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domingo, 11 de janeiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


No dia 9 deste mês, fez 85 anos.

Um símbolo, uma voz, uma coerência rodeada de problemas de ordem pessoal, e não podemos esquecer o quanto Bob Dylan lhe dedicou um certo ingrato desprezo, apesar de ter deixado estas palavras no seu livro de Crónicas:

« A «rainha dos cantores folk» teria que ter sido a Joan Baez. Joan nasceu no mesmo ano que eu, e os nossos futuros iriam estar ligados, mas naquela altura pensar nisso teria sido disparatado. Ela tinha lançado um disco na editora Vanguard, chamado Joan Baez, e eu tinha-a visto na TV. Aparecera num programa de música folk transmitido para todo o país pela CBS em Nova Iorque. Havia outros intérpretes no programa, incluindo Cisco Houston. Josh White, Lightnin’Hoptkins. Joan cantou sozinha umas baladas e depois sentou-se lado a aldo com o Lightnin’ e cantou umas canções com ele. Não conseguia deixar de olhar para ela, não queria sequer pestanejar. Ela tinha um ar perverso – cabelo preto brilhante, comprido até às graciosas ancas, pestanas longas, parcialmente viradas para cima, não era propriamente uma daquelas bonecas tipo Raggedy Ann. Só vê-la deixava-me louco. Como se isto não bastasse, havia ainda a sua voz, uma voz que afastava os maus espíritos. Era como se tivesse vindo de outro planeta.

Ela vendia muitos discos e era fácil perceber porquê. As cantoras de música folk eram intérpretes como Peggy Seeger, Jean Ritchie e Barbara Dane, que não faziam uma boa transição para o público moderno. Joan não era nada como elas. Não havia ninguém como ela. Tudo isto se passou uns anos antes de Judy Collins e Joni Mitchell entrarem em cena. Eu gostava das cantoras mais velhas – Aunt Molly Jackson e Jeanne Robinson – mas elas não tinham a qualidade penetrante da Joan. Andava a ouvir frequentemente uma cantoras de blues, como Memphis Minnie e Ma Rainey, e Joan era de certa forma, mais parecida com elas. Não havia nada de juvenil nelas, assim como Joan também não tinha nada de juvenil. Ao mesmo tempo escocesa e mexicana, parecia um ícone religioso, alguém por quem nos sacrificaríamos, e cantava com uma voz directa a Deus… era também instrumentista excepcional.»

Bob Dylan em Crónicas



terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Quando se puxa pelas memórias saltam diamantes à mistura com ferrugem.

Joan Baez

Legenda: cartaz do filme-documentário de Joan Baez. Em português chama-se «A Cantiga é uma Arma» 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

IL MAESTRO


Compôs música para mais de 500 bandas sonoras para cinema e televisão, tinha formação clássica, ministrada pelo seu pai, nos anos 40 tocava trompete em diversas bandas de jazz. gostava de futebol e a música que compôs para filmes deu-lhe os primeiros recursos financeiros para sustentar a família.

Gostava de ser tratado como Il Maestro, um imperador como lhe chamou Hans Zimmer, também ele compositor de bandas sonoras.

Morreu aos 91 anos, no dia 6 de Julho do passado ano, na sequência de complicações após uma queda, na sua residência em Roma, em que fracturou o fémur.

Aos 87 anos tornou-se o mais velho vencedor de um Óscar da Academia, com a banda sonora para o filme The Hateful Eight de Quentin Tarantino.  Antes teve seis nomeações, mas aqueles cromos da Academia andam sempre a dormir, ou melhor: andam a tratar das suas vidinhas, das suas vaidades, de tudo, menos de cinema.

Em 2007 recebe um Óscar de Homenagem pelos brilhantes trabalhos que realizou e a que a Academia não ligou puto.

Em Junho de 2020, juntamente com o compositor, John Williams, recebeu o Prémio Princesa das Astúrias das Artes.

A banda sonora de Aconteceu no Oeste, vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo o mundo, e Morricone considerou-a o seu melhor trabalho.


Guardo um velho single da canção Here’s To You, infelizmente a capa desapareceu, ficou apenas o disco, cantada por Joan Baez  e composta por Enio Morricone para o filme Sacco & Vanzetti, de 1971, filme de Giuliano Montaldo.

Here's to you, Nicola and Bart

Rest forever here in our hearts

The last and final moment is yours

That agony is your triumph

Em Maio de 2019, no decorrer da digressão «60 Years of Music», que marcou a sua despedida, passou por Portugal.

