Ainda os postais de Natal.
Repesco esta crónica que o escritor e editor Manuel Alberto Valente publicava no Expresso.
Repesco esta crónica que o escritor e editor Manuel Alberto Valente publicava no Expresso.
Lembram-se, por este
tempo, quando abriam a caixa do correio e desabava um mar de cartões de
Boas-Festas?
As palavras, os
desejos eram sempre os mesmos, mas sentíamo-nos confortáveis.
Agora apenas as cartas costumeiras das facturas, disto daquilo daqueloutro, que
há para pagar, a publicidade de viagens de fim-de-semana, de telemóveis, um
cartãozinho do Professor Fofana, especialista em amor, astrólogo, médium
africano, 45 anos de experiência.
Já não há cartões de Boas Festas. Onde é que ficou esse tempo? Quando perdemos
esse gosto?
Sentir uma amarga nostalgia por esse tempo, um certo pânico por este silêncio,
por este quase deserto de afectos.
Gostar de cartas, gostar de cartões de Boas Festas, gostar de selos,
coleccionar selos, gostar de esperar, ansioso, pela chegada do correio, cartas,
por vezes ilegíveis – por sua dama tornou-se paleógrafo - abrir a carta com uma
faquinha apropriada, ou abrir a carta, desesperadamente, rasgando o envelope,
quando se esperam palavras como sem ti a minha vida não era feliz.
Os correios comovem-no.
Quem leu Júlio Dinis sabe do que ele está a falar.
O correio electrónico, o telemóvel, tomaram-nos de assalto, determinaram que é obsoleto comprar um cartão de Boas Festas –já nãos vendem! -, escrever palavras com uma caneta, o caminhar para a estação de correios ou para o marco do correio.
«Mãe Tá-se? Tou aí no Natal levo a Bé. Depois dou um tok para confirmar».
O José Gomes Ferreira ensinou-lhe que «saudades, só do futuro», mas, caramba! tem saudades do tempo em que não havia telemóveis, mails, tem saudades do tempo em que as cartas, os cartões de Boas Festas que se enviavam, quando os amigos estavam aquém dos olhos, estavam perto, estavam longe e nos dizíamos uns aos outros que é sempre pouco o esforço que se faz para gostar.
Coisas simples, sinceras, saber que ser amigo é poder a gente entregar-se sem nos passar pela cabeça que o próximo se vai rir de nós.
Recordo-me de nos Restauradores, por
esta época natalícia, perto do Hotel Avenida Palace, com cenário montado estava,
por lá um Pai Natal, trenó, árvore de Natal, para a velha fotografia das
crianças mandarem à família.
Alguém me contou que um dia, o Pai Natal
perguntou a um garoto, que se aprestava para a fotografia, se ele se portava
bem lá por casa e que lhe respondeu:
«Eu porto. Quem não se porta bem é o meu
avô que chega todos os dias bêbado.»
Colaboração de Aida Santos
«-
Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah perdão, disse o principezinho.
Mas depois de ter reflectido, acrescentou:
- Que significa “cativar”?
- Tu não deves ser daqui, observou a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens. Que significa “cativar”?
- Os homens têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o
único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
- Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa
“cativar”?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa “criar
laços”.»
Antoine Saint-Exupéry em O Principezinho
Colaboração de Aida Santos
“Que
quem critica o Natal como um pretexto forçado para reunir familiares, distantes
ou não, se lembre que é um melhor motivo que o seu próprio funeral.”
Colaboração
de Aida Santos
«Detesto
esta época do ano. Tenho de ser bom durante mais duas semanas se quiser ter
prendas este Natal! Nunca serei capaz.»
Calvin
personagem de banda desenhada.
Colaboração de Aida Santos
Falar assim devagarinho, silenciosamente dos natais de infância que nunca tive. Ouvir falar do Natal pelos colegas da escola, do que comeram, os presentes que tiveram e eu perdida, como tantas outras crianças daqueles tempos, que viam o Natal pela janela dos outros.
Colaboração de Aida
Santos
Os tempos deste país sempre foram difíceis.
Os governantes aflitos, de calças na mão, lembram-se
sempre de lixar os do costume, vulgo mexilhão.
Em 1983, era Ernâni Lopes ministro das finanças de um
governo de Mário Soares, lembraram-se de lixar os portugueses retirando-lhes metade
do subsídio de Natal.
A Editorial Caminho editou um cartão natalício.
Alguns ainda se devem lembrar.
O José Carlos Ary
dios Santos disse-nos que Natal é quando um homem quiser. Assim como o texto
que um dia li, publicado num jornal de Milão, de uma leitora do jornal que se
chamava Simona Angioni. Chamaram-lhe Encontro:
«Eu sou quem decide quando é Natal. Vocês poem-no sempre no mesmo dia, como uma marcação no cabeleireiro. Não funciona assim. Transfiro o Natal para onde quero. Para um banco de onde se vê o rio, para uma esquina da noite, entre lençóis vermelho fogo, para uma sala burguesa cheia de familiares à hora do chá. Ou no Verão, num alpendre, às duas da tarde de uma terça-feira qualquer. Quando souber a data, digo-vos. Agora não é altura para um feriado. Há demasiada leveza. De qualquer maneira, quando o momento chegar vocês compreenderão sozinhos. Haverá uma barriga. E um choque surpreendente para sair para o ar livre.»
Colaboração de Aida
Santos
Nunca aceitei, nunca
entendi as razões por que a Igreja deixou de considerar este dia, da Nossa
Senhora da Conceição, como sendo o Dia da Mãe, mandando a comemoração para o primeiro
domingo de Maio.
A minha mãe morreu em
Fevereiro deste ano.
Mas sempre foi neste
dia que comemorámos o Dia da Mãe.
Cá estamos de novo e para sempre.
Colaboração de Aida Santos
A
morte da minha mãe em Fevereiro, será o primeiro Natal sem a sua presença, a
pandemia que invadiu os nossos dias. Mas, nada, deveria permitir que estes dias
gloriosos sejam ofuscados. Mas é tão difícil!...
Peguei
num livro que há cá pela casa, Pai Natal de Armand d’ Apremont e deu-me para
copiar este pedacinho:
«Decididamente,
o nosso São Nicolau tinha qualquer coisa de pouco católica. A hierarquia
eclesiástica não estava enganada. No início doas anos de 1970, em consequência
do concílio do vaticano, a Santa Sé suprimiu o calendário, e da litania de
santos, um certo número de personagens de acentos demasiado pagãos que, muito
manifestamente, e no que respeita ao nosso assunto, foi estabelecido
formalmente que nunca existiu nenhum bispo católico de nome Nicolau, que as lendas
atribuídas a esse santo não eram de origem cristã e que vinham provavelmente de
tradições pagãs.»
Entre
o Menino Jesus e o Pai Natal a Igreja ficou a perder. E muito.
Vejo
pelos meus netos. É o Pai Natal que lhes diz qualquer coisa. O Menino Jesus é uma
coisa vaga que os deixa a olhar para o nada.
A
Igreja despertou tarde para uma realidade que lhe passou ao lado, ainda tentou
combater as renas, os trenós, lembrando o menino numa manjedoura, mas foi um
acto falhado.
Colaboração de Aida Santos