ao piano.
Numa
entrevista ao Expresso (06.02.2016),
por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos
de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:
Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa
jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início
dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina
Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era
Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E
quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone,
pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina
Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí
daquela rádio orgulhoso.
Um orgulho
tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso
de bagagem.
Este disco terá
sido, para muitos, o ficarmos a saber da existência deste extraordinário
cantor.
Os tempos eram
de pouquíssima divulgação do muito que em música, literatura, cinema, qualquer
arte que acontecia além-fronteiras.
As razões são várias
para que assim acontecesse, mas cite-se, como principal, a censura de Salazar,
uma censura que, ao mínimo sinal de algo de progressista, fazia desabar o lápis
azul de coronéis analfabetos.
José Duarte,
rapaz que não deixava créditos por mãos alheias, soube que Ray Charles iria
dar, em Paris, o seu primeiro concerto europeu.
Sabia de cor as
canções de Ray Charles e até as dançava.
Tinha exame
marcado do curso de Economia para esses dias, borrifou-se no dito porque Ray
Charles era fortíssimo chamamento, e, no fundo, já sabia que não queria ser
económico-canudado, e voou para Paris.
Ele entrou em palco guiado por uma loura alta, nova,
esguia, que o levou e, no fim, o trouxe do piano para os bastidores: Foi desde
então que os seus óculos escuros nunca mais me saíram dos olhos. Já tive vários
parecidos. Onde é que ele os compra? De tartaruga! Autênticos alçapões de
escuridão, onde eu me escondia. Que bom!...
Na band debitavam alguns dos seus melhores
companheiros musicais de sempre: Leroy Cooper e David Newman entre os
saxofonistas, o lendário Dicki Wells entre os trombones, uma histórica scção de
trompetes com Philippe Gilbeau, Wallace Davenport, Marcus Belgrave e John Hunt.
Uma das quatro Raelettes era já Margie Hendrix. Jorge Sena
dedicou um poema a Ray Charles.
Tem a data de 15
de Março de 1964 e é retirado de Sequências, livro póstumo.
Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.
Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?
Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.
Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?
Jorge Sena
Uma outra de José Duarte, a propósito de Ray:
Muito se modificou o estilo de Betty Carter desde os
tempos dos seus êxitos com Ray Charles e até anteriores, fins dos anos 50!
«Baby It’s Cold Outside» com Ray, está na História da
Música.