«O segredo da minha produtividade é não saber fazer mais nada na vida.»

quarta-feira, 8 de julho de 2020

MUSIC IN THE MOUNTAINS


“My home is across the Blue Ridge Mountais,
And I never expect to see you anymore”
(Tradicional)

“Almost Heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountais, Shenandoah River,
Life is older, older than the trees
Younger than the mountains, growin’ like a breeze”
(John Denver – Take me Home, Country Roads)

“In my mind I’m going to Carolina
Can’t you see the sunshine?
Now can you feel the moonshine?”
(James Taylor – Carolina in My Mind)

Os primeiros colonizadores europeus do que viria a ser os Estados Unidos da América não foram os ingleses, mas sim os espanhóis, que em 1565 fundaram, na região da Florida, St. Augustine, que é considerada a primeira ocupação estrangeira permanente no território americano.

Algumas décadas mais tarde os franceses começaram a explorar toda a região da bacia do Mississipi, a que chamaram Louisiana, em honra de Luís XIV.

Os holandeses expulsaram os índios que aí viviam e ocuparam toda a região que corresponderá hoje a Nova Iorque e arredores (a que então chamaram New Amsterdam), antes de serem, eles próprios, expulsos pelos britânicos, em 1664.
É no início do Séc XVII que, fugindo à fome, à prisão, a perseguições políticas e/ou religiosas, ou meramente em busca da aventura e de uma riqueza fácil e repentina, os britânicos iniciam as suas primeiras tentativas sérias de colonização do território norte-americano.


A primeira ocupação permanente foi Jamestown, em 1607, numa região a que chamaram “Virgínia”, em homenagem à “Rainha Virgem” Elizabeth I. Inicialmente esta ocupação não tinha por objetivo uma instalação perene e duradoura, mas sim um fim meramente material, que era a procura de ouro e outros metais preciosos. Nem um nem outros foram encontrados, mas a mitologia não perdeu tempo a encontrar os seus primeiros heróis: o Capitão John Smith e a jovem Pocahontas!

O fracasso inicial da aventura de Jamestown levou a que fossem alterados os seus objetivos e introduzidas práticas de cultivo do solo, já numa perspetiva de sedentarização. Foi iniciado, com grande sucesso futuro, o cultivo do tabaco e esse facto foi muito importante porque conduziu à importação dos primeiros escravos  para trabalharem nessas plantações. Chegaram também, por esta altura, as primeiras vagas de mulheres a um colónia até então exclusivamente ocupada por homens. Jamestown iria entrar, mais tarde, em declínio, mas a colonização da Virgínia já estava iniciada.

Para quem se interessar, recomendo a visão ou a revisão de “New World”, o belo filme de Terence Malick que se debruça, precisamente, sobre estes tempos e estes lugares.



A colonização sistemática da costa atlântica da América continuou com a Nova Inglaterra, a que chegaram grandes vagas de populações em busca de liberdade religiosa, pertencentes a dois grupos distintos: os “Peregrinos” e os “Puritanos”. Os primeiros “Pilgrim Fathers” chegaram no célebre “Mayflower” e ocuparam, no final de 1620, uma colónia numa zona que corresponde hoje à região de Plymouth; os segundos chegaram um pouco mais tarde, em 1629, e ocuparam a região da Baía de Massachusetts.

A colonização prosseguiu ao longo de toda a costa e na região Sul, em novas colónias como Connecticut (1633), Maryland (1632) Rhode Island (1636), Delaware (1638), Pensilvânia (1643), para além da atrás referida Virgínia, já então uma colónia muito avançada, com um sistema de governo próprio e uma câmara legislativa, que fazia da exportação do tabaco para o Reino Unido a sua principal ocupação.


Em 1712 a Carolina (assim chamada em homenagem a Carlos I de Inglaterra) foi dividida em três regiões: a Carolina do Norte e a Carolina do Sul, e uma terceira região escassamente povoada, a Geórgia, que acabaria por ser povoada e transformada em colónia uns anos mais tarde, em 1733, à custa de sucessivas vagas de “indesejáveis” expulsos do Reino Unido.

