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terça-feira, 7 de outubro de 2025

AURORA

A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

NÃO TE OFEREÇO POEMAS DE VITÓRIA

Não te ofereço poemas de vitória:

os meus versos só falam do que existe.

Não contarei a esperança:

só a força que contra tudo subsiste.

 

Não teço os meus poemas de futuro:

corto-os nesta carne que somos.

Se vives de sonhar

eu vivo de viver ─ e é mais duro!

Adolfo Casais Monteiro

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

O PARAÍSO PERDIDO

Meus paraísos perdidos!


Este entreter a olhar-me

Em espelhos que enganam

que feitiço mo impõe?

 

Devolvei-me os meus brinquedos…


Adolfo Casais Monteiro

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

A PALAVRA IMPOSSÍVEL

 

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro


terça-feira, 27 de outubro de 2020

AÇO

Quebre-se de encontro à dureza das arestas

cada desregrada ilusão da minha vida.

Que os bichos vão roendo o vão caruncho

da inútil poeira de astros que imagino.

Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,

forte e imarcescível sob os golpes

resiste a minha força verdadeira.

E o poema sempre novo no meu sangue

conhece também sua glória de aço

que vê sem dor as pobres farsas

e os caminhos cruéis em que me perco.

Veio da luz inutilizando os laços

armados no caminho à minha espera,

mão de ferro erguendo-se dos limbos

e mandando-me fitar o sol em face!

 

Adolfo Casais Monteiro

quarta-feira, 15 de abril de 2020

VEM, VENTO, VARRE


Vem, vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.

Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.

Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem, vento, varre!

Adolfo Casais Monteiro

quarta-feira, 25 de março de 2020

UMA CRIANÇA EM FACE DO PAPEL


Poeta: uma criança em face do papel.
Poema: os jogos inocentes,
invenções de menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.

Adolfo Casais Monteiro

segunda-feira, 9 de julho de 2018

HÁ UM RIO OCULTO DE LÁGRIMAS


Há um rio oculto de lágrimas correndo entre mim e o mundo.
Nem sei qual de nós dois chora.
A versão sonora do filme ainda não foi revelada
e os fantasmas fazem gestos como se falassem,
mas só chega até nós o silêncio.
Apago no vidro do relógio as lágrimas de ninguém
e os ponteiros sorriem:
estão parados e só as lágrimas caminham à volta do mundo.
Um rio de lágrimas dentro e fora do mundo,
um rio de lágrimas que não lava o sofrimento de ninguém
e vai descendo contra a mão a calçada do tempo.

(1955)

Adolfo Casais Monteiro em Cadernos do Meio Dia nº 1

quarta-feira, 28 de março de 2018

PAZ AOS MORTOS


Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.

Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.

As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer. 

Adolfo Casais Monteiro

terça-feira, 15 de setembro de 2015

TENHO SAUDADES DE MIM


Tenho saudades de mim, quando não fui.
De cisas que sonhei, como se foram.
De passos do ser que, nunca vividos, rememoro.
Imagens construídas nos ocultos
Desvãos do incumprido

Um passado que foi crescendo sem raízes.
Uma árvore irreal, um cantar mudo.
Quando-não-fui sobrevive
- sempre adiada forma por achar.
É uma coisa que está – nem foi, nem é.
Que nunca será – uma coisa a que falta
nos verbos o tempo capaz de o dizer.

Dezembro de 1961

Adolfo Casais Monteiro

(Cortado pela Censura em 28/8/64 e recordado na Vértice nº 364, Maio de 1974).

Legenda: ilustração de Oasim Karmieh