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quarta-feira, 1 de julho de 2020

VELHAS CANÇÕES


Canções simples
   que todos cantam
e alguém pede:
   canta-nos “Born to Lose”
e Hershorn pega
    no uquelete da filha
e todos ouvem
    as notícias

Canções simples que todos cantam
Esqueço-as depressa e abandono-as
Os hinos & as orações das pessoas solitárias

Leonard Cohen em A Chama

Legenda: pintura de Karen Offutt






quarta-feira, 8 de abril de 2020

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A frase é de Woody Allen:

«O melhor de cada novo filme é o momento em que me fecho numa sala a selecionar clássicos de jazz para a banda sonora. E ainda existem várias «american great songs» que gostaria de usar.»

O mesmo poderia dizer Clint Eastwood.

Quem vê os filmes de Woody e Clint, não fica com qualquer dúvida de que estes rapazes sabem mesmo daquelas músicas.

Para acompanhar a crónica do Luís Miguel Mira, fomos em busca de algumas das canções de Johnny Mercer utilizadas por Clint Eastwood nas suas deambulações pela obra do compositor.


Em vão se procurou a imagem que o Luís Mira refere e que mostra John Cusak e Alison Eastwood, acompanhados pela espantosa “drag queen” Lady Chablis a bambolear-se, caminhando pela álea junto à fonte.

É provável que exista, mas os dedos não souberam tocar a guitarra pelo que deixamos uma provocante Lady Chablis, a sorrir e vestida de vermelho.





domingo, 22 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS

Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

Texto publicado em 24 de Maio de 2016







terça-feira, 24 de maio de 2016

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS


Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso de bagagem.

                                         

                                          

                                          


                                          

                                          

terça-feira, 1 de março de 2016

RAY CHARLES



Este disco terá sido, para muitos, o ficarmos a saber da existência deste extraordinário cantor.

Os tempos eram de pouquíssima divulgação do muito que em música, literatura, cinema, qualquer arte que acontecia além-fronteiras.

As razões são várias para que assim acontecesse, mas cite-se, como principal, a censura de Salazar, uma censura que, ao mínimo sinal de algo de progressista, fazia desabar o lápis azul de coronéis analfabetos.

José Duarte, rapaz que não deixava créditos por mãos alheias, soube que Ray Charles iria dar, em Paris, o seu primeiro concerto europeu.

Sabia de cor as canções de Ray Charles e até as dançava.

Tinha exame marcado do curso de Economia para esses dias, borrifou-se no dito porque Ray Charles era fortíssimo chamamento, e, no fundo, já sabia que não queria ser económico-canudado, e voou para Paris.

Ele entrou em palco guiado por uma loura alta, nova, esguia, que o levou e, no fim, o trouxe do piano para os bastidores: Foi desde então que os seus óculos escuros nunca mais me saíram dos olhos. Já tive vários parecidos. Onde é que ele os compra? De tartaruga! Autênticos alçapões de escuridão, onde eu me escondia. Que bom!...
Na band debitavam alguns dos seus melhores companheiros musicais de sempre: Leroy Cooper e David Newman entre os saxofonistas, o lendário Dicki Wells entre os trombones, uma histórica scção de trompetes com Philippe Gilbeau, Wallace Davenport, Marcus Belgrave e John Hunt. Uma das quatro Raelettes era já Margie Hendrix.

Jorge Sena dedicou um poema a Ray Charles.
                                                                                                                                                         
Tem a data de 15 de Março de 1964 e é retirado de Sequências, livro póstumo.

Faz parte da antologia de Jazz na Poesia em Língua Portuguesa organizada por José Duarte e Ricardo António Alves:

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge Sena

Uma outra de José Duarte, a propósito de Ray:

Muito se modificou o estilo de Betty Carter desde os tempos dos seus êxitos com Ray Charles e até anteriores, fins dos anos 50!
«Baby It’s Cold Outside» com Ray, está na História da Música. 


                                                                                                                                                           

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

VELHOS DISCOS


I Can't Stop Loving You.
Esta canção é uma das mais gratas na minha memória.
O disco comprei-o na Discoteca Universal, na Rua do Carmo no dia 7 de Novembro de 1964.
A discoteca foi pasto das chamas no incêndio que destruíu o Chiado naquela dramática noite de Agosto de 1988, e nunca mais abriu portas.
Mesmo ao lado ficava a Discoteca do Carmo, onde também comprei muitos discos e que também não mais abriu portas.
Na Rua do Carmo, a discoteca que ainda voltou depois do incêndio foi a Melodia. 
Mas não se aguentou e acabou por fechar.
Este EP tem quatro lindíssimas canções do Ray Charles:

I Can’t Stop Loving You – Hide Nor Hair – You don’t Know Me – Unchain My Heart.