Por volta de 1750 as treze colónias então existentes na América constituíam já uma realidade multicultural, e não parava de crescer o número de emigrantes que debandavam essas terras, provenientes, sobretudo, da Europa. Por outro lado, as enormes plantações de tabaco e arroz nas colónias do Sul intensificaram o recurso à mão-de-obra escrava, maioritariamente proveniente de África, estimando-se que, por essa mesma altura, para uma população total de 1,3 milhões de habitantes existiriam já 250 mil escravos. E só nas duas Carolinas a mão-de-obra escrava representaria já 60% da população total.



Isto foi, apenas, uma pequena introdução histórica para vos situar no tempo e no espaço, e agora vamos à Música de toda esta região, que é o que me trás aqui hoje.

Todos esses povos trouxeram consigo a sua “Cultura” e, naturalmente e enquanto parte integrante desta, a sua música, as suas danças, os seus ritmos e os seus instrumentos musicais. Essa música assumiu formas muito distintas mas, tendo os irlandeses, os escoceses, os ingleses e os africanos (estes à força…) sido os pioneiros desta colonização, não é de estranhar que a influência da sua música nesta região e, posteriormente, em toda a América, tenha adquirido preponderância face às restantes
Do Reino Unido, e em particular da Irlanda e da Escócia, vieram as músicas de dança instrumentais, a que hoje chamamos “reels” e “jigs”, suportadas por instrumentos tais como o violino e toda a panóplia de instrumentos de sopro que associamos à música celta. Mas também de lá vieram músicas não instrumentais, a que chamamos baladas ou “airs”, originalmente interpretadas com um suporte instrumental mais simples, como é o caso da harpa.



De África vieram diversas variedades de tambores e também um instrumento novo cuja evolução haveria de dar origem a um dos principais instrumentos utilizados na “Folk Music”: o banjo.

Da Alemanha veio o acordeão, tendo a guitarra, que só começou a ser utilizada nesta música de forma sistemática a partir de meados do Séc. XIX, vindo do Sul da Europa.

Esta música original expandiu-se, entranhou-se na terra (“all the music that falls between the cracks”, foi a feliz expressão que Mike Seeger encontrou para definir “Folk Music”….), foi transmitida de geração a geração por via oral, sendo sucessivamente transformada e incorporada em novas formas musicais localmente produzidas, sem que se saiba, muitas vezes, onde terminam umas e começam as outras.

Há, porém, regiões onde, dado o seu relativo isolamento, essas músicas se mantiveram ainda durante largas décadas na sua pureza original, tanto na forma de canto como no suporte instrumental. É o caso dos Montes Apalaches, para a música de origem anglo-saxónica, e algumas regiões do sudeste, para a música de origem afro-americana.

As estradas largas de acesso aos Apalaches só foram concluídas no final dos anos 30 do século passado. Até lá havia estradas mais estreitas para as principais povoações, mas daí para os diversos lugarejos espalhados pelas montanhas só caminhos de terra muito rudimentares. 

O acesso era, consequentemente,  muito difícil e os habitantes dessas regiões sentiam-se isolados, como bem demonstra o trecho da canção que escolhi para uma das epígrafes deste texto, que é um tradicional adaptado por A. P. Carter, popularizado, entre outros, por Joan Baez no final dos anos 60.


Mas, como refiro mais à frente, esse isolamento favoreceu-os, permitindo que não tivessem perdido a sua identidade social e musical. 

Assim, desta região dos Apalaches vieram para integrar o cancioneiro americano canções  tão conhecidas como “Amazing Grace, “Matty Groves”, “Barbara Allen”, “Pretty Saro”, “Wainfarin’ Stranger”, “The Cuckoo Bird”, “House Carpenter”, “Come All Ye Fair And Tender Ladies”, “Wildwood Flower” e tantas, tantas outras...

Para o divulgação dessa música  foi, porém, determinante o papel dos etnomusicólogos, dos quais o pioneiro foi o professor de Harvard Francis James Child, que recolheu e publicou, em 1882, uma primeira coletânea de “airs” com origem escocesa e inglesa, que então já se cantavam e tocavam  na América. 


Já em pleno séc. XX, quando se iniciaram as emissões de Rádio, a primeira das quais teve lugar através da  KDKA, em Pittsburg, em 1920, e quando, pela mesma altura, as gravações de música começaram a ter alguma qualidade de registo e reprodução, a música da região dos Apalaches começou a suscitar mais atenção.

Com efeito, Rádio e Editoras discográficas ajudam-se mutuamente. A disponibilidade de discos facilitava a atividade da primeira e a difusão dos discos na Rádio fomentava o negócio das segundas…

A Rádio começou a fazer, também, emissões “ao vivo”, não só de intérpretes isolados, mas também da chamada “barn dance”, que constitui um dos elementos fundamentais dos futuros espetáculos de “Country Music”.


“Country Music”, porém, era nome que, nessa época, ainda não existia. Na altura ainda não se sabia muito bem como designar essa música e cada Rádio e cada Editora escolhia a sua designação.  Chamaram-lhe, então,  “Old Time Southern Tunes”, “Rural Music”, “Hill Country Music”, “Oldtime Music” e até “Native American Melodies”.

Em 1922 Ralph Peer,  “caçador de talentos” da Okeh Records e nome importantíssimo na história da Música Tradicional Americana a que ainda hei-de voltar várias vezes, fez aquela que hoje se considera ser a primeira gravação com intuitos comerciais desta música rural, registando o violinista do Texas Eck Robertson a interpretar “Sallie Goodin”.

Não obstante o interesse histórico desta gravação, o seu sucesso comercial foi reduzido, mas Ralph Peer voltaria à carga no ano seguinte quando gravou, em Atlanta, o trabalhador rural Fiddlin’ John Carson, de 54 anos, outro virtuoso do violino, a cantar e a tocar “Little Old Cabin in the Lane”, que passa por ser a primeira gravação de “Country Music” a incorporar o canto. Ainda hoje pode ouvida no YouTube...


Fiddlin’ John Carson tinha, na altura, muita fama na região e um empresário local garantiu a Ralph Peer que, se o gravasse, lhe compraria, à cabeça, 500 exemplares do disco. Peer não estava muito convencido da qualidade da gravação, mas avançou e o disco vendeu-se bem.

 Em 1924, na Victor Records, Vernon Dalhart,  texano a trabalhar em Nova Iorque, obteve com “The Reck of the Old 97”, o primeiro grande sucesso deste tipo de música à escala nacional, tendo vendido um milhão de discos. Também pode ser ouvida no YouTube. 



Em 1925 Ralph Peer fez uma outra gravação com uma “string band” da Carolina do Norte liderada por Al Hopkins, que se chamavam a si próprios “a bunch of hillbillies”.
Peer achou graça à expressão, deu esse nome à banda e o enorme sucesso que tiveram levou a que muitos outros grupos adotassem também esse nome (Jess Hillard & His West Virginia Hillbillies, por exemplo) e rapidamente  essa música dos Apalaches passou a ser conhecida como “Hillbilly Music”, nome que perdurou até que a designação de “Country Music” se viesse a instalar em definitivo, em meados dos anos 40.  


No Verão de 1927, em Bristol, na fronteira entre o Tennessee e West Virginia, teve lugar um evento de crucial importância para o desenvolvimento e consolidação desta Música à escala nacional.
Tão importante ele é que tenho de lhe dedicar um texto inteirinho, dizendo-vos apenas, para vos abrir o  apetite, que Johnny Cash lhe chamou “the single most important event in the history of Country Music”…

Com a passagem dos anos o sucesso deste tipo de Música foi crescendo e, mesmo tendo em consideração os efeitos negativos da Grande Depressão, estima-se que entre 1925 e 1932 tenham sido vendidos 65 milhões de discos desta música rural maioritariamente branca

Para além daqueles interpretes de que atrás vos falei, e de outros que deixarei, propositadamente, para o próximo texto, Unce Dave Macon, Riley Pucket, Charlie Poole e Ernest Stoneman foram as principais figuras desta música nos anos 20 e inícios dos anos 30. Só este último, patriarca da Stoneman Family, a primeira dinastia da “Country Music”, gravou à sua conta mais de cem faixas.


Mas os anos foram passando, a “Country Music”, com a ajuda da Rádio e, depois, da Televisão, foi-se instalando com as suas versões mais “adocicadas” e comerciais e toda esta “old time music” foi perdendo, progressivamente, relevância. As  formas de cantar, a rudeza dos instrumentos e a natureza das próprias canções e dos seus arranjos tornaram-se incompatíveis com os gostos de um grande público que começava a ficar habituado a um som mais moderno, melódico e padronizado.

Os velhos interpretes que, com raras exceções,  nunca chegaram a ser profissionais a tempo inteiro, regressaram, então, às suas anteriores ocupações nos campos, nas minas ou na fábricas. Podiam manter, como muitos mantiveram, uma atividade musical a um nível local, mas num universo mais alargado foram também, eles próprios, caindo num relativo esquecimento. 

Mas muitos anos depois, algures em Nova Iorque, houve alguém que nunca os esqueceu.

Harry Smith, musicólogo, cineasta e artista plástico de vanguarda, colecionou esses velhos  discos dos anos 20 e 30 e em 1952, em colaboração com a  Editora Folkways, selecionou 84 dessas músicas, de diversos géneros, e incluiu-as naquilo que se iria tornar a lendária “Anthology of American Folk Music”.


O sucesso comercial não foi tremendo mas, nos anos que se seguiram, a relevância artística desta obra foi enorme todos quantos, mais tarde, foram gente grande na “Folk Music” lhe dedicaram uma enorme devoção e gratidão. Dave Van Ronk, por exemplo, chamou-lhe “our Bible” e acrescentou que “we all knew every word of every song in it, including the ones we hated”.

Naquilo a que se convencionou chamar o “Folk Revival” dos anos 50/60, e até numa perspetiva de contrariar a tendência excessivamente comercial e padronizada de que essa música se começou a revestir, sobretudo após o surgimentos dos The Kingston Trio em 1958 , da audição da “Antologia” de Harry Smith  surgiu um renovado interesse por esta música antiga e pelas suas formas de interpretação, e muito boa gente começou a andar, de microfone em punho, a subir e a descer os Apalaches na esperança de reencontra esses velhos intérpretes e voltar a gravar as suas canções, com uma qualidade acrescida tornada possível pela mais moderna tecnologia.


Encontraram alguns que fizeram parte da “Antologia”, a quem proporcionaram uma segunda carreira musical (Clarence Ashley, Roscoe Holcomb, Doc Boggs,  Furry Lewis, Bascom Lamar Lundsford, …) mas, para seu grande espanto, depararam com outros de que nunca antes tinham ouvido falar e cuja existência desconheciam. Deixo-vos apenas em exemplo, e que exemplo…!

Em 1961 o grande Doc Watson foi descoberto assim, por mero acaso, integrando a banda de Clarence Ashley…

O interesse por esta música antiga demonstrado por uma minoria da comunidade “Folk” foi tal que levou à criação de uma organização não lucrativa chamada “Friends of Old Time Music”, com o propósito de a divulgar e fomentar a organização de espetáculos com todos estes velhos intérpretes, bem como com os mais novos que foram sendo descobertos. Só em Nova Iorque foram realizados 14 espetáculos entre 1961 e 1965, mas muitos outros se realizaram noutras cidades.

A história é bonita porque os velhotes voltaram à tona de água e acabaram a sua vida musical com outro reconhecimento e com outra dignidade. Muitos deles tinham estado em Nova Iorque trinta anos antes para fazerem gravações nas editoras locais, e nunca mais lá haviam posto os pés...


A Música dos Apalaches é inesgotável e perdurou até aos dias de hoje, com novos intérpretes de elevadíssima qualidade, mas tenho de ficar por aqui porque isto já vai muito longo, não vos quero massacrar mais, mas ainda vos tenho de falar de mim.   

Os Apalaches são uma cadeia montanhosa com 3.200 km de extensão, desde a Terra Nova, no Canadá até ao Estado de Alabama.

Não tendo qualquer possibilidade de a atravessar em toda a sua extensão, optei por fazer algumas tiradas nas regiões de maior tradição musical, que são os “central” e “southern Appalachians”,, abrangendo os estados de West Virginia, Virginia, as duas Carolinas e uma parte mais limitada do Kentucky e do Tennessee.

Nas Blue Ridge Mountains, atravessei os 169 Km do Shenandoah National Park através da Skyline Drive, que é considerada uma das estradas mais bonitas dos Estados Unidos.

Mais abaixo fiz uma parte da Blue Ridge Parkway, que é a continuação das  Blue Ridge Mountains para o Sul.

Fiz toda a região de Bristol e depois também fiz, até Asheville, uma parte da Cherokee National Forest.

E mais a Sul ainda fiz uma pequeníssima parte do Great Smoky Mountains National Park, perto de Ashville.

Deixo-vos algumas fotografias, embora seja literalmente impossível captar a magia e a beleza daqueles espaços e daquelas cordilheiras a perder de vista.

Durante anos e anos aprendi a gostar da Música destas montanhas, vi filmes que  aqui se passavam, fotografias e documentários a preto e branco com esta pobre e humilde gente vestida com os seus “fatos de macaco”, sentada no alpendre das suas pobres casas de madeira com os seus instrumentos musicais ao colo, com um sorriso que irradiava alguma Felicidade.


Não, de maneira nenhuma pretendo fazer uma apologia do miserabilismo, como quem vos diz: “vejam lá, tão pobres e tão felizes que eles eram…!” 
  
O que vos pretendo dizer  é que os parcos rendimentos que tinham e o enorme isolamento que sofriam face a um mundo exterior dito “civilizado” os protegeu e não os fez criar, artificialmente, outras necessidades… Nos tempos livres não iam para os centros comerciais, para os “drive-in”, para o “bowling” ou para os estádios ver o “baseball”… Vestiam a sua roupa domingueira, pegavam nos seus instrumentos, juntavam-se à vizinhança, cantavam, dançavam e tocavam música, e talvez que isso, à falta de melhores condições de vida,  lhes pudesse trazer alguma Realização e alguma Felicidade.

Em todos os documentários que vi (há muitos no YouTube…) não me lembro de ter visto um único desses montanheses lamentar a sua sorte, mas vi alguns a dizerem, com indisfarçável nostalgia, que agora já havia por ali muita gente de fora e que as coisas já não eram o que dantes haviam sido... 



Por sorte e coincidência, durante parte desta travessia dos Apalaches tive uma pequena zanga com a minha Mulher (culpa dela, como sempre…), o que me permitiu estar largas horas entregue às minhas memórias e aos meus pensamentos, sem ter de falar com ninguém, a não ser comigo próprio, que na altura era  o que mais poderia desejar.

A velocidade máxima permitida é muito baixa (35 milhas, pouco mais que 56 Km/hora) pelo que havia vagar. 

Pela minha cabeça passavam, num ápice, coisas tão diferentes como o querido cego Doc Watson, acompanhado pelo filho Merle, a cantar “The Banks of Ohio”, a terna Jean Ritchie   “a cappella” em “Barbara Allen”, a bela Anita Carter em “Fair and Tender Ladies” e todas  essas imagens que me lembrava de ter visto em fotografia e no Cinema.

Mas não eram, apenas, essas memórias que me encantavam.



A paisagem, em si, era deslumbrante, e quando o Sol começou a descer no horizonte o verde vivo das montanhas assumia, a pouco e pouco, tonalidades de amarelo e de laranja, o azul forte do céu da manhã transformara-se, no fio do horizonte, numa belíssima combinação de verde claro, azul turquesa e de cor de rosa,  que tentei inúmeras vezes captar, sem qualquer sucesso.

Fosse eu um verdadeiro Escritor, e não um mero escrevinhador de redações, saberia escolher as palavras adequadas para vos dar conta do encanto e da emoção que me envolveram naqueles momentos.  

Assim, deixo tudo à vossa imaginação.

PS:

1) Mencionar-vos uma só fonte de informação para tudo isto que vos disse é tarefa difícil, porque são muitos anos de leituras e de gosto por esta Música.
Talvez que na reta final de elaboração do texto o mais útil tenha sido “American Roots Music”, obra coletiva coordenada por Robert Santelli, que deu origem a uma série televisiva, um livro e um CD.  

2) Como já vos falei tanto de “Blues” nestes textos, e ainda mais terei de falar, não vos contei que os Apalaches têm uma forma de “Blues” muito própria, sobretudo o chamado “Piedmont Blues”, da região do mesmo nome, tendo sido Pink Anderson um dos seus maiores interpretes. Consta que Syd Barrett gostava dessa música e que tinha na sua coleção um velho disco de Pink Anderson, acompanhado à viola por Floyd Council. Adivinhem no que isso deu...

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

COMO SE TIVESSE VINDO DE OUTRO PLANETA



A «rainha dos cantores folk» teria que ter sido a Joan Baez. Joan nasceu no mesmo ano que eu, e os nossos futuros iriam estar ligados, mas naquela altura pensar nisso teria sido disparatado. Ela tinha lançado um disco na editora Vanguard, chamado Joan Baez, e eu tinha-a visto na TV. Aparecera num programa de música folk transmitido para todo o país pela CBS em Nova Iorque. Havia outros intérpretes no programa, incluindo Cisco Houston. Josh White, Lightnin’Hoptkins. Joan cantou sozinha umas baladas e depois sentou-se lado a aldo com o Lightnin’ e cantou umas canções com ele. Não conseguia deixar de olhar para ela, não queria sequer pestanejar. Ela tinha um ar perverso – cabelo preto brilhante, comprido até às graciosas ancas, pestanas longas, parcialmente viradas para cima, não era propriamente uma daquelas bonecas tipo Raggedy Ann. Só vê-la deixava-me louco. Como se isto não bastasse, havia ainda a sua voz, uma voz que afastava os maus espíritos. Era como se tivesse vindo de outro planeta.
Ela vendia muitos discos e era fácil perceber porquê. As cantoras de música folk eram intérpretes como Peggy Seeger, Jean Ritchie e Barbara Dane, que não faziam uma boa transição para o público moderno. Joan não era nada como elas. Não havia ninguém como ela. Tudo isto se passou uns anos antes de Judy Collins e Joni Mitchell entrarem em cena. Eu gostava das cantoras mais velhas – Aunt Molly Jackson e Jeanne Robinson – mas elas não tinham a qualidade penetrante da Joan. Andava a ouvir frequentemente uma cantoras de blues, como Memphis Minnie e Ma Rainey, e Joan era de certa forma, mais parecida com elas. Não havia nada de juvenil nelas, assim como Joan também não tinha nada de juvenil. Ao mesmo tempo escocesa e mexicana, parecia um ícone religioso, alguém por quem nos sacrificaríamos, e cantava com uma voz directa a Deus… era também instrumentista excepcional.

Bob Dylan em Crónicas


segunda-feira, 3 de julho de 2017

APENAS UM MÚSICO


Joan Baez gravou uma canção de protesto sobre mim que estava a fazer grande sucesso, desafiando-me para eu me envolver – para sairr, liderar as massas – ser um defensor, liderar a cruzada. A música chamava por mim através da rádio, como se fosse um apelo de serviço público. A imprensa nunca me largou. De quando em vez, lá tinha que me oferecer para uma entrevista para não me deitarem a porta abaixo. Normalmente as perguntas começavam por qualquer coisa do género «Podemos falar das coisas que andam a acontecer?», «Claro, como por exemplo?» perguntava-lhes. Os repórteres disparavam perguntas, e eu respondia-lhes que não era um porta-voz de nada, nem de ninguém, que era apenas um músico. Olhavam para os meus olhos como que na expectativa de encontrar algum indício de bourbon e carradas de anfetaminas. Eu não fazia ideia do que lhes passava pela cabeça. Mais tarde acabaria por ser publicado um artigo com o título «Porta-voz nega que é um porta-voz». Sentia-me como um pedaço de carne que alguém tinha atirado aos cães. O New York Times publicou interpretações charlatonas das minhas canções. E a revista Esquire pôs um monstro de quatro caras na capa: a minha cara juntamente com a de Malcom X, a de Kennedy, a de Castro. Que diabo quereria aquilo dizer? Era como se eu estivesse à beirinha de um precipício. Se alguém tinha alguma ideia ou conselho válido para oferecer, não parecia. Quando se casou comigo, a minha mulher não fazia ideia daquilo em que se estava meter. Nem eu, na verdade, e agora estávamos em maus lencóis.

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 16 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O Prémio Nobel da Literatura é mais um passo na direção da imortalidade de Bob Dylan.

Joan Baez

LENDO VERSOS OUVINDO BOB DYLAN

Artigo de José Cardoso Pires, publicado no Diário Popular de 30 de Março de 1967

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DYLAN POR JOAN BAEZ


Bons grupos e bons cantores têm muitas recomendáveis versões das canções de Dylan.
Mas Dylan dá-lhes sempre aquele toque que me leva a preferir o original.
Abro uma excepção: Joan Baez a cantar Boots of a Spanish Leather.
Para o caso de indagarem o porquê, digo já que não sei responder.
Faz parte de um  duplo álbum, Any Day Now, uma colectânea de Canções de Bob Dylan cantadas por Joan Baez..
É este o alinhamento do disco:

Love Minus Zero/No Limit, North Country Blues, You Ain’t Goin’ Nowhere, Drigtor’s Escape, I Pity The Poor Immigrant, Tears Of Rage – Sad-Eyed Lady Of The Lowland’s ,Love Is Just A Four-Letter Word, I Dreamed I Saw St. Augustine, The Walls of Redwing, Dear Landlord, One Too Many Morning, I Shall Be Released, Boots of Spanish Leather, Walkin’ Down The Line, Restless Farewell

segunda-feira, 24 de junho de 2013

LENDO VERSOS, OUVINDO BOB DYLAN


No livro Os Cães Ladram, Truman Capote pronuncia-se sobre Bob Dylan:

Um músico sofisticado (?), um aldrabão que se faz passar por um revolucionário de bom coração (?), mas que não passa de um campónio sentimental.

Claro que Truman Capote não é flor que se cheire e há que lhe dar os óbvios descontos.

Lembro-me de uma conversa, nos idos de 67, com um dos colaboradores do Em Órbita, falha-me, agora, o nome, quando, a determinada altura, disse de Dylan: é um narcisista convicto, um genial cabotino, no sentido intelectual do termo.

Fiquei, assim meio aparvalhado, a olhar para ele, manifestei-lhe o meu desacordo e acrescentei que a definição ainda poderia ser entendida por gente que lesse ou ouvisse Dylan aprofundadamente, mas não pelo vulgar ouvinte.

O meu interlocutor viu, de repente, que não valia buscar outros argumentos, perder mais tempo com o ceguinho que eu, orgulhosamente, era por Dylan.

Mas ele sabia, porque lia e ouvia Dylan atentamente, que chegariam os tempos dos órfãos de Mr. Zimmerman.

A minha música é como uma mágica. Quando a interpreto, eu e ela isolamo-nos do mundo, e vivemos os dois num planeta diferente. Há quem me chame revolatado, mas a revolta que existe em mim é contra a violência da nossa época, é contra o egoísmo que faz os homens esquecerem-se dos outros para pensarem apenas em si. Esta é a minha revolta, este é o grito da minha música.

Em 1969, no Estúdio do Cinema Império vi Don’t Look Back de D.A. Pennebaker, a discussão sobre o cinema-verdade, o perceber de um Dylan cínico, pleno de contrastes.

O tempo do desencanto.

Manuel António Pina para aqui chamado:

O café agora é um banco, tu professora de liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos para andar como dantes.

Tentamos não dar por isso, mas é assim que envelhecemos.

Depois de se separar de Joan Baez, Dylan abandonou a luta política.

A palavra mensagem é triste, triste como uma hérnia.

Ninguém gosta de ser definido por aquilo que os outros pensam.

Queria ter uma vida normal e poder levar os filhos à escola.

No filme de Martin Scorcese, No Direction Home, podemos ver a maneira como Dylan, trata Joan Baez e, ao mesmo tempo, ver a maneira doce, delicada, compreensiva, apaixonada, como ela continua a falar de Dylan:

Ele é o ser humano mais complexo que conheci. Eu pensei que seria capaz de entendê-lo. Desisti. Tudo o que sei é o que ele nos deu.

Quando em 2006 a Relógio D’Água começou a publicar as Canções de Bob Dylan, ainda estive com o livro na mão, mas o preço, qualquer coisa como 25,00 euros, terá sido a desculpa para não comprar o livro. Os meus orçamentos para a cultura sempre andaram por baixo mas havia espaço para excessos. Naquele dia nada disso aconteceu.

Mas este ano, na Feira do Livro, as Canções do Bob Dylan estavam no pavilhão da Relógio D’Água a um preço irrecusável: 20 euros pelos dois volumes.

Não foi o tempo de olhar para trás.

Vieram logo para casa.

E pelos bons velhos tempos, pelos mesmos tempos de sempre, Dylan passará a ser visita regular do Cais do Olhar.

Porque, para além de tudo o mais, existe uma verdade inquestionável: Bob Dylan fez das mais belas canções da história da música, histórias de cantar e ouvir, fez com que muitos passassem a olhar, de um outro modo, os tempos que se exigia que mudassem.

Será um tempo de lembrar poemas para os que acreditam que os ventos estão sempre a mudar.

Ou deveriam estar sempre a mudar.

No fundo dos fundos, mesmo que ele diga o contrário, Bob Dylan foi porta-voz de uma geração.

Deus sabe que há um céu
Deus sabe que está longe da vista
Deus sabe que podemos fazer todo o caminho daqui lá
Ainda que seja preciso andar um milhão de milhas à luz da vela.



Nota do editor: o título é roubado a uma crónica que José Cardoso Pires publicou no Diário Popular de 30 de Março de 1967.